quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Ibo Antigo ou...



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IBO AZUL (segundo o 2+2=5 )

(...)Para que o dia possa acabar, é necessário que a mulher dê por terminada a sua faina, lançando um derradeiro olhar em volta enquanto aperta, uma vez mais, o nó que lhe prende a capulana ao peito, e tende a desfazer-se. Ajustado ele, é então necessário que pegue no pequeno cesto entrançado com ambas as mãos de criança, para o pôr à cabeça e iniciar o regresso. E que o homem desapareça devagar na distância, ligeiramente curvado, em direcção à velha Fortaleza. Mas este último reluta, mastigando minutos salgados, desejando que em cada um deles caiba uma hora inteira. Fazendo com que ela, paciente, vá adiando os preparativos da partida, que são gestos íntimos, incompatíveis com outras presenças. Ficam pois assim os dois, enchendo-se cada um de seu modo pelo instante mágico em que a tarde se escoa com um furor silencioso; e em que a noite vai chegando para fechar por hoje o mundo. Ficam assim os dois, a mulher acabando o dia com demorados vagares, o homem começando a noite com pressas ansiosas.
Depois, a lua derrama a sua luz sobre as casas e as coisas. E o Ibo fica azul.
In 'Setentrião. Índicos Indícios I'
João Paulo Borges Coelho, historiador e escritor moçambicano
Editorial Caminho, 2005

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