8/17/09

Retalhos da Página de Cabo Delgado...

(Clique na imagem para ampliar)

No tempo do Moçambique colonial, existia em Lourenço Marques-capital (hoje Maputo) e pertencente à Arquidiocese local, um jornal de forte penetração em todo o território chamado de "Diário".

Para estruturar e expandir essa penetração, o "Diário" possuía em cada província um correspondente que, além de congregar as notícias regionais em página específica, gerenciava assinaturas e a distribuição local. E tudo funcionava à perfeição com uma atualização quase diária, graças à DETA (Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos de Moçambique) que transportava e fazia chegar os jornais a tempo e horas a todas as capitais provinciais. O avião ainda não aterrara e já estava Jaime Ferraz com seus ajudantes fiéis, lá pelo aeroporto de Porto Amélia à espera dos pacotes de jornais...

Jaime Ferraz Rodrigues Gabão, já citado neste blogue, era o correspondente do "Diário" para Cabo Delgado. Recordo como se hoje estivesse acontecendo, sua dedicação a esse "métier" das horas vagas, vendo-o, enquanto a "sociedade" local gastava merecidas horas de lazer lá pela praia do Wimbe, etç. e dando vazão a sua veia jornalistíca, passar horas a fio, em sábados, domingos e feriados, nos escritórios da então SAGAL (Sociedade Agrícola Algodoeira) onde trabalhava, teclando em máquina de escrever e organizando as matérias para a sua Página de Cabo Delgado e também para os lusitanos Primeiro de Janeiro e Notícias do Douro - Régua para onde enviava acontecimentos de destaque e suas famosas "Cartas de Longe".

Graças a um Amigo, deixo aqui, tentando recordar e homenagear o quanto se fazia, tantas vezes em caráter amador mas com amor e entrega às então Porto Amélia e Moçambique, em matéria de jornalismo, pequeno "retalho" da Página de Cabo Delgado do Diário de Lourenço Marques.

Recado de uma estudante moçambicana à mulher moçambicana!...

Gisela Sive é estudante moçambicana em Lisboa. Faz hoje 19 anos e escreveu esta mensagem:

Mulher Moçambicana,

Antes de mais, temos que nos interrogar sobre quem somos, o que somos e o que poderíamos ser!

Mulheres, amáveis, confiáveis, lindas, inteligentes, porém controladas como robôs, subestimadas, humilhadas e violadas pelos homens que nos juram fidelidade, amor eterno, e respeito… será isto amor?

A fidelidade onde é que se faz notar com a mesma infinita oficial e assumida poligamia?

Nesta mesma poligamia, onde é que será imposto o suposto respeito às mulheres?

Temos notado, não só nas zonas rurais, a implementação e desenvolvimento desta suposta cultura, cultura esta que podemos resumir em “traição assumida” em que depois de casados, o homem pode procurar uma outra mulher que se transformara em 2ª esposa, dividindo o mesmo tecto e marido com a anterior e a mesma que tem de estar pronta para receber mais quantas mulheres o marido quiser, com o objectivo de segurar o seu homem preservando o seu lar. Mas porque será que isto acontece?

Por amor? Ou respeito à cultura?

Há mulheres que se sujeitam, a isto alegando amor, mas como podemos acreditar que seja mesmo amor se, para amarmos o próximo, temos antes de amar-nos a nós próprios?

Se fosse amor, nada isto aconteceria, milhões de mulheres não padeceriam de doenças de transmissão sexual, cuja culpa é de cada uma, porque nos sujeitamos ao que nos é imposto pelos nossos maridos, noivos, namorados, que aceitamos que eles tenham uma “casa 2” (2ª casa, a forma como é chamada em Moçambique) e nós limitamo-nos a olhar e a perdoar mesmo que tenhamos o coração a sangrar por dentro…

Quem ama respeita, e cuida acima de tudo. Um homem, traindo uma mulher, demonstra desrespeito e desvalorização da própria mulher, não existe cuidado, pois sem fidelidade de que cuidado estaríamos a falar?

Como aceitamos ser dependentes, se a escravidão acabou há muito tempo, mas falta a parte mais importante, a nossa emancipação.

Não nos podemos sujeitar a tanta coisa torpe... Nós somos mais do que isso. E reparem que até o Ministro da Agricultura afirma de boca cheia “as mulheres são os tractores deste país”, será isto uma verdade?

A cada 30 segundos uma mulher moçambicana é agredida. Somos mal tratadas, subordinadas e expostas a situações inaceitáveis, e ao invés de procurarmos soluções, choramos, e perdoamo-los com o 1º ramo de flores que nos trás em seguida, por isso é que esta realidade nunca mudou até hoje, infelizmente.

Mas está na hora de nos darem o devido valor e não de olharem para nós como subordinadas e inferiores aos nossos companheiros (homens em geral), o género não exprime superioridade.

Está na hora de termos mais mulheres com Celina Simango, Luísa Diogo, Alice Mabote, Lurdes Mutola ou Joana Simeão.

Está na hora de acabar com estes preconceitos. Está na hora de nos emanciparmos, de lutarmos pela igualdade de direitos, de sermos mulheres batalhadoras e de não sermos mulheres submissas.

Queremos a igualdade!
Esta é a altura de dizer BASTA!

Nós somos importantes nesta sociedade, não como tractores ou máquinas agrícolas, mas sim como a chuva que rega e faz florir cada ramo que aqui se encontra, pois nos é que damos à luz cada vida que cá se encontra”.

Lisboa, 17 de Agosto de 2009
Gisela Sive - Estudante Moçambicana em Lisboa.

8/14/09

Agência de Notícias da AIDS lança portal em Moçambique

Amiga diz-me via net: "Aqui em Lichinga as pessoas morrem como tordos. Expectativa de vida = 33 anos".

Leio no novo portal lançado em Moçambique da Agência de Notícias de Resposta ao SIDA: "O Governo acabou com os Hospitais de Dia sem nos auscultar. Não somos cabritos que eles podem mudar de pasto - Júlio Mujojo, secretário nacional RENSIDA".

A doença continua ampliando tentáculos por todo o Moçambique. A população mais atingida, por ser maioria pobre também em recursos de informação e combate, não dispôe de meios para se expressar e protestar a nível internacional. E sofre calada, conformada, "morrendo como tordos" ou "cabritos abandonados no pasto"...

O alheamento das autoridades moçambicanas é notório e chocante. Preocupam-se mais com as próximas eleições e a perpetuação do rentável "poder". E a "novela da vida" dramática de milhares de moçambicanos que sonham viver mais de 33 anos e ainda, com a verdadeira, almejada e nunca alcançada indepêndência, vai continuando num quotidiano onde se "criam" factos e notícias "auspiciosas" que poderão render ou comprar "votos" nessa "novela" sem-fim...

Chegou em boa hora esse portal. Que seja independente, útil e tão cáustico para com os responsáveis (ou irresponsáveis) pela saúde do cidadão moçambicano, como o é essa maldosa ou maldita SIDA para com o povo humilde e pobre!


  • Agência de Notícias de Resposta ao SIDA - Aqui!


  • Alguns post's deste blog que, ao longo do tempo, vêm focando o dramático tema HIV/SIDA em Moçambique - Aqui!

Em tempo de Festas de Nossa Senhora do Socorro na cidade da Régua recordo Jaime Ferraz Rodrigues Gabão

Em Memória de Jaime Ferraz Gabão - Por M. Nogueira Borges – Publicado no boletim de Festas de Nossa Senhora do Socorro – Peso da Régua/Douro/Portugal - 1994.

Conheci-o em Porto Amélia. O meu destacamento, sediado em Quelimane, viera substituir uns "cocuanes"* que estavam de regresso à Metrópole. Para trás deixava a luxúria dos palmares de Penabe, o esmagamento das infindáveis plantações de chá do Gurué, o silêncio e os ruídos da selva esplendorosa de Mocubela ou Maganja da Costa, a confraternização da boa gente da capital da Zambézia.

Foi em Março de 1968. Em Lisboa, Salazar ainda não agonizava, e Marcelo Caetano repartia o seu tempo entre a Faculdade de Direito, a reescrita do seu Manual de Direito Administrativo e o seu escritório de jurisconsulto ali para os lados da Rua do Ouro, mal sonhando que, em finais desse ano, ocuparia S. Bento para assistir, num desterro brasileiro, ao funeral do Império. Em Lourenço Marques, a Polana estava cheia de sul-africanos e os ecos do Norte mal chegavam às esplanadas.

O Jaime Ferraz Gabão era, a par da sua actividade profissional numa empresa algodeira, o correspondente, para o distrito de Cabo Delgado, do mais prestigiado jornal Moçambicano - o Diário de Moçambique** - e criava, semanalmente, uma página regional onde dava oportunidade a jovens colaboradores. Uniu-nos a paixão pêlos jornais. Essa afinidade gerou entre nós uma profunda estima e, com o tempo, à medida que nos íamos conhecendo, uma amizade tão grande que, ainda hoje, à distância de vinte e seis anos, nem sei como definir.

O Jaime era uma alma generosa e não queria morrer com remorsos nem deixá-los aos vivos. Abandonara a Régua quando os seus sonhos se desfizeram e a realidade que os seus olhos contemplavam era tão crua que não hesitou quando um velho amigo o convidou para abalar até às paragens do indico.

Feito, posteriormente, o reencontro com a Mulher que sempre o acompanhou até ao fim dos seus dias, o meu saudoso amigo ganhou a paz a que todo o ser humano tem direito quando se está de bem com Deus e os seus semelhantes.

África dera-lhe a razão da vida e a justificação para a partilhar. Sob o tecto africano, nos dias abrasadores ou nas noites do cacimbo, o Jaime consumia e retemperava as energias de um homem que, no nosso Douro, herdara o amor do trabalho honrado. Nunca foi patrão nem capataz, nunca ostentou ou humilhou, nunca cortejou poderosos nem desprezou deserdados, nunca separou brancos de um lado e pretos do outro. Amou a África porque a África - caros leitores - é encantamento deslumbrante, um chamamento emocional que arrebata, uma sedução tão arrepiante que não há palavras para a descrever, só sentindo-a, calcorríando as picadas inóspitas e engolindo o seu pó, bebendo água do coco ou dos pântanos solitários, aganando sob o fogo do seu sol ou tremendo nas suas madrugadas de névoa.

Eu entrava em casa do Jaime Ferraz Gabão sem bater à porta, sentava-me à sua mesa sem perguntar onde era o meu lugar, conversávamos horas sem fim no deleite do entardecer, íamos e vínhamos pelas ruas e cafés de Porto Amélia com a naturalidade de quem vivia o tempo todo na fruição plena da fraternidade e as areias da praia de Wimbe já conheciam os nossos pés nas manhãs de Domingo.

Findo o meu tempo de serviço militar regressei à minha aldeia e o Jaime por lá ficou. Ainda recordo, comovido, as nossas lágrimas de despedida.

Um dia, nas sequelas da tal exemplar descolonizaçâo, ele voltou, também, às suas origens. Foi um trauma de que nunca se curou. Aquilo foi como uma traição que, na sua boa fé, não contava; um murro medonho na esquina da sua vida, na pureza da sua certeza patriótica. Desgastado e amargurado, vendo, mais uma vez, o seu ideal a fugir-lhe, mastigou em seco muitas desilusões e incompreensões. Pertencia àquele tipo de homens que não tem pele de elefante porque cultivava a franqueza e a capacidade de perdão. Custava-lhe a ruindade à sua volta, os anátemas dos retornados, a indiferença por uma terra e por uma causa que interiorizara tão profundamente que alturas tinha em que já não sabia se as raízes eram mais fortes - ou mais fracas - do que as saudades dolorosas dos batuques, do cheiro das queimadas, dos dias em mangas de camisa, da leveza das brisas da baía de Pemba, do carregado das trovoadas no mato, do odor a catinga ou dos gritos da hiena sem companhia.

O jornalismo enganou-lhe as recordações, sublimando-as em descrições sempre apaixonadas mas nunca desonestas. Sabia que um jornal, fosse qual fosse o seu dono, não era um palco de propaganda, nem um púlpito de ressabiados pessoalismos, nem um ócio de frustrados a envenenarem relações, nem um palanque onde os vencidos políticos ruminassem vinganças. Praticou um jornalismo de transparência porque não ocultava o relevante e, quando assumia a opinião, não ofendia sentimentos nem provocava a consciência alheia. Tinha a educação herdada do berço e cultivada no pragmatismo do quotidiano. Escreveu muitas páginas de memórias das terras e das gentes por onde andou e viveu sem verbalismos ou maniqueísmos. Viveu o dilema dos que, conhecedores dos largos espaços, se ressentem, sofrídamente, das estreitezas dos horizontes, onde, afinal, a poesia da alma se reflecte no limite dos muros da indiferença das coisas e das pessoas. Sem sabedorias arcádicas ou carreiras/academistas, mas possuidor de um entusiástico autodidactismo. O Jaime Ferraz Gabão transformava a simplicidade escondida na mais bela descoberta. Homem solidário, condoía-se de um pé descalço e não dominava as revoltas do seu sangue. Se é preferível a responsabilidade dos gestos que não praticamos porque outros nos impedem aos que não fazemos porque a eles nos recusamos, o Jaime culpava-se de todas as injustiças do dia a dia da vida. Era um espírito em permanente responsabilização e nunca contente de ver realizar-se o que se deve. Se aqui recordo o Jaime Ferraz Gabão neste livrinho das Festas em Honra de Nossa Senhora do Socorro, onde ele sempre colaborava com alegria, não é só para que conste, mas também para implorar à nossa Padroeira que, não se esquecendo de todos nós - os vivos - não olvide o meu querido e saudoso Amigo que, na Fé, viveu sempre, mesmo quando a morte já lhe rondava os passos.
- Por M. Nogueira Borges – Boletim das Festas de Nossa Senhora do Socorro de 1994 (“recorte” cedido gentilmente por J A Almeida).

* - "cocuanes" termo adaptado do idioma macua e que quer dizer velho(os), no caso: "...viera substituir uns militares mais antigos".
**retifico - Jaime Ferraz Gabão era correspondente e distribuidor para Cabo Delgado do Diário de Lourenço Marques com sede em Lourenço Marques, atual Maputo. Embora colaborasse eventualmente com outros jornais moçambicanos e portugueses, o Diário de Moçambique estava sediado na cidade da Beira e, se a memória não me falha, seu correspondente para Cabo Delgado era o também saudoso Administrador Zuzarte.
  • Página de Peso da Régua onde recordo Jaime Ferraz Rodrigues Gabão - Aqui!
  • Jaime Ferraz Rodrigues Gabão citado no portal do Sport Club da Régua - Aqui!

8/13/09

ASSASSINATO DE ANTÓNIO SIBA-SIBA MACUÁCUA - O SILÊNCIO E IMPUNIDADE CONVENIENTES!

ANTÓNIO SIBA-SIBA MACUÁCUA:
  • ASSASSINADO EM 11 DE AGOSTO DE 2001
  • INJUSTIÇADO ATÉ 11 DE AGOSTO DE 2009
Diário de Notícias, Maputo, 12 de Agosto de 2009 - PASSADOS OITO ANOS (ONTEM) DO ASSASSINATO DO SEU PROGENITOR, filha de Siba-Siba Macuácua deplora silêncio das autoridades governamentais.

A filha do malogrado Siba-Siba Macuácua, Géssica Siba-Siba, de quinze anos, deplora o silêncio cúmplice das autoridades governamentais e não só, face ao esclarecimento dos contornos da morte violenta a que foi vítima o seu progenitor.
No dia em que passavam oito anos após o assassinato do seu pai, Géssica afirmou que os que lhe prometeram esclarecer os contornos que ditaram a morte violenta do seu pai, bem como levar à barra da justiça os seus autores, passados os longos oito anos nunca mais o fizeram, ademais, afirmou a petiz que “até nunca mais lhe apareceram para continuarem a dar-lhe o conforto prometido”.

Disse em mensagem lida por ocasião da passagem do oitavo aniversário da morte daquele economista que com a sua coragem e abnegação tentativa esclarecer os contornos do rombo financeiro e os créditos mal-parados do ex-Banco Austral que “não era possível esquecer o brutal acto que levou do seu convívio e conforto familiar o seu progenitor”.

Contudo, Géssica Siba-Siba Macuácua disse ainda esperar que se cumpram com “as promessas feitas”.

Foi há oito anos, precisamente a 11 de Agosto de 2001 que o jovem Siba-Siba Macuácua foi violentamente assassinado, através, segundo as autoridades de investigação, ter sido lançado no topo das escadas na parte interior do edifício sede do Banco Austral, no período do fim da manhã quando lá se encontrava na sua labuta.(P. Machava)
  • Post's anteriores deste blog que falam do assassinato impune, infame, vergonhoso do cidadão moçambicano António Siba-Siba Macuácua - Aqui!

8/10/09

Daviz Simango do MDM defende eixo ferroviário Norte/Sul de Moçambique

Segundo o Correio da Manhã - Maputo (Ano XIII, edição Nº 3129), Segunda-feira 10/Agosto/2009:

""Em tese apresentada durante "prova oral" perante o parlamento juvenil, o presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e candidato às eleições presidenciais de 28 de Outubro de 2009, Daviz Simango, assegurou, sexta-feira passada, em Maputo, que caso ganhe o pleito “vou fazer tudo por tudo para concretizar o sonho de muitos moçambicanos de ligar, por via ferroviária, as regiões Sul, Centro e Norte de Moçambique”.

Naquela que é tida como a sua “grande estreia” pré-eleitoral na capital do país, durante uma audiência concedida ao chamado Parlamento Juvenil, o presidente do MDM salientou que a ligação ferroviária entre aquelas regiões iria contribuir para a redução das “gritantes assimetrias sociais e económicas”, para além de que aquele meio de transporte é mais acessível a grande parte da população que “vai enfrentando dificuldades para se deslocar dentro do país, por via aérea e rodoviária, devido a constantes alterações dos preços dos combustíveis no mercado internacional”, realçou.

Habitação - No que diz respeito à política da habitação, Simango garantiu que caso vença as eleições de Outubro vai canalizar 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) para aquele sector “de forma a que a juventude possa usufruir do direito a uma casa condigna e a créditos ajustados à realidade do país”, referiu.

Quando questionado sobre a origem dos fundos para a concretização dos seus projectos, aquele político disse que o seu elenco vai reforçar a capacidade de combate contra à fuga ao fisco, “pois o Estado moçambicano vem perdendo avultadas receitas devido à fraca capacidade de colecta de impostos”, realçou."" (J. Ubisse)