12/21/08

Diversificando - Juliette ajuda deficientes em Portugal...

A notícia chegou via e.mail mas está no jornal "O Algarve". E diz:

Juliette ajuda deficientes - Inédito: Projecto inovador em São Brás de Alportel.

O Centro Médico de Reabilitação do Sul (CMRS) em São Brás de Alportel, conta com um novo funcionário, neste caso uma funcionária e se ladra em vez de falar esse é um pormenor a que todos já se habituaram.

Juliette é uma jovem cadela de raça Flatcoated que para além de ser o orgulho de sua dona é também um "protótipo" do que poderia ser a melhor amiga de quem tem a mobilidade reduzida, por acidente ou doença.

Margarida Sizenando, diretora clínica do CMRS, e médica fisiatra define o que apelida de "Projecto Juliette" como um processo de treino faseado, que tornará o canídeo e todos os que se seguirem em auxiliares para tetraplégicos ou paraplégicos. "A cadela está a ser treinada para desatar atacadores de sapatos, abrir portas, gavetas e acender a luz", podendo numa fase mais avançada tirar roupa da máquina de lavar, abrir torneiras ou mesmo puxar o autoclismo através de um sensor e, claro, levar e trazer objectos, para além de os apanhar do chão e entregá-los ao doente. Algo vital para um tetraplégico que muitas vezes acaba por cair na tentativa de apanhar algo longe do do seu alcance.

Se à primeira vista estas tarefas podem parecer básicas, não o são e exigem muito trabalho, esforço e experiências falhadas, como relembra a sua treinadora: "os doentes pensam que a cadela é um robot, pelo que tem que se treinar também os pacientes". A médica critica os que exigem demais de Juliette que muitas vezes fica confusa com várias ordens de comando diferentes.

Juliette está ainda no treino básico ou, como brinca Margarida Sizenando, no "cãolégio", depois seguir-se-á "a socialização e o treino mais avançado". Até lá está a interagir com um rapaz de 18 anos em coma vigil hà um ano e começa agora a reagir visualmente, desde que, hà pouco mais de uma semana, Juliette se tornou presença assídua no seu quarto. "Se há quem acorde com o toque de um telemóvel, porque não com a ajuda de um cão", acredita a mãe do jovem.

Tiago Inácio, de 24 anos, internado há dois meses e a quem Juliette ajuda a desabotoar e descalçar os sapatos é também peremptório nas melhorias da qualidade de vida: "É uma experiência muito interessante e para além da companhia com um cão destes a autonomia é quase total".

NINHADAS E TREINADORES PRECISAM-SE: Ainda que Juliette seja experiência inovadora, Margarida Sizenando prefere não colocar "as expectativas demaisado altas. É precoce fazê-lo e mesmo que um dia sejam capazes de accionar o comando de um alarme, nunca conseguirão lavar os vidros de uma casa". E deixa um apelo para o que seria um cenário perfeito: "Precisava de um treinador especializado e de uma ninhada para ser treinada a tempo inteiro".
- Pedro Chaveca: pedro.chaveca@oalgarve.pt

Acrescento: A Drª. Margarida Sizenando Ribeiro da Cunha, Médica Fisiatra, cujo trabalho eficiente e dedicado em Portugal vou acompanhando hà algum tempo por imposição do destino, é Directora Clínica do Centro de Reabilitação do Sul (CMRS) em S. Brás de Alportel e também responsável pela Clínica Dr. Sizenando em S. João de Loure/Aveiro, clínica essa fundada pelo Dr. Sizenando Ribeiro da Cunha, figura reconhecida e recordada também por sua luta passada na defesa dos ideais republicanos do concelho de Albergaria.

12/20/08

O leitor colabora: Timor e a maldição do petróleo.

(Imagem original daqui)

Os leitores deste blogue afirmam e mostram opinião. Até no que lêem e nos enviam.

De M. E. G, transcrevo na íntegra e.mail a respeito da recém independente Timor, ex-colónia portuguesa onde parece progredir à vontade a já quase normal ladroagem "revolucionária" e oficializada destes "novos tempos".
Com bons "mestres" oferecendo maus exemplos desde o Caribe tropical até ao coração do seleto mundo financeiro que acredita e avaliza "pirâmides" geridas por verdadeiros "picaretas" ainda à solta e de bolsos cheios, é natural que pelos cinco continentes do mundo pobre em desenvolvimento, especialmente de língua latina e portuguesa, aplicados "díscipulos" se multipliquem, proliferem e se agarrem ao poder via voto populista ou manobras constitucionais que os eternizem e permita se lambuzem "ad eternum" no apetitivo lamber do "tacho":

""Já não se fala em Timor? Talvez seja um mau sinal. Mas ontem vinha uma extensa e inquietante crónica (Público) de Pedro Rosa Mendes, jornalista e escritor. E hoje este artigo, denunciador de um futuro problemático. Não há dúvida: onde há petróleo haverá sempre miséria e corrupção.

Timor e a maldição do petróleo - Loro Horta - 2008.11.26
Os sinais de corrupção multiplicam-se: fazem-se compras sem concurso e a oposição não tem acesso a documentos vitais. A posse de vastos recursos petrolíferos e outros recursos estratégicos tem-se revelado, em muitos casos, uma autêntica maldição para os países em desenvolvimento.

Na Nigéria, o maior produtor de petróleo de África, este recurso natural contribui pouco ou nada para o bem-estar do seu povo. Corrupção, violência tribal e religiosa e inúmeros golpes de Estado têm marcado a história daquele rico país. O maior produtor de petróleo do continente africano é também, de acordo com várias organizações internacionais, um dos mais corruptos do mundo.

Nos últimos dois anos, Timor-Leste tem recebido em média 1.100 milhões de dólares americanos por ano em receitas petrolíferas, o que não pode deixar de considerar-se uma quantia significativa, se se tomar em consideração que o país tem apenas um milhão de habitantes. Mas, infelizmente, cada vez há sinais mais claros de que o início da maldição do petróleo começou, com vários casos de corrupção a serem denunciados. O caso mais mediático foi o da compra por parte do governo timorense de dois vasos de guerra à China no valor de 28 milhões de dólares. O processo de aquisição dos vasos foi feito de forma muito pouco transparente, sem concurso público e através de intermediários sul-coreanos. Circulam, insistentemente, alegações de que a companhia chinesa terá pago quantias substanciais em dinheiro e prestado outros favores a certos membros do Governo, como forma de obter o contrato. E, embora não haja provas que consubstanciem tais rumores, uma coisa é certa: o Governo timorense, em flagrante violação da lei, tem recusado os repetidos pedidos do Parlamento Nacional para este ter acesso a uma cópia do contrato.

Outro caso, que mais recentemente voltou a chamar a atenção pública, envolve a aquisição de quatro novos geradores para garantir o fornecimento de electricidade à capital, Díli. No Orçamento Geral do Estado, o Governo alocou 4 milhões de dólares para a compra de quatro geradores novos. No entanto, acusa a oposição, o Governo comprou geradores usados por 2,4 milhões, desconhecendo-se o destino dado ao remanescente de 1,6 milhões. Mais uma vez, a oposição não foi capaz de produzir provas.

Há, no entanto, dois factos dignos de menção: o Governo recusou-se mais uma vez a entregar ao Parlamento Nacional a cópia do contrato e o certificado de origem dos geradores em questão e o fornecimento de electricidade à cidade capital piorou significativamente, comparativamente a dois anos atrás, quando havia menos dinheiro para gastar em geradores.

Por exemplo, no dia 5 de Novembro houve três cortes de luz em Díli, e no dia 6 bateu-se o recorde nacional com sete cortes. Agora o Governo fala em comprar mais 11 geradores mas, para variar, não há concurso público.

Dois casos caricatos ilustram a situação lastimável para onde Timor está a escorregar rapidamente.

O primeiro caso é o da compra de uniformes para os guardas prisionais. O contrato foi dado ao marido da ministra da Justiça, Lúcia Lobato, sendo que os uniformes comprados na Indónesia ostentavam nos chapéus e nos cintos a insígnia do exército indonésio.

Tal situação provocou o protesto dos guardas, que se recusaram a usar peças do uniforme militar indonésio, e levou à denúncia do caso nos media locais.

Finalmente, há a situação triste do porto de Díli, onde a mercadoria é retida semanas até que o suborno seja pago. O cúmulo aconteceu quando um carro destinado à Presidência da República foi retido, tendo sido necessária a intervenção do assessor chefe da Presidência para o carro ser libertado sem ter de pagar suborno.

Podiam ser mencionados vários outros casos, como a intenção do Governo de conceder em arrendamento 2 por cento do território nacional a uma obscura companhia indonésia para produção de biofuel, mas a lista não acaba.

Apesar dos vários casos reportados, nenhum ministro foi até hoje demitido, nem mesmo o caso flagrante da ministra da Justiça.

Timor-Leste começa a mostrar as características típicas de um país que está a ficar rapidamente sob a maldição do petróleo.

Essas características são: corrupção endémica, desrespeito total pelos órgãos de soberania, impunidade e tentativa de controlar os media.

Infelizmente, os órgãos de soberania que podiam contribuir para uma sociedade mais transparente parecem cada vez mais fragilizados. O Governo, que detém a maioria no Parlamento, ignora sistematicamente os pedidos de esclarecimento da oposição, com o beneplácito da Mesa, que boicotou a sessão de interpelação ao Governo, verificando pela primeira vez e com um rigor inaudito o quórum.

O Presidente da República Ramos-Horta tem adoptado uma posição compreensível e de certa maneira sensata, quando diz que não se pronunciará enquanto não houver provas da alegada corrupção. Mas o Presidente da República devia cumprir o seu dever institucional e exigir que o Governo responda positivamente aos repetidos pedidos da oposição para que faculte os documentos, designadamente cópias de contratos e certificados de proveniência.

A oposição, dominada pela Fretilin, tem feito no Parlamento um trabalho aceitável a favor da transparência, ao contrário do seu secretário-geral Mari Alkatiri. Este parece mais preocupado em insultar o embaixador americano e em ameaçar o primeiro-ministro com grandes manifestações.

Apesar dos vários casos de corrupção, há no actual Governo timorense ministros íntegros e dedicados, como parece ser o caso da ministra Micató [Maria Domingues Fernandes Alves] com a pasta da Solidariedade Social; do ministro dos Negócios Estrangeiros, Zacarias da Costa; do Desenvolvimento, Joe Conalves; e do secretário de Estado da Defesa, Júlio Tomás Pinto.

Se forem tomadas medidas urgentes e for feito um esforço nacional sério, Timor não tem de acabar como a Nigéria ou a Guiné Equatorial. Mas, se a actual situação se mantiver, Timor caminha a passos largos para a maldição do ouro negro. ""

- Loro Horta é investigador no Center for International Security Studies (Universidade de Sydney, Austrália) e consultor do Instituto Português de Relações Internacionais.