7/22/10

TERESA

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Naquela manhã fria de Dezembro, um sol medroso espreitava pelas nuvens e as pessoas agradeciam folgando os agasalhos.

Encostado ao muro da morgue, eu via os carros a fazerem a curva dos trilhos dos antigos eléctricos. Em frente, no bem tratado jardim, uns patos pachorrentos grasnavam, satisfeitos, a aproveitarem as clareiras do céu, enquanto uns velhotes sumidos enganavam a reforma lendo as notícias dos crimes passionais e da necrologia. O hospital, velho convento do século passado, engolia doentes anunciados por esbaforidas sirenes que partiam, depois, silenciosas, cansadas de tanto berrar. Mais acima, pelas traseiras do quartel, entravam e saíam jipes com fardas.

A minha amiga Teresa, indefesa e inocente, era autopsiada ao mando da Lei. Uma pequena fila de carros funerários, enfeitados de cromados e interiores de púrpura, aguardavam vez numa postura de táxis. Uma morgue é um supermercado da morte de facturação consignada, com fingimentos dos compradores, como se os sentimentos se encenassem para melhorar o preço que a dor não discute, baralhada pelo espanto e as lágrimas.

Enquanto o sol vinha e ia, a minha memória remontava à meninice, àquelas tardes de sueca em casa da Teresa, com o Pai como parceiro, discussões sobre os ases, as manilhas e os riscos apontados numa mortalha com que ele fazia os cigarros de onça. A sesta semicerrava as portas do casario, mas nós passávamos o tempo nas algazarras das oportunidades dos trunfos. Quando o cansaço chegava, o Senhor Francisco – santo e honrado homem que fizera nome como feitor nos socalcos durienses – ia amainar as fúrias no sossego da sua cama, enquanto eu e a malta da escola íamos suar para o adro da capela da Senhora da Graça com cinco minutos a jogar a bola e outros cinco a procurá-la nas vinhas circundantes; ou, então, subir o monte de S. Pedro, cheios de praganas, à cata de grilos e dos ninhos de melros com sonhos de perdizes e coelhos à cintura em entradas triunfantes na aldeia como o Dr. Cândido.

Perto, alguém chorava, num gemido de desgosto, numa impotência revoltada incapaz de desarmar a irremediabilidade: uns olhos de criança tão vazios como uma estrela de madrugada de inverno, olhos de injustiça sem paga, de perda sem retorno.

Um auto-fúnebre movimentou-se e entrou, de traseira, no terreiro do Instituto de Medicina Legal. Um caixão negro veio lá de dentro, meteram-no naquele, tal uma qualquer carga, o viúvo, de luto carregado, sentou-se lateralmente e, no seu colo, a criança chorando uma saudade sem entender, ainda, o seu tamanho. Arrancou, e aí foi ele, para a confusão do trânsito, tentando recuperar a espera que a cova estava longe e devia ser tapada antes de o dia morrer. Tudo morre, os corpos, a esperança, a certeza, os dias, as noites. Morre tudo porque nasce.

O sol escondeu-se e o vento desarvorou pelas ruas. Uma ambulância, como um susto, afligiu a urgência hospitalar, os bombeiros, espavoridos, levaram a maca em correria, um deixou cair o barrete, outro gritou «deixem passar, por favor!», cabeças mórbidas debruçaram-se, curiosas das desgraças, e puseram-se a olhar umas para as outras a perguntarem por mais.

A minha amiga Teresa, cheia de vida e de trabalho, morreu-me no bocal do telefone naquele modo de dizer: «Sabes quem morreu? A Teresa! Nem sei bem como foi. O corpo sai amanhã do hospital.» Uma pessoa fica sem jeito, porque a morte não tem maneiras, sabe-se que ela existe, quase sempre nos outros, e, quando nos bate à porta, é como uma anormalidade que não se conta, uma realidade que não merecemos.

A meu lado há quem narre histórias de mortes violentas num consolo justificativo, numa desculpa de aceitação fatalista. Afasto-me para que o ruído da cidade impeça o escutar da morbidez.

Um gesto, uma paragem, o autocarro a chiar, depois a arrancar, levantando as folhas e os papeis do chão, as pessoas a segurarem-se para não se esmagarem. A Teresa, retalhada, lá se foi, os filhos sem Mãe, e o sol a fugir, e as lágrimas a caírem, e o vento a gemer, e o frio a gelar, e os lábios a tremerem, e o vazio da sua falta, e um buraco rectangular à espera no cemitério da freguesia. Para lá vai, transportada com pressa que os quilómetros são tantos e a Agência leva caro que se farta que a morte está pela hora da morte.

Gostava que morrer não fosse o fim da convivência, o arquivar da memória; não tivesse nada de prematuro ou inglório ou revoltado; que a felicidade se estendesse num tempo sem tempo - sem morte.

O carro que transporta a Teresa desapareceu por entre os renques do jardim onde os velhos fazem, agora, as palavras cruzadas; por entre a chaparia de insultos e vinganças de ultrapassagens em que as cidades se infernizam até ao choque final, até à morgue mais próxima.

Olhei para o alto e, cintilando-me nas lágrimas, o sol ia morrendo.
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
  • *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. Pode ler também os textos deste autor no blog Escritos do Douro. Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!

7/17/10

Poema a PORTO AMÉLIA

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POEMA A PORTO AMÉLIA
(À Memória de Jaime Ferraz Rodrigues Gabão, escrito em Junho/70)

Terra suada pelo fogo do sol e esquecida lá no norte,
onde tantos ganharam a coragem para refazer a vida
e teimam em ficar, unidos e em comunhão com os lá nascidos.
Terra que ouve tiros ecoando na selva
e sepulta corpos vestidos com sangue de guerra,
poetas gritando justiça e paz, mesmo que ninguém os ouça,
nem os que trincam a alma no amanho da machamba,
nem os que mastigam o tempo no amanho da esperança.
Terra vermelha com cemitério debruçado sobre o mar,
cruzes escurecendo no desfilar da memória,
epitáfios de números e de nomes esquecidos além.
Terra que sente os espaços limitados,
as angústias das palmeiras seculares,
abrigando a sombra de olhos fixos nos corais
e suspirando horizontes na quietude triste de um cais.
Terra que ajudou a criar o poeta, a fazer o poema
e a construir a filosofia do abraço e do sorriso.
Terra que também é minha porque nela chorei de solidão,
chorei amigos que foram mortos sem razão
e nela joguei sem deserções o xadrez da vida;
vi crianças de olhos esbugalhados pelo espanto
e homens hipnotizados pelo minuto seguinte.

Ó terra excitada pelos batuques das gentes negras,
sons perdidos na cumplicidade das tembas!
Eu te lembro deste continente que se chama Europa,
meto o poema numa carta e pergunto quantos selos leva,
sem selos a palavra escrita não salta mares,
deito-a num saco de correio azul – azul como o teu céu
e espero, meu AMIGO, que me respondas do outro lado.
Seria bom – ó terra dos ecos nocturnos! – voltar às tuas manhãs de luz,
aos teus entardeceres como quem fecha os olhos para sonhar,
perder-me nas picadas de fins ignorados e ouvir o eco do meu grito,
aliviar o meu alvoroço oprimido e poder dizer: «Viva a vida!».

M. Nogueira Borges* – Porto, Junho/1970
  • Jaime Ferraz Rodrigues Gabão, cidadão português nascido na cidade de Peso da Régua em 13 de Abril de 1924, falecido em 18 de Junho de 1992, dia do Corpo de Deus e sepultado no Cemitério do Peso (da Régua).
  • *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor e poeta do Douro-Portugal. Nasceu no lugar de S. Gonçalo, freguesia de S. João de Lobrigos, concelho de Santa Marta de Penaguião, em 12.10.1943. Frequentou o curso de Direito de Coimbra, cumpriu o serviço militar obrigatório em Moçambique, como oficial mil.º e enveredou pela profissão de bancário. Tem colaboração dispersa por diversos jornais, nomeadamente: Notícias (de Lourenço Marques); Diário de Moçambique (Beira), Voz do Zambeze (Quelimane), Diário de Lisboa, República, Gazeta de Coimbra, Noticias do Douro, Miradouro, Arrais e outros. Em 1971 estreou-se com um livro de contos a que chamou "Não Matem A Esperança". (In 'Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses', coordenado por Barroso da Fonte. Manuel Coutinho Nogueira Borges está no Google. Pode ler também os textos deste autor no blogue ForEver PEMBA. Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue! Pode ler também os textos deste autor no blog Escritos do Douro. Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!
POEMA A PORTO AMÉLIA
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7/15/10

O REFORMADO - Parte 2

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Iniciara-se ao balcão, a receber as propostas comerciais, ensinar o preenchimento de livranças ou letras, e acabara a decidi-las no suporte informativo do bom ou do mau nome. Voltara à nulidade sem préstimo ou importância. Agora só lhe pediam paciência, aqueles expedientes de velhos amanuenses que, sem nada para passar o tempo, agradecem um entretém. Sem feitio para dizer que não, passava horas nas filas de espera para cumprir as burocracias dos filhos, bufando e fumando. Sentia-se trapo, esfregona de limpar pingos, amortecedor de rebeldias juvenis. Como passara a vida... Onde mais lhe percebia a brevidade era quando levava o neto mais velho à Escola, igual àquela onde aprendera o a, e, i, o, u. Vinha-lhe tudo à lembrança: os Pais que uma vida inteira na lavoura não os tirou da precisão, sempre iludidos pelo fascínio das vinhas; a Professora, cuja morte na curva da estrada, apanhada por um carro de praça, lhe ficou como o estigma de uma vida roubada por um Deus indiferente; os cânticos da tabuada e os vivas a Salazar pendurado na parede ao lado de uma Cruz e do Carmona como imagens petrificadas do medo; as brincadeiras no recreio de terra batida com os velhos do Asilo ao lado, sentados nos bancos de pedra e olhos no chão. Recordava a alegria do fim das aulas com a Mãe à sua espera, sempre de avental, um sorriso de bondade e um afago de calos. Dava a mão ao neto e era, agora, com se fosse a Mãe a perguntar-lhe: «Trazes muitos deveres?»

Aborrecia-se por tudo e por nada com a Mulher que, num troco dobrado, também ajudava. Deixou de rir e falar só quando não podia ficar calado. Por vezes, até os netos o insuportavam. Passados uns meses, por plágio do que escutava a outros, foi a um Psiquiatra que lhe receitou meio lexotan de manhã e outro meio à noite e exercício físico. «Caminhe, sempre a plano, e convença-se de que está num novo e belo ciclo de vida!», aconselhou paternalista. Durante algum tempo assim fez, chegou a pedir-lhe uma segunda receita, mas, a sua tristeza não tinha fim. «Alegra-te! Até parece que tens uma doença! Falta-te alguma coisa?! Porra pró homem!», sacudia-o a Celeste.

Abandonou os almoços semanais com os antigos colegas e isolou-se progressivamente. Mal se sentava no sofá, adormecia diante da televisão. Sempre fumara muito, mas, agora, fumava muito mais. Os cigarros iludiam-lhe as horas e consumiam-se num ápice. No Verão ainda passava mais ao menos. Ia à praia com a miudagem a encher-lhe o carro e as preocupações; passeava, com o sol a alegrá-lo, pelas redondezas do quarteirão, apreendendo os hábitos da vizinhança, onde descobriu um estudante de Arquitectura que fazia os trabalhos práticos diante da Igreja a tentar desenhar o seu Românico; surpreendeu-se com um reformado dos Transportes Colectivos pela educação requintada e vasta cultura, passando horas, no Café, debruçados no jornal de Artes e Letras, discutindo as novidades publicadas. Deprimia-se com a chegada do Outono, e o Inverno, então, gelado e húmido, de chuva perpétua a escorrer nas vidraças, até o disfarce lhe tirava. Sentia-se desalentado, sem apetite. Mais cansado e desolado do que quando trabalhava.

Dormia mal, aos solavancos, e começou a acordar, repetidamente, com uma necessidade irresistível de urinar, facto que, pela anormalidade, lhe lembrou aqueles anúncios patéticos de jornais com elixires para a próstata. O Urologista consultado meteu-lhe no cu um dedo enluvado com gel e, sorridente, sentenciou: «Não se preocupe. Está tudo bem. Vou só pedir-lhe umas análises de rotina, incluindo o psa, e receitar-lhe umas cápsulas destas – escrevendo a receita – para tomar uma todos os dias, depois do pequeno almoço, só por uma questão de controlo.» Nunca precisara de tomar nada e, agora, eram só caixas de medicamentos. Não lhe bastavam os calmantes, acrescentavam-lhe, agora, cápsulas de libertação prolongada para a hiperplasia benigna da próstata, sem falar nos comprimidos para o colesterol que, posteriormente, o laboratório sentenciara alto...

Uma tosse irritante, seca e rouca, com arrancos espasmódicos que não o deixavam dormir, a ponto de ter que se sentar na cama para serenar um pouco, levou-o ao Dr. Pias, seu médico de sempre. Como de costume, perderam-se um bom bocado a falar de política, descascando no (des)governo - fosse qual fosse, estavam sempre contra –, até, finalmente, começar a consulta. Depois de repetidas auscultações, o médico pousou, atonamente, o estetoscópio no tampo da secretária e disse: «Amigo Silveira, ou deixamos de fumar ou estamos mal!» Tremeu e perguntou: «Tem que ser mesmo não é?...» O experiente esculápio foi bruxo, mas atrasado. Quando, mais tarde, viu o pneumotórax solicitado, o Dr. Pias dissimulou como pôde o sobressalto que a chapa lhe causou. “Raio! Parece uma bola de ping-pong...”, dizia para si, observando no contra luz uma mancha branca no pulmão esquerdo.

Os médicos amigos do Dr. Pias, a quem o recomendara, dividiram-se: uns, inclinavam-se pela operação, outros, que nem valia a pena. Aqui, Silveira viu-se a desaparecer numa onda escura, tomado de um pânico de afogado. Passou os dias a rebobinar o filme da sua vida; de noite, a Celeste ouvia-lhe a tosse, mas, não via as suas lágrimas a salgarem-lhe as faces. A morte, então, era isso: a perda da capacidade de se aborrecer ou divertir-se consoante a disposição do momento; deixar o chão e o céu, as caras dos filhos, dos netos, o corpo da Celeste, a liberdade dos passos, a comodidade das vontades. Percebeu tudo distante, como se nada pudesse repetir-se. Havia nos seus olhos uma penumbra de fim, na sua alma um choro irregressível. O alento do seu querido Dr. Pias, que o esperançava e defendia a operação – «Não tem nada a perder, Silveira. Vai ver que tudo corre bem. Não deixe de lutar, homem!» -, deu-lhe alguma coragem. Reuniu a Mulher e os filhos e concordaram que iria à faca. Apossara-se dele, estranhamente, uma raiva semelhante a quando nos acusam sem razão. Não fez quaisquer preparativos domésticos, não deu conselhos de despedida, nem sequer se preocupou com transferências de dinheiros. Assinou o termo de responsabilidade e «seja o que Deus quizer!».

Quando, ainda na sala de recobro, abriu os olhos e se sentiu vivo, sorriu tanto que a Celeste o agarrou até gritar de dor com o aperto das costas. Regressou a casa com um saco de medicamentos e uma descrição escrita dos tratamentos futuros.

Contudo, escassos meses demoraram aqueles. Cansava-se cada vez mais e custava-lhe a respirar. Sempre que vinha do IPO, sentia-se um frangalho, vomitava uma baba azeda, bebia leite e deitava-se. Apalpava as coxas e via-as desaparecer, o cabelo sumia-se em fiapos de algodão, só o rosto, diante do espelho, lhe surgia, singularmente, inchado. Estava disforme, Silveira não tinha gosto em si. Aos que o confortavam com esperas de melhoras, respondia com um sorriso triste que era mais um trejeito de legenda do que uma concordância correspondida. Ele sabia que o tempo se lhe escoava porque já vira o mesmo em outros. Lembrava-se sempre do Alberto que em meio ano se apagara. Já nem podia esconder os sinais do corpo que lhe recusava o esforço do gesto mais banal. Encolhia o sofrimento porque pertencia ao grupo daqueles que nasceram para o consenso e não para, por tudo e por nada, se reflectirem nas preocupações alheias. Talvez por isso, furtava-se, cada vez mais, aos encontros, não queria mostrar a sua decadência. A Celeste – já avisada pelos médicos – fingia-se desentendida, praticando uma esforçada normalidade diária, encolhendo a amargura, soltando as lágrimas só quando ele conseguia dormir, mentindo-lhe que o Operador lhe dissera que estava limpo. Quando, raramente, sempre com os netos pelas mãos, se ausentava, pedindo à irmã que a viesse substituir, distraía-se por Santa Catarina a comprar «umas roupinhas para os que me irão adoçar a solidão».

No dia em que convenceu a Mulher que, a partir daí, cada um dormiria em quartos separados para que, ao menos ela, pudesse dormir umas horas, chorou toda a noite (ignorando que a Celeste fazia o mesmo), misturando as lágrimas com as dores.

Não era só o corpo dela que se afastava, era a sua morte que se aproximava.

Nos últimos dias que passou no Hospital, com uma máscara para respirar e tubos de soro para se alimentar, repetia, enquanto as forças lho permitiram, a quem o visitava: «O meu mal foi reformar-me. Despertou o bicho que estava amansado.»

Agramonte recebeu-o com muitos e muitos colegas e amigos espantados com a brevidade daquela reforma. A Celeste, já sem lágrimas para chorar, tinha um alívio de dever cumprido; os filhos, com os nós das gravatas pretas descaídas - como aquilo que se usa apenas para cumprir um preceito -, falavam com os conhecidos; só os netos já crescidotes, escolares primários, tinham olhos de despedida - era a inocência que chorava.
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
  • *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. Pode ler também os textos deste autor no blog Escritos do Douro. Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!

7/07/10

O REFORMADO

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Silveira, durante toda a sua vida de trabalhador bancário, nunca recusou um serviço ou um lugar. Assim, não se importou de mudar de terra, vendo a família só aos fins-de-semana, para ocupar a gerência de um Balcão de província. Fez a sua carreira com esforço, sem contabilizar horários, nunca discutindo tarefas, embora, muitas vezes, se achasse mal recompensado. Não se queixava. Ele é que escolhera.

Desmobilizado, quando do regresso de Angola, ainda voltou a Direito para fazer algumas cadeiras ao abrigo do estatuto dos ex-militares. Depois de um recomeço fulgurante que lhe consentiu os maiores entusiasmos, desistiu ao segundo chumbo de Obrigações, incapaz de suprir a ausência das aulas e dos pormenores que só a frequência daquelas dariam já que, não referidas nas sebentas, surpreendia-se sempre com o tamanho da sua ignorância de assuntos que nunca ouvira ou lera. Confundia-o, também, a bagunça contestatária, as constantes alterações de datas que o obrigavam, em vão, a faltar ao emprego e que a sua rotina militar de trinta e nove meses, feita de obediência indiscutível encarava mal. Aquilo já não lhe dizia respeito... Vira morrer e matara; estava cansado para, agora, se meter em guerras de berros. Soavam-lhe a arrufos de bem instalados, heroísmos intelectualizados, até ofensivos, comparados com os meses que vivera nos matos da Lunda.

Após umas experiências avulsas em Editoras e Agências de Publicidade, candidatou-se a vários Bancos que, naquela época, era um emprego seguro e com estirpe social. O primeiro a chamá-lo para os testes psicotécnicos admitiu-o, num fim de Verão, ainda o 25 de Abril estava longe. Profissionalmente estável e eufórico pela febre bolsista da Primavera Marcelista, Silveira ganhou dinheiro e o coração da Celeste que, numa Seguradora, começara a juntar para o bolo do casamento. Se algumas dúvidas ainda lhe restavam, elas dissiparam-se: perdia, definitivamente, a esperança de acabar o Curso interrompido pela convocatória militar.

Nascidos dois filhos com intervalo de um ano como se tivessem pressa de despachar a descendência, os anos passaram-se no desvelo da sua criação que culminou com as formaturas no Curso que ele nunca terminaria. Os filhos vingaram-no.

Quando apareceram os netos, fizeram contas à vida e, vendo-a mais curta, decidiram que era a altura de lhes dedicar a segunda paternidade. A Celeste, aproveitando a maré dos novos conceitos de gestão, para quem um trabalhador não passa de um dígito, antecipou a reforma para cuidar deles, em vez de os ver depositados, todas as manhãs, ainda ensonados, num qualquer infantário. Passou, então, a ser só ele a levantar-se nas madrugadas de segunda feira, com o sol ainda a dormir, de tempo espremido para a viagem até à Agência distante. Custava-lhe, no Inverno, aquela chuva enovelada na escuridão fria, sempre com o credo na boca pelo nevoeiro ou o gelo da estrada. As noites na residencial, então, sem o aconchego das suas coisas e da sua gente, eram quase irascíveis. Foram anos em que – quantas vezes! - pensou, também, reformar-se para ficar no remanso com o chilreio infantil a preencher o apartamento. Afastava a ideia, lembrando-se do seu velho Pai: «Um homem só se reforma quando morre!»

À Agência todos os dias lhe chegavam directivas a traçar objectivos de negócio. Com os outros dois colegas sempre ocupados, um na especificidade da Caixa e o outro no expediente normal, Silveira passava muitas horas no exterior a angariar novos clientes e visitando os antigos com propostas de aplicações financeiras. Nunca se retirava antes das oito, ocupado no trato da papelada administrativa empilhada no tampo da secretária e pondo a conversa em dia com a Celeste em telefonemas que, em alguns meses, lhe preocupavam o plafond autorizado. Sem pressa de sair - ninguém o esperava -, verdade se diga, contudo, que começava a sentir-se injustiçado. No Café da Vila, praticava algumas relações públicas que lhe granjeavam a simpatia do meio e a permanência de contas com bons saldos médios. Sentia mais a falta da família do que a abundância do trabalho. O vai e vem semanal enleava-o. Estava na hora de solicitar à hierarquia um regresso às origens, à certeza de sair de manhã e voltar ao fim da tarde, aquela rotina dos gestos e das vozes, o aconchego da noite com o corpo da mulher a aquecer o seu, sem fazer cálculos para o ajuste do fim de semana. Mal lhe soaram aos ouvidos, ou lhe caíram sob os olhos, os primeiros sinais de racionalização de custos, emagrecimento do pessoal, rejuvenescimento de quadros e outros quejandos na moda dos recursos humanos, passou a prestar mais atenção ao espelho para ver se as rugas o englobariam no rol dos dispensáveis. Não precisou de muito tempo - nunca dando a entendê-lo - para perceber que o seu dia estava prestes a chegar. Feitos trinta e cinco anos de serviço, excluindo mesmo o tempo a duplicar pela campanha africana, convidaram-no, entre encómios que lhe pareciam lisonjas interesseiras, se não quereria ir para o descanso. Não, ele não queria descanso, mas, continuar a trabalhar na terra onde estavam as suas companhias e posterioridades. Sentia-se credor desse desejo, justificado pela devotada dedicação profissional e pela humana justeza da sua razão. Fez ver isso às insinuações que lhe chegavam pelo telefone ou pelos convites sorridentes, com muitas batidelas nas costas, quando se deslocava à Sede, ninguém lhe garantindo a satisfação pretendida, porque «bem vê, com a reorganização em curso, muito difícil, a breve prazo, anuirmos ao seu pedido...». Sentia nessas ocasiões um adormecimento de desilusão, um «para que andei eu a sacrificar-me tanto...».

Deixou passar uns meses e negociou a reforma para o fim do Verão. Os foguetes do Ano Novo seriam o anúncio da sua despedida, amarga e revoltada. Mais que revolta, a constatação de que pouco lhe valera o vestir da camisola. Julgava-se, aos sessenta anos, amadurecido e disponível, ainda, para continuar. Estava no ponto ideal da cozedura, nem rijo nem mole, eficaz nas decisões e maleável no trato. Atingira o patamar do equilíbrio em que se é aceite pelo respeito profissional e pela experiência humana; ganhara a endurance cujo melhor retrato é o auto-domínio ao disparate, às pressões e às nervuras emocionais. Mandando-o porta fora, era como se interrompessem a história de uma vida ainda útil. Haviam-lhe comido a carne e como os ossos, irremediavelmente, já tinham prazo, antes que se quebrassem, davam-lhe o destino dos electrodomésticos fora de validade.

Apesar de tudo, nos primeiros tempos, inebriou-se na disponibilidade do tempo e da vontade. Passeou o que pôde – concretizou, finalmente, o sonho de conhecer Paris, onde passou oito dias estonteantes, regressando com a sensação de não ter saciado nem uma décima da sua curiosidade -, leu, sofregamente, os livros tantos anos adiados – até arranjou coragem para Saramago - e, em muitas soalheiras manhãs de sábado – detestava o domingo para passear – ia com os netos para o parque da cidade mostrarlhes os «patinhos no lago», fiscalizando-lhes as bicicletas com rodas de apoio. Deu-se à excentricidade culinária, especializando-se num bacalhau assado no forno que rotulou de Bacalhau à Silveira. Ao princípio, guiava-se pelas revistas do Chefe Silva que a Mulher esquecera numa gaveta, mas, depois, fiava-se na sua fantasia que recriava com especiarias que rebuscava nas prateleiras do Continente. Arranjou, contudo, algumas guerras com a Celeste, pois incomodava-se, seriamente, quando ela, feita sabichona, lhe chamava a atenção para alguns destemperos. Chegou a ir ao futebol para se certificar da diferença de quando o via pela televisão, os seus sons e tons, a histeria das claques, o bruá da multidão na eminência dos golos e o estoiro orgástico quando aqueles se concretizavam.

Estranhamente, assim como de um dia para o outro, começou a acordar mal disposto e cansado, a pensar no que iria fazer para se ocupar. Sentia-se desamparado, longe dos ruídos e dos cheiros da Agência. Faltava-lhe o imprevisto dum telefonema atribulado, suplicando-lhe pressas de financiamento; aquele poder de influenciar fundos sempre balizados nas regras estabelecidas que o escudavam de remorsos nas recusas obrigatórias.
Continua...
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
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6/29/10

Retalhos lusitanos: ALTO DOURO

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Já não há poetas que cantem as vindimas da alegria de ontem, hoje da tristeza e do fatalismo; poetas que gritem a angústia desta terra que chora em muitos lares o desfazer dos sonhos do remedeio.

Altas montanhas, ventres inchados de filhos paridos em cada Outono. Rutilância de prata escurecida pelo abandono de quem descuida a necessidade de todos os dias. Vinhas da indiferença de quem só suga o chão sem o tratar como se o sumo brotasse da contemplação da riqueza. Vinhas do desgosto e da inveja, brasões seculares de cepas eternas e de uvas feitas pedras preciosas.

Já não há poetas que denunciem a ambição que escorre pelos montes como lava de um vulcão ciclicamente despertado. Lutas de fortunas beneficiadas no sossego da apatia, na monumentalidade dos cognomes. Alianças toleradas depois difamadas, serpentes metalizadas em rodopio malicioso pelos bardos da madrugada. Virus escondidos no fermentar da revolta, da cobiça e, até, do ódio.

Já não há poetas na minha terra que sejam capazes de denunciar a podridão sem se sujarem, pisadores de cachos sem sacríficio, contadores de almudes sem viciação, mãos abertas ao sol sem se esconderem, louvores para quem trabalha e sua na leira da sua esperança.

Onde estão as palavras da verdade, inventores de moléstias que sangues contaminados propagam nas surribas esforçadas pelos socalcos sem fim deste solo tão severo que só dá vontade de pensar nos que o talharam, há séculos, com pá e ferro, água-pé e vida.

Onde estão os poetas durienses, almas insatisfeitas, atormentadas pela precisão nas margens do rio? Homens e mulheres que colham os poemas nas veias da nossa honra, que esgadanhem a terra até ao sabugo da dignidade, que voem nos sonhos do amor vermelho e verde como as cores de uma Pátria que descobriu palmeiras nas orlas sanguíneas de outros povos.

Já não há poetas na minha terra que chorem por meninos sem olhares de alegria, olhares tristes, tão tristes, tal a renúncia de um carinho. Poetas que cantem os abraços que faltam, que desmistifiquem as uniões falsas que sobram, que apontem o egoìsmo que vai roendo as entranhas da terra duriense, mausoléu do esforço de gerações esquecidas, serras e vales úberes onde aportaram os estrangeiros da exploração, mitologia da submissão que os avoengos sofreram com a amostra numa mão e o chapéu na outra.

Falai poetas sem palavras gastas e enodoadas. Escrevei-as com as mão calosas a cheirar a terra e a mosto, sem distinguir classes ou afinidades. Na terra das podas de Janeiro ou há riqueza na união ou pobreza na inveja.
- M. Nogueira Borges, Porto, 22/06/10.
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6/17/10

RETALHOS DE UM DIÁRIO - Capítulos VIII, IX e X

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Capítulo VIII

Passa pouco das onze. O piloto de terra sobe para bordo. Uma invulgar fiada de espuma, fantasticamente nítida, separa as águas de estrias esverdeadas de outras esbranquiçadas com restos de sujidade espalhando-se aos baldões. Pretos pescam em almadias. O Niassa, depois de descrever uma curva prolongada para fugir dos areais, acosta, empuxado suavemente pela bossa do Maputo, entre o Osaca e o Mar Felice. Familiares, aqui radicados, acenam. Rondas da PM guarnecem o cais. A fanfarra, de predominância negra, toca marchas militares. O pessoal excita-se. A televisão filma para se ver lá no puto. Fotógrafos sobem a guindastes. Arribam fardas da Marinha e do Exército para recepcionarem a carga... Formámos à parte dos fuzileiros que tinham embarcado em Luanda. Arrancámos com um caixa a marcar a cadência. Lá vamos, não cantando e rindo, mas em silêncio garboso, como convém: «Temos que marchar com garra!», dissera-nos o Comandante. Os edifícios são airosos, de traça coeva. Uma pequena multidão negra, branca, mestiça, monhé, china, ao longo dos passeios, observa com cara acostumada. Chega-se à Praça com um garboso Mouzinho de Albuquerque empoleirado num soberbo cavalo. Em frente, a Câmara; à direita, a Catedral de torre pontiaguda, clamando ao Alto; à esquerda, prédios com reclamos de bebidas. Toques de sentido à medida que chegam Mercedes. Ouve-se o hino do Exército. Uma volúpia patriótica aumenta-me o suor. Do cimo da varanda municipal, o General-Chefe tange as cordas do incitamento. No fim, os acordes da Portuguesa, ecoando na amplidão da praça, quase me tolhem. O regresso ao barco faz-se - não me parece encenação - por entre vivas a Portugal.

Eram seis horas quando fui chamado ao Comando para receber e distribuir o correio. Terminei o meu turno de serviço pelas vinte e uma.

Saí com os Furriéis do meu pelotão, trocamos umas notas, nuns mexeriqueiros das imediações portuárias, e fomos em busca de uma cervejaria beber umas bazukas acompanhadas de pratinhos de camarão. O trânsito pela esquerda confunde-me. A Rua Araújo abarrota, satisfazem-se todas as sedes.

Recolho pelas duas da manhã. Trabalhadores, formigas no fundo do porão, colocam caixotes nas prateleiras dos guindastes. A iluminação, que do cais se prolonga cidade fora, dilui-se na morrinha do cacimbo.

Capítulo IX

É o último dia em Lourenço Marques. O barco continua a carregar. Entra tudo, cunhetes de munições e até Unimogs. Quebranta-me uma exalação húmida. Vai ser bonito habituar-me a isto. Vamos dar uma volta pela cidade, sem afastamentos, como quem tacteia, timidamente, o desconhecido. Nem parece que há guerra em Moçambique. Um bulício cosmopolita, esplanadas a abarrotar, lojas movimentadas, consumismo no ar, carros e carrinhas nipónicas, de modelos caros, em trânsito incessante; vivendas rodeadas de jardins, algumas escondidas por muros onde assoma arborização tropical; raparigas, minimamente vestidas, alegres e tostadas; senhoras brancas empurrando carrinhos de rebentos, senhoras pretas levando-os às costas, mistura de raças sem lugares marcados, muitas indianas, de sinal na testa, limpando o chão com as suas compridas e floridas vestimentas; prédios em construção com andaimes aligeirados e os machimbombos, cheios de algazarra, cruzam-se nas amplas avenidas.

Vedadas as saídas, até à hora da largada, entretenho-me, no bar, a ouvir mais um concerto da Orquestra Cotrim, três gastos mas respeitáveis músicos que ganham a vida, enganando a velhice nestas andanças, a entreter contingentes. Afastado da solfa, ao fundo, à volta de uma mesa de pano verde, arrumadas as cartas e os dados, um grupo de milicianos escuta o capitão Silvino que vai comandar um Esquadrão de Reconhecimento na sua terceira comissão. Tem olhos avermelhados, o indicador e o médio da mão direita amarelados, peito cheio, braços ginasticados, voz grossa e tiques de Cavalaria. Fala com fatuidade, beberricando, nas pausas, em goles de experimentado. Conta peripécias dos Dembos angolanos e das bolanhas guineenses, percebe-se que recria factos a seu jeito, adora a iconografia militarista e não descura um certo devaneio imaginário.

O Comandante de Bandeira convida um grupo de Alferes para a sua mesa de jantar e custa-me fazer sala e exercitar etiqueta.

Pelas cinco da manhã, o Niassa, com um grunhido de fera, levanta ferro. O Maputo ajuda o desencorar, ouvem-se duas sinetadas, depois aparta-se. Alguns embarcados, mais resistentes, acenam para o cais e renovam-se promessas de correio. As luzes da marginal encolhem-se sob a neblina.

O mar do Canal de Moçambique não provoca balanço. O Índico, com costa à vista, tem uma tonalidade de azul turquesa. Passa-se ao largo de Inhambane. O barco vai carregadíssimo. Ficaram os fuzileiros, mas vão homens da guarnição provincial. Os convés abarrotam de viaturas, um ar de tralha, balbúrdia de mudança breve. O calor aperta. Nada-se em suor. Cada um já sabe, mais ou menos, para onde vai. Procuram-se os tarimbados, os chicos na linguagem miliciana, em busca de conselhos ou de enganos  para disfarçar receios. Os mapas do Norte saltam de mãos em mãos. Há um indisfarçável nervosismo que se percebe nos rostos, nos gestos, nos mutismos, nos isolamentos, nas altercações pueris, no abuso do álcool.

Sento-me numa cadeira de lona, contento-me com a aragem que amacia a baforada, fumo um LM num depurado prazer, alheio-me da desordem em redor e monologo como quem necessita de acertar contas consigo próprio. O turbilhão, cá dentro, não tem sossego, remoinho da minha impotência. De cada vez que venho à superfície, tomo noção – numa brevidade aflita – de que não me quero afundar na desistência, que devo lutar pela vida, nem que grite por socorro, nem que renove a Deus – com medo de que alguma vez não me tenha acreditado - juras de fidelidade eterna em troca da salvação, nem que grite pela minha Mãe para me deitar os seus braços umbilicais. Construo a armadura invisível para me defender da contrariedade do que sinto e penso, infante dócil às ordens de espadas cintilantes, impossibilitado de lhes fugir, porque quando os soberanos que as usam se auto-nomeiam e prolongam a vida – há quem os suponha eternos – os fugitivos são sempre apanhados, na esquina de um retorno que a carência de um afastamento livre compele, por um castigo dobrado. Sou filho de uma conjuntura sobrevinda numa época de mitómanos ideológicos, podendo ter nascido antes ou depois deles, ou nem ter nascido, ou ter nascido outro, longe (desconhecedor) desta história, como se o acaso, que me mandou ir às sortes, fosse transferível para uma definitiva impossibilidade, pura e simplesmente a inexistência... Uso a realidade para amanhã – se a tiver - requerer a paga, o equilíbrio - nunca equivalente, mas, ao menos, não ingrato ou omisso - entre o despojamento dos sonhos e os riscos forçados. Sem heroísmos e sem fugas, cumpro a sina de uma cigana que, uma noite, numa barraca da Feira Popular do Porto, disse perante a palma da minha mão: «Está aqui escrito que há-de atravessar águas do mar...» Mas porquê e para quê? Uma cigana, mesmo bruxa, não sabe tudo.

Anda, então, arcaico paquete, caravela de novos forçados, galga-me este mar que tenho pressa de regressar à minha utopia de liberdade.

Capítulo X

A selva, pelas quatro da tarde, emerge luxuriante, debruando a enseada de Nacala, duas meias luas como asas de um quiróptero fossilizado. As bagagens amontoam-se nos tombadilhos e os militares, sentados nelas, lembram rafeiros guardando a ração.

- Agora é a sério! – berra um Capitão de olhar malinado.
- Não comece já a meter medo, meu Capitão! Olhe que os cus não têm galões! – retorque, matreiro e com o à vontade de muitos copos, o Marques, conhecido, na oralidade de bordo, pelo Alferes Pinguinhas.

Ameniza-se o nervoso da espera combinando SPMS com os que não desembarcam por seguirem para Porto Amélia e Mocímboa. A chaminé de uma fábrica de cimento («É do Champas!» - dizem alguns) parece um vulcão iluminando a noite que tombou abruptamente. A humidade elanguesce, os barulhos ecoam numa calma de laguna. Um jeep desce veloz para o Cais, deixando para trás nuvens de pó vermelho. Dois ombros estrelados apeiam-se, batem-se continências, o Brigadeiro sobe. Reúne-se na Sala de Jantar com a Oficialidade, debita boas vindas, frases feitas de entusiasmo, após o que inicia os cumprimentos. Ouve-se um rumor de sobressalto, mal compreendido, duas ou três fardas que se afastam, puxando um corpo em convulsões: o Pimentel começara a bater com as botas no chão e uma espuma epiléptica a babá-lo. Os que se aperceberam, disfarçaram, envoltos num espanto depressa devorado pela excitação, como quem abafa um insólito.

Espera-nos um comboio de museu. Por entre corridas e berros, junto o meu pessoal, com todos os pertences, numa Berliet a desfazer-se, e acomodamo-nos, depois de transposta a vereda, numa carruagem com tábuas e cobertores. Em frente, já mais distante, o navio continua a largar carga e homens. Há uma pressa de despacho, luta-se por lugares como se uns fossem melhores do que outros. De algumas casas de alvenaria, que se pensa serem de encarregados da fábrica, há olhos curiosos; nos terreiros das palhotas envolventes fogueiras cozem a mandioca do sustento. Ouve-se um apito. Lanço um adeus derradeiro, numa emoção de fim, ao Niassa e às fardas debruçadas. Voltaremos a ver-nos? Quantos de nós irão, feitos soldadinhos de chumbo ou vivos desarreigados, para o outro lado do mar? Levar-me-ás, velho Niassa, de regresso ao chão de onde sou, onde brinquei e amei e me julgo com direito a morrer? Para onde me leva o destino, essa negação da ousadia, como se a causalidade fosse marcada ao nascer e tudo nela se justificasse, mesmo um mando de estupidez? O esticão do comboio devolve-me à terra. A malta aligeira-se e prepara-se para esquecer no sono as impressões recentes. Pelas janelas vêem-se viaturas escaqueiradas como relíquias de desastres. Um silvo agudo acorda os necrófagos da noite africana.
FIM

- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória.