quinta-feira, 15 de julho de 2010

O REFORMADO - Parte 2

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Iniciara-se ao balcão, a receber as propostas comerciais, ensinar o preenchimento de livranças ou letras, e acabara a decidi-las no suporte informativo do bom ou do mau nome. Voltara à nulidade sem préstimo ou importância. Agora só lhe pediam paciência, aqueles expedientes de velhos amanuenses que, sem nada para passar o tempo, agradecem um entretém. Sem feitio para dizer que não, passava horas nas filas de espera para cumprir as burocracias dos filhos, bufando e fumando. Sentia-se trapo, esfregona de limpar pingos, amortecedor de rebeldias juvenis. Como passara a vida... Onde mais lhe percebia a brevidade era quando levava o neto mais velho à Escola, igual àquela onde aprendera o a, e, i, o, u. Vinha-lhe tudo à lembrança: os Pais que uma vida inteira na lavoura não os tirou da precisão, sempre iludidos pelo fascínio das vinhas; a Professora, cuja morte na curva da estrada, apanhada por um carro de praça, lhe ficou como o estigma de uma vida roubada por um Deus indiferente; os cânticos da tabuada e os vivas a Salazar pendurado na parede ao lado de uma Cruz e do Carmona como imagens petrificadas do medo; as brincadeiras no recreio de terra batida com os velhos do Asilo ao lado, sentados nos bancos de pedra e olhos no chão. Recordava a alegria do fim das aulas com a Mãe à sua espera, sempre de avental, um sorriso de bondade e um afago de calos. Dava a mão ao neto e era, agora, com se fosse a Mãe a perguntar-lhe: «Trazes muitos deveres?»

Aborrecia-se por tudo e por nada com a Mulher que, num troco dobrado, também ajudava. Deixou de rir e falar só quando não podia ficar calado. Por vezes, até os netos o insuportavam. Passados uns meses, por plágio do que escutava a outros, foi a um Psiquiatra que lhe receitou meio lexotan de manhã e outro meio à noite e exercício físico. «Caminhe, sempre a plano, e convença-se de que está num novo e belo ciclo de vida!», aconselhou paternalista. Durante algum tempo assim fez, chegou a pedir-lhe uma segunda receita, mas, a sua tristeza não tinha fim. «Alegra-te! Até parece que tens uma doença! Falta-te alguma coisa?! Porra pró homem!», sacudia-o a Celeste.

Abandonou os almoços semanais com os antigos colegas e isolou-se progressivamente. Mal se sentava no sofá, adormecia diante da televisão. Sempre fumara muito, mas, agora, fumava muito mais. Os cigarros iludiam-lhe as horas e consumiam-se num ápice. No Verão ainda passava mais ao menos. Ia à praia com a miudagem a encher-lhe o carro e as preocupações; passeava, com o sol a alegrá-lo, pelas redondezas do quarteirão, apreendendo os hábitos da vizinhança, onde descobriu um estudante de Arquitectura que fazia os trabalhos práticos diante da Igreja a tentar desenhar o seu Românico; surpreendeu-se com um reformado dos Transportes Colectivos pela educação requintada e vasta cultura, passando horas, no Café, debruçados no jornal de Artes e Letras, discutindo as novidades publicadas. Deprimia-se com a chegada do Outono, e o Inverno, então, gelado e húmido, de chuva perpétua a escorrer nas vidraças, até o disfarce lhe tirava. Sentia-se desalentado, sem apetite. Mais cansado e desolado do que quando trabalhava.

Dormia mal, aos solavancos, e começou a acordar, repetidamente, com uma necessidade irresistível de urinar, facto que, pela anormalidade, lhe lembrou aqueles anúncios patéticos de jornais com elixires para a próstata. O Urologista consultado meteu-lhe no cu um dedo enluvado com gel e, sorridente, sentenciou: «Não se preocupe. Está tudo bem. Vou só pedir-lhe umas análises de rotina, incluindo o psa, e receitar-lhe umas cápsulas destas – escrevendo a receita – para tomar uma todos os dias, depois do pequeno almoço, só por uma questão de controlo.» Nunca precisara de tomar nada e, agora, eram só caixas de medicamentos. Não lhe bastavam os calmantes, acrescentavam-lhe, agora, cápsulas de libertação prolongada para a hiperplasia benigna da próstata, sem falar nos comprimidos para o colesterol que, posteriormente, o laboratório sentenciara alto...

Uma tosse irritante, seca e rouca, com arrancos espasmódicos que não o deixavam dormir, a ponto de ter que se sentar na cama para serenar um pouco, levou-o ao Dr. Pias, seu médico de sempre. Como de costume, perderam-se um bom bocado a falar de política, descascando no (des)governo - fosse qual fosse, estavam sempre contra –, até, finalmente, começar a consulta. Depois de repetidas auscultações, o médico pousou, atonamente, o estetoscópio no tampo da secretária e disse: «Amigo Silveira, ou deixamos de fumar ou estamos mal!» Tremeu e perguntou: «Tem que ser mesmo não é?...» O experiente esculápio foi bruxo, mas atrasado. Quando, mais tarde, viu o pneumotórax solicitado, o Dr. Pias dissimulou como pôde o sobressalto que a chapa lhe causou. “Raio! Parece uma bola de ping-pong...”, dizia para si, observando no contra luz uma mancha branca no pulmão esquerdo.

Os médicos amigos do Dr. Pias, a quem o recomendara, dividiram-se: uns, inclinavam-se pela operação, outros, que nem valia a pena. Aqui, Silveira viu-se a desaparecer numa onda escura, tomado de um pânico de afogado. Passou os dias a rebobinar o filme da sua vida; de noite, a Celeste ouvia-lhe a tosse, mas, não via as suas lágrimas a salgarem-lhe as faces. A morte, então, era isso: a perda da capacidade de se aborrecer ou divertir-se consoante a disposição do momento; deixar o chão e o céu, as caras dos filhos, dos netos, o corpo da Celeste, a liberdade dos passos, a comodidade das vontades. Percebeu tudo distante, como se nada pudesse repetir-se. Havia nos seus olhos uma penumbra de fim, na sua alma um choro irregressível. O alento do seu querido Dr. Pias, que o esperançava e defendia a operação – «Não tem nada a perder, Silveira. Vai ver que tudo corre bem. Não deixe de lutar, homem!» -, deu-lhe alguma coragem. Reuniu a Mulher e os filhos e concordaram que iria à faca. Apossara-se dele, estranhamente, uma raiva semelhante a quando nos acusam sem razão. Não fez quaisquer preparativos domésticos, não deu conselhos de despedida, nem sequer se preocupou com transferências de dinheiros. Assinou o termo de responsabilidade e «seja o que Deus quizer!».

Quando, ainda na sala de recobro, abriu os olhos e se sentiu vivo, sorriu tanto que a Celeste o agarrou até gritar de dor com o aperto das costas. Regressou a casa com um saco de medicamentos e uma descrição escrita dos tratamentos futuros.

Contudo, escassos meses demoraram aqueles. Cansava-se cada vez mais e custava-lhe a respirar. Sempre que vinha do IPO, sentia-se um frangalho, vomitava uma baba azeda, bebia leite e deitava-se. Apalpava as coxas e via-as desaparecer, o cabelo sumia-se em fiapos de algodão, só o rosto, diante do espelho, lhe surgia, singularmente, inchado. Estava disforme, Silveira não tinha gosto em si. Aos que o confortavam com esperas de melhoras, respondia com um sorriso triste que era mais um trejeito de legenda do que uma concordância correspondida. Ele sabia que o tempo se lhe escoava porque já vira o mesmo em outros. Lembrava-se sempre do Alberto que em meio ano se apagara. Já nem podia esconder os sinais do corpo que lhe recusava o esforço do gesto mais banal. Encolhia o sofrimento porque pertencia ao grupo daqueles que nasceram para o consenso e não para, por tudo e por nada, se reflectirem nas preocupações alheias. Talvez por isso, furtava-se, cada vez mais, aos encontros, não queria mostrar a sua decadência. A Celeste – já avisada pelos médicos – fingia-se desentendida, praticando uma esforçada normalidade diária, encolhendo a amargura, soltando as lágrimas só quando ele conseguia dormir, mentindo-lhe que o Operador lhe dissera que estava limpo. Quando, raramente, sempre com os netos pelas mãos, se ausentava, pedindo à irmã que a viesse substituir, distraía-se por Santa Catarina a comprar «umas roupinhas para os que me irão adoçar a solidão».

No dia em que convenceu a Mulher que, a partir daí, cada um dormiria em quartos separados para que, ao menos ela, pudesse dormir umas horas, chorou toda a noite (ignorando que a Celeste fazia o mesmo), misturando as lágrimas com as dores.

Não era só o corpo dela que se afastava, era a sua morte que se aproximava.

Nos últimos dias que passou no Hospital, com uma máscara para respirar e tubos de soro para se alimentar, repetia, enquanto as forças lho permitiram, a quem o visitava: «O meu mal foi reformar-me. Despertou o bicho que estava amansado.»

Agramonte recebeu-o com muitos e muitos colegas e amigos espantados com a brevidade daquela reforma. A Celeste, já sem lágrimas para chorar, tinha um alívio de dever cumprido; os filhos, com os nós das gravatas pretas descaídas - como aquilo que se usa apenas para cumprir um preceito -, falavam com os conhecidos; só os netos já crescidotes, escolares primários, tinham olhos de despedida - era a inocência que chorava.
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
  • *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. Pode ler também os textos deste autor no blog Escritos do Douro. Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!

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