8/02/07

Diversificando - Transformação de uma mulher...

O milagre do Photoshop:

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8/01/07

MOÇAMBIQUE/Cabo Delgado: Os velhos ritos de iniciação no mundo de hoje.

Pemba, 23 Julho 2007 (PlusNews) - Aprendi a circuncisar com um velho nekanga (mestre) em Nangade, no norte de Cabo Delgado. Foi em 1983, antes da Sida. O velho podia circuncidar até cem crianças duma vez. Primeiro evocava os antepassados. Seguia uma noite de dança. No outro dia, por volta das 14 horas, recolhia as crianças no mato, a três quilómetros da aldeia. Com o rabo de um animal traçava um círculo mágico no chão, onde não entravam animais predadores, e onde fazia o ritual. Ele usava um método rude: dois ou três adultos imobilizavam a criança, ele estirava o prepúcio, cortava, e colocava na boca. Isto era parte do rito, que lhe dava um poder sobrenatural. Quando acabava com todas as crianças, ele tirava os prepúcios da boca, colocava numa tigela, e levava. Não sei o que fazia com aquilo.
Alegria das mães
Desde que estudei para técnico de medicina, na cidade da Beira, sempre me interessei pela cirurgia – drenar abscessos, extrair dentes. Mais tarde fui transferido para a ilha do Ibo, ao norte de Pemba, onde trabalhei nos programas de lepra e malária junto aos líderes comunitários. Ouvi falar da Sida pela primeira vez em 1985, quando morreu um médico estrangeiro em Cabo Delgado. Foi a primeira morte de Sida no país, e muito divulgada. Em 1986, num seminário, aprendi sobre a Sida, a importância do material limpo e seleccionado, e o controlo das crianças. Em 2002 fui transferido para Pemba, a capital provincial. Aqui começou a crescer o número de clientes que me procuram. De Outubro a Janeiro, quando é tradicional fazer a circuncisão, posso ter ate 15 crianças durante um fim-de-semana - este é o número máximo que eu admito. Quando os pais preferem chamar um curandeiro, eu falo com ele, explico a importância da higiene e do controlo, verifico a limpeza do seu material, entrego pensos, luvas e desinfectante. Pode ser outro curandeiro a cortar, mas eu faço a desinfecção, os pensos e o controle. Os meus cortes cicatrizam em 15 dias; aquelas do velho nekanga demoravam 60. Meu filho cicatrizou em dez dias; ele tinha quatro anos quando eu o circuncidei. As mães ficam felizes quando eu devolvo os seus filhos saudáveis. Oferecem-me kapulanas e dinheiro, mas o melhor é ver a alegria delas ao verem os filhos sãos e limpos. É uma grande festa quando a criança volta; compram-lhe roupa nova, oferecem material escolar ou dinheiro. Estes valores continuam hoje. Durante o ritual de iniciação as crianças aprendem a respeitar os pais e os velhos, e as cerimônias dos funerais. Durante este tempo as famílias se unem, esquecem das brigas entre elas. Além disso, a circuncisão conserva os genitais limpos e evita a aparição de chancros e doenças transmissíveis sexualmente. Alguns dias antes da circuncisão examino a criança para ver se há sarna, malária ou anemia, e trato isto. Cobro cem meticais (quatro dólares); a metade é o custo do material, porque eu preparo um kit para cada criança. O procedimento em si leva uns sete minutos. Primeiro tranquilizo a criança, falando com ela. Desinfecto a zona e injecto a novocaína no prepúcio. Puxo, corto, e faço a sutura. Agora pode mirar, já está feito, digo a criança - e ela fica surpreendida, os pais também. É um procedimento muito bonito e eu faço com orgulho.
Tema(s): (IRIN)
Artes/Cultura, (IRIN) Prevenção. In - Plus News África

MOÇAMBIQUE/Cabo Delgado: Separar-se do prepúcio é elemento central da masculinidade.

Pemba, 23 Julho 2007 (PlusNews) - Silvestre João tem lembranças boas e outras menos boas de sua circuncisão. “Vamos comer mel no mato”, lhe disse seu pai quando ele tinha nove anos. Tinha muito mel, e mais: kumbi, o ritual de iniciação dos makhuwa, grupo étnico da costa norte do Moçambique. O menino passou seis meses no mato com um grupo de outras crianças e adultos, todos homens. Ele se desfez de seu prepúcio e aprendeu sobre sua cultura. As más lembranças são “a dor horrível durante o primeiro dia; e uma infecção que levou dois meses para sanar”. As boas são “brincar nus nos arbustos, catar côcos, nadar na lagoa, aprender canções e lendas com os mais velhos.” Seu padrinho – um parente homem que não volta para casa nem faz sexo até que o menino tenha sanado – ficou com ele o tempo todo, espantando as moscas da ferida. Quando Silvestre voltou para casa, a família e os vizinhos comemoraram e lhe compraram livros e canetas para a escola. Agora ele fazia parte da comunidade: como um makhuwa – o maior grupo étnico do Moçambique – um muçulmano, e um homem. Isto foi em 1972. O rapaz cresceu e se tornou enfermeiro. Hoje, Silvestre, com 44 anos, mora em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. De Outubro a Fevereiro, meses tradicionais do kumbi, ele é muito solicitado para fazer circuncisões, mas de maneira mais segura do que foi feita a sua.“Os valores da circuncisão ainda persistem”, disse ele ao PlusNews. Hoje, os iniciados passam menos tempo no mato ou têm um médico para cortar o prepúcio, mas o triplo significado – etnicidade, religião e masculinidade – ainda faz com que a circuncisão seja muito importante aqui.
Camadas de significados
Rafael da Conceição, antropólogo da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, capital do Moçambique, e autor de um livro sobre as identidades culturais no norte do país, disse que a circuncisão é essencial para a masculinidade. Um homem não circuncidado é proibido de participar das atividades culturais importantes reservadas aos homens, tais como enterros e rituais ancestrais. “Isto significa que ele será vulnerável à agressão dos espíritos maléficos ou de ancestrais irados”, disse Conceição. “Ele não será completamente integrado no mundo masculino.” As mulheres do norte do Moçambique gostam de homens circuncidados. “Um pênis não circuncidado não é bom. O prepúcio cheira mal, mesmo que o homem se lave muitas vezes, e as mulheres não querem fazer sexo com estes homens”, disse Marta Januário Licuco, ativista pelos direitos da mulher e muçulmana. Se uma jovem do norte namora um homem do sul, sua avó vai alertá-la sobre a possibilidade de o rapaz não ser circuncidado. Segue uma campanha para persuadi-lo a se circuncidar. Pode levar anos, mesmo após o casamento, mas a pressão continuará, sutilmente, incessantemente. “O homem não circuncidado tem vergonha de tirar a roupa, ele vai apagar a luz antes de ir para a cama, ele se sente anormal”, disse Licuco. Licuco usa um véu azul turquesa e um vestido até os tornozelos. Marisia Jacinto, 20 anos, usa um jeans apertado e uma blusa de alcinhas, mas as duas partilham a mesma opinião sobre os homens não circuncidados. “Eu não aceitaria um homem assim – eu o levaria ao médico”, disse Jacinto. Em Cabo Delgado a maioria da população é muçulmana, e o Islã exige a circuncisão masculina, então o ritual do kumbi se sobrepõe à religião. Para o Sheik Muhamade Abdulai Cheba, diretor provincial das madrassas, ou escolas islâmicas, a circuncisão apresenta muitas vantagens: “Ela previne infecções e lesões; ela melhora a qualidade do casamento porque os dois parceiros sentem mais, e o sexo é sadio.”
Kumbi seguro
Kumbi tem vantagens – e perigos. Os nekangas (mestres da circuncisão) às vezes usam a mesma lâmina para vários rapazes sem esterilizá-la. Se há complicações, eles usam remédios tradicionais. “As ervas às vezes funcionam, e às vezes pioram as coisas”, disse Egídio Langa, diretor do Hospital Central de Pemba, cidade de 100 mil habitantes. As complicações pós-circuncisão aparecem mais nos centros de saúde dos distritos ou da periferia do que nos centros urbanos. Em 2006, Langa era o diretor do distrito de Montepuez, a 170 quilômetros de Pemba, quando líderes da comunidade, preocupados com a segurança do kumbi, vieram procurá-lo. “Eles falaram de hemorragias, febre e até morte”, contou. Ele enviou equipes de enfermeiros a todo o distrito. Durante os dois meses seguintes, eles treinaram os nekangas sobre higiene, forneceram material médico, pediram as listas dos rapazes prontos para a cerimônia e solicitaram que fossem trazidos ao posto de saúde mais próximo, onde enfermeiros treinados operaram diariamente de 50 a 60 meninos de sete a 13 anos. “A experiência foi bem aceita”, disse Langa. “Com um pequeno orçamento conseguimos reduzir um grande risco, aumentamos a proteção contra doenças sexualmente transmissíveis e tornamos a circuncisão segura.” Graças ao sucesso desta experiência, o Núcleo Provincial de Combate à Sida tem a intenção de treinar nekangas sobre a prevenção do HIV entre Julho e Setembro. “Kumbi é um período de transmissão cultural intensa, mas, até agora, as nossas mensagens de prevenção não utilizaram este canal”, disse o responsável pelo Núcleo, Toles Manuel Jemuce.
Correlação?
Segundo dados do governo, 56 por cento dos homens do país são circuncidados. Em Nampula, Cabo Delgado e Niassa, principais províncias muçulmanas onde vivem os Makhuwa, ela é quase universal. Em Inhambane, província majoritariamente cristã, os grupos étnicos Chope e Bitonga também a praticam. Langa, que vem de Inhambane e foi circuncidado quando era criança, disse que a prática da circuncisão estava sendo difundida através dos casamentos mistos. Estudos recentes efetuados na Uganda e na África do Sul indicam que a circuncisão masculina pode oferecer uma proteção de até 60 por cento contra o HIV. Especialistas notaram que as províncias moçambicanas com as menores seroprevalências são aquelas onde a circuncisão masculina é largamente praticada. No entanto, o baixo consumo de álcool e o controle social e sexual mais estrito entre os muçulmanos possam ser um outro fator.
Prós e contras
Elias Cossa, assessor de imprensa do Conselho Nacional de Combate ao HIV/Sida (CNCS), disse que Moçambique definiria sua política nacional sobre a circuncisão masculina antes do final do ano, e que esta medida seria seguida de uma avaliação de viabilidade. Certos ativistas argumentam que um programa de circuncisão desviaria recursos financeiros e humanos já escassos de um sistema de saúde pública sobrecarregado com a Sida, em um país que conta com menos de dez cirurgiões e ainda menos urologistas para uma população de quase 20 milhões. “O tratamento antiretroviral é prioritário. Tratar o paciente é mais importante que circuncidá-lo, porque uma pessoa saudável será capaz de sustentar sua família e protegê-la do HIV”, disse Julio Ramos Mujojo, secretário executivo da Rede Nacional de Associações de Pessoas Vivendo com HIV/Sida (Rensida). Outros ativistas preocupam-se com as implicações culturais e étnicas de um programa de circuncisão. “Poderia ser interpretado como uma maneira de forçar as pessoas a mudarem de religião”, disse Antoninho Cheia Inglês, coordenador do Fórum das ONGs de Cabo Delgado (FOCADE).
Mantendo a tradição
Trinta anos depois do kumbi de João, foi a vez de Buane Chande, 11 anos. Ele também tem boas e não tão boas lembranças dos três meses que passou no mato em 2001. As más lembranças são “a dor, até que passou, ficar longe de minha mãe, e os mosquitos”; as boas, são “brincar, nadar no rio, ouvir as canções e as histórias dos mais velhos.” Quando Chande voltou para casa, “todo mundo estava feliz”, as mulheres ululavam; mataram uma galinha e fizeram uma festa. “Sem o kumbi, os homens não sabem como enfrentar a vida”, disse ele ao PlusNews. “Um colega de escola que não passou pelo kumbi não é bem aceito. Ele continua sendo uma criança, mesmo que tenha 18 anos.” Chande agora tem 17 anos e está acabando o liceu em Pemba. Ser pai ainda está longe, mas ele não tem nenhuma dúvida de que seus filhos vão passar pelo kumbi.
% da circuncisão masculina por província em Moçambique:
TETE
8%
MAPUTO PROVÍNCIA
58%
MANICA
13%
NIASSA
88%
SOFALA
16%
INHAMBANE
89%
GAZA
21%
CABO DELGADO
93%
ZAMBÉZIA
49%
NAMPULA
95%
MAPUTO CIDADE
55%
Fonte: CNCS

7/31/07

Cabo Delgado - Estradas e electrificação...

A província de Cabo Delgado precisa de uma maior intervenção e reforço do Governo central para alcançar as metas inscritas no quadro do plano quinquenal do Executivo, principalmente para as estradas e expansão da rede de energia eléctrica. A Primeira-Ministra, Luísa Diogo, considera que a expansão da rede de energia pode viabilizar o desenvolvimento das telecomunicações e o sector da Educação, a partir da introdução de cursos nocturnos, a Saúde, que poderá conservar convenientemente as vacinas, o turismo, actualmente tido como dos potenciais contribuintes para a receita da província, entre outros.
Na opinião da PM, que recentemente esteve em Pemba, particularmente o problema da energia eléctrica deve ser resolvido, com um acompanhamento cerrado dos órgãos centrais. Ela prometeu que tal vai acontecer, porque reconhece que a província está a fazer aquilo que está ao seu alcance.
“A província faz aquilo que pode, que é fazer o acompanhamento e de nos alertar sobre determinadas questões ligadas ao programa do Governo. Nós, a nível central, temos que ver se o trabalho de electrificação está a acontecer no terreno ao ritmo que desejamos ou não”, disse.
Por outro lado, Luísa Diogo entende que há outros desafios a enfrentar em Cabo Delgado, entre os quais o abastecimento de água ao chamado “Planalto dos Macondes”, que integra os distritos de Mueda, Nangade e Muidumbe, que considerou uma grande preocupação do Executivo.
“Há distritos onde 50 porcento da população ainda não tem água, muito embora a província esteja a fazer um trabalho extraordinário em relação à construção de pequenos sistemas e abertura de furos. É preciso fazer mais, porque as pessoas percorrem grandes distâncias para trazer água para o seu sustento”, disse.
Este facto contrasta com a realidade segundo a qual, e de acordo com a primeira-ministra, a província tem uma taxa de cobertura de abastecimento de água acima de algumas no país, cerca de 50 porcento.
Também fazem parte do grupo de questões que são pontos de penumbra do cumprimento do programa quinquenal do Governo em Cabo Delgado as estradas e pontes e as telecomunicações, que a PM acredita poderem ser ultrapassadas se for resolvido o problema da electrificação.
Porém, impressionou à primeira-ministra o crescimento que é notável na província, tendo como aspectos de realce o cumprimento das orientações deixadas pelo Presidente da República na sua última visita, em Abril último. Entre tais tarefas constam as ligadas à transformação da escola como unidade produtiva, através da aplicação do princípio “um aluno/uma planta” e a colocação de quadros qualificados nos distritos, tendo em conta que estes são pólos de desenvolvimento.
Maputo, Terça-Feira, 31 de Julho de 2007:: Notícias

7/30/07

Ronda pelos blogues - O "Ma-Schamba" do JPT e o "Xicuembo" do Carlos Gil.

O Moçambique de Carlos Gil transcrito no Ma-Schamba:
Já passaram anos desde que o Carlos Gil editou o seu Xicuembo, memórias daqui e não só, uma imensidão de saudades daqui, uma coisa que em blog e no livro sempre parece a entreolhar um qualquer outro talvez:
"Para mim, o Aeroporto de Mavalane foi só uma porta de saída, atrás dela ficou uma vida que podia ter sido talvez assim, e hoje é, naturalmente, assado". (116)
Ler o Gil, e para além do encanto de ver como as vezes aparece mesmo nu lá no meio das páginas, é ler essas saudades de um outro tempo mocambicano, saudades pesadas até. Mas nunca saudosistas, um olhar para tràs mas sem lá querer estar:
"Nunca ouvi falar num negro milionário no período colonial. Agora, parece que os há aos pontapés e, por infeliz norma, aceito que a regra é obtida com percursos escuros nesse enriquecimento pessoal, em detrimento dum país que já foi o mais pobre do mundo. Só que, antes, não se conhecia ou ouvia falar de algum. Zero. Classe média? Só se for média lá para o muito baixo, a roçar o nível do desenrascanso diário. E isto na cidade e sua periferia, pois não recordo antes do final de 1974 qualquer negro a viver nas “Polanas” das cidades de Moçambique. (...) Tanta coisa que estava errada e só em 25 de Abril de 1974 se tornou visível para uma certa população que olhava, no seu global, só de soslaio para as injustiças que, sob esses olhos, corriam a céu aberto, Eu, inclusive. "(76-78)
Depois, as saudades dão-lhe também para moralizar. E ai discordamos no tom - e ainda bem, que isto de concordar em tudo daria em nada:
"Todos nós, hemisfério norte europeu, branco e rico, devemos algo muito importante a África, negra e pobre. Durante séculos foi o nosso quintal de férias e banco estrangeiro, a Europa possui obrigações que secular incúria gerou, e não pode olvidá-las"(121)
(Carlos Gil, Xicuembo, Pé de Página, 2005)

7/28/07

IMBONDEIRO - Árvore de Moçambique e de África ao som de uma marrabenta...

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IMBONDEIRO ou EMBONDEIRO em Moçambique ou BAOBÁ no Brasil.

O baobá, uma árvore de grande porte proveniente das estepes africanas e regiões semi-áridas de Madagascar, possui o nome científico de Adansonia digitata L.. A árvore existe, ainda, no continente australiano, e essa espécie é chamada Adansonia fony.
O baobá possui um tronco muito espesso na base, chegando a atingir até nove metros de diâmetro. O seu tronco vai se estreitando em forma de cone e apresenta grandes protuberâncias. As folhas brotam entre os meses de julho e janeiro, mas, se a árvore conseguir ficar umedecida, elas podem se manter durante todo o ano. Em geral, o baobá floresce durante uma única noite, apenas, no período de maio a agosto. Durante as poucas horas da abertura das flores, os consumidores de néctares noturnos - particularmente os morcegos -, procuram assegurar a polinização da planta.
Esse colosso vegetal pode atingir trinta metros de altura, e possui a capacidade de armazenar, em seu caule gigante, até 120.000 litros de água. Por tal razão, é denominada, também, de "árvore garrafa". No Senegal, o baobá é considerado como sagrado, inspirando poesias, ritos e lendas.
Segundo uma antiga lenda africana, por exemplo, uma vez que um morto seja sepultado dentro de um baobá, a sua alma irá viver enquanto a planta existir. E, curiosamente, essa árvore tem uma vida muito longa: entre um e seis mil anos. Em se tratando das espécies vegetais, só a seqüoia e o cedro japonês podem competir com a longevidade do baobá. Cabe salientar que essa planta foi amplamente divulgada no século XX, através da obra O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupery.
Em 1445, os navegantes portugueses conduzidos por Gomes Piers chegaram à ilha de Gorée, onde descobriram o brasão de Dom Henrique gravado em árvores. Na metade do século XV, o cronista Gomes de Eanes Zurara assim descreveu a árvore em Chronica dos Feitos de Guiné (Lisboa, 1453): " Árvores muito grandes e de aparência estranha; entre elas, algumas tinham desenvolvido um cinturão de 108 palmos a seu pé (ao redor 25 metros). O tronco de um baobá não mais alto do que o tronco de uma árvore de noz; rende uma fibra forte usada para cordas e pano; queima da mesma maneira como linho. Tem um grande fruta lenhosa como abóbora cujas sementes são do tamanho de avelãs; pessoas locais comem a fruta quando verde, secam as sementes e armazenam uma grande quantidade delas ".
Antes de 1500, o baobá não existia na flora brasileira. A hipótese mais plausível para a sua presença em Pernambuco é a de que tenha sido trazida pelo conde Maurício de Nassau, no século XVII, durante a invasão holandesa, com o objetivo de fazer parte do seu Jardim Botânico particular, que foi construído próximo à atual
Praça da República.
Uma segunda versão, porém, credita a presença do baobá às aves migratórias: suas sementes teriam sido trazidas por elas. E alguns estudiosos, ainda, como Câmara Cascudo, consideram uma terceira possibilidade: a de que as sementes foram carregadas da África, e plantadas no Brasil, pelos escravos africanos.
Por sua vez, de São-Louis, no Senegal, o pesquisador francês Michel Adanson trouxe desenhos e descrições datados de 1749, de uma viagem que fez àquele país. E escreveu em seus registros: Chamou-me à atenção uma árvore cujo tamanho era incrível. Era uma árvore que tinha frutos com formatos de abóboras, de nome "pão de macaco" no qual os Wolots diziam 'goui' no idioma deles. Provavelmente a árvore mais útil em toda a África... a árvore universal para os nativos».
A partir de então, Bernard de Jussieu (do Museu de Paris) e Charles de Linné tributaram para Michel Adanson o nome latino dado ao baobá (Adansona digitata). E a Enciclopédia de Diderot e d'Alembert adotou essa denominação, na França, desde 1791.
A árvore mítica e solitária da savana africana faz parte da família das bombacácea (palavra derivada de Bomba, uma linguagem falada na Guiné Equatorial, que já foi oficializada). Esse nome muda, porém, de acordo com a língua de cada país. Em Angola, por exemplo, chama-se imbondeiro; e, na Guiné-Bissau, chama-se pólon.
Datado de 1853, existe um outro registro da presença do baobá no continente africano. O Padre David Boilat escreveu sobre a já legendária árvore, observando-a na região de Mbour:
"... as árvores são surpreendentemente grandes e muito numerosas: Eu medi algumas e o cinturão era de 60 a 90 pés (20 a 30 metros). Não só é esta árvore útil para os nativos, também é essencial, eles não sobreviveriam sem ela. Com suas folhas secadas, eles fazem um pouco de pó que eles chamam de lalo o qual eles misturam o "kouskous". Eles usam as raízes como um purgante; eles bebem chá quente que curam doenças torácicas. A fruta chamada " o pão " de macaco é usada para coalhar leite e também é servida com a comida que eles chamam de " lack " ou " sangle " (...). Esta árvore às vezes é escavada para formar casas...
O Padre David Boilat declarava, ainda, ter visitado um baobá, na África, cujo tronco era extraordinário: 26 metros. No tronco dessa árvore, segundo ele, havia dois quartos que eram usados como casa e loja.
Tudo no baobá serve para a sobrevivência do ser humano. Vale ressaltar que essa árvore, inclusive, se constitui em uma fonte preciosa de medicamentos. Suas folhas são usadas como um poderoso anti-diarréico e para combater febres e inflamações. Um pó feito de folhas secas vem sendo utilizado para combater a anemia, o raquitismo, a desinteria, o reumatismo, a asma, e é usado, ainda, como um tônico.
As folhas podem servir, também, como uma fonte de alimentação, sendo trituradas e misturadas em sopas (com aveia ou mingau de aveia), ou secas (lao ou alo) e misturadas com cereais, já que são ricas em cálcio, ferro, proteínas e lipídios.
Por outro lado, a polpa e a fibra de seus frutos são capazes de combater a diarréia, a desinteria, o sarampo e a catapora. O cerne da fruta combate a febre e inflamações no tubo digestivo; e suas sementes estão repletas de óleo vegetal, podendo ser assadas e consumidas.
A polpa da fruta, chamada "pão de macaco", pode ser consumida crua ou triturada em sopas de aveia, servindo como um alimento precioso para as crianças. Pode ser misturada com a água, também, tornando-se uma bebida semelhante ao leite de coco. As raízes das mudas jovens do baobá, quando são devidamente cozinhadas, podem servir como alimento da mesma maneira que os aspargos.
No que diz respeito à construção e carpintaria, o baobá só é utilizado quando não há um outro material mais adequado. Entretanto, a sua madeira serve para a construção de instrumentos musicais e, o seu cerne, rende uma fibra forte usada na fabricação de cordas e linhas. E as conchas dos seus frutos são utilizadas pelas pessoas como tigelas.
Na capital de Pernambuco, os raros baobás que resistiram ao desmatamento e à depredação ambientais, foram tombados pela Prefeitura da Cidade e pelo IBAMA, em 1986. Na cidade do Recife, essas árvores podem ser apreciadas na Praça da República (em frente ao Palácio do Governo); na Praça da SUDENE (no bairro de Santo Amaro); na rua Coronel Urbano Ribeiro Sena (no bairro do Fundão); na rua Madre Loiola (em Ponte d’Uchôa) e no
Poço da Panela, nos terrenos limítrofes de duas casas que se situam, respectivamente, nas ruas Professor Edgar Altino e Bandeira de Melo.
Fora da Região Metropolitana do Recife, alguns poucos baobás escaparam da destruição. Eles podem ser observados na praia de Porto de Galinhas e na Vila de Nossa Senhora do Ó (ambos no município de Ipojuca); no Engenho Poço Comprido (em Vicência); na área do complexo portuário de Suape (no município do Cabo); na Usina Ariepibu (em Ribeirão); no Sítio Capivarinha (em Sanharó); na Fazenda Pitombeiras (em Serra Talhada) e no município de Tacaratu.
Por Semira Adler Vainsencher - Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco