4/27/10

O VIÚVO

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É tudo sempre igual.  Às sete acorda, sem coragem de se virar para o lado que era o da Mulher. Estica o braço, num gesto instintivo, a ver se ela ainda lá está, e um vazio magoado repete-lhe a ausência. Limpa as lágrimas à aba do lençol, liga o rádio-despertador para o barulho lhe atenuar o abandono, mas apaga-o logo, que lhe enojam as notícias do mundo. Quando sente, na rua, o trânsito a amainar, levanta-se e atavia-se por hábito. O espelho só lhe serve para não se cortar ao fazer a barba; todos os dias os cabelos embranquecem, os ombros descaem, os olhos encovam-se e as faces enrugam-se para lá do que justificaria a natureza. Aquece, no micro-ondas, o leite com um pingo de café de véspera, torra uma fatia de pão que barra com geleia (o Médico proibiu-lhe a manteiga por causa do colesterol ) e veste-se.

Mal sai do elevador, acende o cigarro que melhor lhe sabe no dia todo. Desce a Avenida calado, olhos espetados no chão, as pessoas incomodam-no, o rebuliço enerva-o, a vida fá-lo triste. Compra uma rosa vermelha na Florista, entra no cemitério, pede a cadeirinha de abrir e fechar na guarita do segurança, a quem dá uma gorjeta mensal, desce as escadas para o 2º. talhão e senta-se junto da campa da Mulher. As pessoas cumprimentam-no, já o conhecem, assim como a morte que o enlutou. Segura a cara entre as mãos, no modo de quem se concentra numa oração, e debruça-se para a fotografia debaixo da qual está escrito: Eterna saudade do teu marido. N. 12/10/40 – F. 07/01/02. Os lábios dizem o que ninguém ouve, os olhos choram o que todos entendem. Ali fica a manhã, qual obelisco de cré, alheado de tudo, mesmo da confusão cigana nos gavetões do fundo. Quando a sineta toca, ergue-se, devolve a cadeira e diz «até logo» num esforço falado.

Se ganha coragem, vai a casa fazer um arroz branco e grelhar um bife daqueles já embalados no supermercado. Aprendeu a cozinhar quando a Clotilde, magra e branca como a caliça, caiu na cama. Fez quilómetros entre a cozinha e o quarto em que, lentamente, definhava, a pedir-lhe instruções para o refogado, o estufado da carne ou do peixe, a quantidade de sal, o tempo de cozedura, levar-lhe a colher com uma amostra para «vê lá se está bom assim», teimar com ela para comer «nem que seja um bocadinho», esmagar a sopa para não lhe custar a engolir.

Aflige-o a casa vazia, chega a ter mesmo saudades daqueles dias sofridos em que a ajudava a levantar-se para a levar aos tratamentos. Corre, por vezes, ao quarto; parece-lhe ouvir a Clotilde naquele gemido que foi a maneira de o chamar nos três últimos anos de vida que o cancro demorou para a vencer. Chora, mas, já nem repara, tantas e repetidas são as lágrimas que só quando não as tem é que se espanta. Senta-se no sofá, tira o som da televisão e adormece por uns minutos. Desce à pastelaria do rés-do-chão, toma um café e repete o caminho e as rotinas da manhã. Alguns, perante os seus olhos vermelhos, acercam-se dele, tentam permutar consolos, estimulam-no a passear, distrair-se; esboça um trejeito de agradecimento que lhe sai como um suspiro refreado. Com a chegada da noite, os círios, nas lajes, sobressaem entre margaridas, cravos e flores do campo. Custódio, do cimo das escadas, vira-se, uma última vez, para o lugar onde a Mulher eterniza, acena-lhe, manda-lhe um beijo, curva-se para a sua solidão, devolve a cadeirinha ao segurança e passa o portão com a sineta a dar o último toque de aviso.

Deambula pelas redondezas a fazer horas de jantar. Vai, frequentemente, a um restaurante barato, na cave de um prédio subaproveitado, a que se chega descendo umas escadas gastas, e lhe lembra o Aeminium dos tempos de Coimbra. Aí fica, após o café, a fumar e a fazer que vê televisão. Quando as mesas se esvaziam e os empregados começam a abrir a boca, levanta-se para percorrer os escassos metros que o levam a casa. Aqui chegado, dá uma dose de friskies à gata que mia a queixar-se do isolamento e da falta dos pés da Clotilde na cama, nem repara se a mulher-a-dias lhe deixou o chão limpo e a roupa passada, mastiga, para lhe dar o sono, mais umas folhas do livro de cabeceira (anda a ler o Diário de Um Mago do Paulo Coelho) e quando pressente a mornice a inebriá-lo sintoniza, baixinho, o despertador na Antena 2, carrega na tecla de sleep e fecha a luz. Mas, ao contacto com os lençóis, entra numa espertina suada, um vazio que o magoa, um medo, até, de estar só. Imagina a Clotilde junto de si, lembra-se quando a afagava, a amava com uma ternura duplicada, como se sentisse o seu corpo a fugir-lhe, a repetir-lhe, vezes sem conto, que a queria por amor, pela emoção e o prazer de a ter nos seus braços. Pensa no filho que não tiveram. Sempre o desejaram e tentaram, mas, quando, esgotados todos os meios, a Medicina lhes sentenciou a impossibilidade natural de o terem, recusaram qualquer outro processo, incluindo a adopção. A Clotilde ainda viveu algum tempo de dúvida, ele é que não: filho tinha que ser mesmo do sangue e consoante «Deus mandava». Bem escutava os colegas no emprego, amigos e conhecidos a queixarem-se das exigências filiais, as extravagâncias e irresponsabilidades, as noitadas e vícios, o desapego familiar e a frieza perante os princípios em que foram criados, a obsessão de quererem tudo num facilitismo que arrepiava os que abdicavam de si por eles, a cultura do depósito-de-asilo, transferindo para Lares os velhos e as suas reformas de anos e anos de canseiras como quem faz um trespasse familiar. E “se Deus assim o quiz Ele lá sabe porquê. Talvez achasse que para sofrimento já bastava o que viria”.

Custódio, quando se reformou da Companhia de Seguros, sem descendência que lhe condicionasse as horas ou aumentasse as preocupações, convencera a Mulher a acompanhá-lo numa viagem de revisitação do passado. Sempre sonhara voltar à África da sua comissão militar. Finalmente, o Cardoso, amigo dos tempos da Faculdade, gerente de uma delegação bancária em Lourenço Marques (nunca se habituara a Maputo), que lhe escrevia várias vezes a convidá-los para irem até Moçambique, recebeu-os com alegria e demora. Foram por um mês, ficaram três.

Mal desceu as escadas do avião inebriou-se com aquele cheiro inconfundível de África, um odor agrográfico que lhe encheu as narinas e a alma. Voltou a saborear as praias com palmeiras a marcarem riscos de sombras nas areias, os mariscos como aperitivos da cerveja gelada, o calor abrasador, a nudez das sestas, a angústia dos entardeceres, o agro-doce da catinga e da terra queimada, o perfume das acácias, mangueiras e embondeiros dispersas pelo mato e pelos bairros do caniço. Mas, já não era como no seu tempo. Desiludiu-se com o desleixo, a sujidade, a carência e a impressão de quem espera qualquer coisa ou alguém para um recomeço. Foi a Nacala onde desembarcara no Niassa; a Quelimane onde apanhara paludismo; nadou na baía de Porto Amélia e misturou as lágrimas da emoção com a doçura dos corais que nenhuma independência roubara; no Alto do Molocué, o alpendre do Chefe de Posto, em que dormira em algumas noites de cansaço, já não existia; o cantineiro apanhado que conhecera em Mocuba tinha ido «pró puto» e, na sua cantina, sem telhas e sem portas, definhavam as cinzas das fogueiras que tinham mitigado o cacimbo da noite anterior; em Mueda ainda escutou o eco do rebentar da armadilha que cegou o Adérito e decepou o Toni. Andou de um lado para o outro, como uma borboleta tonta, de avião e avioneta, de Land Rover e almadia, encheu-se de poeira, bebeu litros e litros de água e bazukas de Laurentina, gastou, sem os contar, montes de meticais, praticamente o que recebera no reajuste da assinatura da reforma, e sentia-se tão feliz que se imaginou, novamente, com vinte e quatro anos, agora livre de armas e camuflados e do medo de um tiro, vindo do capim, lhe ceifar a vida. Na picada que levava a Montepuez sentiu-se confuso, uma pressão no peito que até parecia que ia estoirar; ver-se ali, de novo, foi como se recuperasse os temores antigos, sabendo, ao mesmo tempo, que eles já não se repetiriam; esse conflito de emoções deu-lhe um sossego tão generoso que chorou de olhos ao céu.

A Clotilde estava espantada com ele. Aquela azáfama, aquela fome e aquela sede, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte, os seus gritos e os seus silêncios, o borbulhar das lágrimas e os berros de alegria quando reencontrava os lugares onde estivera. Uma noite, ele que era tão reservado, quase pudico, na intimidade, levara-a para as areias de Wimbe e, com a espuma das ondas a coçegar-lhes os pés, reinventaram uma segunda noite de núpcias com um batuque, para os lados do Farol, a celebrar rituais. Ao deixaram a terra morena foi como se acordassem, mais ele do que ela, dum sonho no paraíso.

Pouco depois de chegarem, num daqueles exames de rotina anuais, um pesadelo de chumbo derrotou-lhes a felicidade. Nunca mais a vida lhes sorriu. Rezaram para que a mastectomia fosse a tempo, mas, ele, chamado à parte pelo Cirurgião, ficou incumbido de disfarçar a esperança diante dela. A morte anunciada da Clotilde acabou com a razão da sua existência.

Custódio tem sessenta e cinco anos mas corpo de cem. Quem o viu e quem o vê espanta-se com as metamorfoses da vida, os alcatruzes desta nora em que uns gemem sob a canga do destino e outros, indiferentes aos dramas alheios como se eles nunca lhes acontecessem, levitam na ignorância. Só, sem ninguém a quem se entregar, vive, desde então, um dilema: há-de, ou não, recolher-se a um desses malditos Lares, num baixar de orelhas ao que tanto abomina, para que lhe sirvam uma sopa, lhe façam uma cama, o tratem quando a doença um dia o espreitar numa esquina, vistam-lhe o cadáver e o enterrem no talhão que, deixará escrito, será o da Clotilde. «Por um lado, é mau, que detesto compartilhar solidões desconhecidas; por outro, será bom, morrerei mais cedo. Não quero andar aqui muito tempo sem Ela.», disse ao Manuel, seu amigo do peito, num encontro casual, com um sarcasmo de revolta. O seu velho companheiro de estudos e de emprego, imaginando-se no seu lugar, sentiu um calafrio gelado.

Um dia, ao vê-lo, aligeirou a passada, apanhou-o, pôs-lhe um braço no ombro e gracejou: «Custo – era assim que o chamavam - ergue-me essa espinhela e ANDA VER O SOL! Lembras-te da canção do José Afonso que tu cantavas?...» Olhou-o com aqueles olhos sem estímulo, parados, esboçou um sorriso e apertou-o numa convulsão que, rapidamente, foi mútua. Manuel acompanhou-o ao portão do cemitério e percebeu-lhe, ainda, quando ele se virou para o abraçar, um sorriso de franqueza, quase, quase igual ao riso dos anos felizes, mas era um sorriso remoto numa cara desiludida.
- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória.
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MEMÓRIAS DE CABO DELGADO - EPIDEMIA DE VARÍOLA NA ILHA/VILA DO IBO, ENTRE ABRIL DE 1883 E JANEIRO DE 1884

Por Carlos Lopes Bento(1)
Ainda não refeita do susto provocado pela “guerra dos pretos” de 26 de Janeiro de 1883, a população da Ilha do Ibo, seria surpreendida, no mês de Abril desse mesmo ano, por uma epidemia de varíola, que terá começado em Janeiro nas Terras Firmes-, e duraria, cerca de 10 meses, (todo o período das estação seca e alguns meses da estação chuvosa) causando graves prejuízos sociais e económicos.

De acordo com as informações mensais, fornecidas pelas autoridades do Governo de Distrito de Cabo Delgado e publicadas no Boletim Oficial do Governo-Geral da Província de Moçambique, os factos:

Abril
Estado sanitário: Regular.
Ocorrências extraordinárias: Manifestaram-se no Ibo, três casos de varíola. Estabeleceu-se um barracão enfermaria na contra costa desta Vila, sítio onde já estivera, com bom êxito, em 1855, grassando igual mal, para recolher e tratar os varíolas. Ali se acham dois, em vias de curativo, tendo falecido, antes de construído, o barracão, um terceiro que fora o primeiro a ser acometido.

Maio
Estado sanitário: Regular.
Ocorrências extraordinárias: Aumentaram até 13, neste mês, os casos de varíola no Ibo. Foi necessário abandonarem o barracão da Mujaca, que já não comportava os variolosos, alugando-se, nas proximidades da praça de S. João, por indicação dos facultativos, uma casa espaçosa, onde estão sendo tratados 10, tendo saído já 2 curados e falecido 1.

Junho
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: Em 11, Salimo e em 27, Filipe, ambos gentios, de varíola;
Ocorrências extraordinárias: Continua a grassar a varíola na Vila. Entraram durante o mês na respectiva enfermaria 16 variolosos, saíram 14 curados e faleceram 2, ficando em tratamento 10. Abundaram as febres neste mês.

Julho
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: Em 2, Não Zanga e Mangute, indígenas gentios, vítimas de varíola; em 9, Maxangano e em 12, Amade, gentios indígenas, vítimas de varíola; em 25, Aristides Luciano Evaristo de Meneses, natural de Goa, ignora-se a filiação e a idade, solteiro, facultativo de 2ª classe do quadro de saúde, em comissão, vítima de varíola; em 27, José Caronga e Semba, e em 13, Pedro, indígenas, vítimas de varíola.
Ocorrências extraordinárias: Continua a varíola no Ibo, tendo falecido vítima desta epidemia o delegado de saúde, ficaram a cargo de um enfermeiro de 3ª classe as enfermarias e farmácia. Entraram durante o mês na respectiva enfermaria 7 variolosos, saíram 2 curados e faleceram 7, ficando 8 em tratamento. O aumento da mortalidade neste mês, em que aliás, o número de doentes baixou em referência a Junho, torna bem frisante a falta de delegado de saúde. As febres continuaram na Vila em grande escala.

Agosto
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: Em 11, Joaquim Ataíde Correia, nascido no Ibo, filho natural de Bento Correia, de 47 anos, solteiro, amanuense da enfermaria regimental; em 12, Antónia Liberato Dias, nascida no Ibo, filha natural de Sauchande Madangy, de 7 anos de idade; e em 25, Catarina, nascida no Ibo, filha natural de Paciência, de 45 anos, solteira, de cor preta, criada de servir. Vítimas de varíola, além de um dos mencionados, mais sete pretos gentios, que se saiba.
Ocorrências extraordinárias: Continua em actividade a epidemia de varíola. Durante o mês, entraram durante o mês na respectiva enfermaria 27 variolosos, saíram 14 curados e faleceram 4, ficando 17 em tratamento. As febres endémicas também não afrouxaram.

Setembro
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: 16.
Ocorrências extraordinárias: A epidemia desenvolveu-se de um modo assustador. As vítimas da Vila, de que a autoridade teve ciência, montam a 12, de ambos os sexos, número que esta muito aquém da mortalidade havida, pois que os pretos por ignorância ou falta de meios não têm dado conhecimento do passamento dos seus.
Durante o mês, na enfermaria entraram 20, saíram 24 curados e faleceram 8, ficando 5 em tratamento. Em todos os pontos da Vila há brancos e pretos em curativo nas próprias casas, não se devendo por isso julgar do desenvolvimento da varíola pelo movimento da enfermaria. As febres endémicas também não abrandaram.

Outubro
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: Em 9, António Monteiro Baptista, do Ibo, filho ilegítimo de Joaquim Monteiro Baptista e de Ana Morais, de 42 anos, proprietário, de varíola; em 12, Constantino António Resende, do Ibo, filho legítimo de Rodrigo José Resende e de D. Teresa Portugal Carrilho, de 55 anos, casado, capitão-mor de Bringano e Fumbo, de varíola; em 19, António Magalhães, do Ibo, ignora-se a filiação, de 28 anos, solteiro, soldado nº 81 e 1035 da 1ª Companhia de Caçadores 1, de varíola; além destes, mais 5 gentios de varíola.
Ocorrências extraordinárias: Continua a varíola a fazer estragos na Vila. Várias famílias estão refugiadas no continente.
Pelos motivos constantes da anterior informação apenas houve a autoridade conhecimento dos óbitos retro mencionado.

Novembro
Estado sanitário: Mau.
Óbitos: Em 8, João Soares Maria Rebocho, do Ibo, filho natural de Alberto Barradas Maria Rebocho e de Luísa Ferreira Soares, de 6 meses, de varíola;.em 22, José Vicente San’Ana Peres, natural de Goa, filho de Tomé Caetano do Rosário Peres e de Ana Francisca Simões e Peres, de 40 anos, casado, proprietário, de varíola; em 26, João Monteiro Baptista, do Ibo, filho Joaquim Monteiro Baptista e de Ana Soares, de 40 anos, solteiro, faroleiro de 2ª classe, de varíola; Mais 7 gentios, de varíola.
Ocorrências extraordinárias: A epidemia de varíola parece que tende a diminuir.

Dezembro
Estado sanitário: Vai melhorando.
Óbitos: Em 20, Inocência Vicente de Sequeira, nascida no Ibo, filha natural de Josefa de Sequeira, de 34 anos, viúva, proprietária, de varíola.
Ocorrências extraordinárias: Está quase extinta a epidemia de varíola. Deram-se durante o mês alguns casos, mas poucos e isolados.

Janeiro de 1884
Estado sanitário: Bom.
Óbitos: Em 23, Vicente Africano Dias, filho de Constantino Conceição Dias, de 63 anos de idade, viúvo, proprietário, de varíola.
Ocorrências extraordinárias: Pode considerar-se extinta a epidemia na Vila.

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A maior parte destes dados estão confirmados no Relatório do Governador José Raimundo da Palma Velho, relativo ao ano económico de 1882-1883, que sobre o estado sanitário do Distrito de Cabo Delgado, então sob a sua responsabilidade, escreveu:

“Faleceu o delegado de saúde antes de ser formulado o mapa do movimento da enfermaria regimental, ficando este estabelecimento a cargo de um enfermeiro de 3ª classe, de quem não se pode obter esse mapa.
Em geral o estado sanitário do distrito foi satisfatório até ao aparecimento da epidemia da varíola. Desde Janeiro deste ano, aproximadamente, tem grassado essa epidemia no continente. Na vila do Ibo manifestarem-se em Abril último os primeiros casos. Para serem recebidos e tratados os indígenas afectados estabeleceu-se, desde logo, um barracão enfermaria na contra costa da ilha. Mas dentro um pouco foi mister arranjar outra enfermaria, pois aquela já não comportava os variolosos, alugando-se então nas proximidades da praça de S. João, por indicação dos facultativos, uma casa espaçosa e própria para o indicado fim. (…).
Medidas de política sanitária adoptaram-se algumas conducentes à limpeza e asseio das ruas, quintais, poços, etc., procedendo-se também, regularmente, à inspecção dos géneros alimentícios.
As necessidades higiénicas mais palpitantes da Vila são: a sua limpeza geral e dos arredores; a construção de um cemitério com a capacidade necessária para receber indistintamente todos os mortos; e o saneamento do ponto sito na sua parte central e a oeste da Vila.”

Como poderemos verificar pelos factos relatados, embora as medidas sanitárias tomadas pelas autoridades, o número de vítimas, que foi elevado, parece estar subestimado e, por isso, longe da realidade. A epidemia não escolheu sexos, idades, estados ou classes sociais.

Nesta data - em que se aproximava a nova ocupação e exploração de África, pois, nos finais do ano de 1884, iria ter lugar a Conferência de Berlim -, no campo da política sanitária pouco se tinha feito e, quase, tudo estava, ainda, por realizar.

(1) - Antropólogo e antigo administrador dos concelhos dos Macondes, do Ibo e de Porto Amélia(Pemba).