quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Arte Makonde está a desaparecer em Mocuba.


A aldeia 16 de Junho em Mocuba, província da Zambézia, chegou a ser um dos maiores centros de produção de escultura makonde no país. Os artesãos - antigos combatentes idos do planalto de Mueda - chegaram a produzir toneladas de obras, que foram comercializadas dentro e fora do país na década 1980 e 90.
Não fazia parte do imaginário dos residentes de Mocuba, terra que já tinha esta actividade enraizada, que a escultura makonde pudesse acabar assim de forma inexplicável.
A nossa Reportagem esteve há dias naquele distrito da Zambézia e conversou com alguns artistas tidos como referência, onde ficou a saber da saúde desta arte milenar e que já ultrapassa as fronteiras de Mueda e, em determinados sentidos, da província de Cabo Delgado e do próprio país.
Hoje já não se vêem homens sentados debaixo de árvores a esculpir o pau-preto e principal marca da escultura makonde no que a matérias primas diz respeito , jambire, sândalo ou marfim, como dantes. E, curiosamente, quando o fazem é para bater um copo e recordar histórias antigas.
Eram na sua maioria mestres consagrados, reunidos em associações culturais, cujo trabalho chegou a ser comercialmente rentável, pois muitos estrangeiros (na sua maioria cooperantes portugueses e alemães a trabalhar na construção da fábrica têxtil de Mocuba) compravam grandes quantidades de obras.
Realmente a associação transformou-se numa marca internacional e gerou por algum tempo muito dinheiro e prestígio para os seus membros.
Muitas destas obras produzidas em quantidades industriais (fala-se de toneladas) eram exportadas para países irmãos do bloco socialista, através do Ministério da Defesa, a que a associação se subordinava.
Eram obras gigantes, preferencialmente na forma ujamaa - corpos entrelançados, simbolizando a unidade nacional, principal tema abordado pelos artistas de arte makonde na sua idade de ouro.
A associação chegou a investir o dinheiro gerado na compra de uma viatura que não chegaria a circular e, mais tarde, adquiriu uma moageira que funcionou tão bem mas que, de repente, um militar de alta patente na altura provocou o seu sumiço...!
Era assim o prenúncio do fim da era da escultura makonde em Mocuba.
Morria assim a associação dos artistas e combatentes da luta de libertação nacional.
Com a nova economia, as dificuldades aumentaram.
O sonho dos mestres makondes desmoronou.
Tudo caiu em saco roto, votando para a desgraça os que dependiam desta arte para viver e sobreviver.
A desmobilização dos antigos combatentes foi outra derrapagem que repercutiu na vida da própria associação.
E o resultado foi o abandono em cadeia da arte por parte dos artesãos, abdicando daquilo que mais sabiam e gostavam de fazer.
Os artistas perderam a vontade de trabalhar a arte, associado isso à drástica redução do público consumidor afinal, as pessoas estão agora mais procuradas com o que comer, do que com o que ornamentar as suas salas de visita ou outros compartimentos das suas casas.
E devido a questões estruturastes da vida social de hoje, os filhos destes artesãos, resolveram dar costas a arte dos seus progenitores, até porque nada lhes motiva, já que as condições sociais destes não melhoraram nada por produzirem arte.
A sua aposta voltou-se apenas para a escola, o que também provocou a descontinuidade na transmissão geracional do testemunho artístico.
A dedicação aos estudos por parte dos filhos retirou o tempo em que dos progenitores poderiam aprender seja o que for.
Pode-se até dizer que fica assim comprometido o futuro da arte makonde naquele ponto do país.
(ALBINO MOISÉS)
PAIS PREFEREM FILHOS APENAS NA ESCOLA.
Aliás o desmoronamento da arte makonde acontece um pouco pela maioria das zonas do país onde se desenvolveu fora da sua raiz Mueda.
Em muitas partes artistas que se dedicavam a esta forma de arte abandonaram-na para se dedicarem a outras actividades.
Em tempos idos, um bom mestre era aquele que qualquer pai desejava ser para os seus filhos. Os tempos mudaram e as preocupações dos pais também.
Hoje, mais do quebons mestres, os pais desejam que os filhos estudem, tirem cursos secundários e superiores, encontrem bons empregos e tenham dinheiro para sustentar os seus vícios e sonhos.
Para citar um exemplo da falta de passagem do testemunho está o caso do mestre Ernesto Missau, que tem sete filhos mas que nenhum deles enveredou pela arte do pai.
E não é raro encontrar entre os filhos destes um sentimento de revolta ao saberem que os seus pais hoje caíram no esquecimento por parte das autoridades ligadas à Cultura, depois daqueles terem dado um valioso contributo à cultura nacional.
Afinal, eles produziram ao longo de décadas autênticas obras-primas, que dignificaram o país dentro e fora das suas fronteiras.
Muitos coleccionadores particulares têm obras assinadas por estes mestres esquecidos e não reconhecidos. Apesar de tudo, nem todos arrumaram o formão, pois esporadicamente vê-se hoje um e outro a montarem camas artesanais feitas de palha, uma outra forma de sobrevivência dados os dotes artísticos de que dispõe.
Afinal, em tempos de crise, o artista tem que sobreviver de alguma forma!
Neste momento, a situação que nos foi dada a observar é totalmente nebulosa: não há dinheiro, não há projecto ou ideia concreta para revitalizar o movimento muito menos motivação e ambiente para seja o que for!
Alguns populares por nós abordados em Mocuba sobre o estágio da arte makonde naquele ponto da Zambézia foram unânimes em considerar que é absurdo que se tenha deixado cair esta actividade até ao estágio em se encontra nos dias que correm.
AUGUSTO MACEDI, O MESTRE DAS MÁSCARAS E ESTÁTUAS.
Um dos mais brilhantes artistas da arte makonde na aldeia 16 de Junho chama-se Augusto Macedi, veterano da luta armada de libertação nacional.
Entrou para a Frelimo em 1964 e treinou no Centro de Preparação Político-Militar de Nachingweia, na Tanzania. Nasceu em Mueda há cerca de setenta anos.
Em 1977 fez parte do grupo de mestres que o falecido Presidente Samora Machel enviou a Zambézia para ensinarem a arte makonde aos camaradas no quartel militar de Mocuba.
É aparentemente um homem anónimo, mas muito conhecido no meio artístico makonde, este artista, autodidacta, possui um domínio nato das técnicas de esculpir a arte makonde.
No seio dos colegas é tomado como um génio, dada a facilidade de esculpir rostos, resultando um trabalho final de grande qualidade estética.
Entrou na arte pelas mãos de um tio, o mestre Ncuemba, cujo trabalho teve muita influência no planalto de Mueda.
O mestre mostrou a Macedi o seu sangue de escultor e este cedo deixou-se apaixonar pela escultura do tio quer à nível de traço, quer de abordagem temática.
Depois de aprender a caminhar com a sua própria bengala, Macedi preferiu inspirar-se no ambiente rural, esculpindo mulheres com potes na cabeça, homens e mulheres na machamba, gente a festejar colheitas ou ritos de iniciação.
Depois da independência, Augusto Macedi sentiu a necessidade de trocar a forma de tratar os temas, passando a recriar o ambiente da guerra de libertação nacional, aparecendo muitas vezes nos seus trabalhos soldados empunhando armas, combatentes a fazerem prisioneiros soldados portugueses, guerrilheiros a atravessar rios, etc.
E foi na efervescência dos tempos áureos da revolução moçambicana que o escultor apostou na interpretação de danças tradicionais, com enfoque para o mapiko e limbondo (típicas de Cabo Delgado), as bichas, o trabalho voluntário, a saúde e a educação para todos, a unidade, a vigilância popular etc.
Também esculpiu máscaras de mapiko e estátuas de heróis nacionais, com notáveis como Eduardo Mondlane e Samora Machel.
Quem testemunha a grandeza e o vulto do artista Macedi é o ex-combatente Horácio Lourenço Mbeve, seu ex-aluno na década oitenta, que sobre ele recorda: o velho Macedi é um homem com muita paciência e empenho no ensinar.
Mesmo os mais preguiçosos conseguiam tirar algum ensinamento dele.
É por isso que ele continua a ser respeitado por todos aqui nesta aldeia 16 de Junho.
Tenho a assinalar a forma que tinha de incutir nos instruendos o espírito de valorização do pau-preto.
SAMORA ERA HOMEM DE ARTE, FAZ-NOS MUITA FALTA.
Não tenho qualquer problema em afirmar publicamente que sou uma pessoa frustrada.
Vim de Cabo Delgado para Mocuba a fim de ensinar a arte aos meus camaradas e hoje vejo que perdí todo o meu tempo.
Não ganhei nada com a arte.
Não tirei nenhum benefício.
Não vi qualquer resultado, palavras de Macedi, que depois de anos sem qualquer enquadramento tanto na Defesa como na Educação e Cultura, resolveu pegar na enxada e abrir machamba para sustentar a sua família.
Dos tempos áureos da produção de arte makonde só ficaram memórias.
Samora Machel era um homem de arte.
Foi ele quem decretou a nossa deslocação de Cabo Delgado à província da Zambézia para ensinarmos os mais jovens esta arte.
É que o camarada Samora entendia que a arte é um bem que deve ser acarinhado e preservado, palavras do mestre Macedi, que teve como líder Samora Machel em Nachingweia.
O Presidente Samora era um grande apreciador de arte.
Ele acarinhava os artistas.
Se ele não tivesse morrido acredito que a nossa condição não seria esta.
Com a sua morte, morreu também a arte makonde em Mocuba, recorda com nostalgia.
Ainda assim, Macedi acredita que algo ainda pode ser resgatado com a abertura de uma escola de arte ou de uma Casa de Cultura em Mocuba.
Embora frustrados com tudo, ele e seus colegas acreditam no adágio popular que reza que a esperança é a última que morre e que nunca é tarde para recomeçar.
Já que estamos velhos, gostaríamos de ensinar as nossas crianças a nossa arte.
Os nossos continuadores devem prosseguir com o trabalho por nós herdado.
Não devemos permitir que morra a arte makonde.
Maputo, Quarta-Feira, 11 de Outubro de 2006:: Notícias

2 comentários:

Anaikala disse...

Olà! Muito interessante este seu blog. Parabens!

Eu sou um pesquisador italiano, estou terminando um doutoramento sobre o Mapiko.

Paolo

gotaelbr disse...

Obrigado pelas palavras e visita. e isponha deste espaço se desejar colaborar.

Jaime