8/14/09

Em tempo de Festas de Nossa Senhora do Socorro na cidade da Régua recordo Jaime Ferraz Rodrigues Gabão

Em Memória de Jaime Ferraz Gabão - Por M. Nogueira Borges – Publicado no boletim de Festas de Nossa Senhora do Socorro – Peso da Régua/Douro/Portugal - 1994.

Conheci-o em Porto Amélia. O meu destacamento, sediado em Quelimane, viera substituir uns "cocuanes"* que estavam de regresso à Metrópole. Para trás deixava a luxúria dos palmares de Penabe, o esmagamento das infindáveis plantações de chá do Gurué, o silêncio e os ruídos da selva esplendorosa de Mocubela ou Maganja da Costa, a confraternização da boa gente da capital da Zambézia.

Foi em Março de 1968. Em Lisboa, Salazar ainda não agonizava, e Marcelo Caetano repartia o seu tempo entre a Faculdade de Direito, a reescrita do seu Manual de Direito Administrativo e o seu escritório de jurisconsulto ali para os lados da Rua do Ouro, mal sonhando que, em finais desse ano, ocuparia S. Bento para assistir, num desterro brasileiro, ao funeral do Império. Em Lourenço Marques, a Polana estava cheia de sul-africanos e os ecos do Norte mal chegavam às esplanadas.

O Jaime Ferraz Gabão era, a par da sua actividade profissional numa empresa algodeira, o correspondente, para o distrito de Cabo Delgado, do mais prestigiado jornal Moçambicano - o Diário de Moçambique** - e criava, semanalmente, uma página regional onde dava oportunidade a jovens colaboradores. Uniu-nos a paixão pêlos jornais. Essa afinidade gerou entre nós uma profunda estima e, com o tempo, à medida que nos íamos conhecendo, uma amizade tão grande que, ainda hoje, à distância de vinte e seis anos, nem sei como definir.

O Jaime era uma alma generosa e não queria morrer com remorsos nem deixá-los aos vivos. Abandonara a Régua quando os seus sonhos se desfizeram e a realidade que os seus olhos contemplavam era tão crua que não hesitou quando um velho amigo o convidou para abalar até às paragens do indico.

Feito, posteriormente, o reencontro com a Mulher que sempre o acompanhou até ao fim dos seus dias, o meu saudoso amigo ganhou a paz a que todo o ser humano tem direito quando se está de bem com Deus e os seus semelhantes.

África dera-lhe a razão da vida e a justificação para a partilhar. Sob o tecto africano, nos dias abrasadores ou nas noites do cacimbo, o Jaime consumia e retemperava as energias de um homem que, no nosso Douro, herdara o amor do trabalho honrado. Nunca foi patrão nem capataz, nunca ostentou ou humilhou, nunca cortejou poderosos nem desprezou deserdados, nunca separou brancos de um lado e pretos do outro. Amou a África porque a África - caros leitores - é encantamento deslumbrante, um chamamento emocional que arrebata, uma sedução tão arrepiante que não há palavras para a descrever, só sentindo-a, calcorríando as picadas inóspitas e engolindo o seu pó, bebendo água do coco ou dos pântanos solitários, aganando sob o fogo do seu sol ou tremendo nas suas madrugadas de névoa.

Eu entrava em casa do Jaime Ferraz Gabão sem bater à porta, sentava-me à sua mesa sem perguntar onde era o meu lugar, conversávamos horas sem fim no deleite do entardecer, íamos e vínhamos pelas ruas e cafés de Porto Amélia com a naturalidade de quem vivia o tempo todo na fruição plena da fraternidade e as areias da praia de Wimbe já conheciam os nossos pés nas manhãs de Domingo.

Findo o meu tempo de serviço militar regressei à minha aldeia e o Jaime por lá ficou. Ainda recordo, comovido, as nossas lágrimas de despedida.

Um dia, nas sequelas da tal exemplar descolonizaçâo, ele voltou, também, às suas origens. Foi um trauma de que nunca se curou. Aquilo foi como uma traição que, na sua boa fé, não contava; um murro medonho na esquina da sua vida, na pureza da sua certeza patriótica. Desgastado e amargurado, vendo, mais uma vez, o seu ideal a fugir-lhe, mastigou em seco muitas desilusões e incompreensões. Pertencia àquele tipo de homens que não tem pele de elefante porque cultivava a franqueza e a capacidade de perdão. Custava-lhe a ruindade à sua volta, os anátemas dos retornados, a indiferença por uma terra e por uma causa que interiorizara tão profundamente que alturas tinha em que já não sabia se as raízes eram mais fortes - ou mais fracas - do que as saudades dolorosas dos batuques, do cheiro das queimadas, dos dias em mangas de camisa, da leveza das brisas da baía de Pemba, do carregado das trovoadas no mato, do odor a catinga ou dos gritos da hiena sem companhia.

O jornalismo enganou-lhe as recordações, sublimando-as em descrições sempre apaixonadas mas nunca desonestas. Sabia que um jornal, fosse qual fosse o seu dono, não era um palco de propaganda, nem um púlpito de ressabiados pessoalismos, nem um ócio de frustrados a envenenarem relações, nem um palanque onde os vencidos políticos ruminassem vinganças. Praticou um jornalismo de transparência porque não ocultava o relevante e, quando assumia a opinião, não ofendia sentimentos nem provocava a consciência alheia. Tinha a educação herdada do berço e cultivada no pragmatismo do quotidiano. Escreveu muitas páginas de memórias das terras e das gentes por onde andou e viveu sem verbalismos ou maniqueísmos. Viveu o dilema dos que, conhecedores dos largos espaços, se ressentem, sofrídamente, das estreitezas dos horizontes, onde, afinal, a poesia da alma se reflecte no limite dos muros da indiferença das coisas e das pessoas. Sem sabedorias arcádicas ou carreiras/academistas, mas possuidor de um entusiástico autodidactismo. O Jaime Ferraz Gabão transformava a simplicidade escondida na mais bela descoberta. Homem solidário, condoía-se de um pé descalço e não dominava as revoltas do seu sangue. Se é preferível a responsabilidade dos gestos que não praticamos porque outros nos impedem aos que não fazemos porque a eles nos recusamos, o Jaime culpava-se de todas as injustiças do dia a dia da vida. Era um espírito em permanente responsabilização e nunca contente de ver realizar-se o que se deve. Se aqui recordo o Jaime Ferraz Gabão neste livrinho das Festas em Honra de Nossa Senhora do Socorro, onde ele sempre colaborava com alegria, não é só para que conste, mas também para implorar à nossa Padroeira que, não se esquecendo de todos nós - os vivos - não olvide o meu querido e saudoso Amigo que, na Fé, viveu sempre, mesmo quando a morte já lhe rondava os passos.
- Por M. Nogueira Borges – Boletim das Festas de Nossa Senhora do Socorro de 1994 (“recorte” cedido gentilmente por J A Almeida).

* - "cocuanes" termo adaptado do idioma macua e que quer dizer velho(os), no caso: "...viera substituir uns militares mais antigos".
**retifico - Jaime Ferraz Gabão era correspondente e distribuidor para Cabo Delgado do Diário de Lourenço Marques com sede em Lourenço Marques, atual Maputo. Embora colaborasse eventualmente com outros jornais moçambicanos e portugueses, o Diário de Moçambique estava sediado na cidade da Beira e, se a memória não me falha, seu correspondente para Cabo Delgado era o também saudoso Administrador Zuzarte.
  • Página de Peso da Régua onde recordo Jaime Ferraz Rodrigues Gabão - Aqui!
  • Jaime Ferraz Rodrigues Gabão citado no portal do Sport Club da Régua - Aqui!

8/13/09

ASSASSINATO DE ANTÓNIO SIBA-SIBA MACUÁCUA - O SILÊNCIO E IMPUNIDADE CONVENIENTES!

ANTÓNIO SIBA-SIBA MACUÁCUA:
  • ASSASSINADO EM 11 DE AGOSTO DE 2001
  • INJUSTIÇADO ATÉ 11 DE AGOSTO DE 2009
Diário de Notícias, Maputo, 12 de Agosto de 2009 - PASSADOS OITO ANOS (ONTEM) DO ASSASSINATO DO SEU PROGENITOR, filha de Siba-Siba Macuácua deplora silêncio das autoridades governamentais.

A filha do malogrado Siba-Siba Macuácua, Géssica Siba-Siba, de quinze anos, deplora o silêncio cúmplice das autoridades governamentais e não só, face ao esclarecimento dos contornos da morte violenta a que foi vítima o seu progenitor.
No dia em que passavam oito anos após o assassinato do seu pai, Géssica afirmou que os que lhe prometeram esclarecer os contornos que ditaram a morte violenta do seu pai, bem como levar à barra da justiça os seus autores, passados os longos oito anos nunca mais o fizeram, ademais, afirmou a petiz que “até nunca mais lhe apareceram para continuarem a dar-lhe o conforto prometido”.

Disse em mensagem lida por ocasião da passagem do oitavo aniversário da morte daquele economista que com a sua coragem e abnegação tentativa esclarecer os contornos do rombo financeiro e os créditos mal-parados do ex-Banco Austral que “não era possível esquecer o brutal acto que levou do seu convívio e conforto familiar o seu progenitor”.

Contudo, Géssica Siba-Siba Macuácua disse ainda esperar que se cumpram com “as promessas feitas”.

Foi há oito anos, precisamente a 11 de Agosto de 2001 que o jovem Siba-Siba Macuácua foi violentamente assassinado, através, segundo as autoridades de investigação, ter sido lançado no topo das escadas na parte interior do edifício sede do Banco Austral, no período do fim da manhã quando lá se encontrava na sua labuta.(P. Machava)
  • Post's anteriores deste blog que falam do assassinato impune, infame, vergonhoso do cidadão moçambicano António Siba-Siba Macuácua - Aqui!

8/10/09

Daviz Simango do MDM defende eixo ferroviário Norte/Sul de Moçambique

Segundo o Correio da Manhã - Maputo (Ano XIII, edição Nº 3129), Segunda-feira 10/Agosto/2009:

""Em tese apresentada durante "prova oral" perante o parlamento juvenil, o presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e candidato às eleições presidenciais de 28 de Outubro de 2009, Daviz Simango, assegurou, sexta-feira passada, em Maputo, que caso ganhe o pleito “vou fazer tudo por tudo para concretizar o sonho de muitos moçambicanos de ligar, por via ferroviária, as regiões Sul, Centro e Norte de Moçambique”.

Naquela que é tida como a sua “grande estreia” pré-eleitoral na capital do país, durante uma audiência concedida ao chamado Parlamento Juvenil, o presidente do MDM salientou que a ligação ferroviária entre aquelas regiões iria contribuir para a redução das “gritantes assimetrias sociais e económicas”, para além de que aquele meio de transporte é mais acessível a grande parte da população que “vai enfrentando dificuldades para se deslocar dentro do país, por via aérea e rodoviária, devido a constantes alterações dos preços dos combustíveis no mercado internacional”, realçou.

Habitação - No que diz respeito à política da habitação, Simango garantiu que caso vença as eleições de Outubro vai canalizar 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) para aquele sector “de forma a que a juventude possa usufruir do direito a uma casa condigna e a créditos ajustados à realidade do país”, referiu.

Quando questionado sobre a origem dos fundos para a concretização dos seus projectos, aquele político disse que o seu elenco vai reforçar a capacidade de combate contra à fuga ao fisco, “pois o Estado moçambicano vem perdendo avultadas receitas devido à fraca capacidade de colecta de impostos”, realçou."" (J. Ubisse)

Relendo: Avaliação da democracia e governação em Moçambique.

Documento produzido em Fevereiro/2009 pela Agência dos Estados Unidos de Desenvolvimento Internacional. Foi preparado pela ARD, Inc., 159 Bank Street, Suite 300 - Burlington, Vermont 05401 USA - Telefone: (802) 658-3890; Fax: (802) 658-4247; E-mail: ard@ardinc.com

  • Leia o documento na íntegra - Aqui!

AUTORES:
- Robert J. Groelsema, ARD, Inc.
- J. Michael Turner, Professor, Hunter College
- Carlos Shenga, Consultor Local

8/09/09

Intimidação e violência contra Movimento Democrático de Moçambique em Manica!

A dois meses das eleições gerais aumenta intimidação e violência contra MDM em Manica - Maputo (Canalmoz) - Depois da decisão arbitrária da administradora de Sussundenga, Mariazinha Niquisse, de proibir a livre actuação de membros do MDM naquele distrito de Manica, surgem notícias de actos de violência e intimidação contra este partido de oposição ao governo da Frelimo.

De acordo com o delegado do MDM na província da Manica, Humberto Tobiasse Escova, “homens não identificados, agindo pela calada da noite têm agredido, ameaçado e intimidado membros e activistas do nosso partido em diversos pontos da província”.

Em conversa telefónica com a redacção do CanalMoz, Tobiasse Escova citou os casos de dois membros do partido liderado por Deviz Simango, identificados como Félix e Táxi, que foram “brutalmente espancados na região de Honde”.

Os agressores fugiram depois do acto, o qual é visto como tendo “motivações políticas”.

No Posto Administrativo do Save, Distrito de Machaze, a presidente da Liga Feminina do MDM a nível da Província de Manica, Sra. Elisa Uine, foi “agredida por um grupo de homens não identificados” quando levava a cabo actividades partidárias em preparação para a campanha eleitoral que se avizinha.

A casa do delegado do MDM em Macossa ficou destruída depois de elementos não identificados, agindo na calada da noite, terem ateado fogo ao telhado da habitação.

8/06/09

Buscando no tempo lá pelo Douro: Recordações da visita do Presidente da República General Ramalho Eanes

(Clique na imagem para ampliar)

Em atenção aos "vareiros" que nos lêm e visitam por esse mundo virtual afora, alguns post's irei trazendo de um outro blogue ("Escritos do Douro") onde se fala do Douro em Portugal, da cidade de Peso da Régua, de sua história e cultura, de personagens que marcam e dão exemplo e de outras coisas mais que não só da "vinha e do vinho do Porto", de Pemba e Moçambique...:
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Uma curiosa fotografia de um grande momento na história dos bombeiros da Régua, em que alguns fotógrafos são “apanhados” – ao centro destaca-se o Sr. Noel de Magalhães - a procurarem registar o acontecimento: a apresentação da guarda de honra do corpo activo pelo Comandante Carlos Cardoso dos Santos ao Presidente da Republica General, Ramalho Eanes que, no dia 14 de Setembro de 1980, presidiu à cerimónia da sessão solene do 24.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, realizado no Peso da Régua.

A organização deste Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses - que se realiza bianualmente para discutir os problemas e os anseios no associativismo e no voluntariado - pelos bombeiros da Régua é já uma das páginas mais brilhantes da história da Associação.

Deve recordar-se que, até aos nossos dias, foi a primeira Associação do distrito de Vila Real a assumir a responsabilidade de organizar uma reunião magna dos bombeiros portugueses. Uma decisão acertada da direcção presidida pelo Dr. Aires Querubim e do Comandante Carlos Cardoso dos Santos que contou com o apoio inexcedível de Rodrigo Félix, um homem que valorizava o passado glorioso dos bombeiros, presidente da direcção da Federação dos Bombeiros do distrito de Vila Real.

Com a realização do Congresso, a Associação e os bombeiros da Régua ganharam notoriedade e reconhecimento no país. Cumprindo e respeitando o espírito dos fundadores, afirmava-se neste momento como pioneira, activa e orgulhosa de um passado cheio de história e de um futuro cheio de ambição, ao comemorar nesse ano o aniversário dos seus 100.º anos de existência.

Os bombeiros portugueses fizeram uma festa na cidade da Régua que ganhou colorido, um movimento anormal e mais animação turística, num tempo em que escasseavam os hotéis, as residenciais e até os restaurantes para receber tantas pessoas. Conhecendo bem algumas das dificuldades da logística, o Presidente da Câmara, o socialista Renato Aguiar, desde o primeiro instante, apoiou e acarinhou com todos os meios possíveis a iniciativa para que o maior número de participantes ficasse pela cidade. Como a capacidade de alojamento era insuficiente o Regimento de Infantaria do Porto emprestou colchões pneumáticos e cobertores para as dormidas.

Os trabalhos do Congresso decorreram na plateia do velho Cine -Teatro Avenida que fica, ali mesmo, nas imediações do Quartel. A Missa Solene foi celebrada pelo Padre Vítor Melícias num altar montado no Largo Comendador Delfim Ferreira, em frente do Palácio da Justiça e teve a participação para os cânticos religiosos do magnifico Coro de Nossa Senhora do Socorro, superiormente dirigido pelo maestro José Armindo. A essa cerimónia religiosa fizeram-se representar todos os corpos de bombeiros nacionais, com os seus homens do comando nas filas da frente, como era o caso do grande Comandante Armando Cardoso Soares, da AHBV do Dafundo.

A população acompanhou e assistiu com bastante entusiasmo e interesse a todas as manifestações públicas dos bombeiros. As ruas da cidade encheram-se de pessoas para verem os desfiles dos soldados da paz e dos seus carros.

Os pormenores mais significativos da visita presidencial foram destacados na revista comemorativa, na crónica “Recordando a visita do Presidente da República General Ramalho Eanes”, assinada pelo saudoso jornalista Jaime Ferraz (foi um grande director do jornal reguense “Noticias do Douro”), que temos a honra de o lembrar:

“Quando o Congresso dos Bombeiros realizados nesta vila, de 10 a 14 de Setembro, tivemos a honra da presença do Primeiro Magistrado da Nação, General Ramalho Eanes que, além de presidir à sessão solene que todos devem estar recordados se realizou no Cine -Teatro Avenida no dia 14-9-80 bem como as outras solenidades, assistiu ao cortejo das corporações, numa tribuna, para o efeito erigida junto ao edifício da Casa dos Douro.


O Presidente da República, além da respectiva comitiva, fez-se acompanhar da sua esposa e sua presença no referido congresso foi umas das principais notas que se podem recordar e enaltecer.

Os bombeiros voluntários da Régua fizeram a respectiva guarda de honra com todo o seu corpo activo formado junto do Quartel, tendo depois o Presidente da República passado revista à Corporação, e felicitado o respectivo Comandante Carlos Cardoso dos Santos, pela forma como soube apresentar-se e que constituiu um dos pontos fulcrais da visita presidencial”.

Para a história, o acontecimento ficará ainda assinalado pelo aniversário dos 50 anos da Liga dos Bombeiros Portugueses. O Presidente da República, compreendendo o significado de tal data, reconheceu na Régua os seus valiosos serviços públicos, ao condecorar o seu estandarte com o Grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Cristo.

As conclusões mais importantes do Congresso da Régua - que elegeu o Comandante Manuel de Almeida Manta para Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses - diziam respeito à protecção social ao bombeiro voluntário.

O assunto mereceu séria reflexão e, essa exigência considerada muito importante para a condição dos bombeiros, veio a ser aprovada numa deliberação que determinava para “no mais curto espaço de tempo possível, se elabore, discuta e faça aprovar um Estatuto Social do Bombeiro Voluntário como garante dos direitos e deveres de verdadeiros Soldados da Paz”.


Acontece que esse objectivo só veio a ser alcançado alguns anos mais tarde. Em primeiro lugar, com a criação de um Fundo de Socorro Social destinado ao auxilio imediato dos familiares dos bombeiros acidentados em serviço e à promoção de outras acções sociais, consagrado com a publicação da Portaria nº 237/87, de 28 de Março. E, logo de seguida, foi conseguido o pretendido Estatuto Social do Bombeiro, estatuído pela aprovação da Lei nº 21/87, de 20 de Junho.

A década dos anos 80 trouxe profundas e importantes mudanças para a organização institucional dos bombeiros. São reconhecidas várias reivindicações defendidas pelos bombeiros. O poder politico dá os primeiros sinais positivos ao estabelecer as bases administrativas do sector dos bombeiros com a instituição de um organismo denominado “Serviço Nacional de Bombeiros” (Lei nº10/98, de 10 de Março, o Dec.-Lei nº 212/80, de 9 de Junho e o Dec.-Lei nº418/80, de 29 de Setembro), para a presidência do qual era nomeado o Padre Vítor Melícias.

Algumas dessas transformações passaram nos debates do Congresso da Régua que analisado hoje nessa perspectiva, pode dizer-se que fez história ao marcar a viragem de um novo tempo na afirmação dos bombeiros portugueses, com algumas significativas conquistas. Essa circunstância deve ter contribuído para motivar a comparência de uma grande afluência de delegados – bombeiros e directores - no Cine -Teatro Avenida, para participarem nos trabalhos e intervirem nos debates dos assuntos mais preocupantes.

Não admira que, decorridos 19 anos, este 24.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, que encerrou com a presença do Ministro da Administração Interna, Dr. Eurico de Melo, esteja vivo na memória de muitos dos seus protagonistas.

Mas, esta fotografia tem outro valor histórico. Ela mostra a fotografar este importante acontecimento, o Sr. Noel de Magalhães, um conhecido e distinto director dos bombeiros da Régua em vários elencos directivos ao longos de várias décadas, bisneto do 1º Comandante Manuel Maria de Magalhães, distinguido com o crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, que nasceu em S. João da Pesqueira, em 12 de Outubro de 1921.

É um homem dos bons que deixa o seu nome ligado aos bombeiros da Régua e a “obras de bem fazer”. E, é para nós um artista: um fotografo amador de grande qualidade. Ele lega-nos para a posteridade as suas melhores imagens do nosso Douro, como alguém as definiu, repletas de “pureza e beleza da genuidade humana…sobretudo quando acontece o mistério da fé duriense, ou a transformação do suor em vinho, entre sorrisos dos rapazes e das mulheres, colhendo a novidade, que misturada com a alegria escorreu pelas pernas dos homens, em cada lagarada”.

Conta, na sua vida, 88 anos. Olhando-o de perto, nem parece ter tantos, felizmente! Temos a sorte de o conhecer e de com ele partilhar a amizade dos pequenos momentos do dia a dia. Ficamos eternamente mais ricos com o seu convívio.
Ainda bem… para nós e para os bombeiros da Régua.
- Peso da Régua, Julho de 2009, José Alfredo Almeida.


- Outros textos publicados neste blogue sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e sua História:

  • Memórias dos Bombeiros em Poiares com os Salesianos - Aqui!
  • As vidas que não se esquecem nos Bombeiros - Aqui!
  • Os bombeiros de escritório - Aqui!
  • Bombeiros Semi-Deuses - Aqui!
  • As "madrinhas" dos Bombeiros - Aqui!
  • A benção da Bandeira - Aqui!
  • Comandante Lourenço de Almeida Pinto Medeiros: Fidalgo e Cavaleiro dos Bombeiros da Régua - Aqui!
  • A força do voluntariado nos Bombeiros - Aqui!
  • A visita do Presidente da Républica Américo Tomás - Aqui!
  • Uma formatura dos Bombeiros de 1965 - Aqui!
  • O grande incêndio dos Paços do Concelho da Régua - Aqui!
  • 1º. de Maio de 1911 - Aqui!
  • Homens que caminham para a História dos bombeiros - Aqui!
  • Desfile dos veículos dos bombeiros portugueses - Aqui!
  • Os bombeiros no velho Cais Fluvial - Aqui!
  • O Padre Manuel Lacerda, Capelão dos Bombeiros do Peso da Régua - Aqui!
  • A Ordem Militar de Cristo - Uma grande condecoração para os Bombeiros de Peso da Régua - Aqui!
  • Os Bombeiros no Largo da Estação - Aqui!
  • A Tragédia de Riobom - Aqui!
  • Manuel Maria de Magalhães: O Primeiro Comandante... - Aqui!
  • A Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A cheia do rio Douro de 1962 - Aqui!
  • O Baptismo do Marçal - Aqui!
  • Um discurso do Dr. Camilo de Araújo Correia - Aqui!
  • Um momento alto da vida do comandante Carlos dos Santos (1959-1990) - Aqui!
  • Os Bombeiros do Peso da Régua e... o seu menino - Aqui!
  • Os Bombeiros da Régua em Coimbra, 1940-50 - Aqui!
  • Os Bombeiros da Velha Guarda do Peso da Régua - Aqui!

- Link's:

  • Portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua (no Sapo) - Aqui!
  • Novo portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • Exposição virtual dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A Peso da Régua de nossas raízes - Aqui!