6/14/10

RETALHOS DE UM DIÁRIO - Capítulos V, VI e VII

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Capítulo I;
Capítulos II, III e IV;
Capítulo V

Afinal, largámos às seis. Levantei-me do beliche - não resisti à despedida - e pude assistir à entrada do Vera Cruz apinhado de fardas. Estava ali a imagem da geração sacrificada de um povo em ebulição, sem demandas das Índias, guerreando, agora, emancipações de outros impérios, cruzando os mares, cumprindo insistênciasditatoriais em nome de uma grandeza que as ideologias circundavam. Uma juventude a quem calhou a sorte de viver este tempo, de enterrar mortos e confortar feridos, encolher servidões mas vangloriar-se de não ter fugido – algum orgulho resistia à resignação -, sofrer anátemas históricos recusando julgamentos, imolada nos altares das hagiografias profanas sem culpas promissórias, iludida por utopias.

Depois do almoço, arrasado pelo calor e pelos nervos, o sono desligou-me de tudo, acordando com o aviso do torneio de tiro ao alvo.

Navega-se não muito afastado da costa. O céu tem a coloração do chumbo, o mar a do zinco. Adivinha-se chuva. As águas riscam-se de grossos debuxos em paralelas curvas e contra-curvas, confluindo alguns. A maresia é intensa. Escurece cada vez mais. Uma recta gigante separa as nuvens do horizonte, formando uma linda fita azul, igual às que as meninas usam para segurar as tranças. Há camaradas que, finalmente, se começam a levantar, de olhos inchados e lábios de palha. Queixam-se de dores de cabeça.

Afinal não choveu. O oceano mexe-se muito. O navio está mais inclinado para bombordo. Passou as horas, em Luanda, a carregar. Dizem os entendidos que a carga foi mal distribuída. A sopa, na sala de jantar, ondula nos pratos e, ao andar, temos que descair para estibordo. Tenho medo que esta merda vire. De um portátil, abandonado numa pérgula, a Rádio Lobito transmite fados de Coimbra. Apetece-me gritar, as lágrimas estoiram e, no negrume, fumo cigarros ao ritmo daquelas. O barco, da proa à ré, balança sem intermitências. Tremuras prolongadas percorrem-no como se se fosse partir todo, moribundo no estertor final. Recolho-me ao camarote. Contemplo o Oceano da escotilha. A ondulação assusta, cheia de força, castelos de espuma na crista, fazendo e desfazendo-se numa feroz luta de vagas que cavalgam assustadoras até estrondearem no casco, raivosas por este lhes impedir o prolongamento do tropel. Amainam, por breves segundos, em rodopio coleante, todas eriçadas, a aprestar o assalto, emitem o silvo de uma serpente, e aí vêm elas, loucas, histéricas, direitas ao meu respeito, vergastar o vidro do óculo por onde as contemplo. O vento varre os decks, insinua-se nos corredores e escadas interiores; há portas que se abrem e se fecham como num filme de terror; os ferros das camas rangem; o camarada do beliche direito lança uma imprecação, olha-me aterrado, «e se esta porcaria vai ao fundo?!», pede-me um cigarro, «por que não me raspei disto?!»; parece que o Niassa não sai do mesmo sítio, vai à frente e volta atrás, afocinha quando os pés da cama descem, ergue-se quando a cabeceira escorrega.Zonzo, de receios contraídos, adormeço, imaginando o Bartolomeu Dias, numa casca de noz, a dobrar este Cabo.
 
Capítulo VI
 
A manhã surge luminosa, o mar esverdeado, quase parado, num oposto surpreendente à tempestade de véspera. Para Lourenço Marques faltam 1397 milhas.
 
O dia corre monótono, as conversas esgotam-se; há quem leia bastante ou se arraste pelos tombadilhos; nos bares, jogam-se suecas e kings, rilham-se batatas fritase bebem-se coca-colas; engolem-se aspirinas de ressacas, olhares no vazio da lonjura, sem uma palavra, bocas cerradas e serradas por uma atormentada (in)capacidade de ir ali; alguns embrulham-se em desvanecimentos, ajanotando-se nos camuflados, dando-lhes um uso constante para os desgomarem, ansiosos por acção.
 
Uma e meia da manhã; inicio a minha ronda de serviço. Vou à ponte. A lumieira do cigarro do vigia, avivada de cada vez que vai à boca, conforta-me. Alguém vela pelo rumo deste mastodonte. A chaminé, preta e bojuda, expele espessas fumaradas rapidamente levadas pelo vento gelado; o som matraqueado dos motores, audível pelas clara-bóias levantadas da casa das máquinas, indicia o máximo da velocidade; as bocas de alguns soldados, abertas e rociadas, dormindo ao relento para fugirem do abafamento dos seus casulos, dão uma estranha sensação de desprezo humano; os mais persistentes ressonam em camas coladas umas às outras, no meio de tábuas, malas, botas, fardas e uma repulsiva pestilência de urina, suor e tintas; nos canis, os quadrúpedes mexem-se inquietos, nervosos, e um fura a noite com uivos tristes, desfazendo nas ondas o eco do cio. Vou, depois, à proa; comungo dos gemidos do vento, com o abaixo-acima daquela, o marulho da imensidão oceânica, o mar-mundo, a noite-saudade, o horizonte-ânsia; debruço-me para ver a quilha rasgando as águas num permanente acento circunflexo de espuma doirado pelo luar. O céu, sem uma mancha de pecado, e a lua, metálica, recitam poemas de inocência; as estrelas, de vidro, dão um ambiente de cabaret a esta noite que não é minha. Olho para longe, para bem longe, a ver se algo diferente me surge, e nada, só uma vertigem de vazio. “E se o barco fosse mesmo ao fundo? O que é um gigante para o gigantesco? Ao fim e ao cabo, o mar brinca com estas toneladas todas, se lhe dá na irracionalidade eleva-as, volteia-as quantas vezes quiser e manda-nos todos a correr para os botes que não vão valer de nada; ficaríamos para a história colados nas profundezas”, penso, enquanto tusso cheio de tabaco. Os decks são parlatório de sonos desencontrados; das amuradas, corpos debruçam-se de olhos fitos na babugem que se preme contra o aço. Passa o sereno, feito guarda-nocturno do silêncio, enquanto o leme automático faz o bingo das milhas do dia seguinte. Coam-se as minhas lembranças remedidas no tempo: aquele seco edital, afixado na porta da mercearia onde em criança comprava cartuchos de rebuçados, a convocar-me para Mafra, arrancando-me de Coimbra como um dente a sangue frio; aquela chegada de Janeiro, sob um temporal desfeito que mal dava para descortinar o Convento, a entrada por uma porta lateral onde choquei com armas ensarilhadas num bivaqu interior, as redes de camuflagem, o bolor dos corredores transformados em catacumbas de martírios antigos repetidos, o cheiro a mofo das casernas se desabitadas há séculos estivessem, a luz minguada das lâmpadas escurecidas, o engraxar, com cuspe, das botas e dos polainitos, os cabelos à escovinha, o rastejar sob o arame farpado, os saltos para o galho, o equilibrismo do pórtico, a dança de gatos nas cordas sobre a Lagoa, os tiros nos alvos em carreira, o rebolar nas escadarias, as emboscadas na Tapada, os crosses para a Ericeira, os dias e as noites das cercanias torrejanas, acartando, às costas, um transmissor rádio, de castigo por singelos falares caprichosamente interditados, até o Capitão-castigador, num clarão de remorso, me mandar pousar o fardo no jeep.
 
Ao longe, muito longe, diviso uma luz. Será um barco ou algum ponto da costa sul africana?
 
Capítulo VII
 
O Chefe de Mesa, mal me sento para almoçar, entrega-me um rádiotelegrama: a minha Mãe continuava a rezar por mim. Levanto-me e vou encher o mar. O Capelão, aparecendo não sei de onde, abraça-me e convida-me para a sua mesa. Se há Padres abençoados este é um deles. O Padre João ensinou-me que maisimportante do que aquilo que se diz é o que se ouve. Passamos a tarde a discutir Deus e a Fé. Se necessitasse de conversão, converso ficava.
 
Navegamos com a costa da África do Sul à vista. Aquela luzinha que ontem vira era já um indício dela. Um avião, em reconhecimento, sobrevoou-nos por pouco tempo. Escurece. East London, já iluminada, franqueia-se por entre a poalha. Um farol manda avisos sucessivos, desenhando cones de luz. Pontos brilhantes, como velinhas alinhadas, idealizam uma extensa marginal; os binóculos passam de mão em mão e podem-se ver os faróis dos carros.
 
Venho para a Turística onde funciona a Secretaria Militar. Sento-me a uma mesa e escrevo um maço de aerogramas. O Niassa parece um balancé. Os pratos no comedor retinem como grilos em noite de Verão; as cadeiras giratórias fazem cento e oitenta graus porque, fixas no meio, não podem fazer trezentos e sessenta; caem papéis e furadores e esferográficas e livros de registos (as máquinas de escrever estão pousadas no chão) e cinzeiros e óculos e... O sereno desabafa e historia:
 
- Há trinta e sete anos que ando no mar e, em vez de me darem a reforma que mereço, puseram-me de sereno. Veja só: sereno! - pronunciando a palavra com desdém, enquanto tirava um Português Suave. - Passei neste Niassa temporais medonhos! Olhe, numa ocasião, em Leixões, estivemos três dias a apanhar nas trombas que foi um disparate! As vagas batiam neste costado – apontando as vigias – que pareciam fragas! Foi num Carnaval, veja bem o carnaval que nos deram! Sem passageiros, com apenas vinte toneladas de melaço no porão, isto era um brinquedo! Não entrámos na doca nem por nada. O Pátria e o Império foram, como tiros, para Vigo e nós, ali, a apanharmos porrada! Conseguimos virar para Lisboa, mas, por azar, a barra estava fechada. Navegámos a Sesimbra, demos a volta, e conseguimos apanhar mar e vento a favor. Foi o que nos safou, porque, quando não, tínhamos ido para o charco nesses dias. Quando fomos a dar conta, estávamos em Belém – gargalhando – com as máquinas paradas. Depois, um rebocador lá nos levou sãos e salvos. O quê?! Temporal aquilo?! O que nós apanhámos no Cabo foi um mar normalíssimo. (Não sei se ele notou o meu espanto). Isto, quando agarra mesmo temporal, parece um submarino! O que mais pedia, quando saímos de Lisboa, era que, no Cabo, estivesse o mar que esteve. Olha!, olha!, se visse em Leixões! Estas cadeiras e estas mesas escaqueiraram-se contra estas paredes como ovos! Sabe lá...
 
Levanta-se para ir à cozinha escorar a copa. O sereno, encaixado nos seus sessenta e sete anos de vida e trinta e sete de mar, senta-se de novo. Deixo-o no seu trabalho de numerar os cartões dos beliches. Fecho a porta, ele começa a assobiar.
 
Durban desponta de madrugada. Ao começo, umas luzes dispersas e envergonhadas, depois, clarões alaranjados de fábricas enormes. Uma cordilheira emerge e um farol (há imensos ao longo da costa Sul Africana), incansável, silva. Percorreram-se, a uma velocidade de 14,4 nós, nas últimas 24 horas, 346 milhas. Lourenço Marques estava a 39.
Continua...

- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória.

6/09/10

RETALHOS DE UM DIÁRIO - Capítulos II, III e IV

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Capítulo I
Capítulo II

Eram nove horas quando passámos as Canárias. Foi o primeiro sinal de terra depois de Lisboa: sombras longínquas emergindo na imensidão, ponteadas por silhuetas de casario, rapidamente engolidas pela fita do horizonte.

Regressámos, após o aturdimento, aos lugares de rotina, aos cigarros, aos livros, às conversas do mais-valia-estares-calado, à modorrice das cadeiras de lona, ao anedotário forçado, à cegueira do mar.

Gastam-se, nos bares, os escudos em pulseiras, isqueiros, mas, principalmente, em muita cerveja.

O Pimentel, meio careca, olhos encovados, nariz de periquito, lábios talhados a navalha, queixo caindo desajeitadamente, falar nervoso, empurrando constantemente os óculos para cima, manifesta a sua nevrose ulceróide.

- Esta comida mata-me. Trago uma tonelada de medicamentos, mas não me vão valer um corno. Só a leite não me safo.
- Admira-me como estás aqui.
- Não tive empenhos de ninguém. No hospital da Estrela disseram-me que a tropa cura tudo. Nem a uma Junta Médica me propuseram. Chegando lá, vou direitinho para o hospital. Nem que me faça de doido.

Majores e Capitães discutem, em grupo, a fazerem horas para a segunda mesa que é às dezanove e trinta. Distingo pequeninas luzes, pirilampos sobre o mar. Estamos a entrar no golfo da Guiné, o calor é sufocante. A nossa posição está afixada no átrio da primeira classe: latitude – 27 06º norte; longitude – 15 21º oeste; distância percorrida em 24 horas – 377 milhas; a navegar – 3339 milhas; velocidade – 15,7 nós.

Hoje há cinema. O écran é um pano branco preso ao mastro da ré, onde o Kirk Douglas vence leões perante o ar desolado de um deprimente Calígula.

Visito a casa das máquinas: seis cilindros trabalham incessantemente, os êmbolos sobem e descem em tão impressionante velocidade que os julgamos parados; um moço guedelhudo, com óleo a brilhar em todo o corpo, é incansável na limpeza, fazendo rodopiar o desperdício. Umas escadas abaixo, o circuito emaranhado de tubos não deixa perceber o princípio e o fim daquilo. Peço uma explicação a um homem de meia idade, responde-me seco e rápido, mal o escutando no meio daquele barulho gigantesco. Ofereço-lhe o ouvido e vira-me as costas. Não entendo como ele compreendeu a minha pergunta. A certeza de que, onde estou, já é dentro de água, sufoca-me. Fujo cá para cima. Na proa, deixo-me vergastar pelo vento e pelas gotículas de espuma que se elevam do refluxo das vagas.

Capítulo III

A vaga larga deixou-nos, regressaram as ondas pequenas como bichos carpinteiros. Aparecem, por onde passo, manchas de vómitos que dão uma imagem de náusea, de ruínas, de vida destoante, de apetites estragados. A enfermaria já tem doentes e os médicos que vão a bordo dão consultas em qualquer ponto de encontro. O calor aperta mais, abafa num cheiro de mistura de suor, restos de comida e pestilência latrinária que umas breves bátegas graúdas não desfizeram, pois o sol, escaldante, seca tudo mais depressa do que demora a dizer.

O barco está a andar menos; o mar, mais cavado, não ajuda; a ventania sopra forte de caras à proa; as ondas, arredadas para os lados, sobem mais que o normal. Quem estiver na vante, suportando o terrível balanço, e olhar para a torre de comando, vê-a desaparecer e aparecer num movimento de mandíbula gigante. Peixes voadores, em volúvel desafio, acompanham-nos durante algum tempo. O céu, sem princípio nem fim, de uma chocante amplidão, reduz-nos a um ínfimo incontrariável; a lua, de um limpo imaculado e definível, consente-nos um deslumbramento; as estrelas, débeis e humildes, ameaçam apagar-se à mais pequena aragem, embora tenham um brilho de gelo.

Passei no hospital, em cuja morgue o corpo de um velho tripulante – de coração gasto por tantas viagens - aguarda a chegada a Luanda para depois regressar ao chão da sua origem. Nos porões, os soldados são obrigados a dormir nus para melhor resistirem ao calor que nem uns tubos de pano enfunados conseguem amaciar.

Atravessou-se o Equador às quatro da manhã com o barco envolto no sono, sem as costumeiras festas comemorativas. Ainda bem, detesto alegrias preparadas e bebedeiras gratuitas. Não durmo. Estou recostado numa cadeira do deck-A, olhando a escuridão uivante, os salpicos do mar a caírem-me aos pés, uma desumanidade sinistra. O baloiçar lembra-me um carro numa estrada de lombas, a proa e a popa jogam o tu-cá tu-lá, ora é esta a levantar e aquela a afocinhar ou vice – versa. Aqui vou eu, neste túmulo enorme, numa submissão compressora, só mar e céu, longe de tudo, dos meus, dos afectos, das fragrâncias dos vinhedos, do suor dos cavadores, do ar suspenso no cair do dia, dos ecos dos remoques, do ladrar dos cães aos ébrios da noite.

As ondas vergastam o casco, entoam como murros de raiva, metem medo; o vento, de leste, nem deixa acender um cigarro. Recolho-me ao beliche com a preocupação de não acordar o parceiro do lado.

Capitulo IV

Informam-nos que já se passara S. Tomé e Príncipe sem avistar vivalma.

A nossa posição: latitude – 08 22º Sul; longitude – 12 40º Este; distância navegada nas últimas 23 horas (resultante do adiantamento de uma): 344 milhas; velocidade: 15 nós; a navegar (até Luanda): 46 milhas.

Na noite anterior, quando dávamos mais uma volta aos ponteiros dos relógios, vimos, a uma alegre distância, os holofotes da fragata que nos começou a escoltar. Os seus sinais de luzes foram correspondidos com uma algazarra que mais parecia um grito de libertação. A ansiedade tomou conta de todos e o resto da noite foi um prolongamento daquela.

Ao meio-dia arrearam a escada do portaló. Há um frémito de emoção. Na lonjura, uma mancha escura surge por entre uma neblina refractada. A orquestra de bordo toca. Os bares não têm descanso: pedem-se martinis e cubas libres atulhados de gelo, bebem-se as cervejas pelo gargalo, há muitas asas e muitos grãos, berros avulsos de nervosismo. Penduram-se, ao pescoço, máquinas vulgares e outras sofisticadas, lembram-se parentescos a viver em Luanda e arquitectam-se barrigadas de camarão. A fragata apita, corre paralela, deixa-se retardar, os marinheiros perfilam-se e acenam com os bonés. Um prazer de companheirismo flutua no mar. Vamo-nos aproximando de Luanda. O Niassa tem os varandins repletos, nem uma nesga por onde os atrasados possam espreitar. Dois gasolinas, um cheio de raparigas esplendorosas, outro com um careca de barriga inchada, aceleram e afastam-se. A lancha dos pilotos esfaqueia as águas. Ouve-se, distintamente, a desaceleração do navio. A escada desce, ainda mais, quase roçando as águas. O Comissário, na plataforma da ponte, de rádio na mão, transmite instruções, recebe o piloto que guiará o barco até à acostagem. Dois rebocadores, o Quitexe e o Bero, contornamnos e colocam-se a bombordo. O piloto, na torre de comando, dá àqueles, por intercomunicador, ordens de marinhagem. O Quitexe dirige-se, então, para a popalado-bombordo e encosta, suavemente, a bossa. O Bero, por sua vez, apressa os motores, lançando uma fumarada espessa, dirige-se para a frente da proa, dois negros atam o cabo à amura, e aquele afasta-se, esbaforido, como se receasse ser esmagado pelo Niassa. O Quitexe, esse, continua, na ré, a empurrar, comprimindo a bossa contra o costado.

Entre os militares, a bordo, e algumas pessoas que estão no cais, iniciam-se reconhecimentos recíprocos; é uma confusão sem domínio, parece que tudo acabou aqui. A amarração está feita. Rondas de polícias militares, garbosos, de camuflados passados a ferro e lencinhos ao pescoço, erectos e peneirentos, fazem a segurança na zona do paredão. Começa a descida, os cartões de autorização amarrotados nas mãos.

Percorro a meia lua da marginal de lindas palmeiras. À sombra destas alinham-se bancos para saborear a brisa. Gozo, ao fim de tantos dias, o caminhar sobre a terra, meio tonto, desabituado, lançando, em redor, os olhos esfomeados. Não há um táxi; continuo a pé. Observo os prédios airosos, geométricos e alinhados; carros descapotáveis no passeio domingueiro, cabelos ao vento como se quisessem despegar-se das cabeças. Não é possível! Onde está a guerra? Nos sinais: jeeps cheios de camuflados e G-3 cruzam-se no à vontade de terra vigiada, olham-nos trocistas, com aquele ar superior de velhice guerreira.

- Leve-nos à baixa – todas as cidades têm uma baixa -, peço ao condutor, finalmente conseguido, um mulato corpulento que sorri à solicitação.

Quinze angolares saldam a corrida. Entrámos, eu e os meus acompanhantes, num restaurante com nome transmontano. O empregado que nos atendeu, quando soube de onde éramos, confessou-se:

- Vim para cá em 63, estive no Norte, e, quando estava para embarcar, resolvi ficar. Gosto disto, mas já tenho – pondo a mão no peito- um aperto aqui. Talvez vá lá no Natal.

Pagamos a conta e despedimo-nos. Em novo táxi, fomos para a Ilha: barracas, numeradas a cal, ladeiam a estrada da restinga; velhos, de barbicha branca, defumam a idade; na areia, sob a chapada do sol, crianças brincam com pneus lisos; nas esplanadas, barbecus domingueiros incendeiam o ar com aromas de churrascos; trinca-se, na espera, marisco acompanhado com uísques e cervejas geladas num deguste vagaroso; vivendas luxuosas, com espampanantes carros à porta, dão um tom de capitalismo ávido, a que não falta o moleque de uniforme branco; nas ruas, alcatroadas ou de terra batida, gingam negras de filhos às costas e sorrisos de neve.

Regressei ao Centro do trânsito caótico. Fui aos Correios mandar um telegrama para casa, olhei a Fortaleza, não dava para lá ir, imaginei os caminhos do Grafanil, lugar lendário da tropa, e dirigi-me para o morro dos musseques onde havia zaragatas no ar, procuras de sexo, olhares suspeitos, correrias persecutórias, odores intensos de catinga e petróleo queimado, uma viração deletéria.

O Niassa desamarraria pelas duas da madrugada. Relanço um último olhar a Luanda, aos seus lambrequins arquitectónicos em que, diante de uma baía serena como um lago, se misturam as origens lusas e as raízes naturais numa garridice cativante.

Subi para o barco numa desilusão de fim de festa. Ainda vi meter o caixão, com o tripulante falecido, num Land-Rover com as cores e o nome da companhia de navegação a que pertence o Niassa. Fui-me deitar, não querendo, sequer, escutar o urro que o barco dá ao partir.
Continua...

- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória.