9/23/09

Nostalgia - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão)

(Fotografia original realizada em praia de Fortaleza-Ceará-Brasil por Gotael - Clique na imagem para ampliar)

Hoje passei na rua do avô Buanamele na zona de Kumilamba, no histórico bairro de Paquitequete. A sua cadeira de descanso e de movimento ondulante e contínuo balançava na varanda de macuti a sós e ao sabor do vento, inspirando aos transeuntes a melancolia e incredulidade no que sucedera ao fiel companheiro das sextas-feiras à tarde.

A cadeira balançava continuamente no meio da brisa do mar, do murmúrio dos habitantes e das palmeiras bailantes, do grasnar pausado e melódico dos corvos, dos vôos rasantes e atrevidos dos milhafres, do rufar persistente de batuques de tufo, da pacífica convivência do islamismo e cristianismo, da beleza singular das mulheres, do sol abrasador de Setembro, enfim, no meio da doce melodia das linguas kimuane e macua entrelaçados coniventemente ao longo dos séculos.

Na varanda onde sempre avô descansava recitando o alcorão, vestido de túnica branca de neve e cofió com bordados multicolores, simbolo do islamismo, o ambiente era lúgubre; Já não se ouvia mais salama e alihandolilahè ditos de viva voz e nem gargalhadas animadas como era hábito.

No interior da casa, que é de pau-à-pique, rebocada de matope e coberta de macuti, só o miar agudo e insistente de gatos marcava a presença preenchendo o vazio como se reivindicassem a morte do avô ou reclamassem a solidão e o silêncio incómodo que se instalara alí desde que o mar, fiel companheiro do avô, traira-lhe roubando-o a vida e escondendo o corpo nas profundezas verdes das suas águas, numa manhã prateada, de céu acinzentado, chuvoso e de tempestade repentina.

Incrédulo, parei defronte da casa e imperceptivelmente o meu olhar perdeu-se no movimento contínuo da cadeira.

Os transeuntes olhavam a cadeira com curiosidade aguçada que se confundia com medo e respeito e relembravam o avô, certamente, sentado alí com o olhar perdido no horizonte e recolhido em seus pensamentos, numa sexta-feira qualquer após a sua habitual reza na mesquita, próxima à casa do sô Ruela, e depois de uma semana intensa de labuta no mar, balançando o corpo de frente para atrás num embalo profundo, de quando em vez, acompanhado de um recital melódico do alcorão aprendido na mocidade distante numa das inúmeras madrassas do Paquite.

O vento soprou suavemente. Pestanejei vezes sem conta e caí na emoção. Dois fios grossos de lágrimas desceram dos cantos dos olhos e precipitaram-se à boca abaixo. Suspirei profundamente. Enchi os pulmões de ar e no instante seguinte libertei-o. Manti-me alí parado como estátua se tratasse e de repente, após um ligeiro redomoinho estranho, ví avô Buanamele sentado na sua cadeira e acenando-me a mão. Tinha um olhar sereno e alegre. Seus lábios cor de mulala tremiam de emoção, deixando à vista os seus únicos quatro dentes incisivos. Tinha bochechas chupadas, olhos perdidos no fundo da órbita, corpo esquelético, pele cansada e profundas rugas na testa. Balançava na cadeira de frente para atrás trajado de túnica, cofió e chinelos de banho, seus vestes habituais às sextas-feira.

Fiz movimento para caminhar. Curiosamente as pernas cederam sem relutância e de seguida caminhei ao seu encontro. Quando me encontrei junto dele, acomodei-me medroso e atentamente na borda da varanda, sem muro, e bem próximo dele.

- Estás com medo? – Inquiriu o avô olhando-me de esguelha.

- Medo? Eu? – Sorri para disfarçar o meu real estado de espírito. – Não, avô.

- Sei que estás... – Sua voz era serena. Tinha aspecto facial descontraido, olhar meio ausente e um sentimento nostálgico. – Mas fique sossegado. Sou inofensivo.

- Obrigado. – Balbuciei.

- Ainda estou de viagem. – Comunicou ele evitando olhar pra mim. – Apenas quís vir reviver os momentos alegres que passei nesta varanda.

Mantive-me calado e com os ouvidos à sua disposição.

- Momentos que ficaram para atrás e na poeira do tempo. – Acrescentou o avô após uma breve pausa. – Anos em que pescadores com caixotes transbordantes de peixes à cabeça passavam de rua-à-rua e beco-à-beco deste bairro gritando de viva voz hopa, hopa, hopa – peixe, peixe, peixe. - e em seguida as mulheres todas lindas, vestidas de blusas de mangas compridas e curtas e capulanas multicolores amarradas à cintura, muitas delas com mussiro no rosto e lábios pintados de mulala, interrompiam os gritos dos pobres pescadores comprando o peixe, polvo e mexilhão que eram medidos aos montes modestos e justos que davam para alimentar meia dúzia de bocas sem grandes sobressaltos.

O avô fez uma pausa, durante o qual pareceu ordenar as suas ideias e depois, prosseguiu:

- Eram momentos em que o mar e os homens viviam em harmonia. Momentos em que o mar obedecia aos homens e os seus recursos pertenciam a todos. – Sorriu feliz com os olhos pregados no céu. Quando baixou-os, acrescentou: - Eram tempos em que os pescadores com os remos atravessados ao ombro e cestos de peixes suspensos na ponta do remo, distribuiam sorrisos à toda gente de tanta satisfação, gabavam-se do ofício que exerciam e viviam dele exclusivamente.

- São, com certeza, momentos que jamais voltarão! – Acrescentei com um tom de voz carregado de profunda tristeza.

- Sem dúvida! – Respondeu-me também com um tom de voz triste.

- Mas acho que nem tudo se perdeu na poeira do tempo.

- Com certeza! – Animou a sua face sulcada de profundas rugas e continuou. – Há coisas que o tempo não apaga! Por exemplo: o rubro que as acácias se revestem de Novembro à Janeiro; o simpático bailar das palmeiras gigantes; o vivo grasnar dos corvos; o azul do mar; a areia branca, macia e solta da praia; o cheiro do mar; as madrugadas prateadas; o pôr do sol silencioso; o bailar espectacular das casquinhas na crista das ondas; o verde do fundo do mar; enfim.

Calou-se. Olhou-me silencioso e depois, disse:

- Tenho que partir. – Arregalou os olhos erguendo as pestanas, encolheu os lábios e de seguida, prosseguiu: - Devem estar a minha espera para a viagem sem retorno.

- Viagem sem retorno? – Inquiri curioso torcendo o pescoço para o avô.

- Sim. – Sussurou inspencionando a nossa volta com os olhos arregalados e com um incómodo sentimento de medo.

- Schh, avô! Como assim? – Incentivei-o a continuar. – Diga-me, por favor, como se faz essa viagem?

Avô manteve-se calado e cabisbaixo. No entanto, baixei os olhos procurando perceber a maldita viagem sem retorno e quando ergui-os, a cadeira do avô balançava à sós. Levantei-me boquiaberto. Revistei o local em vão e rapidamente tratei de sumir dalí com o espírito dominado pelo medo e o corpo repleto de um calafrio estranho que deixava os cabelos tesos.
- Allman Ndioko, 23/08/2009.

- Vocabulário:

Macuti – Palha muito abundante no litoral da zona norte de Moçambique e usado para a cobertura de casa e fabrico de objectos de uso doméstico e pessoal (cestos, chapéus, leques, etç).

Tufo – Dança de mulheres kimuane acompanhada de batuques executados pelos homens.

Salama – Significa como estás? Normalmente usa-se quando se quer saber o estado de saúde doutro. Esta expressão provem do kiswahil e é usada em todas linguas de Cabo Delgado.

Alihandolilahè – Significa graças à Deus. A palavra deriva do Árabe.

Mussiro ou simplesmente n’siro – Pó derivado da fricção de um pedaço de uma árvore muito abundante no norte de Moçambique e usa-se para acrescer a beleza nas mulheres.

Mulala ou n’lala – Escova natural que usado pinta os lábios de um tom alaranjado.

Hópa ou Ihópa – Peixe.

Madrassa – Escola islámica onde aprende-se o alcorão.


- O Autor:
Francisco Absalão;
Nome artístico -Allman Ndyoko;
Nasceu em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
Residência actual - Maputo.

Produto da nova vaga de escritores moçambicanos dos anos 90, cursou História da Literatura Portuguesa, promovido pelo Instituto Camões em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane. Tem textos literários publicados em antologias, como: Histórias do Mar (2005) e Esperança e Certeza II (2008). Venceu os seguintes concursos de contos: Historias do Mar (2005), Contos e Bandas Desenhadas - promovido pelo Instituto Camôes em Maputo/Moçambique (2006). Podem-se encontrar textos literários de sua autoria publicados em várias revistas e jornais electrónicos no Brasil, com destaque para a editora online Blocos e Recanto das Letras.


Este conto e anteriores publicados neste blogue são colaboração direta de Francisco Absalão para o ForEver PEMBA. Contos anteriores de Francisco Absalão publicados no ForEver PEMBA:

  • "Muaziza" - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 17 de Maio de 2009 - Aqui!
  • "Os Leões do Diabo" - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 18 de Abril de 2009 - Aqui!
  • "O Navio Ensombrado" - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 13 de Fevereiro de 2009 - Aqui!
  • "O Incêndio" - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 23 de Janeiro de 2009 - Aqui!
  • "O Suicídio" - Um conto de de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 02 de Junho de 2008 - Aqui!
  • "A Origem - Ou como surgiu o povo Makonde", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 29 de Março de 2008 - Aqui !
  • "O Turbilhão Lendário", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 24 de Outubro de 2007 - Aqui !
  • "O Nó Sagrado", um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) - publicado no ForEver PEMBA em 19 de Março de 2008 - Aqui !

Governo de Moçambique pratica política ambiental que destrói a natureza

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"Vai acontecer-nos como a China, que só se preocupou com desenvolvimento e destruiu florestas, hoje as pessoas morrem com poluição diariamente e estão num ponto em que começaram a ver que o ambiente é importante. Agora estão a voltar para trás mas os danos já estão feitos - e agora vêm para o nosso país buscar recursos que eles não têm".

Moçambique - Ong acusa governo de adoptar "políticas ambientais erradas" - Maputo - A organização não-governamental (ONG) moçambicana Justiça Ambiental acusou terça-feira o Governo de Moçambique de adoptar "políticas ambientais erradas" ao concentrar as atenções no desenvolvimento, sem ter em atenção um balanço com as áreas social e económica.

Em declarações à agência Lusa, à margem do lançamento do filme a "Era da Estupidez", em Maputo, Anabela Lemos disse recear pelo caminho que as autoridades moçambicanas decidiram seguir, o de alcançar "desenvolvimento a todo o custo".

"Em Moçambique, estamos em risco com a questão da poluição, minas e iminente exploração de petróleo, que está a começar, mega-barragens ...

Pensar só em mega-projectos como solução de desenvolvimento não é a maneira certa de caminharmos", disse Anabela Lemos.

"Vai acontecer-nos como a China, que só se preocupou com desenvolvimento e destruiu florestas, hoje as pessoas morrem com poluição diariamente e estão num ponto em que começaram a ver que o ambiente é importante. Agora estão a voltar para trás mas os danos já estão feitos - e agora vêm para o nosso país buscar recursos que eles não têm", afirmou.

Em 2006, o Executivo de Maputo indicou a empresa brasileira Camargo Corrêa para estruturar a construção da barragem de Mpanda Nkuwa, obra que está no topo das prioridades do governo, e que pretende vender o excedente da energia produzida a outros países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

A Justiça Ambiental tem tentado dissuadir os bancos chineses de prosseguirem com o financiamento da mega-barragem de Mphanda Nkuwa, advertindo para as consequências ambientais no Vale do Zambeze.

Recentemente, o governo de Maputo autorizou também a Oilmoz a construir uma refinaria em Maputo, avaliada em 8 mil milhões de dólares (5,6 mil milhões de euros), um projecto também contestado devido ao impacto que poderá causar a biodiversidade.

Aliás, devido à proximidade do projecto a uma reserva de elefantes, os investidores viram-se forçados a mudar a localização prevista para aquela infra-estrutura.

Um dos argumentos usados a favor da viabilidade deste projecto, que tem uma capacidade de produção prevista de 350 mil barris por dia, mais de 20 vezes o consumo diário moçambicano, é a possibilidade de exportação para os países vizinhos, sobretudo para a África do Sul, a maior economia da região.

Já no ano passado, a Ayr-Petro-Nacala, da norte-americana Ayr Logistics, anunciou a construção de uma refinaria na cidade portuária de Nacala, na Província de Nampula, Norte de Moçambique.

"Estamos a chegar a um ponto que ninguém leva em consideração os problemas que estarmos a ter e que teremos se continuarmos nesse caminho: desenvolvimento a todo o custo, que é o nosso receio", comentou Anabela Lemos.

"O caminho que estamos a seguir não é certo. O pensamento só no desenvolvimento sem ter em consideração um balanço entre a área social, ambiental e económica, não chega. Não há desenvolvimento sem um balanço entre as três áreas. Nós estamos só preocupados com o desenvolvimento, o que é errado", avisou a ambientalista.