12/14/09

Pemba: Construções ilegais não mais vão ser permitidas... Assim prometem!


Pemba: Presidente do município promete mão dura contra construções ilegais - O presidente do município de Pemba, Sadique Yacub, disse que vai haver mão dura contra construções ilegais na cidade, grosso modo, de barracas e lojas edificadas nos passeios da autarquia, visando corrigir os erros cometidos no passado, facilitados pelos secretários de bairro que concederam licenças, igualmente ilegais, para que tal fosse possível.

Yacub, falando durante a V sessão ordinária da Assembleia Municipal, que decorreu de 7 a 9 de Dezembro corrente, disse que para tal vai agravar as taxas a pagar pela ocupação dos espaços que foram cedidos em conluio com os secretários dos bairros e os residentes que quiseram com isso tirar proveito, em detrimento da boa circulação dos peões e viaturas.

“Por exemplo, os passeios da avenida Eduardo Mondlane, todos foram ocupados por barracas, lojas, barbearias, enquanto que a estrada tinha reservado largos passeios e a passagem da vala de drenagem que evacua todas as águas cépticas da montante para o mar”.

O presidente do Conselho Municipal, acrescentou que naquela avenida ocorrem muitos acidentes, pois os peões disputam as estradas com as viaturas, não havendo sequer espaço para aqueles evitarem os automobilistas que por sua vez vêem-se na contingência de transitarem com medidas acrescidas de precaução, se bem que a avenida acabe ficando muito estreita, devido às pessoas que a invadem.

Este cenário contrasta com os esforços envidados durante largos anos visando a construção de um mercado municipal, localizado na mesma avenida, entretanto não utilizado pelos vendedores que preferem edificar barracas, nas bermas da estrada.

“Nós construímos um mercado, mas os agentes económicos não o estão a utilizar, consequentemente o municipio não está sequer a recuperar o dinheiro investido, quando na mesma rua há concorrentes que construíram ilegalmente os seus respectivos postos de venda”, disse.

Para estancar este estado de coisas, o municipio, segundo o seu presidente, vai aplicar uma taxa de 3000,00 Mt pela ocupação do espaço e pela actividade comercial ao mesmo tempo que vai baixar significativamente as taxas a pagar pela ocupação das bancas no mercado municipal.

“Vamos baixar as taxas no mercado e agrava as taxas das barracas que estão em locais impróprios. Quem não aguenta que vá ao mercado. Não podemos destruir, porque isso implicaria que tivéssemos que indemnizar as pessoas, porque de alguma forma houve quem em nome do município autorizou a construção. A saída é essa, pagam-nos muito dinheiro ou vão ao mercado, onde estamos à espera das taxas e temos muito lugar desocupado”, determinou.

Enquanto isso, a Assembleia Municipal na última sessão deu aval à proposta do Conselho Municipal, do orçamento para o exercício de 2010, que aponta para uma receita e despesas de 102549000,00 Mt, superior em 22,59 por cento, quando comparado com o do ano anterior, se bem que estava fixado em 83655000,00 Mt.

O órgão não viu inconvenientes para o aprovar por reunir todos os requisitos exigidos por lei para a sua aceitação, para pôr em marcha o funcionamento da edilidade durante o próximo ano em que as rubricas que vão consumir maior fatia serão as despesas com pessoal, 17314528,00 Mt, e bens e serviços, no valor de 16554500,00 Mt, para o que a Assembleia Municipal aprovou uma resolução, a 12/2009, de 8 de Dezembro deste ano.
- Maputo, Segunda-Feira, 14 de Dezembro de 2009:: Notícias.

12/11/09

Apontamentos do Tito Xavier: Ilha do Ibo - Fortaleza de S. João Baptista


Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

MANGONDÈ


Um bando de aves em vôo apressado cortaram a aldeia em diagonal enquanto andorinhas em seu estilo característico batiam as asas em franca liberdade no céu claro, fresco e azulado de Mahunda.

Kabwela, um homem afável da linhagem vamatambwe, alto, forte, de rosto tatuado e dentes afiados conforme mandava a tradição, atravessou o limiar da povoação empunhando uma catana na mão e levando nas costas um arco e flechas e seguiu um carreiro serpenteante que conduzia à floresta adentro. Andou no meio da floresta cerrada e tenebrosa ouvindo os pássaros que lhe cantavam serviçalmente naquela manhã bela e boa para um passeio no bosque. Com a barba desleixada, descalço, palmas ásperas e um andar na floresta experiente, Kabwela marchava firme com a fisionomia denunciando um homem maduro, vivido e que deleitara e usara abusivamente os prazeres da vida.

Entretanto, aproximou-se a uma moita bem tenebrosa e logo deteve-se com pasmo. Recuou dois passos e voltou a deter-se fazendo bater as pálpebras vezes sem conta. Passou a mão aos olhos, esfregou-os rapidamente e continuou olhando fixamente na moita. Em frente dos seus olhos uma figura humana envolta em pano branco, semelhante ao que se envolve aos cadáveres, lhe aguardava cabisbaixa e em silêncio tumular. O sujeito tinha a face pálida, olhos esbugalhados e um olhar apavorado que denunciava uma excessiva insatisfação. Kabwela olhou-o fixamente e no fim, pareceu-lhe familiar. Matutou insistentemente procurando se lembrar do homem. Rapidamente veio-lhe a cabeça. Deitou no chão a catana, o arco e as flechas que trazia e tremendo de medo no meio da floresta fugiu a sete pés com as mãos sobre a cabeça e gritando aos berros:

- Acudam-me, acudam-me, acudam-me...

De repente, a figura em volta em pano branco seguiu o gesto correndo atrás de Kabwela de forma incrível e sobre-humana. Pouco depois, Kabwela tropeçou um tronco escondido e enterrado no capim alto que predominava a floresta e logo o sujeito alcançou-o. Apeado em sua frente, o sujeito olhou-o assustadoramente com olhos ofuscantes e lhe rodeou com ar ameçador. Parou levando a mão às costas e, com uma rapidez indiscriptível, começou a bater Kabwela com uma haste delgada e flexível que parecia de uma árvore. Kabwela gritou forte e profundamente provocando um eco na imensidão da floresta, que se propagou imediatamente chegando a ouvir-se nas palhotas iniciais da povoação. No entanto, o sujeito bateu-lhe forte e feio e logo as lágrimas não tardaram a saltarem-lhe dos olhos. Desesperadamente tentou erguer-se para se escapulir, mas o homem de pano branco impediu-o deixando-lhe cair no tapete verdejante da floresta. Passado um momento, o agressor parou. Uma tempestade forte fustigou, repentinamente, a floresta e, precisamente, no ponto onde Kabwela lutava em vão para se pôr em fuga. Nesse instante, o agressor desapareceu misteriosamente entre nuvens densas e negras que, inexplicavelmente, formaram-se naquele ponto do bosque. Nisto, Kabwela ergueu-se com a cabeça mergulhada entre os braços. Soluçando fez uma ronda com os olhos em volta da floresta e temeroso fugiu, novamente, a sete pés fazendo caretas de dor.

Sem olhar para atrás, Kabwela, correu incansavelmente como um antílope e depois de muito tempo e de uma fuga desorientada desembocou na aldeia reiniciando os berros como uma criança.

A povoação parou e os aldeões curiosos seguiram o infeliz cerimoniosamente até a sua palhota, onde no meio do quintal deixou-se cair chorando fortemente esgravatando a terra e, de vez enquando, cerrando os punhos cheios de areia. Kabwela chorou durante muito tempo lacrimejando copiosamente e depois calou-se. Dois anciãos sairam no meio dos curiosos que o assistiam e ajudaram-o a erguer-se do chão. Depois, banhado de areia, encaminharam-o à palhota, onde após uns breves instantes de silêncio, os anciãos quiseram saber:

- O que sucedeu?

Kabwela calou-se. Passado algum momento suspirou profundamente, mergulhou a cabeça nas mãos e mentalmente começou a reviver o que lhe sucedera na floresta. No fim, soluçou uma vez e tremendo, respondeu:

- Ia andando a caminho da floresta, onde tencionava visitar as minhas armadilhas e arranjar algumas estacas para concertar o celeiro, quando, de súbito, numa moita tenebrosa vi um vulto envolto em pano branco. Parei, olhei fixamente e vi que era alguém que conhecia e que já não está no mundo dos vivos. Fiquei assustado e fugi. – Kabwela voltou a chorar fortemente limpando depois com a costa da mão um fio de ranho que lhe escorria pela narina abaixo. De seguida, calou-se e voltou ao ponto onde havia interrompido. – A pessoa perseguiu-me e junto de um tronco cai...

- É um mangonde. – Concluiu um dos anciãos. – É preciso sadaca para que não volte a reaparecer-lhe.

- Ele está aborrecido com alguma coisa. – Disse o outro ancião. – E para saber o que é será preciso consultar um wihyango.

- Não é preciso consultar a ninguém. – Disse Kabwela triste. – Ele é meu avô que não cheguei de conhecer e segundo os relatos da minha mãe, ele faleceu na floresta de kundonde, presumivelmente, devorado por leões quando voltava a povoação. Uma vez que não se teve certeza desse acontecimento, ninguém fez matanga. Quando hoje me batia, o avô fez referência a este assunto e advertiu-me que caso não fizesse nada algo fatal me sucederá.

- Então, faça a cerimónia o mais breve possível. – Disse um dos anciãos. – Os mangondes não mentem e podem matar.

- Farei o mais breve possível para que o avô descanse em paz. – Disse Kabwela aterrorizado.

- Estas situações são frequentes e as pessoas que normalmente fazem isto são as que lhe negamos a cerimónia relativa à sua morte. Quando isto acontece eles vagueiam aqui na terra e não são recebido no mundo dos ancestrais. – Disse alguém entre os dois anciãos.

- Então, quer dizer que matanga constitui para os mortos um cartão de entrada no mundo dos antepassados. – Concluiu Kabwela juntando os braços no peito.

- É sim um cartão muito importante para os mortos entrarem no mundo dos antepassados.– Respondeu uns dos anciãos sentado à beira da cama dentro da palhota iluminada por uma lareira que ardia lentamente no centro exalando uma densa fumaça branca. – E para provar isso, a agressão feita hoje basta para ilustrar a importância que a cerimónia tem para as pessoas que passam para o outro lado do mundo.

Entretanto, os anciãos deixaram a palhota e foram às suas vidas, um gesto também imitado pelos curiosos que cercava o quintal do Kabwela.

Dias depois, Kabwela fez matanga tendo , em memória ao seu avô, dado, no seu quintal, uma festa de invejar, onde os aldeões de Mahunda evocaram os espiritos dos antepassados de Kabwela, comeram, beberam e dançaram ao som secular dos tambores. Assim, após aquela festa pomposa à meneira makonde, Kabwela jamais voltou a avistar algo semelhante com o que havia visto na floresta naquela manhã clara, fresca e fatídica, confirmando-se assim o pensamento popular sobre a questão...
- Allman Ndyoko, 19/03/2008.

GLOSSÁRIO
Vamatambwe – Pessoas da linhagem matambwe;
Mangonde – Espirito ou fantasma;
Wihyango – Advinho que também pode ser curandeiro;
Kundonde – Zona baixa do planalto dos makondes;
Matanga – Cerimónia ou festa alusiva a morte de alguém familiar;
Sadaca – Festa que se oferece as pessoas após ter prometido ao antepassados fazer em sua memória.

MULHER !


12/10/09

Corrupção em Moçambique - "Vimos muitos arvorarem-se em libertadores da Pátria... em nome da construção de uma burguesia nacional... projecto que redundou neste regabofe todo!"

EDITORIAL - Oh rama, oh que linda rama!...

Estão a chegar-nos informações interessantes, sobre os “roubos” nas instituições do Estado ou por ele participadas, e já começam a abundar nomes de supostos trafulhas, que andaram anos a passear a sua “classe” e arrogância, ofendendo, simultaneamente, a miséria que abunda neste país, mas, sobretudo, a humilhar os que trabalham e pagam impostos. São nomes e mais nomes que, por aí, começam a soar. Nomes e mais nomes, de pessoas e instituições. E, curiosa e sintomaticamente, os sinais exteriores de riqueza estão a desaparecer de certos sítios onde, habitualmente, se exercitavam as ofensas ao mais tolerante dos cidadãos e se despertavam da inconsciência os mais distraídos.

Em breve, não nos admiraremos que os mesmos que há tempos diziam “vamos discutir ideias, deixemo-nos de ofender pessoas” vão começar a defender que é legítimo que se comece a “denunciar”, com todas as letras, os seus próprios amigos. As “vitórias estrondosas”, as “vitórias esmagadoras” da Frelimo trouxeram-lhe sempre um custo difícil de gerir. Não será agora que as coisas se irão passar de maneira diferente. Desta vez, vai voltar a ser assim. Com uma economia de escassos recursos, para tantos na mesma casa, vai ser difícil encontrar recursos que saciem todos os que estão, agora, de boca aberta, à espera do que entendem por “merecido” lugar à sombra.

E é nesta luta que vai, com certeza, haver quem se exceda para oferecer um lugar, ao “sol”, de preferência aos “quadradinhos”, a quem for necessário abater, para deixar de lhe estorvar o caminho.

Por isso, não nos admiramos que estarão de regresso, muito em breve, os tempos da “bufaria”, em que os verdadeiros trafulhas e candongueiros, com as suas habilidades politiqueiras e de grupo habituais, vão ser os sobreviventes. Os eternos sobreviventes, não fosse a sua idade avançada e a impiedade divina…

Quando ainda era possível repreenderem-se os prevaricadores, seguir-se uma política de apelo à decência, vimos muitos arvorarem-se em libertadores da Pátria, para defenderem o seu direito às “batidas”, em nome da construção de uma burguesia nacional que, em abono da verdade, foi um projecto que redundou neste regabofe todo, de que Diodino Cambaza, o ex-PCA da empresa Aeroportos de Moçambique, é, apenas, um menino de coro.

Agora, quando a “Era da Bufaria” regressar ao melhor palco de espectáculos que ainda aí vem, que dirão os que enriqueceram a reboque de favores ao “partidão”, quando o feitiço se virar contra o feiticeiro?

O caso “Aeroportos de Moçambique”, já aqui dissemos, é apenas a ponta do iceberg. Agora fala-se de muitas outras instituições e de nomes de indivíduos que até já ocuparam cargos ministeriais, mas não só.

E a procissão ainda vai no adro…

Apesar do que se pode, desde já, tomar por esforços sensíveis e “positivos” (este para usarmos um termo de recorrência, sempre na ponta da língua dos yes men) no sentido das boas práticas e de moralização de costumes no Aparelho de Estado e instituições públicas ou participadas pelo Estado, temos, ainda, muitas dúvidas se este espectáculo vai passar da “rama”.

O “Caso Carlos Cardoso” ficou-se pela “rama”. Quando se estava a ir ao cerne da questão, não foi Vasconcelos Porto a ir a Marracuene, mas foi alguém silenciar Cândida Cossa…

O “Caso Siba-Siba” nem à rama chegou. Viu-se que até se tentou encontrar bodes expiatórios…

O “Caso Manhenje” se passar da “rama” vai, com certeza, dar “ramada”que nunca mais acaba…

Já dissemos quanto basta: “Oh rama, que linda rama”…
- Canal Mozambique, Ano 1 * N.º 96 * Maputo, Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009.

Biocombustiveis: Brasil exporta modelo de produção e riscos também para África e Caribe

"A campanha brasileira para difundir o modelo de produção do etanol de cana-de-açúcar em larga escala não significa apenas a oportunidade de geração de renda em países em desenvolvimento, como propagandeia o governo. Ou apenas a tentativa comercial de consolidar o "combustível verde" como commodity. Ela carrega em si, antes de tudo, o risco da exploração degradante dos recursos naturais e dos trabalhadores do Caribe e da África."

Objetivo do governo é consolidar produto como commodity. Transferência de conhecimento e investimentos são acompanhados de potenciais impactos sobre a vida de trabalhadores, comunidades tradicionais e meio ambiente.

Para que o etanol de cana-de-açúcar se torne uma commodity, é preciso ampliar o número de países produtores. Os empresários brasileiros e o governo federal sabem disso e, como estratégia para viabilizar as exportações do produto à Europa e aos Estados Unidos, incentivam a expansão da atividade sucroalcooleira na África e América Latina.

"Para formar um mercado internacional, é preciso ter mais países ofertantes. Só assim vamos desenvolver um mercado futuro, com negociações em bolsa", afirmou Alexandre Strapasson, coordenador do Departamento de Cana-de-Açúcar e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O alvo da política brasileira de expansão do monocultivo de cana são os países pobres. Em geral, eles têm maior disponibilidade de terra e de mão-de-obra barata e condições agroclimáticas mais favoráveis aos canaviais. Além disso, no caso dos países do Caribe e da África, possuem facilidade logística para vender aos Estados Unidos e Europa, respectivamente.
 
Os países caribenhos acumulam ainda uma vantagem fiscal: seu álcool não paga imposto na terra nos Estados Unidos, graças a um acordo preferencial de comércio com os norte-americanos, assinado em 1983 e renovado em 2000, conhecido como Iniciativa Caribenha (ou Caribbean Basin Initiative - CBI).
 
No Brasil, a Divisão de Energias Novas e Renováveis do Ministério das Relações Exteriores (MRE) coordena o programa Pró-Renova. Como parte desse esforço, já foram assinados 60 memorandos de entendimento para cooperação técnica bilateral na área de produção de cana-de-açúcar.
 
"Esses memorandos dividem-se em dois grupos: de um lado, o dos países desenvolvidos que demandam biocombustíveis e procuram o Brasil para saber mais sobre nossa experiência do etanol; do outro, o dos países em desenvolvimento, com vocação agrícola, nos quais a cana pode atuar como vetor de desenvolvimento", declarou o coordenador do Mapa.
 
Segundo ele, o memorando de maior sucesso foi assinado com os Estados Unidos, em 2007, para pesquisas conjuntas sobre a sustentabilidade do etanol de cana. Um dos focos do trabalho é a tentativa de criação de uma metodologia comum de quantificação das emissões de gases de efeito estufa.
 
A coordenadora da Divisão de Energias Novas e Renováveis do MRE, conselheira Cláudia Vieira Santos, detalhou o escopo da iniciativa: pesquisadores brasileiros e norte-americanos já realizaram estudos sobre a viabilidade da produção de etanol de cana em El Salvador, Haiti, República Dominicana, São Cristóvão e Névis e agora atuam em conjunto na Guatemala, Jamaica, Guiné Bissau e Senegal.
 
Longe de apenas responder a demandas pré-existentes, o Brasil tem adotado uma postura pró-ativa na política externa relativa ao etanol. Em outubro e novembro deste ano, por exemplo, uma equipe técnica composta por representantes do MAPA, do MRE e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) esteve em Botsuana, África do Sul, Angola, Zâmbia, Tanzânia, Zimbábue e Moçambique para ministrar um curso sobre o Zoneamento Agroecológico (ZAE) da cana-de-açúcar.
 
De acordo com Cláudia, o objetivo da ação foi o de "apoiar a capacitação de países africanos interessados em implementar ou já implementando programas nacionais na área de bioenergia".
 
Os esforços do governo brasileiro para aumentar o número de países produtores de etanol de cana não param por aí. Como visto no parágrafo acima, Maomé foi à montanha. Mas, neste caso, a montanha também veio a Maomé: o Mapa, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), realizou em Ribeirão Preto (SP), de 16 a 20 de novembro deste ano, a "I Semana do Etanol: compartilhando a experiência brasileira".
 
O público foram gestores e empresários de cerca de 20 países de língua inglesa da África (como Botsuana, África do Sul, Nigéria e Quênia), da América Latina (como Jamaica e Guiana), da Ásia (como Vietnã e Tailândia) e da Oceania (Ilhas Fiji). Em 2008, a chamada "Ethanol Week" aconteceu em setembro, em Araras (SP), e se voltou aos representantes de 31 países de língua espanhola e portuguesa: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, El Salvador, Haiti, República Dominicana, Cuba, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal e Togo.
 
Iniciativa privada
De acordo com Alexandre Strapasson, os investimentos diretos de usineiros brasileiros em outros países são tímidos. "É um desafio convencer empresários do Brasil a investir na África e América Latina. Ainda mais porque eles enfrentam a concorrência de países europeus, que também estão interessados em produzir nesses territórios", justificou o gestor.
 
Entre os grupos nacionais que já apostam na expansão da cana em território estrangeiro estão o Guarani e o Odebrecht. O primeiro, que possui seis usinas em São Paulo, passou a investir em Moçambique em 2007, comprando uma usina de açúcar construída em 1998. Por meio de um contrato renovável de concessão de terras públicas válido por 50 anos, os canaviais africanos do Grupo Guarani ocupam hoje 91 mil hectares, com plantio e colheita totalmente manuais. Na safra passada, a produção nessa unidade foi de 66 mil toneladas de açúcar. De acordo com a assessoria de comunicação da empresa, até o momento não há produção de etanol, mas "o governo de Moçambique, que possui participação acionária na Guarani, demonstrou grande interesse no setor de combustíveis renováveis por meio de projetos apresentados ao FMI [Fundo Monetário Internacional] e ao Banco Mundial".
 
Já o Grupo Odebrecht deve iniciar até o final de 2010 a produção de açúcar e etanol em Angola. A construtora brasileira tem participação de 40% na Companhia de Bioenergia de Angola, cujos demais sócios são a estatal petroleira Sonangol e o conglomerado angolano Damer.
 
Do ponto de vista da segurança energética, é importante ter outros países produzindo, a fim de mostrar aos consumidores que a oferta é estável", afirmou o diretor-executivo da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Sousa, concordou com a avaliação. "Caso contrário, cria-se a situação do ovo e da galinha que vivemos atualmente: não existe um mercado consumidor consolidado, então muitos países hesitam em começar a produzir. Por outro lado, existem poucos países produtores, então o mercado consumidor não se consolida", explicou o representante da Unica.
 
Por enquanto, a indústria brasileira que mais tem faturado com a política externa de incentivo à expansão da atividade sucroalcooleira é a Dedini, líder mundial na fabricação de equipamentos para o setor. "Nossas exportações cresceram 660% nos últimos 5 anos", comemorou o diretor de exportações da empresa, Antônio Pereira. Segundo ele, cerca de 10% do faturamento da Dedini vem do mercado externo, com clientes espalhados por 26 países, com destaque os localizados no Caribe e na África, além da Venezuela, Estados Unidos, Uruguai, Colômbia, Argentina, Bolívia e México.
 
Sinais de alerta
A campanha brasileira para difundir o modelo de produção do etanol de cana-de-açúcar em larga escala não significa apenas a oportunidade de geração de renda em países em desenvolvimento, como propagandeia o governo. Ou apenas a tentativa comercial de consolidar o "combustível verde" como commodity. Ela carrega em si, antes de tudo, o risco da exploração degradante dos recursos naturais e dos trabalhadores do Caribe e da África.
 
Na Guatemala, país exportador de açúcar, o Instituto de Estudos Agrários e Rurais - Idear, pesquisa há quase três anos as investidas do Brasil em território guatemalteco. O pesquisador Alberto Alonso Fradejas contou que a usina de açúcar Guadalupe Chawil Utz já invadiu zonas tradicionais de cultivo de alimentos.
 
Um dos acionistas dela é o grupo sucroalcooleiro Pantaleón, que integra uma joint-venture formada também pelo colombiano Engenho Manuelita e pela brasileira Unialco. Juntos, os três construíram uma usina de açúcar e álcool no Brasil (a Vale do Paraná, em Suzanópolis - SP) e estão investindo na construção de uma usina de desidratação de álcool na Guatemala, com vistas ao mercado norte-americano.
 
Em Moçambique, o ProCana promete gastar US$ 500 milhões e gerar 2 mil empregos diretos, usando tecnologia brasileira na produção de açúcar e etanol. Uma matéria do jornalista norte-americano Adam Welz, publicada em março deste ano no site "Mother Jones" (especializado em temas socioambientais), detalha os riscos do projeto. Cerca de 30 mil hectares de savana nativa deverão ser convertidos em canaviais em Massingir, a região mais seca do país, provocando perda de biodiversidade e consumo excessivo de água (aproximadamente 409 bilhões de litros por ano para irrigação). E 38 mil moradores do entorno do Parque Nacional do Limpopo serão obrigados a deixar suas terras.
 
A Constituição de Moçambique decreta que todas as terras do país são propriedade do Estado, que pode conceder autorização de uso a empresas por períodos de 50 anos. Essa concessão, no entanto, está condicionada à ausência de comunidades tradicionais no território. Pelo jeito lá, como no Brasil, boas leis não são garantia de boas práticas.
- Por Thaís Brianezi, do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis - In Repórter Brasil - Agª. de Notícias, 09/12/09.
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