sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Porto Amélia em 18 de Janeiro de 1974 - 3

DE NOTAR QUE JÁ SE PASSARAM 37 ANOS E ALGUNS MESES...
Clique nas imagens para ampliar. Extraído da "Página de Cabo Delgado" (18 JAN 1974) compilada por Jaime Ferraz Rodrigues Gabão e publicada no antigo jornal "Diário de Lourenço Marques" em Moçambique

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Jornalista Carlos Cardoso - Assassinado hà onze anos!


- Alguém se lembra ainda do Jornalista/combatente da corrupção CARLOS CARDOSO, assassinado em Maputo-MZ no dia 22 de Novembro de 2000?
- Corrupção em Moçambique aumentou nos últimos 3 anos, segundo relatório apresentado pela Transparência Internacional.
- Jornalista moçambicano Carlos Cardoso (1951-2000)

"""...Então
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta
À noite quando me deito em Maputo
não preciso de rezar
já sou herói...
-Trecho do poema "Cidade 1985", de Carlos Cardoso.

O jornalista Carlos Cardoso tinha em suas mãos três armas poderosas, que usava contra os corruptos, os inimigos da jovem, frágil democracia de Moçambique, os obscuros líderes do crime organizado e usurpadores em geral: Um raro faro investigativo, uma escrita ferina e direta e um jornal. Foi com esses três ingredientes que ele fez de seu diário-fax um dos mais respeitados de toda a África descobrindo e denunciando crimes, escândalos e falcatruas. Cardoso tornara-se a voz dos que não a tinham. Estas armas contudo iriam se mostrar inofensivas contra as utilizadas por seus inimigos.


No dia 22 de novembro passado ele deixou as dependências de seu jornal Metical pouco antes das dezenove horas, após fechar a edição do dia seguinte. Era uma quarta-feira em Maputo (antiga Lourenço Marques), capital de Moçambique. Esta época do ano é propícia a chuvas nesta região do continente africano, mas o dia havia sido ensolarado e o calor dava lugar agora a um pouco da brisa morna e úmida, vinda da baía de Maputo. As ruas e arquitetura da cidade são, em muitos aspectos, semelhantes às de outras cidades, de outros países colonizados pelos portugueses, o Brasil incluído. Até mesmo os nomes de ruas são os mesmos aqui e ali: Rua Marquês do Pombal, Avenida Fernão de Magalhães, etc...


Quem não quer ser assaltado ou roubado numa rua de Maputo, não deve ostentar. Jóias e equivalentes deixam a idéia de riqueza, esbanjamento. Um convite ao assalto. Até nisso há semelhanças com outros lugares. O trânsito também é caótico e indisciplinado. A diferença é que lá ele é regido pela "mão inglesa" com o tráfego pelo lado esquerdo, fato que escapou da influência dos colonizadores portugueses. Antes de deixar as dependências do Metical, Carlos Cardoso avisou Carlos Manjate, seu motorista, para ir já buscando o automóvel e esperá-lo.


Jornalismo de combate.Deviam ser 18:58 h, quando Cardoso entrou no lado esquerdo, ao lado de seu motorista, do Toyota Corolla modelo 1999, com a placa MLN-0604 de propriedade do jornal. O automóvel seguiu pela Avenida Mártires da Machava, centro da cidade, que passa ao lado do conhecido Parque dos Continuadores, uma alusão aos tempos de colônia. Pelo percurso e trânsito naquela hora, os ponteiros do relógio deveriam estar marcando 19:02 h. Neste momento o Toyota de Carlos Cardoso é fechado por dois outros veículos, um de igual marca e outro, provávelmente um VW. O veículo da frente freia repentinamente, obrigando o motorista Manjate a parar bruscamente às margens da calçada.


Cardoso abraçara o jornalismo em 1975, o mesmo ano que Moçambique, com a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) liderando, alcançava sua independência. Ele iniciara a carreira na revista "Tempo", passara pela Rádio Moçambique, pela Agência de Notícias de Moçambique e, em 1992, fundou com colegas a Mediacoop (Cooperativa de Jornalistas), na qual trabalhou até criar o seu "Metical" em 1996. Foi como editor do mesmo que alcançou a plenitude que almejava, denunciando violações de direitos humanos, violência policial, aumento abusivo de salários dos parlamentares, casos de corrupção como o da Alfândega e dos Serviços Florestais e contra as injustiças sociais. Casos que, após denunciados por ele, eram irremediavelmente comprovados.


Sequer poupava críticas à própria Frelimo que tanto apoiara na luta pela libertação dos colonizadores, e a quem acusava de possuir "alas gangsterizadas". Por último ele começara a levantar o véu que pairava sobre o desaparecimento de 100 milhões de dólares do Banco Central de Moçambique bem como a investigar a atuação do crime organizado no tráfico de pedras preciosas, drogas e armas em alguns Estados africanos. Os inimigos eram com isso cada vez mais poderosos. E perigosos.


Executado sumariamente.Ao frear subitamente o automóvel, Cardoso e seu motorista devem ter percebido que se tratava de uma emboscada. Descendo do automóvel da frente, dois homens, armados de metralhadoras, avançaram pela calçada e descarregaram suas armas em rajadas que mataram instantaneamente o jornalista e feriram gravemente o motorista Carlos Manjate. Uma cena digna de Chicago dos anos 30, em plena passagem para o século XXI. Tombava ali não apenas um combativo jornalista, mas também conceitos e pressupostos sobre o que há de verdade e de falso, quando se fala de países do terceiro mundo que tenham alcançado condições ou status de plena democracia, liberdade de imprensa, liberdades democráticas. Menos o ato delictuoso em si, violência e mortes estão presentes em qualquer sociedade, porém a certeza de cometer um crime, de assassinar um jornalista e não ter que pagar por isso, derruba um dos principais fundamentos de um estado democrático. E vejamos que aí Moçambique não está a sós. A impunidade tem muitos berços onde pode dormir tranquila.


Passividade oficial revolta entidades internacionais.
Passados quase dois meses do bárbaro crime a polícia sequer recebeu o laudo técnico da autópsia. O motorista Manjate somente seis semanas após foi ouvido. Testemunhas oculares, como vendedores de rua que possuem suas barracas pertíssimas do local do crime, não foram procuradas ou intimadas a depor. A imprensa do país tem contribuído mais para elucidar o crime, que os responsáveis oficiais. O presidente da república, Joaquim Chissano, tem se mostrado impotente e recebido pressões tanto de entidades internacionais como de governos, sejam as associações de jornalistas de Portugal e Angola ou organizações como Reporters Sans Frontières e a International Federation of Journalists, etc., e até do governo inglês. A ONG "Reporters Sans Frontières" quer agora disponibilizar recursos financeiros para uma efetiva e independente investigação do crime.


Relatório do "Comitee to Protect Journalists" inclui Cardoso e jornalista brasileiro.Nesta última quinta-feira (04/01/01) o CPJ (Comitee to Protect Journalists) organização empenhada em proteger e denunciar violências às atividades jornalísticas em todo o mundo, divulgou o relatório anual da entidade. O comunicado revela que 24 jornalistas morreram em 2000 no exercício da profissão no mundo inteiro. Destes, dezesseis foram assassinados. Entre eles encontram-se dois profissionais de países da língua portuguesa: O moçambicano Cardoso e o brasileiro Zezinho Cazuza da Rádio Xingó FM, de Canindé de São Francisco, em crime encomendado (março 2000) pelo major Genivaldo Galindo, a quem Cazuza acusava de corrupção. O assassinato repercutiu no Brasil e o autor confessou ter sido contratado por Galindo para cometer o crime por 1500 dólares. Vê-se que as semelhanças acima referidas realmente não se resumem apenas a traços arquitetonicos, nomes de ruas e passados coloniais.


- Nota da Red - Agradecemos gentilmente o apoio de jornal "Metical", fundado por Carlos Cardoso, e ao site de notícias Moçambique On-line, para a realização desta matéria."""

domingo, 20 de novembro de 2011

A realidade de PEMBA

Pemba: Desenvolvimento adiado - Escrito por Hélder Xavier - Sexta, 18 Novembro 2011 07:00 - Com uma ampla costa e beleza natural, Pemba orgulha-se de ser uma das principais atracções turísticas do país, ao contrário de outras urbes localizadas no litoral moçambicano. Porém, à semelhança das outras capitais provinciais, a terceira maior baía do mundo ainda carrega problemas de uma cidade em desenvolvimento: crescimento desordenado, miséria, lixo espalhado um pouco por todo lado e fecalismo a céu aberto ao longo da praia. Essas são apenas algumas questões que o próximo edil vai herdar.

À entrada da cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, um problema salta à vista. Um pouco por todos os cantos da urbe é possível deparar-se com um dos fenómenos que assola os principais municípios do país: o lixo nas ruas, colocando a nu a ineficiência das autoridades municipais. Mas isso é apenas parte de um universo de questões que a considerada maior baía do mundo carrega há anos e não se vislumbra uma solução a curto e médio prazos.

Ao longo da costa mais um problema desponta. À luz do dia, dezenas de pessoas recorrem à praia para fazer necessidade maior, não obstante a existência de chapas proibindo essa prática naquele local. Adultos e crianças fazem do litoral uma casa de banho a céu aberto. Na sua maioria, são moradores dos bairros circunvizinhos – vivem a 100 metros da beira-mar –, enquanto outros têm de percorrer pelo menos 500 metros.
Esta situação, que já é frequente, tem duas justificações. A primeira é o facto de a maior parte dos munícipes viver em zonas em que, quando a maré sobe, a água do mar invade as habitações construídas ao longo do litoral, o que impossibilita a edificação de latrinas melhoradas. E a segunda é referente à incapacidade da edilidade em construir sanitários públicos em alguns pontos da cidade, além de responder ao constante crescimento desordenado dos bairros e da população.

Além disso, há um outro terceiro e grande problema. Cresce o número de buracos nas principais vias de acesso da cidade, obrigando os automobilistas a malabarismos hercúleos.

Estes são alguns dos problemas que assolam a cidade de Pemba, outrora conhecida por Porto Amélia, e, ao mesmo tempo, são os principais desafios que o próximo edil – a ser eleito nas eleições municipais intercalares no dia 7 de Dezembro próximo – irá encontrar.

Nas ruas e nas esquinas da urbe, os munícipes quase não falam sobre o pleito eleitoral que se avizinha. Até porque não acreditam que a situação possa mudar. Mas, quando chamados a comentar, têm sempre algo para dizer.

“Eu particularmente acho que o próximo presidente do município não vai reverter a situação, pois ele precisará de pelo menos 10 anos para trabalhar”, diz Abel Jafar, residente em Pemba há mais de 25 anos, e acrescenta: “Dois anos não são suficientes para resolver problemas como a falta de água, lixo nas ruas, o fecalismo na praia, entre outros”. Mas Ornílio Mussa Ali, outro munícipe, tem uma visão diferente. “Esta cidade anda abandonada e acredito que um novo dirigente poderá mudar o estado das coisas”, afirma.
Os problemas dos munícipes de Pemba vão para além do que se pode imaginar, e, à mesma velocidade, cresce o cepticismo dos residentes em relação aos três candidatos que disputaram a vaga de edil daquela cidade. O desemprego e a miséria são algumas das preocupações dos habitantes.

O crescimento da economia local é galvanizado pela indústria do turismo, um sector que emprega, ainda que informalmente, um número cada vez mais crescente da população sem ou com baixo nível de escolaridade. O artesanato é uma das actividades mais visíveis. As praias têm sido os locais escolhidos por maior parte das pessoas para ganhar o sustento diário. Além disso, também a pesca torna-se na principal ocupação dos munícipes.

O comércio informal prossegue sem freios e ganha vida nas ruas, maioritariamente controlado por cidadãos estrangeiros oriundos sobretudo da Tanzânia. Em quase todas as artérias do município, é frequente ver homens, mulheres e crianças em busca de sustento diário, através das mais diversas actividades económicas. Aliás, percebe-se que a revolução da informalidade em Pemba está só a começar.

Diariamente, dezenas de pessoas viajam para a cidade, oriundos de diferentes distritos da província de Cabo Delgado, à procura de emprego ou em busca de oportunidades, na sua maioria, ilusórias. Atraídos pela indústria do turismo – ainda que se faça sentir timidamente –, muitos abandonam a sua terra natal, mas encontram pobreza.

Abdul Ali, de 48 anos de idade, e a família, chegaram há dois anos em Pemba, depois de percorrerem 203 quilómetros. Atraído pelas oportunidades ilusórias no sector de turismo, viu as portas todas fecharem-se. Sem nenhuma escolaridade, apenas com mais de 10 anos de experiência em fazer cobertura (tecto de palha) das instâncias turísticas e vivendas que despoletam ao longo da praia, com ajuda da sua esposa e dois filhos, optou por comprar mariscos para revender, mas logo descobriu que a actividade paralela permitia ganhar mais dinheiro. Agora, é pescador. “Vou pescar e depois a minha mulher vende”, conta.

O fluxo das pessoas acaba por criar outros problemas sociais, nomeadamente o aumento de nível de criminalidade e destruição de uma cidade que não parece preparada para receber mais indivíduos. Nos últimos cinco anos, os casos de furtos, roubos e assaltos na via pública e a residências triplicou.

Uma cidade que mingua
Situada à saída da baía de Pemba na margem sul, o município, com uma população estimada em 141300 pessoas, ocupa uma superfície de 102 km2. Cerca de 50.4 porcento dos habitantes é do sexo masculino e 49.6 é feminino. Nos últimos anos, o número da população cresceu, segundo o Censo de 2007, e o crescimento da cidade mostra- se demasiado lento para responder às exigências que emergem em decorrência desse incremento. Os bairros periféricos são exemplos mais bem acabados de lugares quase irrespiráveis, onde não foi respeitado nenhum plano de urbanização. Quase todos os dias, surgem habitações precárias em zonas baixas e em direcção ao mar. Na zona de cimento, além de pouco iluminadas, algumas ruas não têm asfalto.

Os problemas da falta de água potável e erosão, na zona costeira, são outras situações que dão à Pemba aspectos de um município esquecido aos 53 anos de elevação à categoria de cidade. No centro da urbe funcionam diversos tipos de negócios, formal e informal, o “mova” da economia local, além de se mostrar saturado. Na zona baixa, sobretudo próximo do porto, encontra-se uma cidade velha, abandonada e de uma feiura arquitectónica.

Na área conhecida por Expansão despontam, ao longo da costa, vivendas e algumas mansões de uma elite emergente para o gáudio do sector imobiliário. E um pouco pela cidade é possível ver obras de construção de habitação, centros comerciais, agências bancárias e instâncias turísticas. Mas tudo isso não esconde o lixo que tomou de assalto e os inúmeros buracos nas estradas contrastando com o slogan do município “Mantenha a baía limpa”.

Há 53 anos
Pemba pode orgulhar-se de ter uma das melhores praias do país denominada Wimbe. Numa cidade onde a oportunidade de diversão é coisa rara, este tem sido o ponto de encontro dos munícipes, e não só, aos fins-de-semana, além das casas nocturnas. Todos os dias, turistas de diversos cantos do mundo visitam o litoral e apreciam a arte maconde em diferentes galerias situadas à beira-mar.

Mas nem tudo é motivo de orgulho, pois há 53 anos de elevação à categoria de cidade, apenas 6.2 porcento da população do distrito de Pemba tem acesso à água canalizada dentro de casa, 54 fora de casa, aproximadamente 6 consome água do poço, enquanto cerca de 30 tem acesso a um fontenário. De um total de 26.155 agregados familiares existentes na cidade, somente 38 porcento tem a electricidade como fonte de energia e 59 utiliza petróleo de iluminação. O distrito dispõe de 10 unidades sanitárias, nomeadamente um Hospital Provincial, nove Centros de Saúde.

Breve historial
Antigamente, a área em que se encontra localizada a cidade de Pemba era visitada por pescadores swahilis e malgaxes e não há registo de ocupação permanente no período pré-colonial. A primeira tentativa da dominação portuguesa apenas ocorreu em meados do século XIX com a construção de um fortim, que foi abandonado poucos anos depois. Só em 1989, com a criação da Companhia do Niassa, é que a ocupação viria a tornar-se definitiva.

A Companhia do Niassa detinha poderes de administração do território, tendo elevado um pequeno posto comercial à categoria de povoação. Mais tarde, Pemba passou a denominar-se Porto Amélia em homenagem à última rainha de Portugal. Com o fim da concessão da companhia, em 1929, torna-se capital do recém-criado distrito de Cabo Delgado, pondo um ponto final à transferência da administração portuguesa desta região da vila do Ibo para Pemba.

Esta transferência correspondeu a mudanças no transporte marítimo que benefi ciava das excelentes características do porto natural, e à ocupação e exploração do interior do território, para a qual Pemba estava melhor localizada. Em 19 de Dezembro de 1934, Porto Amélia foi elevada à categoria de vila e, em 18 de Outubro de 1958, a cidade regressando à designação Pemba depois da independência nacional, em Março de 1976.
- Transcrição do @Verdade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Porto Amélia em 18 de Janeiro de 1974 - 2

Clique nas imagens para ampliar. Extraído da "Página de Cabo Delgado" (18 JAN 1974) compilada por Jaime Ferraz Rodrigues Gabão e publicada no antigo jornal "Diário de Lourenço Marques" em Moçambique

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Porto Amélia em 18 de Janeiro de 1974

Clique nas imagens para ampliar. Extraído da "Página de Cabo Delgado" (18 JAN 1974) compilada por Jaime Ferraz Rodrigues Gabão e publicada no antigo jornal "Diário de Lourenço Marques"

sábado, 12 de novembro de 2011

Carta para o Dr. Camilo de Araújo Correia

Meu saudoso Amigo:

Faço votos para que esta o vá encontrar de modo igual ao que costumava ser enquanto por cá andou: sereno mas acutilante, especulativo mas pragmático, de bem com a vida mas adversário do fingimento.


Agora, em Canelas, não sei como será, mas idealizo o mesmo. A morte não esquece o que foi a vida quando a lembrança se perpetua, não acha? Fui lá uma vez, pousei uma rosafalei consigo, mas não me ligou nada; até pensei que estivesse a mostrar-se amuado por demorar tanto tempo a visitá-lo. Ou, então, estaria muito atento ao que lhe diziam os que estão ao seu lado… Bem - pensei para mim – deve estar por aí a conversar com algum conhecido,  e como não tem relógio esqueceu-se da sua morada. Vim embora porque, mais tarde ou mais cedo, lá chegará a hora de pormos a conversa em dia.


Mas, sabe, imagino-o a escrever crónicas nos jornais do céu, a causticar os anjos armados em santinhos ou santinhas (ainda ninguém descobriu o sexo deles, não é meu amigo?), todos muito puritanos a dar lições de moral e, nas sombras, a concretizar o adágio dos simulados: «Olha  para o que eu digo e não para o que eu faço.» Talvez tenha descoberto por aí daquelas espécimes que olham de alto como quem palita os dentes ou arrota postas de vitela, e a tentação de os apontar seja tanta que não o deixe ficar calado. Para o céu deve ir – sou eu a pensar, claro – muito tipo de gente, pois a misericórdia divina não tem limites. Por cotejo com o que me ensinaram na catequese (belos tempos!), acho que ele deve ser habitado esmagadoramente pelos honestos, os construtores da palavra, os que fogem da falsidade e do descaramento, os que conhecem a grandeza humana e a sua antítese,  os que respeitam o medo mas repelem a cobardia, os que não fantasiam  amar os pobres nem pedem publicidade para a  oferta, os que sabem que a verdadeira fortuna é ter o  essencial que dê dignidade à vida, à vida de todos. Por isso, deve-lhe meter impressão ver aí de tudo como na farmácia. Para desenfastiar já deve ter escrito outro Livro de Andanças, viajante que é dessas terras e caminhos etéreos. Deve ser uma pena não haver aí um Palácio da Loucura para uma reedição de Coimbra Minha… Olhe, vá ouvindo umas anedotas do mano João…
Escrevo-lhe dentro do carro, com o bloco assente no volante, diante do mar, na praia nortenha de que seu Pai mais gostava. Tenho memória recente de corpos na areia, tostando a celulite ou a silicone (uma pessoa já nem sabe). Ao longe, na linha do infinito, um barco, largado de Leixões, afunda-se na vertigem da lonjura. Recordo-me de África; sei-a do outro lado do mundo, resplandecente e imensa, vermelha e abrasadora. Aquele Moçambique para onde fomos em datas diferentes, a Porto Amélia do Paquitequete e dos corais, da casa do Jaime Gabão e da mesa da D. Nair, daquela fraternidade e daquela mágoa de ver o Lança Pires esticado num Unimog,  ele que fora só à Serra  Mapé,  em Macomia,  visitar colegas de escola.


A sua lembrança, meu saudoso amigo, quando lá cheguei, ainda pairava nos exíguos corredores do hospital, nas esplanadas da Jerónimo Romero, nos serões das lendas do algodão da pensão Miramar e nas gentes que lhe conheceram o jeito e a dádiva.


Neste jornal, onde na sua última página escreveu centenas e centenas – sei lá milhares - de crónicas (foi uma pena não ter coligido as principais num volume, como alguns lhe disseram), retratou o esmagamento da savana e a aventura duma caçada, a cumplicidade da temba, o espasmo sanguíneo do pôr-de-sol,  o êxtase dos cheiros e dos sons do mato, a sensualidade da mulher africana, o orgasmo do nascer dos dias e a angústia dos anoiteceres suados.


Consigo aprendi muito do que é a verticalidade e a honradez intelectual, o horror aos sevandijas e aos excessos dos humanos. Aprendi que tanto se pode subir até tocar a platina como descer até nos ferirmos no alumínio…


Mas, perguntará, «este só agora é que me escreve?» Eu digo-lhe: aqui na Régua, terra a que sempre chamou sua apesar de ter nascido na Invicta, andou tudo numa fona por causa de um Congresso de Bombeiros. O José Alfredo Almeida, aquele jovem com um sorriso do tamanho da generosidade, que está, agora, à frente da Associação, tomou a peito a organização, publicou até um livro sobre a História desses homens que dão o corpo ao manifesto – quantos a alma – pela nossa segurança, e tão pouco recebem desta sociedade egoísta, tantas vezes denunciada com a precisão da sua pena. Sabe que foi considerado o melhor acontecimento do género realizado na Pátria? São os que vieram de fora a confirmá-lo sem ciumeiras. Que, diabo, também somos capazes não é?...
Lembrei-me muito de si nesta altura, que, entre 1964 e 1965, foi presidente da sua Direcção, seu médico, director do Vida por Vida e titular da Medalha de Ouro. E tenho – caramba! – saudades de si. Há dias fui à pasta onde guardo as suas cartas - as lembranças que elas me trouxeram! Piadas de gargalhadas cerebrais, ironias tão subtis que sintetizavam a mordacidade total, tolerância de escrita, protestos cúmplices pelo desaforo social, ideias e conselhos de quem conhecia a literatura, as suas gentes e os seus modos…


Cai uma chuva triste, de luto pelo Verão que se foi, parece um choro celestial, um gemido dos deuses desgostosos com este mundo comando pela falta de idoneidade, uma saudade enorme daqueles de quem gostámos e nos deixaram do mundo dos sorrisos. O dr. Camilo nota por aí alguma revolta Divina, algum sentimento de pena por estes terráqueos que já se cansaram de lhes irem ao bolso, assaltados à lei (des)armada, como quem limpa fraldas a meninos?  Diga-LHE para vir cá abaixo pôr ordem nestes Montes Pintados e  nestes Caminhos Velhos e Novos, nestes Assentos e Jurisdições, nestas Sedes e Filiais, nestas Desesperanças e Ódios. E se ELE não vier, que mande um novo Cristo com um cajado na mão para expulsar toda a canalha da Terra. Peça-lhe isso, não se esqueça…


Vou-me despedir, imitando-o nos momentos de emoção: «RAIO!»
 - Novembro de 2011 - M. Nogueira Borges
Memória dos Nossos Bombeiros - Carta  para o Dr. Camilo de Araújo Correia 
Jornal "O Arrais", quinta-Feira, 10 de Novembro de 2011
(Click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)


Texto de M. Nogueira Borges publicado com autorização do autor neste blogue e no semanário regional 'O Arrais" (10/11/2011). Clique  nas imagens acima para ampliar.  2 imagens cedidas pelo Dr. José Alfredo Almeida e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para os blogues "Escritos do Douro" e "ForEver PEMBA" em Novembro de 2011.