5/10/10

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Conto Arquivado

Amanheceu depressa aquele Domingo de Outubro, 1967.

No largo do Posto, mal o sol espreitou, bochechudo, por entre os cajueiros da mata, sentavam-se velhos negros, encolhidos nas capulanas de caqui barato. Esperavam, em triste paciência, carpindo para os cipaios madrugadores todas as desventuras da sua noite mal dormida.

- Senhor, tem ali gente com milando grande! – anunciava, solene, no seu jeito sério, o Cabo Sanica, chefe incontestado dos cipaios administrativos da região.

O Carlos, ensonado, digerindo uma agitada sessão de king, levantou a esteira da janela baixa e lançou um “já vou” em contrariado bocejo. E o Sanica, depois de uns desajeitados salameleques, foi regressando para junto do grupo.

O Carlos era um jovem de 19 anos. Viera, havia pouco mais de um ano, das serranias beirãs para aquele sertão africano fascinante e medonho, belo e arrepiante; caixa grande de mistérios que, sonhador, se propusera desvendar. E os negros da área achavam graça àquele “menino branco” idealista, ao seu espírito aventureiro e despreocupado, qual fruto verde em chão maduro!... Mas, talvez por isso, representava a seus olhos a rampa de lançamento, através da qual faziam chegar até ao Administrador de Balama a sua nave recheada de lamentações, pedidos e mal disfarçadas exigências.

O Administrador era já pessoa idosa, vestuta, que eles não ousavam incomodar, talvez por respeito às barbas majestosas implantadas numa carranca sisuda. Era um cabo verdiano letrado, da Ilha de S. Vicente, branco ou crioulo oxigenado, e chefe duma interessante família, pessoas de educação esmerada.

Quando o Carlos, ainda esfregando os olhos, foi ao encontro do ajuntamento, por entre um interminável coro de salamas, viu naqueles rostos de ébano um problema maior, bem diferente das choramingas questões a que já o haviam habituado.

- Então o que se passa? O içar da bandeira é só às oito horas e vocês vêm para aqui tão cedo? – perguntou, em tom de graça para desenferrujar a língua muda do régulo Momola, um bondoso preto de carapinha grisalha, ancião influente, guia espiritual duma população e duma área mais vasta que todo o Alentejo; era admirado pela sua sabedoria e pela verdade com que manifestava os anseios do seu povo, de que era mandatário de linhagem.

- Tem garramo muito mau, senhor adjunto, está comer nosso povo!... nosso pede ajuda, está sofrer muito..., e continuava a explicar-se o melhor que sabia, no seu português estudado na universidade das suas velhas rugas.

Depois, todos foram dando achegas, em alvoroço: que era velho o leão solitário; entrara, noite dentro, numa aldeia do Lúrio e levara a mamana do Jamisse; mas que andava havia já muito tempo na região, pois saciara a sua sede e fome carniceira em dezasseis vítimas, homens, mulheres e crianças...

- Então porquê só agora vêm dizer-mo?
- Ah, senhor, nosso andava a preparar armadilha, mas aquele garramo não tem bom, não! Tem esperto no cabeça: ginga, ginga, e não deixa apanhar...-, e continuaram todos a descrever as animalescas façanhas da fera.

Pelo que os desventurados negros narravam, não era nada comum o comportamento do bicho. Aqueles métodos manhosos assentavam melhor no leopardo, mas não no leão, um animal feroz mas leal na sua agressividade.

Por tradição nativa, antes da imposição dos aldeamentos, uma família agrupava-se dispondo em círculo as suas palhotas maticadas, cobertas de capim seco e porta de bambu. Surgiam, assim, pela floresta, núcleos habitacionais de quatro, cinco, seis casas, em cujos intervalos brincavam os putos do clã.

E a velha fera, ao que contavam, bacharel em caça, não se fazia rogada: alta noite, abeirava-se mansamente e esgadanhava as unharras na parede frágil da palhota onde se alojavam os catraios da família. E, enquanto os pais dormiam na casa ao lado, a uns escassos dez metros, os miúdos acordavam assustados, gritando pelos “velhos” em desespero. Mas o leão não forçava a entrada. A mãe dos garotos acorria aos gritos aflitivos dos filhos e era recebida pelo leão, de bocarra aberta, que a arrastava, presa nos seus caninos devoradores, para longe, pois o macabro repasto era sempre em recatada sala de micaias, na selva fechada.

Era este o ardiloso estratagema, como já referi, pouco comum no comportamento habitual dos leões, mas utilizado nos casos concretos que o Carlos foi ouvindo com um misto de estupefacção e medo, enquanto coçava a meia dúzia de pêlos que lhe despontavam no queixo esguio.

Que raio! Por aquela é que ele não esperava! Fôra caçador, sim senhores, de pardais descuidados, de melros desaninhados, caídos na sua fisga infantil..., mas qualquer cão rafeiro o fazia fugir, hirto de medo, só pelo ladruçar raivoso, quanto mais uma fera daquelas!...

Mas não era ele o adjunto do posto, aquela gente não viera até ele procurando ajuda?! Não se sentia, pois, no direito de lhes defraudar a expectativa... e eis o Carlos a encher o peito de ar,, a vestir rija pele de valente, enquanto ia vertendo consoladoras promessas de justiça e vingança nos coações condoídos pela perda de familiares.

A seguir, foi vê-lo, qual D. Quixote do Índico, a preparar os seus bravos Sanchos e a escolher as armaduras com que havia de partir os dentes ao assassino.

A caçada ía começar...

- Sanica, chama mais dois cipaios. Traz também a tua Mauser. Vê se o Land-Rover tem gasóleo... e vamos embora!
- Senhor adjunto, o senhor administrador não tem de saber? – lembrou o cabo, em respeitoso reparo.
- Tem, pois é... vai lá dizer-lhe, enquanto eu vou buscar um bom´4e, mas se estiver a dormir deixa o recado à senhora ou ao mainato.

Entretanto, o numeroso grupo corria já em direcção ao povoado. Iam dar a nova e preparar toda a gente para a batida. Conhecedores dos caminhos secretos da mata densa, encurtavam muito os cerca de quarenta quilómetros que, por estrada, os separava do Lúrio.

O Carlos não levava a Mauser, como os cipaios. Não simpatizava com aquela espera-pouco de madeira, muito menos do seu coice demolidor. Só mais tarde lhe viria a reconhecer vantagem. No momento, preferiu munir-se de uma pequena pistola-metrelhadora FBP que o governo lhe havia distribuído.

Já acomodado no jeep cinzento, o cabo e o adjunto na cabina e os outros dois lá atrás, na caixa larga, passaram pelo barracão do posto, para o abastecimento. Este barracão era um misto de armazém e fábrica de curtumes, um casarão de troncos de umbila e capim seco, onde, por entre tambores de gasóleo e outras mixórdias, se espalhavam as peles que o administrador Barbosa, o grande senhor da terra, ia coleccionando, sabe-se lá se para fazer jus à sua nobre condição de herdeiro de Mouzinho...

Brilhantes as de jacaré, pardacentas as de itata, muito valiosas seriam as de leopardo, mas as esteticamente mais sugestivas eram as de zebra, pelo desenho artístico, a duas cores: a preta, dos naturais, a branca, dos europeus. Num canto do armazém, com as mãos sabujas de unguentos, o negro Majemba, químico de ocasião, amanhava mais uma pele de lince que ía exalando um odor horripilante.

- Não podemos demorar! A esta hora já o Momola com a sua gente está a chegar ao Lúrio...
- Ainda, senhor. Parece agora estão passar Monte Nivato, - resposta pronta do Sanica, com um sorriso sabe-tudo nos lábios gretados pela suruma, enquanto apertava a espingarda contra as cabedulas de caqui branco, domingueiro.

O jipão rosnava forte na picada estreita, cabrito da serra, de pedra em pedra. Estremecia, pulava, parava, acelerava, que o piso de matope esburacado, ondulado, mais parecia o mar encrespado ao largo de Matosinhos. Mas o Land-Rover era uma boa traineira, concebida para sulcar aqueles caminhos improvisados na selva, onde nunca haveriam de chegar os “pidacs” e os “feders” da CEE. Surpreendente era, também, a resistência daqueles pneus a que nem mossa faziam as mordeduras constantes de troncos salientes espreitando, disfarçados, nos tufos de capim verde.

Uma viagem assim era um verdadeiro exercício físico, ainda mais desgastante que viajar de Aveiro a Vouzela na velha automotora da Linha do Vale do Vouga!...

- Ué, mocunha, já viu aquele macaco todo?! – e o Sanica apontava, com as duas mãos espetadas na janela do carro, - come a machamba toda!

A uma centena de metros, os mais brincalhões habitantes da floresta, almoçavam lauto banquete: uma refeição gratuita, servida pelo suor dos nativos que, e não só por isso, detestavam a macacada.

O Carlos afrouxou e parou o carro, ensaiando fortes aceleradelas, no intuito de os amedrontar. Os bichos olharam curiosos e, depois de estudarem a situação, continuaram a ladroagem, arrancando à terra, com primata avidez, enormes tarolos de mandioca que devoravam sem cerimónia. Os mais velhos carregavam às costas pequenos filhotes de pêlo azulado, tupilis reguilas, mas imaturos nos trabalhos de pilhagem.

- Sanica, corre-os a tiro!

O cabo esfregou as mãos contentes, saiu da cabina e... pum!.. o macaco mais corpulento tombou, de ventre para o ar, lançando gemidos que confundiram o Carlos. Aquele choro aflitivo tinha qualquer coisa de humano, de súplica desesperada.Com a cabeça entre as patas, como que a rogar clemência, o bicho foi-se virando, lentamente, até que sucumbiu, encostado a um ramo de mandioca.

Os outros, nem vê-los! Haviam fugido para as árvores mais altas e frondosas, onde aguardariam, nervosamente, que os primos inteligentes, mas bem mais maldosos, abalassem.

- Hoje já tens almoço, Sanica!

Este, com um trejeito comprometido, olhou de novo para trás, para a caixa do jeep, onde imaginava já uma negra caçarola bem cheia de saboroso caril de macaco, cozinhado com bastante piri-piri...

- Vou também dar um bocado ao Iussufo e a Jamú... – enquanto acenava com a cabeça na direcção dos dois cipaios que viajavam de pé, na retaguarda, como que prestando honras fúnebres à vítima ensanguentada do seu cabo.

Nem todos os nativos de Moçambique comiam carne de macaco. Faziam-no os macúas, mas, mesmo no seio desta etnia, só certos nihimos o incluíam no menú. Porque até na alimentação eram diversos os costumes dos numerosos grupos étnicos daquele país. Como o são, adiante-se, as suas crenças, dialectos, personalidade e anseios. Nestes aspectos, Moçambique é uma autêntica manta de retalhos, em que só o espírito de nação, que começa a despontar, e a língua portuguesa são factores de união.

- Ainda falta muito?
- Não, senhor. Depois do rio, além, é mais pouco-pouco -, e o Sanica acompanhava a explicação com um abanar calculista da mão direita.

O sol quente, trémulo de fogo, trepava, apressado e irreverente, pelas vastas escadas do horizonte, quando, finalmente, atingiram o Lúrio. Era um rio pouco caudaloso, mas um viajante longínquo, nascido lá para os contrafortes do Niassa: deixava, ao passar, uma vegetação luxuriante a embelezar as margens sonhadoras...

Para o atravessar, o régulo Momola e a sua gente, haviam, anos antes, lançado mãos da sua empírica engenharia artesanal: compridos troncos de árvores, dispostos de uma lado ao outro do rio, revestidos por esteira pacientemente urdida por mãos habilidosas, de bambus entrelaçados.

Mas era precisa muita atenção ao efectuar a travessia auto daquela ponte, pois fora idealizada e projectada bem à maneira daquela gente: à medida da largura da viatura utilizada pelo administrador, e nada mais...

Ao Carlos, novato naquelas travessias, mais acostumado a travessuras, não ocorreu que urgia reduzir a velocidade, para galgar sem problemas os primeiros troncos e... zás, o carro salta, estrebucha, o capô abre-se, corta literalmente a visão... o jeep segue, bate... e pára.

- Senhor, tem bom? – interrogam os olhos arregalados do Sanica, fitando o Carlos como se ele acabasse de fugir das amarras do purgatório.
- Não é nada! -, olhando para os lados e para trás. À frente só via aquela chapa cinzenta, barreira que lhe havia ocultado uns bons dez metros de ponte, estreita, como já vimos.

E o jovem Carlos, com nervosismo comprometido, acabou por se rir, quando perspectivou a frio a ridícula cena que durou segundos e podia ter absorvido anos de vida.

Lá para trás, bem no meio da ponte, os dois cipaios estavam ainda sentados, boca entreaberta, olhando, mudos, as águas impávidas e serenas correndo lá no fundo, a uns bons trinta metros. As suas armas estavam tombadas, em desalinho, na caixa da viatura. E pensou, refeito do susto, como teria sido possível atravessar toda a ponte daquela forma...

- Tens de perguntar ao Mussa como é que ele traz o capô solto! Aquilo não se solta de qualquer maneira!-, como se quisesse transferir para o pobre mecânico/desenrasca lá do posto, a sua azelhice e inexperiência, ali tão evidente.

O Sanica não respondeu e, quando ambos saíram do jeep, olharam ao mesmo tempo para os duendes perdidos na floresta, interrogando-se qual deles plantara aquele providencial jambire no azimute desvairado do carro!... Se não fosse aquela amorosa árvore, esperava-os o abismo profundo, na margem do rio...

Os dois cipaios cuspidos, ainda espantados, atravessavam já o resto da ponte, aconchegando nas cabedulas assustadas, as camisas desfraldadas pela queda livre a que se viram sujeitos.

- Vamos chovar o carro para trás! - , ordenava já o cabo aos dois cipaios. E chovaram...

Estavam, então, a uns escassos duzentos metros do povoado, onde por fim chegaram, aliviados.

O Carlos depressa esqueceu o acidente e retomou o entusiasmo pela caça que, afinal, ali o levara. Tanto mais que aquela multidão, como raramente vira, armada de zagaias, pontas de lança, arcos, flechas, catanas, machados, tambores, latas e apitos, e todo um sortilégio de instrumentos, lhe lembravam, com certa ironia, as hordas de Viriato nas serranias da Estrela.

Mas, para além do costumeiro cumprimento, uma vénia mal dobrada, aquela mole humana mantinha-se silenciosa, num descampado dominado por quatro mangueiras ramalhudas, onde pontuavam já frutos amadurados.

O régulo Momola adiantou-se ao grupo, juntando-se aos recém-chegados, acompanhado de mais três ou quatro elementos, seus conselheiros tribais,, e um outro negro, ainda novo, armado de caçadeira: era caçador privativo de um europeu de Namuno que, casualmente, ali havia acampado e se dispusera a participar na caça ao leão.

Formou-se, ali mesmo, um “conselho da revolução” da caça, em que o Carlos desempenhou a cómoda função de moderador. Reconhecia, intimamente, ser o menos credenciado para ditar estratégias. Mas mostrou-se interessado e participativo e, sobretudo, prestava especial atenção aos experientes alvitres que íam surgindo. Estava ali, mais ou menos com a função do rei de Espanha: não governa, mas é um símbolo...

O plano para caçar o leão não era assim tão complicado! Consistia tão só em formar uma linha de nativos com os instrumentos sonoros e armas rudimentares de um lado do hipotético esconderijo da fera, enquanto os elementos com armas de fogo se emboscavam nos previsíveis pontos de fuga.

É que o Rei da Selva incomodava-se perante um ajuntamento grande e barulhento, habituado que estava à sua vida de anacoreta da mata silenciosa. E era com passada pachorrenta, com desprezo manifesto, que se virava, abanando a cauda, à arruaça que, do género, se lhe deparasse.

- Está tudo bem, mas onde encontrar agora o bicharoco? – e o Carlos olhava interrogativo para os seus pares.
- Nosso sabe, senhor, garramo tem além -, e o Momola apontava para a encosta arborizada do planalto ao fundo, e rematava, decidido: - tem junto do monte. Nossa gente leva lá...
- Vamos, então.

E o pequeno exército pôs-se em marcha pelos carreiros das machambas de mapira alta, de campos de milho com maçarocas douradas ao sol brilhante. Aqui e ali, iam ficando faixas rasteiras de amendoim e, mais adiante, fartos cachos de banana marrouce, dependuradas de troncos com larga folhagem.

Representava tudo o que ia vendo a base de subsistência, da vida daquela gente, numa economia mista, recolectora/produtora. Não era aquela, ainda, uma sociedade de consumo. Era a vitalidade de uma terra forte, que ofertava os frutos na medida do trabalho de cada um: quase sempre suficientes, sem excedentes, mas sem graves faltas.

Aproximavam-se já do monte, em cujas fraldas, de vegetação cerrada, estaria o refúgio do leão devorador. Mas nem o Momola, nem ninguém da aldeia, sabia indicar ao certo o local, tão vasta era a área.

- Vamos fazer a batida por bocados, Sanica?

A ideia era dividir toda a zona arborizada, entre a clareira e o monte, por faixas a bater.

Dividiu-se o pessoal: o da batida (a barulhaça) para um lado, os armados, para outro.

E a festa começou!

- Senhor adjunto, nós é melhor ficar ali. -, o Sanica apontava para um morro de mochem, abrigo natural para a espera. Os dois cipaios e o caçador foram-se, também, dispondo na zona.

Já o Carlos sentia um leve tremor do corpo, uns arrepios gélidos em sol escaldante, mas que se iam diluindo na azáfama. Tinha a impressão, sentia-o ao fitar os rostos excitados dos outros, que com feras daquela estirpe não se brinca.

Fosse pelos nervos, fosse pela fome – estava em jejum – o cara-pálida sentia um palpitar doloroso no estômago, quando se acocorou numa pequena saliência do morro baixo.

Era quase meio-dia. Um silêncio sepulcral dominava o ambiente. Nem um leve esvoaçar da passarada; nem o cair duma folha seca; o rastejar furtivo de uma cobra ou a corrida elegante e vaidosa de uma gazela!...

De repente, como o estropear da fúria louca de uma manada de elefantes rasgando a selva, como o alarido raivoso de mabecos em luta pela posse de um javali, a serra ecoa, o ar sacode-se. Todos aqueles tambores rufando, latas chocalhando e os sonoros berros das gargantas fortes dos nativos da batida, na outra orla da mata, impressionavam mais que o sapatear raivoso do nosso Parlamento em dias de polémica orçamental ou períodos eleitorais...

A selva tremia, o barulho aumentava, na justa medida que os batedores íam cruzando a mata em direcção aos emboscados. Só que já estavam bem perto, sem que o rei da selva aparecesse. Nenhum disparo soara, até ao momento.

- Ei, Sanica, o gajo não está cá! – diz o Carlos, quebrando a concentrada atenção do cabo, a focar a mata, rígido que nem uma marmota congelada.
- Parece não está, senhor -, sem, contudo, retirar os olhos desorbitados do arvoredo.

E não estava, de facto, naquela faixa. Deu-se o encontro dos dois grupos e leão nem vê-lo!

Curiosamente, nem um coelho, uma gazela, um javali, nenhum animal passara em frente dos emboscados. A esta constatação do adjunto, observou o caçador, com segura convicção:

- Pois não tem outro bicho, porque leão está por perto. Nosso vai encontrar, já viu patada dele...

O Carlos ficou a saber que numa área considerável em redor do palácio do rei leão, não havia lugar para outros animais menores: os súbditos, amedrontados, fugiam perante a presença ameaçadora do seu despótico amo.

E, a ser assim, nada estava perdido, tanto mais que haviam fortes indícios apontando para a presença próxima do devorador. Ía tentar-se a faixa seguinte.

E a operação repete-se.

Desta feita, à falta de outro abrigo, o Sanica sugeriu ao Carlos uma árvore velha de melala bifurcada. Era este o poleiro de espera para o mocunha, com a pele ardendo sob a inclemência do sol dum fim de manhã. Por baixo, brilhavam as micas soltas duma ribeira, seca naquela época do ano.

Enquanto esperava, de novo, ía pensando na sua posição caricata, qual ave no choco e deu consigo a conspirar surdamente contra o Sanica por lhe ter alvitrado aquele poleiro de abutre medroso. O sacana do cabo pensaria que ele tinha medo?!...

Mas, intimamente, até se sentia bem posicionado. Do pouco que sabia, os leões não voavam, ali não haveria perigo. Mas não se desvaneceu de todo aquele tremor dos dedos...

A algazarra recomeçara, ao longe. De novo os tambores, as latas, os apitos, os berros musicais do outro grupo, que se ía aproximando.

De repente, bem ao lado, soa um tiro. O Carlos, estendido num ramo, redobra de atenção, com a pistola metralhadora bem aperrada, pronta a disparar...

Tac..., tac..., tac..., o coração batia-lhe como cavalo em solto galope na pradaria. O suor aumentava-lhe no rosto, o ar faltava-lhe nos pulmões, quando, mesmo por baixo, a uns escassos três, quatro metros, na vertical, o nosso leão, com as patas enterradas na areia, olhava pesadamente para um e outro lado da ribeira, desconfiado. Ouvia-se nitidamente a densa respiração da fera, uma bisarma medonha, grande, nutrida...

O Carlos agiu, então, como um autómato; o seu consciente estava às portas do bloqueio, em presença de tão leonina figura. Ensaiou uma duvidosa pontaria na direcção do monstro e disparou uma rajada breve, sem se preocupar com a escolha dos pontos mais vulneráveis; bastou-lhe divisar a massa enorme do bicho na mira e carregar no gatilho.

Era difícil, quase impossível, não acertar, de cima para baixo, àquela distância!

Mas, ao contrário do que pressupunha, aquele não tombou: soltou um urro arrepiante e empreendeu um salto descomunal, embrenhando-se pelo capim alto.

E o nosso jovem manteve-se quieto, mudo e surdo, por uns instantes. Veio-lhe, depois, um pensamento derrotista: falhara..., e saltou da árvore. Na areia seca, nem um pingo de sangue. E ia cogitando: mas era impossível não lhe ter acertado!...

Procurou o Sanica com os olhos, mas o cabo não estava à vista e continuava a remoer no sucedido, quando troaram dois tiros de caçadeira, mais além. Mas manteve-se no local.

- Senhor, já está! O gajo já morreu, tem ali..., o caçador Sacura encontrou caído lá... -, gritava o Sanica, entusiasmado.
- Encontrou caído?! Mas não foi ele que o matou com aqueles dois tiros? – interrogou o Carlos, já bem mais animado.
- Não, não senhor, - voltou o cabo, - o gajo já estava sofrer p’ra morrer, com tiros do senhor adjunto. Sacura deu tiros para segurar ele, que leão ferido fica perigoso mesmo...

Começou a desvanecer-se aquela sensação amarga do fracasso. Afinal, acertara-lhe!

Quando chegou, com o cabo, junto do animal moribundo, o Sacura fez questão de lhe mostrar os três pequenos furos com que o Carlos o havia atingido na espádua. Só que, como aquele continuou a explicar, aquela zona do corpo é dura, não dá para matar logo, com balas de 9 mm. Ele, sim, atirara como um bom caçador: bem na cabeça do gigante..., os zagalotes desfizeram-lhe o focinho...

Mas já um verdadeiro festim começara.

Uns cantavam, outros dançavam, fez-se batuque com o rufar dos tambores; vieram mamanas, vieram catraios, um mar de gente em delírio fez círculo em volta do odioso assassino.

O Carlos sentia-se baboso com tanta e espontânea lisonja, tanto kuerine, tantos beijos de ousada gratidão que as moçoilas lhe iam depositando na face!

Bem real, era para aquela gente o fim de um pesadelo e, também, o vingar dos seus mortos; o castigo do criminoso ditado por um código penal que de pimentel nada tinha...

E a festa continuou ali mesmo, agora com um estranho ritual, nunca visto: toda aquela gente alinhou em fila e, um a um, ao som de afinado cântico, foram espetando uma lança, passada de mão em mão, na cabeça da fera assassina.

Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado, por uma dezena de braços fortes, na caixa do jipão. Era o regresso. Antes, porém, ainda no povoado, fora o almoço: frango à cafreal com xima e sumo de caju não faltaram, que toda a gente se dispunha a presentear quem, a seus olhos, eram os seus salvadores. Para o Carlos, apesar dos insistentes protestos, ia uma cangarra de galinhas e um cacho de bananas. Eram pessoas generosas na sua pobreza, gratas na sua humildade, os macúas.
- Senhor, eu pode ir? – perguntou o régulo Momola, rodeado pelo seu povo. – Vai dar-me um pouco de xicuembo? Referia-se à gordura que reveste os intestinos do leão.

Entre os macúas e até de parte da colónia de indianos e europeus, era convicção ser aquela gordura um excelente remédio para o reumatismo e até muitas doenças do foro íntimo, como a impotência.

- Mas o leão é vosso! Podem fazer dele o que quiserem!...
- Não, senhor é dono de leão. Quem mata é dono, pode fazer o que quiser dele, - interveio o Sanica, para dar a conhecer mais um dos costumes ancestrais dos nativos.

Já o motor do jeep roncava alegre, de novo na picada. Desta feita, com mais cuidado, não fosse, mais uma vez, a ponte tecê-las...

Chegaram tarde ao largo do posto. Já os miúdos da missão, em visita à sede administrativa, brincavam chilreantes, após o arrear da bandeira.

O administrador, sentado com a mulher e filhos à sobra duma frondosa bugambília, dirigiu-se-lhes apressado e interrogativo.

-Então, Carlos, que tal a caçada? Já estava preocupado com tanta demora! Oh, mas que grande bicho!... – largou, estupefacto, ao debruçar-se no bordo da viatura. - É um grande bicho!

Surgem as explicações de toda a ordem; o onde, quando, como e porquê; dão-se parabéns, vai chegando mais gente, curiosa.

A notícia corre célere e aparecem, também, os europeus da terra: o Fonseca da cantina e a mulher, o Carvalho do algodão e as filhas, e pessoal do aquartelamento militar, que apenas ali se encontrava aquartelado por questões de quadrícula, pois não havia qualquer conflito latente na região.

Todos se encontravam ali mais empenhados em registar na película a sua momentânea comunhão com o senhor da selva.

Os de camuflado não deixariam de enviar uma foto de ocasião às suas madrinhas de guerra, saudosas, em Portugal.

E durou horas aquela peregrinação fotográfica, a quebrar a monotonia sertaneja dos pacatos dias de Balama, enquanto o administrador Barbosa ía passando o tempo a lamentar o exagerado esburacar da pele, que a deixava pouco fiável para a sua desmesurada colecção de curtumes, na salgadeira do armazém.

Quanto ao Carlos, esse tivera direito a algumas duras unhas de leão. Se para mais não servissem, ajudá-lo-iam a esgadanhar nos escolhos que se lhe foram deparando na encruzilhada da vida.

Por longos anos, se foi falando no norte de Moçambique do tristemente célebre “leão dos 16”.

Mas, triste sorte, negro fado o daqueles macúas, pois antes, então e depois, foram sempre vítimas de leões, se calhar mais carniceiros que aqueles, com jubas de todas as matizes... E dessas feras, nem Carlos, nem Sanicas, nem Sacuras os puderam livrar...

Quanto ao autor, tendo passado ao papel este seu conto já lá vai mais de uma dezena de anos, só agora ganhou coragem para o compartilhar, mais por temor àqueles cartazes que se vão vendo em alguns estabelecimentos de venda de armas: “Aqui se juntam caçadores, pescadores, advogados... e outros aldrabões”.

Mas vale a pena correr o risco, suplantado pelo testemunho do maravilhoso fascínio das terras moçambicanas, na sua original e genuína natureza!
- Francisco José Branquinho de Almeida - 1978.

(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Estrada do Tempo... A Ponte-cais !

O dia de "S. Vapor".

Na ex-Porto Amélia da nossa meninice, além de todos os outros, celebrava-se mais um santo: “S. Vapor”.

O seu dia era sempre que ao porto chegava um navio e o impacto na vida local variava em função da importância e origem deste.

Os de longo curso, idos de Lisboa, eram os que mais alteravam a rotina. As idas a bordo eram como que um regresso ao berço e um enganar da saudade.

Faziam-se compras, umas legais outras nem tanto, de artigos que não seriam muito diferentes dos encontrados localmente, mas… tinham o condão de vir da Metrópole…

Bebiam-se umas “Sagres”, que não seriam melhores que as “Laurentinas”, “Manicas” ou “2M” do quotidiano, mas estas… vinham da Metrópole…

Jantava-se a bordo e havia bailarico... com orquestra da Metrópole…

Era aquele “cordão umbilical”, que só os portugueses conseguem manter por toda uma vida.

Nesses dias, tirava-se a naftalina aos fatos domingueiros só usados em ocasiões especiais. Uma delas a Passagem do Ano (só até à meia-noite). Depois dessa hora, o cenário era outro. Talvez um dia falemos disso.

Parecido com o dia de “S. Vapor”, mas com intensidade e efeitos nada comparáveis, só os dias de chegada do avião da Deta.

Quando chegava… pois eram bastante frequentes as “avarias” provocadas pelas melhores condições de alojamento que, naquele tempo, as tripulações encontravam em Nampula ou no Lumbo.
- António Coelho - Luxemburgo, 17/11/01.

Fotos dos navios Janina, Porto Amélia, Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito colhidas do sítio Navios Mercantes Portugueses.

O Dia de "S. Vapor" II.
 
Já, na Estrada do Tempo, tentei dar uma idéia do que era o “Dia de São Vapor”.
 
Das peripécias a ele ligadas, uma há que julgo merecedora de ser aqui relembrada.
 
Aconteceu no início dos anos 60, se a memória me não atraiçoa em 62, aquando das viagens inaugurais dos navios Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito.
 
O aproximar do dia da chegada de um deles despertou a habitual efervescência, mas bastante ampliada, por razões óbvias...
 
O luxo e dimensão do “bicho”, se atracava ou se ficava ao largo, por quanto tempo estaria entre nós, haveria ou não possibilidade de o visitar... tudo era assunto de conversa e contribuía para aumentar a expectativa geral.
 
Chegou, finalmente, o grande dia. Por precaução, o Comandante decidiu ficar ao largo apesar de (constou-se...) o Piloto da barra garantir que as condições de acostagem eram seguras.
 
Assim, houve que mobilizar umas quantas embarcações ligeiras, para fazer o transporte de passageiros, visitantes e alguma carga.
 
Além dos “gasolinas” cedidos pela Capitania do Porto e de umas quantas lanchas, veio de Mocímboa o Gaspar com o seu barco.
 
Chegado o dia, foi a bordo quem quis e/ou quem pode.
 
Um dos visitantes, na ânsia de afogar a sede (crónica) que o afligia, foi um pouco além do razoável e, fatal como o destino, a visão e o sentido de equilíbrio ressentiram-se.
 
No regresso, aproximando-se o “gasolina” do local onde o pessoal iria desembarcar, o nosso “herói” avaliou mal a distância. Saltou para a escada que só ele via próxima e, como imaginam, foi ao charco.
 
A sorte, a perícia dos tripulantes e a ajuda dos presentes reduziram os prejuízos a um fato molhado e uns quantos papeis ensopados. Papéis que, para a pessoa em causa, eram de “extrema importância”. Tratava-se de “Vales” do bar do Carneiro & Morais, que o nosso amigo saldara nessa tarde, como religiosamente fazia a cada fim de mês.
- António Coelho - Luxemburgo, 14 /12/2001.
 
Meu à parte - Para quem não se lembra, o Tó Coelho está recordando a figura típica do saudoso Zacarias, funcionário da Companhia Comercial João Ferreira dos Santos.
 
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Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Falando do Padre Paulo e da Sociedade Missionária da Boa Nova

MENSAGEM RECEBIDA DO MISSIONÁRIO SÉRGIO CABRAL - PEMBA EM 31/10/2001:

Quero informar do falecimento do Sr. Padre Paulo no dia 25 deste mês de Dezembro, em Lisboa.

Ele tinha partido daqui de Pemba no dia 14 por questões de saúde. Ele não sofria de nenhum mal em especial, apenas estava cansado e muito stressado. Viveu a guerra bem de perto que lhe ficou bem marcada no seu íntimo. Isso causou-lhe algumas perturbações psíquicas irreparáveis até à data da sua morte.

De seguida apresento uma pequena biografia da sua vida:

"Nasceu em Vilar Seco, Vimioso, Diocese de Bragança. Foi ordenado sacerdote em Cucujães a 30 de Maio de 1957.

Foi professor nos Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Mariri, na Diocese de Pemba, Moçambique. Foi missionário nessa diocese durante 43 anos, nas paróquias de Macomia e Maria Auxiliadora, de Pemba.

Foi um dos grandes missionários do povo Maconde. Falava bem a sua língua, conhecia a sua cultura, amava profundamente o povo daquela Missão com 12000 Km2. Lá viveu duas guerras: a colonial e a civil. Foi um homem livre a capaz de fazer amigos em qualquer partido, para servir a todos. Três vezes esteve em perigo de morte, escapou por milagre e nada o fez desistir de anunciar o Evangelho e criar comunidades cristãs. Quando era impossível visitar as comunidades escrevia cartas. Quando não podia ir de carro, ia a pé. Andou milhares de quilómetros a pé, nas estradas e nas matas para animar os cristãos e fortalecer os seus catequistas e animadores.

Foi um homem simples, sereno, alegre, com grande capacidade de fazer amigos. Deu o testemunho de Cristo com a própria vida. Era profundamente devoto de Nossa Senhora.

Sofreu uma forte hemorragia cerebral ao rezar o 4º mistério do terço: Jesus a Caminho do Calvário. Ficou 24 em estado de coma, nos hospitais de Santarém e S.José, Lisboa. Aí faleceu em 25 deste mês. No dia seguinte realizou-se o seu funeral em Cucujães."
- Sérgio Cabral - Pemba, 31/10/2001.

UMA VIDA SIMPLES MOVIDA PELO AMOR - Dados Biográficos sobre o Padre Paulo:

O Padre Manuel Paulo Lopes nasceu a 22 de Março de 1930 em Vimioso, Bragança. Foi baptizado no dia 29 de Junho de 1930 e crismado a 17 de Maio de 1944. Fez a sua 1ª comunhão em 1937. Entrou na Sociedade Missionária da Boa Nova no dia 28 de Setembro de 1943 em Tomar. Foi ordenado sacerdote em 30 de Maio de 1957 e partiu para as missões em 11 de Setembro de 1958.

Depois de ter trabalhado um ano no seminário de Mariri em 1958, foi colocado em Macomia em 1959. Em 1969 passa a ser o superior da Missão. Em Dezembro de 1978 foi obrigado a deixar Macomia e a residir em Pemba.

Em 29 de Dezembro de 1981 recomeçou a residir em Macomia numa pequena casa emprestada. Nos fins de Janeiro de 1982 foi novamente obrigado a deixar Macomia por não haver Igreja. Em Maio de 1982 celebrou em Portugal o 25º aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Durante esse período foi pároco de Maria Auxiliadora.

A 16 de Abril de 1992, recomeçou as visitas à paróquia de Macomia com muito entusiasmo e dedicação.

No dia 14 de Outubro de 2001 embarcou de Pemba para Maputo e dia 19 desse mesmo mês, de Maputo para Lisboa a fim de descansar. No dia 24 sofreu um derrame cerebral multi-ramificado, vindo a falecer no dia 25 de Outubro pelas 7h00 da manhã no hospital de S. José em Lisboa. Foi sepultado no dia 26 de Outubro de 2001 em Cucujães junto dos seus colegas e irmãos da Sociedade Missionária da Boa Nova.

“O Padre Paulo impôs-se pela sua simplicidade, interesse pelo outro e pela sua sabedoria em escutar, ouvir os lamentos, as histórias, as vida dos outros.

Caminhar era a sua melhor maneira de se aproximar das pessoas. Caminhava sempre ao encontro do outro, pelas comunidades, pelos caminhos difíceis, pelas ruas. Gostava de caminhar.

O amor a Nossa Senhora era bem visível na sua devoção e piedade: o terço a Nossa Senhora de Fátima; os pastorinhos; o seu ataque, salvo milagrosamente por Nossa Senhora.

A sua paixão pela missão de Macomia não tinha limites. Amou verdadeiramente Macomia. Sofreu imenso por Macomia. Foi perseguido por Macomia. Macomia rejuvenescia-o imenso.

O trabalho na diocese como secretário foi notável. Era uma autêntica biblioteca viva. Informações históricas, casos, registos que só ele sabia, datas de interesse dos outros.

A vida do Padre Paulo entre nós não terminou. Acreditamos que ele junto de Deus, de Cristo e de Maria rogará por todos nós.

Assante Padre Paulo, pela tua palavra, sorriso, gesto...”
- P. Albino-Pemba.
 
LIDUVA LYAVALEKUA YESU (O DIA EM QUE NASCE JESUS).
 
Mensagens, cartas, e-mail´s, são feitos, existem, encurtam distâncias e aproximam o ser humano. Seu conteúdo, normalmente fica entre dois ou poucos mais interlocutores... Mas esta mensagem, (perdoe o Amigo Sérgio Cabral - seu autor) pela espontaneidade, sinceridade, actualidade e clareza de fatos vinculados a uma quadra tão típica e a locais tão especiais para todos nós, não merece ficar oculta... Por isso e à "revelia" do autor, aqui a publico integralmente, também como homenagem à dedicada doação desses abnegados e incensáveis Missionários:
 
"Antes de mais quero desejar-lhe um bom Natal embora atrasado!
Não lhe escrevi antes porque tenho andado por aí a viajar e depois o computador apanhou uma virose potente...
O Natal correu bem. Tivemos a Missa do Galo aqui na igreja de Maria Auxiliadora que durou umas 4 horas, incluindo uma pequena representação de Natal e baptismos. Como sempre as danças e os cânticos alegres tornaram esta celebração festiva ainda mais festiva. As quatro horas dentro da igreja passaram depressa de mais!!!
No dia 25 pelas 5 da manhã arrancamos eu e o P. Albino para a missão de Macomia a fim de celebrar para aqueles que estão órfãos de padre, após a morte do P. Paulo. Chegamos lá e não conseguimos celebrar na igreja por causa das abelhas, por isso tivemos de celebrar à sombra das mangueiras que ficam logo ao lado. Apesar de tudo a comunidade estava organizada e até correu bem.
O nosso almoço de Natal resumiu-se a uma sandes de atum e para matar a sede água de coco. Depois fomos celebrar a uma comunidade a 30 km de lá: Namaluco que fica entre Macomia e Quissanga, bem dentro do mato. Enquanto o Albino confessava os makondes, andei a passear e vi coisas interessantes: Andava um grupo de gente a percorrer a aldeia atrás dos batuques e de um mascarado que dançava mapiko. Então quando me viram sozinho, ali naquele sítio, aproximaram-se e fizeram uma demonstração exclusiva de mapiko para mim. Também vi uma família a fazer uma espetada de caracóis daqueles grandes que existem por aqui e diziam que era muito bom!!! Outro petisco que me aconselharam foi rato.
Quando chegamos a Macomia fomos encomendar um frango com batatas fritas no Bar Chung (Chinês) para enganar a fome que já era muita.
Nos dia seguinte também andamos por outras comunidades à volta de Macomia, nomeadamente Nova Zambézia (20kms.), Nguído (50kms.) e Chai (42kms.). Quase ninguém falava português, só o makonde! Quiseram que eu tirasse uma fotografia a um menino que estava a chegar do mato pois tinha cumprido os ritos de iniciação. Puseram-no em pé numa cadeira todo bem vestido, com um cofió na cabeça, para a fotografia todos contentes. Assisti à dança das mulheres makondes à volta dos batuques, vi grandes baterias feitas de paus e chapas, conheci a makonde mais idosa do Chai já cega, mas que não deixava de admirar-se com a presença de um branco amigo do P. Paulo e do mesmo país do P. Paulo.
Agora vejo como o P. Paulo foi um grande missionário. Nós percorremos as comunidades de carro com tracção, confortável, com música, sem percebermos nada de makonde e da cultura makonde. O P. Paulo não! Ia a pé, rasgava a mata, dormia e comia com eles sabe-se lá como? Dominava o makonde como os próprios makondes e até os ensinava. É preciso ter estômago e muita fé para se fazer o que ele fez!!!
Nós só visitamos 5 comunidades, ainda existem mais de 30 no meio daquela mata infindável, onde se pode ver as pegadas dos muitos elefantes e onde existem leões e outros animais nada benevolentes.
Como vê, o meu Natal foi assim. Longe da família, dos festejos tradicionais, do frio, das prendas, da boa comida portuguesa, mas mais perto da cultura makonde, dos ananases de Macomia, dos macacos de Macomia e enfim, mais perto da pobreza do menino Jesus que nasceu num curral espelhada naquela gente sem nada, mesmo nada.
Espero que o seu Natal tenha sido bom na companhia dos seus familiares e pessoas amigas.
Junto envio duas fotos do P. Paulo. Uma junto com outros missionários: (da esquerda para a direita) P. Zé Marques, P. Albino, Ir. Glória, Ir. Palmira, P. Paulo, Ir. João e em baixo P. Gonçalves; e outra ele sozinho.
Um grande abraço e feliz ano novo!!!
- Sérgio Cabral - Pemba, 28/12/2001 - 19h24

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Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Estrada do Tempo... e as Vacas do Macedo

Pequeno "retalho" que o companheiro dos bancos escolares, António Coelho (Tó ou Namarrocolo), retirou do arquivo de sua privilegiada memória:
O Cais de Porto Amélia foi inaugurado, se não me falha a memória de uma placa comemorativa que lá havia, a 7 de Outubro de 1956, pelo presidente Craveiro Lopes, que viajou a bordo do navio Angola ou Pátria. Mas creio que foi no primeiro. Eu era para ter ido nessa viagem. Mas houve mudanças de reservas e fui no Moçambique. Cheguei à Ilha em 3/10/56, dia do aniversário do meu pai. Nessa época desembarcávamos na ilha e íamos de lancha ou de rebocador até ao Lumbo. Das lanchas até à praia éramos transportados às costas de carregadores. Em Porto Amélia também era assim antes da ponte existir, segundo me contaram. Desembarcava-se na praia da Sagal. Contaram-me também que alguns "malandrecos" davam dinheiro aos carregadores para ("sem querer") darem banho a alguns "eleitos"... Outros davam-se ao trabalho de previamente espalharem picos no local de desembarque para fazer cair o pessoal e poderem assim gozar o prato...
Enfim, recordações que o tempo ainda não apagou... Teremos mais se, como dizes, a preguiça deixar passar à escrita.
Um abraço,
- António Coelho (Luxemburgo), 16/10/2001.
APONTAMENTO - DIA DA CIDADE DE PEMBA - Esclarecendo o porquê de 18 de Outubro ser o dia oficial de Pemba:

"...Antigamente a comemoração era a 8 de Dezembro, hoje em dia é a 18 de Outubro, e tem um certo sentido como poderão verificar em seguida. Vou-vos transcrever 2 parágrafos de uma publicação intitulada "PEMBA, SUA GENTE, MITOS E A HISTÓRIA -1850 a 1960", feita pelo Luís Alvarinho, que também se baseou em documentação e dados do Arquivo Histórico de Moçambique, Boletim Oficial e Boletim da Companhia do Niassa, entre outros. "O embrião que veio dar origem à actual cidade de Pemba, data de 1857, como parcela da `Colónia 8 de Dezembro´, fundada por Jerónimo Romero e dissolvida 5 anos depois por diversos problemas de organização e adaptação dos colonos". "Porto Amélia ascende a vila por portaria de 19 de Dezembro de 1934 e é elevada à categoria de cidade em 1958 pelo decreto-lei de 18 de Outubro do Governo-Geral da Província"...
- Informação postada em 10.12.2001, no Bar da Tininha por Jorge Marabuto Bronze

Naquele tempo 1 - Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques, lá pelos idos de 1960:

Nos dias 21 e 22 do corrente, tiveram lugar nesta cidade as provas orais dos exames para admissão ao Liceu, tendo sido aprovados os alunos Adriano Manuel Vidal Lima Caseiro, Arsénio António Macedo, Aristides José da Conceição Dias, Armando Augusto Cepeda, Carlos Augusto Silva e Castro Fagulha, Eugénia Lúcia Vieira da Silva, Fernando Manuel Borges, Francisco Hipólito Rodrigues Baptista Carrilho, Jaime Luis Vieira Ferraz Gabão, Joaquim Manuel Rodrigues Luis, Maria Judith da Conceição Dias, Momade Anif Abdullatif, Momade Sidique Jussab, José Rodrigo Zamith Franco Carrilho e Judite Macoô. Ficaram reprovados 10 alunos na prova oral e da escrita haviam já sido excluidos dois. O júri destes exames era constituído pelos professores de Liceu Drs. José Júlio Ferreira Faustino, Maria Alice Casanova Duarte e Maria Amélia Sousa Neves.

Naquele Tempo 2 - Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques e publicada em 24 de Dezembro de 1971:

NOVAS INSTALAÇÕES DA GAZ-CIDLA - No passado dia 18, pelas 18,30 horas, a firma local Electro-Pamélia, Lda., inaugurou uma secção destinada, exclusivamente aos produtos da Gaz-Cidla. Ao mesmo tempo, aquela firma, iluminou grande parte da Rua Jerónimo Romero, bem como acendeu, pela primeira vez, um reclame luminoso no bar "Pólo-Sul", que dá um efeito surpreendente, dada a localização daquele bar (cimo da rampa). Aproveitando a circunstância, o sócio-gerente da Electro-Pamélia, Sr. Gaspar Pires, ofereceu aos convidados, entre os quais se contava o Presidente da Câmara Municipal, em exercício, Sr. António Baptista Carrilho e Esposa, Vogal, Sr. João Francisco. Araújo e esposa e outras entidades, um beberete que serviu de pretexto para enaltecer o interesse daquela firma na sua acção dentro do ramo a que se dedica. Assim, graças à Electro-Pamélia, a capital de Cabo Delgado também não deixou de ter, nesta quadra do Natal, parte de uma sua rua iluminada. Pena é que outros estabelecimentos não sigam o seu exemplo.

E UMA HISTÓRIA DE PORTO AMÉLIA - AS VACAS DO MACEDO - Em tempos idos, a mosca tsé-tsé, vulgo mosca-do-sono, não permitia em Cabo Delgado a vida de certos animais e complicava bastante a dos humanos. Em 1956, ano da minha chegada àquelas paragens, funcionavam ainda em certas localidades (recordo Balama e Ancuabe) os serviços da MCT ( Missão de Combate às Tripanossomíases), dirigidos pelo conhecido Dr. Carmo.
Humoristicamente, o significado de MCT era: “Moscas Continuai Tranquilas”. Contudo, foram serviços eficazes, vindo mais tarde a ser extintos por ter sido considerada erradicada essa tão perigosa doença. Consta-me que regressou em força, mas desconheço se assim é.

Quando em 1958 a família se radicou na então Porto Amélia, o único talho existente, propriedade do sr. Manuel Macedo, era abastecido a partir de Nampula, donde, uma vez por outra, eram trazidas umas quantas reses. Entre a chegada e o abate sobreviviam pastando ora junto à captação de água perto do aeroporto ora junto à marginal, no palmar da D. Inácia, no local onde, em 63/64, foram construídas as instalações da INOS, mais tarde utilizadas pela Manutenção Militar.

Situados no tempo e no espaço, permitam que recorde uma hilariante peripécia ocorrida nesses longínquos tempos e locais.
Por toda a África sopravam já os ventos da mudança e com eles chegavam os primeiros contingentes militares, totalmente constituídos por elementos nados e criados na então metrópole.

Pese embora a designação de "Caçadores Especiais", a preparação militar seria pouca e os conhecimentos de África nulos ou perto disso.

Passe o exagero, alguns estariam mesmo convictos que, naquelas paragens, abrir uma torneira equivalia a ficar com um jacaré nos braços. Mas adiante...

Após um mês de viagem, mal punham pé em terra era a procura de tudo o que durante esse tempo fora uma miragem. Deixo aos eventuais leitores a liberdade da imaginação...

Depois de muita deambulação encontraram-se uns quantos, já pela noitinha, “cara-a-cara” com as citadas vacas. Fazendo uso dos “profundos conhecimentos de África”, logo concluíram tratar-se de búfalos e nisso viram uma primeira oportunidade de dar largas aos dotes de “caçadores confirmados”, adquiridos à custa dos coelhos e perdizes da Pátria distante.

Da descoberta, à acção foi um ápice. Correm ao quartel, pegam em armas e aí vai disto que amanhã pode ser tarde...

A surpresa e a decepção tiveram-na pela manhã, quando confrontados com o gozo dos mais antigos e a obrigação de reparar os danos causados ao amigo Macedo.
Os infringidos aos pobres animais, esses já não tinham remédio...
- A. Coelho, Luxemburgo 6/12/2001.

Um jogo sobre Porto Amélia-Pemba:
->Teste seus conhecimentos sobre Pemba.

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5/06/10

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - D. José dos Santos Garcia, 1º Bispo de Porto Amélia

Para anotar... porque faz parte da História de Pemba...
D. José dos Santos Garcia comemorou 90 anos em 16 de Abril de 2003

"Nascido a 16 de Abril de 1913, D. José dos Santos Garcia, Bispo Emérito de Pemba, comemora hoje (16 de Abril de 2003) o seu aniversário com a presença de quase todos os Bispos Portugueses, alguns padres da Sociedade Missionária da Boa Nova e da Diocese da Guarda na sua terra natal, Aldeia do Souto.

D. José é membro da Sociedade Missionária, trabalhou enquanto jovem Padre nos seminários de Portugal, foi um grande obreiro da Missão do Mutuáli, Diocese de Nampula, onde construiu a Igreja, internatos masculino e feminino e centro de saúde.

Nomeado Bispo de Porto Amélia, hoje Pemba, em 1957, promoveu uma bem planeada pastoral em que eram prioridades a formação do clero, dos leigos e de religiosas moçambicanas. Para isso criou os Seminários, a Escola de Professores Catequistas e a primeira congregação religiosa de Moçambique, Filhas do Coração Imaculado de Maria. Promoveu a evangelização e dotou as missões de esmerada estrutura. Sofreu com a divisão da sua diocese nos tempos da luta pela independência quando não podia visitar todos os cristãos.

Voltando a Portugal em 1974, colaborou com a Diocese da Guarda naquilo que lhe foi pedido e ele faz questão de destacar as aulas de missionologia aos seminaristas. D. António Santos, actual Bispo da Guarda, reconhece que "é difícil fazer registo completo dos valiosos serviços prestados a esta Diocese".

Depois dos 85 anos dedicou-se a reformar a Igreja e as capelas da sua terra natal, Aldeia do Souto e a escrever livros: Alicerce e Construção duma Igreja Africana, Diário do Mutuáli, Evangelização de Cabo Delgado e Notas para a História da Paróquia de Aldeia do Souto. Este dois últimos serão oferecidos aos amigos no dia da festa dos 90 anos. Além de reflexões pessoais, os três primeiros são documentos para história da Igreja em Moçambique."

Memórias de Bispo-Pai Natal
"D. António Santos (Bispo da Guarda) cita alguns episódios narrados na primeira pelo aniversariante , por ocasião das visitas pastorais, apresentando-os como exemplo da "simplicidade e simpatia" do grande "Bispo Missionário".

"O primeiro deu-se em Orjais, pelo ano de 1975. Fui lá com D. Policarpo e cheguei dez minutos antes. Subi a escadaria da casa do pároco onde, a meio, estavam dois pequenos que iam ser crismados. Um disse: o senhor é que nos vai crismar? Ao que respondi: posso ser ou não! O outro observou: o senhor com essa batina, essa faixa vermelha, essa cruz e esse chapeuzinho está mesmo porreirinho..."

O segundo caso que o aniversariante costuma relatar ocorreu em 1988. "Uma jovem foi crismada no Fundão e quando chegou a casa disse à mãe: mãe, sabes quem me crismou? Foi o Pai Natal! A senhora viu-me passar a pé, saiu de casa e veio contar-me a história".

NOTA - D. José dos Santos Garcia ainda é vivo, conta com 92 anos(*) e está com uma memória previlegiada. Sempre bem disposto estivemos com ele no passado Domingo, dia 7 de Agosto de 2005.
Tivémos ainda a felicidade de poder assistir à eucaristia por ele celebrada, ao meio dia, na capelinha da sua residência. Quem o quiser visitar, não é difícil encontrá-lo: -Aldeia do Souto (entre a Guarda e Belmonte) sua terra Natal. Grande contador de histórias fala com muita saudade das gentes de Pemba e de outras localidades por onde passou por terras de Moçambique.
- Maria José Costa em 17 de Agosto de 2005 - 09h48.
* - D. José dos Santos Garcia está com 97 anos feitos no passado dia 13 de Abril de 2010. E continua muito lúcido.
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Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Como foi a Expansão Portuguesa em Moçambique

Brasil - Arquivo Nacional - Uma imensa fonte de pesquisa !
Como foi a Expansão Portuguesa em Moçambique - Fabiano Villaça dos Santos

Os portugueses chegaram a Moçambique em 1498 e a administração colonial foi instalada três anos mais tarde, ficando o território dependente do Estado da Índia até 1752. Em 1569, Moçambique foi elevada à condição de capitania-geral, englobando a região de Sofala e a do Monomotapa. A ocupação de Moçambique se iniciou em 1507, contudo, segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, a penetração portuguesa em Moçambique foi muito frágil, sobretudo se comparada à conquista e à ocupação de Angola, na costa ocidental da África.

Durante boa parte da colonização portuguesa, Moçambique desempenhou a função de entreposto comercial e de ponto de apoio para os navios com destino ao Oriente. Com relação ao desenvolvimento interno da colonização, de acordo com Luiz Felipe de Alencastro, os portugueses praticamente não interferiram no processo produtivo da região, além de não conseguirem reorientar em benefício próprio os circuitos de comércio local, o que corrobora a posição estratégica de Moçambique na carreira da Índia. As trocas permaneceram voltadas para o Norte da África e para o Leste, em direção ao Golfo Pérsico, onde regiões como Omã adquiriam grande quantidade de escravos.

Para Charles Boxer, a penetração portuguesa no território de Moçambique também foi dificultada, até o século XVIII, pela insalubridade verificada nas regiões costeiras da África e da Ásia. A correspondência oficial entre Lisboa e Goa, de 1650 a 1750, relata a preocupação das autoridades com o escasso contingente de portugueses reinóis no Oriente e com as altas taxas de mortalidade na região, incluindo Moçambique como parte do circuito indiano. Tal situação parece não ter se alterado depois de 1750, pois, em 1799, o vice-rei conde de Resende sugeriu o envio anual de vadios e voluntários do Rio de Janeiro para povoar diferentes regiões africanas, como Moçambique.

Outras dificuldades enfrentadas pela administração metropolitana em Moçambique, bastante comuns nos domínios coloniais portugueses, relacionavam-se à ação dos funcionários régios. Charles Boxer atentou para as constantes queixas presentes na correspondência oficial e extra-oficial, sobre o descuido na aplicação da justiça em lugares distantes, como Moçambique, Macau e Goa. Problema recorrente, levou a Rainha dona Maria I a publicar um alvará, em 14 de abril de 1785, com o objetivo de coibir abusos cometidos por governadores e ouvidores da capitania de Moçambique, tais como a cobrança indevida de donativos e a realização de transações comerciais particulares com rendimentos da Real Fazenda. O alvará previa penalidades que iam da perda do cargo ao pagamento de indenizações pelos culpados de tais abusos.

Quanto ao tráfico de escravos, a região do Congo-Angola supriu grande parte da demanda de mão-de-obra durante o período colonial. O fluxo de escravos de Moçambique, em especial para o Rio de Janeiro, foi pequeno e irregular até o início do século XIX, havendo, no entanto, referências a iniciativas de negociantes desta praça, engajados no circuito de Moçambique, Sena e Goa, para instalar uma companhia de comércio de gêneros e escravos africanos, em 1744. Algumas décadas antes, em 1719, uma ordem de d. João V enviada ao governador-geral do Estado do Brasil, d. Sancho de Faro e Sousa, determinava uma alteração emergencial na rota do tráfico de escravos do Atlântico para a baía de Lourenço Marques, no sul de Moçambique, em virtude dos ataques de navios holandeses aos portugueses na costa ocidental da África. Essas medidas demonstram que, até o final do século XVIII, o tráfico de escravos da África Oriental ainda não havia se consolidado.

A participação mais efetiva da África Ocidental no fornecimento de escravos para o Rio de Janeiro declinou entre 1795 e 1811, ano em que Manolo Florentino verificou um crescimento da oferta de cativos oriundos de Moçambique. Esse crescimento se explica, em termos mais amplos, pela Abertura dos Portos, em 1808, que favoreceu o aumento do número de expedições para Moçambique a fim de resgatar escravos. Nesse movimento, ganhou destaque o porto de Quilimane. Para o porto de Salvador, outro importante mercado de escravos da colônia, a demanda de escravos permaneceu sendo suprida pela região do Congo-Angola. O porto do Rio de Janeiro, entretanto, não monopolizava o recebimento de africanos de Moçambique. Houve reivindicações de comerciantes do Pará, envolvidos no tráfico de escravos em diferentes regiões africanas, dentre as quais Moçambique, na última década do século XVIII, para obter isenção do pagamento de direitos (impostos) por um certo período de tempo, demonstrando que outros portos coloniais eram abastecidos de cativos da África Oriental.

A regulação do tráfico de escravos, independente da região fornecedora, não escapou às diretrizes reformistas da política colonial portuguesa. Para manter o controle sobre o contingente de cativos transportados de Moçambique e outros mercados africanos, foram organizados os termos de contagem de escravos, elaborados após o recolhimento do imposto sobre os escravos na alfândega, em que se atestava o número de escravos embarcados na África e os que chegavam à América, deduzidos os mortos durante a viajem, que não eram poucos, ou logo após o desembarque no porto de destino. Em 13 de junho de 1802, um termo de contagem de escravos provenientes de Moçambique no navio Ninfa do Mar, por exemplo, acusou a chegada de 227 escravos vivos e 228 mortos, ao porto do Rio de Janeiro.

As autoridades pareciam estar atentas quanto ao cumprimento das medidas de registro dos escravos, como demonstra a referência a uma devassa realizada em 1812, no bergantim Esgueira, pela morte de numerosos africanos vindos de Moçambique, conforme indicou um ofício expedido ao juiz do crime do Rio de Janeiro. Instruções anteriores de d. Rodrigo de Sousa Coutinho ao vice-rei, conde de Resende, determinavam um rígido controle sobre as rotas dos navios negreiros. Em carta de 12 de dezembro de 1798, o secretário de Estado da Marinha e Ultramar tratou do extravio de escravos quando os navios que os transportavam precisavam fazer baldeação. Para evitar tal prática, d. Rodrigo de Sousa Coutinho recomendou que se fizesse uma lista com o dia da saída, o nome dos mestres das embarcações e o número de escravos transportados.

O tema do tráfico de escravos aparece como o mais recorrente quando se pensa em África, ocidental ou oriental. Moçambique, como outras regiões africanas, a exemplo de Angola e Benguela, também foi local de degredo. Os inóspitos e “hostis” domínios africanos receberam réus da Inconfidência Mineira condenados ao degredo em Moçambique e Angola, como indica a correspondência do vice-rei, conde de Resende, para a Corte, de 29 de abril de 1792, em que se registra também a condenação à pena capital de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Segundo Charles Boxer, no século XIX Moçambique foi afetada pela conjuntura européia das invasões napoleônicas, que motivaram a transferência da Corte portuguesa para a América e a sua longa permanência no Rio de Janeiro. Entre 1805 e 1825, Portugal teria abandonado suas colônias asiáticas e africanas, contexto em que se insere a Independência do Brasil. Ainda de acordo com Charles Boxer, idéias sobre o desenvolvimento de Angola e Moçambique como forma de compensar a separação do Brasil foram cogitadas, mas não ocorreram imediatamente à Independência da colônia americana. Em razão das desordens internas de Portugal, inseridas no período que se abre como o do “vintismo, e porque o tráfico de escravos ainda “absorvia as energias” tanto de Angola como de Moçambique, novas diretrizes da Coroa portuguesa para reformular a exploração do que restou de seu Império colonial não foram produzidas instantaneamente, uma vez que Portugal só reconheceu a Independência do Brasil em 1825.

Para o estudo da África Oriental, os fundos documentais do Arquivo Nacional que apresentam indicações freqüentes sobre Moçambique, especialmente acerca de sua posição estratégica na carreira da Índia e do tráfico negreiro, são: Negócios de Portugal, Secretaria de Estado do Brasil, Relação da Bahia, Ministério do Império, Diversos Códices – SDH, Secretaria de Governo da Capitania do Pará e Polícia da Corte.
-  Texto extraído do portal "Arquivo Nacional" - Brasil.

HISTÓRIA E "ESTÓRIAS" - CHAI - 25/09/1964 - A VERDADE E A HISTÓRIA...!
Alguém escreveu - "Procurar a verdadeira história e espírito africano implica recorrer a toda a herança de conhecimentos que, ao longo dos tempos, foram transmitidos de geração em geração, do mais velho ao mais novo, do narrador ao ouvinte.
Trata-se da própria tradição oral que, através de cantos, danças, lendas, mitos, contos, provérbios, rituais e enigmas, transmite o próprio conhecimento e a escola da vida. A tradição oral constitui, por isso, todo um património que faz parte de uma cultura viva. E só conhecendo as suas raízes culturais e civilizacionais, é possível a um povo identificar-se como Povo".

Depoimento de Tó Alves em 25 de Setembro de 2003 no "Bar da Tininha da Yahoo":

"Completam-se hoje* às 21:00 de Moçambique (20:00 em Portugal) 39** anos do primeiro ataque (oficial) da Frelimo e sua guerra de libertação do país.
Foi no Chai, a norte de Macomia a escassos 10Kms do rio Messalo.
Tinha 8 anos, estava lá, assim como os meus pais, não morri... nem ninguém morreu de ambos os lados, e lembro-me de quase tudo.
Tudo se resumiu a 2 rajadas de metralhadora (uma de cada lado).
Demorou 1 ou 2 minutos e depois foi a fuga dos atacantes.
A minha mãe lembra-se que nesse dia à tarde, andou uma pessoa desconhecida ali nas lojas no Chai e com umas ligaduras na perna ou no pé. Andou umas 2 horas a "passear-se" pela localidade. Veio-se a saber mais tarde que essa pessoa desconhecida andou a fazer o reconhecimento da zona.
A data, hoje em dia, é comemorada em Moçambique como Dia das Forças Armadas."
*25 de Setembro de 2003;
**40 neste ano de 2004;
- E o que se fala na net a respeito do dia 25/09/1964: http://www.macua.org/chai25092003.htm;
- Publicado no sitio "Pemba" em 09/2004.

Retalhos da mente ou do meu pensamento...!
 ... Datas que se comemoram mundo afora, salientando a dimensão histórica de heróis ou mitos da guerra e da violência.

Salientaremos algum dia a dimensão histórica das vítimas inocentes de todas as guerras ?...

Morte, sempre morte, só morte, o silêncio da vida ou a inexplicável apologia do direito à violência que soma e resulta neste conturbado, desequilibrado globo terrestre que temos hoje!

Como ontem ou como sempre, novas, insensíveis, minoritárias, egoístas elites ressurgem "chafurdando" no deleite do poder conseguido ambiciosa, desesperada e despudoradamente num vale-tudo de mentiras, promessas e imposições que desprezam, desrespeitam o ser humano, a natureza, a vida.

Elites econômicas hipócritas ilhadas em castelos de ostentação, tal qual sanguessugas famintos de coimas e impostos que recheiam, atulham seus bolsos e cofres.

Elites burlescas acoitadas em grotescas castas pseudo-intelectuais, em cômicos feudos pseudo-democráticos de segregação social (similar ou pior que a racial) isolados atrás de grades, fossos, muros, cercas eletrificadas tentando impedir a vinda avassaladora, inevitável de povos-multidões-desesperados-sem-raça enganados, revoltados, famintos, desiludidos e destruidores !

Até quando teremos datas de violência e de luto ?

Até quando a hipocrisia do discurso fácil e o apetite do poder embebedarão mentes e suplantarão o direito de viver ou existir com dignidade em liberdade fraterna, solidária e justa?

Vivemos esperando dias melhores... dias que não deixaremos mais para trás...!
- Jaime Luis Gabão,  publicado no sitio "Pemba" em 09/2004.

(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Homens que fizeram... Adelino Coelho !

Breve apontamento sobre (nosso saudoso Amigo) Adelino Coelho, feito por seu filho António Coelho e relatando a epopeia que era, nos anos 50, o desbravar das "picadas" de Cabo Delgado:
Em 58/59, o meu pai fazia as carreiras: Porto Amélia - Montepuez - Porto Amélia (bi-semanal - desde 1954) e Porto Amélia- Mocimboa- Porto Amélia (bi-semanal, também desde 1958). Esta, via Metuge - Napuda - Mahate - Mussomer Quissanga - Tandanhangue - (de novo Quissanga e Mussomero) - Panguia-Macomia - Mucojo - Quiterajo - (passagem do batelão do rio M'Salo) - Marere, era uma via que acompanhava quase todo o litoral.

Quando em 1959 um ciclone tremendo arrazou Mocimboa da Praia e afetou todo o litoral de Cabo Delgado, a estrada ficou intransitável. Como curiosidade, nesse dia o meu pai refugiou-se do mau tempo na casa do amigo Teixeira Gomes (Popote) em Macomia.

Tão intransitável e por tanto tempo ficou, que a carreira não mais se pode efetuar.

Entretanto começou a guerra e, pior ainda, não mais se reatou.

Quando foi asfaltada a estrada para Macomia, (via Silva Macua - Muguia - Moja) havia já um mínimo de segurança e recomeçou a circular por esse itinerário, mas só até Macomia, abandonando o itinerário do litoral.

O meu pai manteve-se pelo itinerário do interior e à medida que a estrada foi sendo asfaltada foi acompanhando, primeiro até ao Chai e por fim até Mocimboa da Praia.

Um abraço. E, se coisas há que gosto de partilhar, são as recordações. Mais a mais quando de amigos se trata.

Ah ! E desculpa a falta de alguns acentos agudos ( no a, i, e u ), mas este teclado é "chinamarquês" e não permite.

Um abração,
Tó Coelho
- Publicado em Junho de 2001 no sítio Pemba.
  • ADELINO COELHO - Antigo residente de Porto Amélia, hoje Pemba, que se destacou pelo pioneirismo na implantação do transporte público em autocarros em toda a província de Cabo Delgado, entre inumeras dificuldades e carências operacionais à época, já que não existiam estradas asfaltadas nem as comunicações eram fáceis. Faleceu em 28 de Março de 2003 em Portugal.
Imagens de Porto Amélia:
 (Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)