5/10/10

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Falando do Padre Paulo e da Sociedade Missionária da Boa Nova

MENSAGEM RECEBIDA DO MISSIONÁRIO SÉRGIO CABRAL - PEMBA EM 31/10/2001:

Quero informar do falecimento do Sr. Padre Paulo no dia 25 deste mês de Dezembro, em Lisboa.

Ele tinha partido daqui de Pemba no dia 14 por questões de saúde. Ele não sofria de nenhum mal em especial, apenas estava cansado e muito stressado. Viveu a guerra bem de perto que lhe ficou bem marcada no seu íntimo. Isso causou-lhe algumas perturbações psíquicas irreparáveis até à data da sua morte.

De seguida apresento uma pequena biografia da sua vida:

"Nasceu em Vilar Seco, Vimioso, Diocese de Bragança. Foi ordenado sacerdote em Cucujães a 30 de Maio de 1957.

Foi professor nos Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Mariri, na Diocese de Pemba, Moçambique. Foi missionário nessa diocese durante 43 anos, nas paróquias de Macomia e Maria Auxiliadora, de Pemba.

Foi um dos grandes missionários do povo Maconde. Falava bem a sua língua, conhecia a sua cultura, amava profundamente o povo daquela Missão com 12000 Km2. Lá viveu duas guerras: a colonial e a civil. Foi um homem livre a capaz de fazer amigos em qualquer partido, para servir a todos. Três vezes esteve em perigo de morte, escapou por milagre e nada o fez desistir de anunciar o Evangelho e criar comunidades cristãs. Quando era impossível visitar as comunidades escrevia cartas. Quando não podia ir de carro, ia a pé. Andou milhares de quilómetros a pé, nas estradas e nas matas para animar os cristãos e fortalecer os seus catequistas e animadores.

Foi um homem simples, sereno, alegre, com grande capacidade de fazer amigos. Deu o testemunho de Cristo com a própria vida. Era profundamente devoto de Nossa Senhora.

Sofreu uma forte hemorragia cerebral ao rezar o 4º mistério do terço: Jesus a Caminho do Calvário. Ficou 24 em estado de coma, nos hospitais de Santarém e S.José, Lisboa. Aí faleceu em 25 deste mês. No dia seguinte realizou-se o seu funeral em Cucujães."
- Sérgio Cabral - Pemba, 31/10/2001.

UMA VIDA SIMPLES MOVIDA PELO AMOR - Dados Biográficos sobre o Padre Paulo:

O Padre Manuel Paulo Lopes nasceu a 22 de Março de 1930 em Vimioso, Bragança. Foi baptizado no dia 29 de Junho de 1930 e crismado a 17 de Maio de 1944. Fez a sua 1ª comunhão em 1937. Entrou na Sociedade Missionária da Boa Nova no dia 28 de Setembro de 1943 em Tomar. Foi ordenado sacerdote em 30 de Maio de 1957 e partiu para as missões em 11 de Setembro de 1958.

Depois de ter trabalhado um ano no seminário de Mariri em 1958, foi colocado em Macomia em 1959. Em 1969 passa a ser o superior da Missão. Em Dezembro de 1978 foi obrigado a deixar Macomia e a residir em Pemba.

Em 29 de Dezembro de 1981 recomeçou a residir em Macomia numa pequena casa emprestada. Nos fins de Janeiro de 1982 foi novamente obrigado a deixar Macomia por não haver Igreja. Em Maio de 1982 celebrou em Portugal o 25º aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Durante esse período foi pároco de Maria Auxiliadora.

A 16 de Abril de 1992, recomeçou as visitas à paróquia de Macomia com muito entusiasmo e dedicação.

No dia 14 de Outubro de 2001 embarcou de Pemba para Maputo e dia 19 desse mesmo mês, de Maputo para Lisboa a fim de descansar. No dia 24 sofreu um derrame cerebral multi-ramificado, vindo a falecer no dia 25 de Outubro pelas 7h00 da manhã no hospital de S. José em Lisboa. Foi sepultado no dia 26 de Outubro de 2001 em Cucujães junto dos seus colegas e irmãos da Sociedade Missionária da Boa Nova.

“O Padre Paulo impôs-se pela sua simplicidade, interesse pelo outro e pela sua sabedoria em escutar, ouvir os lamentos, as histórias, as vida dos outros.

Caminhar era a sua melhor maneira de se aproximar das pessoas. Caminhava sempre ao encontro do outro, pelas comunidades, pelos caminhos difíceis, pelas ruas. Gostava de caminhar.

O amor a Nossa Senhora era bem visível na sua devoção e piedade: o terço a Nossa Senhora de Fátima; os pastorinhos; o seu ataque, salvo milagrosamente por Nossa Senhora.

A sua paixão pela missão de Macomia não tinha limites. Amou verdadeiramente Macomia. Sofreu imenso por Macomia. Foi perseguido por Macomia. Macomia rejuvenescia-o imenso.

O trabalho na diocese como secretário foi notável. Era uma autêntica biblioteca viva. Informações históricas, casos, registos que só ele sabia, datas de interesse dos outros.

A vida do Padre Paulo entre nós não terminou. Acreditamos que ele junto de Deus, de Cristo e de Maria rogará por todos nós.

Assante Padre Paulo, pela tua palavra, sorriso, gesto...”
- P. Albino-Pemba.
 
LIDUVA LYAVALEKUA YESU (O DIA EM QUE NASCE JESUS).
 
Mensagens, cartas, e-mail´s, são feitos, existem, encurtam distâncias e aproximam o ser humano. Seu conteúdo, normalmente fica entre dois ou poucos mais interlocutores... Mas esta mensagem, (perdoe o Amigo Sérgio Cabral - seu autor) pela espontaneidade, sinceridade, actualidade e clareza de fatos vinculados a uma quadra tão típica e a locais tão especiais para todos nós, não merece ficar oculta... Por isso e à "revelia" do autor, aqui a publico integralmente, também como homenagem à dedicada doação desses abnegados e incensáveis Missionários:
 
"Antes de mais quero desejar-lhe um bom Natal embora atrasado!
Não lhe escrevi antes porque tenho andado por aí a viajar e depois o computador apanhou uma virose potente...
O Natal correu bem. Tivemos a Missa do Galo aqui na igreja de Maria Auxiliadora que durou umas 4 horas, incluindo uma pequena representação de Natal e baptismos. Como sempre as danças e os cânticos alegres tornaram esta celebração festiva ainda mais festiva. As quatro horas dentro da igreja passaram depressa de mais!!!
No dia 25 pelas 5 da manhã arrancamos eu e o P. Albino para a missão de Macomia a fim de celebrar para aqueles que estão órfãos de padre, após a morte do P. Paulo. Chegamos lá e não conseguimos celebrar na igreja por causa das abelhas, por isso tivemos de celebrar à sombra das mangueiras que ficam logo ao lado. Apesar de tudo a comunidade estava organizada e até correu bem.
O nosso almoço de Natal resumiu-se a uma sandes de atum e para matar a sede água de coco. Depois fomos celebrar a uma comunidade a 30 km de lá: Namaluco que fica entre Macomia e Quissanga, bem dentro do mato. Enquanto o Albino confessava os makondes, andei a passear e vi coisas interessantes: Andava um grupo de gente a percorrer a aldeia atrás dos batuques e de um mascarado que dançava mapiko. Então quando me viram sozinho, ali naquele sítio, aproximaram-se e fizeram uma demonstração exclusiva de mapiko para mim. Também vi uma família a fazer uma espetada de caracóis daqueles grandes que existem por aqui e diziam que era muito bom!!! Outro petisco que me aconselharam foi rato.
Quando chegamos a Macomia fomos encomendar um frango com batatas fritas no Bar Chung (Chinês) para enganar a fome que já era muita.
Nos dia seguinte também andamos por outras comunidades à volta de Macomia, nomeadamente Nova Zambézia (20kms.), Nguído (50kms.) e Chai (42kms.). Quase ninguém falava português, só o makonde! Quiseram que eu tirasse uma fotografia a um menino que estava a chegar do mato pois tinha cumprido os ritos de iniciação. Puseram-no em pé numa cadeira todo bem vestido, com um cofió na cabeça, para a fotografia todos contentes. Assisti à dança das mulheres makondes à volta dos batuques, vi grandes baterias feitas de paus e chapas, conheci a makonde mais idosa do Chai já cega, mas que não deixava de admirar-se com a presença de um branco amigo do P. Paulo e do mesmo país do P. Paulo.
Agora vejo como o P. Paulo foi um grande missionário. Nós percorremos as comunidades de carro com tracção, confortável, com música, sem percebermos nada de makonde e da cultura makonde. O P. Paulo não! Ia a pé, rasgava a mata, dormia e comia com eles sabe-se lá como? Dominava o makonde como os próprios makondes e até os ensinava. É preciso ter estômago e muita fé para se fazer o que ele fez!!!
Nós só visitamos 5 comunidades, ainda existem mais de 30 no meio daquela mata infindável, onde se pode ver as pegadas dos muitos elefantes e onde existem leões e outros animais nada benevolentes.
Como vê, o meu Natal foi assim. Longe da família, dos festejos tradicionais, do frio, das prendas, da boa comida portuguesa, mas mais perto da cultura makonde, dos ananases de Macomia, dos macacos de Macomia e enfim, mais perto da pobreza do menino Jesus que nasceu num curral espelhada naquela gente sem nada, mesmo nada.
Espero que o seu Natal tenha sido bom na companhia dos seus familiares e pessoas amigas.
Junto envio duas fotos do P. Paulo. Uma junto com outros missionários: (da esquerda para a direita) P. Zé Marques, P. Albino, Ir. Glória, Ir. Palmira, P. Paulo, Ir. João e em baixo P. Gonçalves; e outra ele sozinho.
Um grande abraço e feliz ano novo!!!
- Sérgio Cabral - Pemba, 28/12/2001 - 19h24

(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Estrada do Tempo... e as Vacas do Macedo

Pequeno "retalho" que o companheiro dos bancos escolares, António Coelho (Tó ou Namarrocolo), retirou do arquivo de sua privilegiada memória:
O Cais de Porto Amélia foi inaugurado, se não me falha a memória de uma placa comemorativa que lá havia, a 7 de Outubro de 1956, pelo presidente Craveiro Lopes, que viajou a bordo do navio Angola ou Pátria. Mas creio que foi no primeiro. Eu era para ter ido nessa viagem. Mas houve mudanças de reservas e fui no Moçambique. Cheguei à Ilha em 3/10/56, dia do aniversário do meu pai. Nessa época desembarcávamos na ilha e íamos de lancha ou de rebocador até ao Lumbo. Das lanchas até à praia éramos transportados às costas de carregadores. Em Porto Amélia também era assim antes da ponte existir, segundo me contaram. Desembarcava-se na praia da Sagal. Contaram-me também que alguns "malandrecos" davam dinheiro aos carregadores para ("sem querer") darem banho a alguns "eleitos"... Outros davam-se ao trabalho de previamente espalharem picos no local de desembarque para fazer cair o pessoal e poderem assim gozar o prato...
Enfim, recordações que o tempo ainda não apagou... Teremos mais se, como dizes, a preguiça deixar passar à escrita.
Um abraço,
- António Coelho (Luxemburgo), 16/10/2001.
APONTAMENTO - DIA DA CIDADE DE PEMBA - Esclarecendo o porquê de 18 de Outubro ser o dia oficial de Pemba:

"...Antigamente a comemoração era a 8 de Dezembro, hoje em dia é a 18 de Outubro, e tem um certo sentido como poderão verificar em seguida. Vou-vos transcrever 2 parágrafos de uma publicação intitulada "PEMBA, SUA GENTE, MITOS E A HISTÓRIA -1850 a 1960", feita pelo Luís Alvarinho, que também se baseou em documentação e dados do Arquivo Histórico de Moçambique, Boletim Oficial e Boletim da Companhia do Niassa, entre outros. "O embrião que veio dar origem à actual cidade de Pemba, data de 1857, como parcela da `Colónia 8 de Dezembro´, fundada por Jerónimo Romero e dissolvida 5 anos depois por diversos problemas de organização e adaptação dos colonos". "Porto Amélia ascende a vila por portaria de 19 de Dezembro de 1934 e é elevada à categoria de cidade em 1958 pelo decreto-lei de 18 de Outubro do Governo-Geral da Província"...
- Informação postada em 10.12.2001, no Bar da Tininha por Jorge Marabuto Bronze

Naquele tempo 1 - Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques, lá pelos idos de 1960:

Nos dias 21 e 22 do corrente, tiveram lugar nesta cidade as provas orais dos exames para admissão ao Liceu, tendo sido aprovados os alunos Adriano Manuel Vidal Lima Caseiro, Arsénio António Macedo, Aristides José da Conceição Dias, Armando Augusto Cepeda, Carlos Augusto Silva e Castro Fagulha, Eugénia Lúcia Vieira da Silva, Fernando Manuel Borges, Francisco Hipólito Rodrigues Baptista Carrilho, Jaime Luis Vieira Ferraz Gabão, Joaquim Manuel Rodrigues Luis, Maria Judith da Conceição Dias, Momade Anif Abdullatif, Momade Sidique Jussab, José Rodrigo Zamith Franco Carrilho e Judite Macoô. Ficaram reprovados 10 alunos na prova oral e da escrita haviam já sido excluidos dois. O júri destes exames era constituído pelos professores de Liceu Drs. José Júlio Ferreira Faustino, Maria Alice Casanova Duarte e Maria Amélia Sousa Neves.

Naquele Tempo 2 - Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques e publicada em 24 de Dezembro de 1971:

NOVAS INSTALAÇÕES DA GAZ-CIDLA - No passado dia 18, pelas 18,30 horas, a firma local Electro-Pamélia, Lda., inaugurou uma secção destinada, exclusivamente aos produtos da Gaz-Cidla. Ao mesmo tempo, aquela firma, iluminou grande parte da Rua Jerónimo Romero, bem como acendeu, pela primeira vez, um reclame luminoso no bar "Pólo-Sul", que dá um efeito surpreendente, dada a localização daquele bar (cimo da rampa). Aproveitando a circunstância, o sócio-gerente da Electro-Pamélia, Sr. Gaspar Pires, ofereceu aos convidados, entre os quais se contava o Presidente da Câmara Municipal, em exercício, Sr. António Baptista Carrilho e Esposa, Vogal, Sr. João Francisco. Araújo e esposa e outras entidades, um beberete que serviu de pretexto para enaltecer o interesse daquela firma na sua acção dentro do ramo a que se dedica. Assim, graças à Electro-Pamélia, a capital de Cabo Delgado também não deixou de ter, nesta quadra do Natal, parte de uma sua rua iluminada. Pena é que outros estabelecimentos não sigam o seu exemplo.

E UMA HISTÓRIA DE PORTO AMÉLIA - AS VACAS DO MACEDO - Em tempos idos, a mosca tsé-tsé, vulgo mosca-do-sono, não permitia em Cabo Delgado a vida de certos animais e complicava bastante a dos humanos. Em 1956, ano da minha chegada àquelas paragens, funcionavam ainda em certas localidades (recordo Balama e Ancuabe) os serviços da MCT ( Missão de Combate às Tripanossomíases), dirigidos pelo conhecido Dr. Carmo.
Humoristicamente, o significado de MCT era: “Moscas Continuai Tranquilas”. Contudo, foram serviços eficazes, vindo mais tarde a ser extintos por ter sido considerada erradicada essa tão perigosa doença. Consta-me que regressou em força, mas desconheço se assim é.

Quando em 1958 a família se radicou na então Porto Amélia, o único talho existente, propriedade do sr. Manuel Macedo, era abastecido a partir de Nampula, donde, uma vez por outra, eram trazidas umas quantas reses. Entre a chegada e o abate sobreviviam pastando ora junto à captação de água perto do aeroporto ora junto à marginal, no palmar da D. Inácia, no local onde, em 63/64, foram construídas as instalações da INOS, mais tarde utilizadas pela Manutenção Militar.

Situados no tempo e no espaço, permitam que recorde uma hilariante peripécia ocorrida nesses longínquos tempos e locais.
Por toda a África sopravam já os ventos da mudança e com eles chegavam os primeiros contingentes militares, totalmente constituídos por elementos nados e criados na então metrópole.

Pese embora a designação de "Caçadores Especiais", a preparação militar seria pouca e os conhecimentos de África nulos ou perto disso.

Passe o exagero, alguns estariam mesmo convictos que, naquelas paragens, abrir uma torneira equivalia a ficar com um jacaré nos braços. Mas adiante...

Após um mês de viagem, mal punham pé em terra era a procura de tudo o que durante esse tempo fora uma miragem. Deixo aos eventuais leitores a liberdade da imaginação...

Depois de muita deambulação encontraram-se uns quantos, já pela noitinha, “cara-a-cara” com as citadas vacas. Fazendo uso dos “profundos conhecimentos de África”, logo concluíram tratar-se de búfalos e nisso viram uma primeira oportunidade de dar largas aos dotes de “caçadores confirmados”, adquiridos à custa dos coelhos e perdizes da Pátria distante.

Da descoberta, à acção foi um ápice. Correm ao quartel, pegam em armas e aí vai disto que amanhã pode ser tarde...

A surpresa e a decepção tiveram-na pela manhã, quando confrontados com o gozo dos mais antigos e a obrigação de reparar os danos causados ao amigo Macedo.
Os infringidos aos pobres animais, esses já não tinham remédio...
- A. Coelho, Luxemburgo 6/12/2001.

Um jogo sobre Porto Amélia-Pemba:
->Teste seus conhecimentos sobre Pemba.

(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)