2/25/09

Obra etnográfica sobre a cultura Macua-Xirima é lançada em Moçambique.

O missionário da Consolata Giuseppe Frizzi acaba de lançar a importante obra etnográfica "Murima ni ewani Exirima: Biosofia e biosfera Xirima". O autor vive no Niassa, Moçambique, há mais de 30 anos.

A obra é uma autêntica suma da cultura e sabedoria do povo Macua-Xirima, um importante grupo étnico moçambicano. Giuseppe Frizzi é um dos maiores estudiosos da língua e cultura Macua-Xirima.

Conheci-o em 1992, quando cheguei a Moçambique e foi ele, com o seu conhecimento e experiência, que me introduziu no conhecimento da realidade sócio-cultural e pastoral local.

Desde o início apreciei o seu trabalho de investigação cultural e pastoral. Apenas chegado ao Niassa, o missionário italiano Giuseppe Frizzi procedeu à recolha e salvaguarda dos trabalhos linguísticos dos primeiros missionários da Consolata que desde 1926 evangelizaram a região.

Enriqueceu o material etnográfico, anotando tudo o que encontrava, sobretudo provérbios e contos tradicionais macuas. Destes passou aos ritos das curas e às iniciações masculinas e femininas. Com o passar do tempo, formou uma equipa de colaboradores competentes na pesquisa de campo.

Em 1992, criou na Missão de Maúa o Centro de Investigação Macua-Xirima. Dele saíram traduções de textos litúrgicos e catequéticos que culminaram com a tradução e publicação, em 2002, da Bíblia Macua-Xirima ilustrada. Editou textos bilingues para a alfabetização e escolarização: Gramática Macua-Xirima, Mwana mutthú yowo: a criança é pessoa (2004). Em 2005, publicou o monumental Dicionário Macua/Xirima-Português e Português-Macua/Xirima. Agora, acaba de publicar em 1785 páginas a obra antológica, etnográfica “Murima ni ewani Exirima": Biosofia e biosfera Xirima".

O seu conteúdo e ilustrações favorecem a consolidação das raízes culturais do povo Macua-Xirima. O que tão generosamente este povo lhe foi doando a nível oral durante muitos anos de convivência, com gratidão é aqui restituído, fixado a escrito, filtrado e enriquecido pela sua experiência e metodologia científica.

O livro é uma suma quase completa da mundo-visão Macua-Xirima. A leitura dos textos revela a consistência da cultura e da sabedoria deste povo que se desenvolve em redor do tema central: a vida. Biosofia e biosfera é um binómio que abrange e unifica todas as secções que esta obra toma em consideração: Deus, criação, autoridade, parentesco, a pessoa, o trabalho, sabedoria, justiça, ética, saúde, doença, morte, curas, religião e festas.

Para cada uma das quinze secções apresentam-se muitos e variados textos: uns soltos, como é o caso dos inúmeros provérbios e axiomas; outros reproduzindo a sequência cronológica do rito celebrado (iniciação, sacrifício tradicional, curas, cânticos fúnebres e outros.). Para facilitar a compreensão dos textos estão inseridos nesta publicação várias ilustrações, realizadas por artistas do Centro de Estudos Macua-Xirima, sobretudo dos artistas Luís Presciliano e João Torchio.

Uma obra notável que demonstra o amor profundo de um missionário pelo seu povo. O fazer-se humilde para poder entender e o ser sábio para saber transmitir.

Para a publicação desta obra contribuíram entre outros, a Província Portuguesa dos Missionários da Consolata.
- Fátima Missionária, por Diamantino Antunes que é missionário da Consolata - 24-02-2009 • 07:50

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Mais uma vez... tráfico de órgãos humanos deu-se no distrito de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado, norte do país !

Tráfico de órgãos humanos está associado a feitiçaria.
(A vergonha continua... tal e qual novela!)

A extracção de órgãos humanos em Moçambique está associado a "práticas tradicionais prejudiciais", em particular a feitiçaria, e não a transplantes, indica a Liga dos Direitos Humanos (LDH) de Moçambique.

Uma pesquisa feita pela LDH, terça-feira divulgada, que analisou a forma de conservação e métodos de transporte de órgãos e partes do corpo humano depois da sua extracção, constatou que nenhum dos métodos de transporte utilizados pelos supostos traficantes de órgãos humanos é conducente ao transplante.

O estudo daquela instituição de defesa dos direitos do homem em Moçambique apurou que os órgãos e partes de corpos, depois de extraídos, são transportados de diferentes formas: em sacos, embrulhados em folhas de árvores, escondidos dentro de caixas com carne, na bagageira de carros, ou dentro de panelas.

"Nenhum destes métodos de transporte é conducente para o transplante" dos órgãos humanos, sublinha o relatório publicado em Maputo.

Normalmente, explica a LDH, os órgãos humanos para transplantes são conservados em laboratórios de forma cuidadosa, além de que os doadores devem ser submetidos previamente a exames para identificação de eventuais doenças.

Para a organização, o objectivo do uso de partes do corpo humano "é criar uma medicina tradicional poderosa, no alcance dos seus propósitos que são, por exemplo, curar doenças, ajudar as pessoas a progredir economicamente ou prejudicar os seus inimigos".

"As pessoas tentam, desesperadamente, sair da pobreza e das frustrações e pobres condições de vida a elas associadas. Estão, portanto, susceptíveis às ofertas dos feiticeiros para melhorarem a saúde e/ou as condições financeiras", refere a LDH.

Mas, o tráfico de órgãos e partes do corpo humano "é uma realidade" em Moçambique, apesar de nunca ter sido admitida pelo Governo de Moçambique, considera aquela agremiação.

Aliás, o executivo de Maputo "pouco ou nada fez até aqui para controlar a situação" do suposto tráfico de órgãos humanos, considera a LDH, que atribui esta prática ao crime organizado.

"A situação do tráfico de órgãos humanos é uma realidade ainda presente no país, mas o Governo pouco ou nada fez até aqui para controlar a situação.

Pior ainda, este fenómeno é alimentado pelas estruturas do crime organizado, usando as mais variadas e sofisticadas formas de actuação", sublinha o relatório.

"Urge, deste modo, combater esta prática para a garantia de uma paz social e pleno respeito pelos direitos humanos", exorta o documento.

O relatório da LDH indica que este fenómeno está a ser levantado desde 2003 e que a extinta Unidade Anti-corrupção, criada há cinco anos, estava a trabalhar no assunto.

"Porém, desde a extinção daquela unidade no país, e a sua substituição pelo Gabinete Central de Combate à Corrupção, em 2006, nunca mais se fez uma pesquisa relacionada com o assunto, por mera falta de vontade política", acusa a LDH.

Na semana passada, a LDH lançou o Relatório de Direitos Humanos em Moçambique-2007 em que refere que o caso mais recente relacionado com o eventual tráfico de órgãos humanos deu-se no distrito de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado, norte do país, onde foram encontrados três corpos sem os respectivos órgãos genitais.

"Esta informação foi confirmada pelas estruturas locais da Polícia (PRM) e da Procuradoria provincial (...). Todavia, não foi feita nenhuma investigação para se apurar os factos e circunstâncias do tráfico", salienta.

Além deste caso, há registo de pessoas presas em conexão com a morte e decepamento de órgãos humanos, como cabeças e órgãos genitais, supostamente para traficar, frisa o documento.

No mesmo relatório, a LDH aponta fragilidades na legislação em vigor em Moçambique para desencorajar este tipo de práticas.

"Se alguém é encontrado na posse de uma parte do corpo humano na África do Sul ou em Moçambique, e se não houver maneira de relacionar a parte do corpo a uma vítima, é difícil que, sob a legislação actual, a polícia consiga condenar os indivíduos na posse da parte do corpo", refere.

"Devido à falta de métodos sofisticados de investigação na região, como teste de ADN, é difícil para a polícia descobrir qual a origem de uma parte de corpo. A incapacidade de descobrir a vítima a quem pertence a parte de corpo, torna a condenação difícil", refere a LDH.
- Angop, 25-02-2009 8:41.

2/20/09

Terceira licença da rede móvel em Moçambique contará com a PT

A Portugal Telecom não afasta a possibilidade de avançar com uma proposta no concurso para a atribuição de uma terceira licença de telecomunicações móveis em Moçambique.

“Quando forem anunciados os termos e condições do concurso, a PT com certeza irá analisar”, afirmou Zeinal Bava, CEO da operadora portuguesa, à margem do lançamento do portal Sapo em Moçambique.

O governo de Moçambique anunciou ontem, através do vice-ministro dos Transportes e Telecomunicações, Ernesto Augusto, que vai ser lançado ainda este ano o concurso para a exploração da terceira licença da rede móvel. Estas declarações, foram feitas ontem à agência Lusa, à margem do encontro das entidades reguladores do sector dos países da CPLP.

“É para nós um Continente estratégico e queremos reforçar os nossos investimentos”, disse Zeinal Bava.

O CEO salientou o elevado potencial de África para o mercado da rede móvel.

"Nós já conseguimos uma penetração de 50% em Cabo Verde. Com a tendência de queda dos preços dos terminais, não me surpreenderia que África caminhasse para níveis de penetração de 75% ou mais".

Foi também revelado por Ernesto Augusto, ontem, que o executivo de Moçambique vai privatizar a empresa pública de telecomunicações, a mCel.

A Portugal Telecom, cuja presença no país resume-se à Listas Telefónicas de Moçambique, através de Zeinal Bava não quis comentar a possibilidade de vir a participar neste processo.
- 20 Fevereiro 2009, 12:17, Paulo Moutinho: paulomoutinho@negocios.pt; Jornal de Negócios OnLine.

Ronda pela net - Kamera Mocubassa: Photos from Mozambiquearchive about blog

Um arquivo de imagens da ilha de Moçambique, Mocuba, Quelimane... Fotos feitas por jovens que nos mostram gente simples, vida e lugares belos do nosso Moçambique:

  • Kamera Mocubassa aqui!

Denunciado tráfico de órgãos em Moçambique !

Exatamente como está no "AngolaPress" de hà momentos:

Moçambique - 20-02-2009 11:06 - Maputo - Partes do corpo humano são frequentemente traficadas neste país e também na África do Sul, fenómeno relacionado com crenças superticiosas, revela uma pesquisa publicada num relatório da Liga dos Direitos Humanos.

Relatos de pessoas degoladas, crianças a quem foram arrancados órgãos vitais e a corpos sem vida encontrados sem os órgãos genitais, são alguns dos exemplos dos testemunhos incluídos no relatório “Tráfico de Partes de Corpo em Moçambique e na África do Sul”.

É uma pesquisa que procurou determinar a incidência e prevalência do fenómeno naqueles dois países, os factores que contribuem para o mesmo e o que é que está a ser e deve ser feito.

Ao estudo dão corpo entrevistas feitas a cento e trinta e nove indivíduos, ligados a organizações religiosas, femininas, forças da lei e da ordem e também médicos tradicionais como são chamados os curandeiros entre outros.

Mais de um em cada cinco dos indivíduos em causa terão testemunhado em primeira mão um incidente relacionado com o tráfico de partes do corpo. São testemunhos chocantes como aliás os autores do documento alertam logo no início.

A Presidente da Liga dos Direitos Humanos, Alice Mabote, diz que tudo está relacionado com crenças e práticas supersticiosas. "Uma das coisas que se alega que se faz com os órgãos é o tratamento para dinheiro ou poder”.

“É um fenómeno que está a crescer, pois nunca foram punidos os responsáveis. Há muitos jovens que acreditam nisso e matam pessoas para extrair órgãos. E o mais doloroso é que tais órgãos são extraídos quando as pessoas estão ainda vivas".

Embora reconheça que não existem dados estatísticos fiáveis sobre o fenómeno e a existência de um clima de secretismo, com muitos tabus à volta do mesmo, o relatório sobre o ‘Tráfico de Partes de Corpo em Moçambique e na África do Sul’ insiste que é urgente agir.

"A legislação que nós temos é para o tráfico de pessoas. A extracção de órgãos não é crime assim como não há uma criminalização sobre a pessoa que seja encontrada na posse de órgãos humanos".

SAPO: MOÇAMBIQUE ON LINE desde hoje!

A Portugal Telecom disponibiliza hoje, sexta-feira, o portal Sapo: Moçambique OnLinehttp://www.sapo.mz/. Aqui fica a novidade.

Onde está Afonso Tiago, desaparecido em Berlim ?...

Também questiono: ONDE ESTÁ AFONSO TIAGO? O QUE ACONTECEU (ACONTECE) COM AFONSO TIAGO desaparecido em Berlim dia 10 de Janeiro deste ano?

Transcrevo informação recebida de JPT:
""Amiga(o)s,
Estais provavelmente a par do desaparecimento do meu primo Afonso Tiago, já há mais de um mês, em Berlim. Apesar dos esforços que têm sido empreendidos e da intensificação das investigações policiais esta tragédia não teve qualquer desenvolvimento significativo.

À medida que esta n/ angústia se vai perpetuando e por mais envolvimento que exista por parte das autoridades alemãs e portuguesas, é natural que se vá verificando alguma atenuação nos meios envolvidos, até porque algumas linhas de investigação, a serem prosseguidas, implicarão fortes investimentos em recursos humanos e financeiros.

Nos primeiros dias de Março o Presidente Cavaco Silva irá deslocar-se à Alemanha, começando a sua visita exactamente em Berlim. Por isso esta parece-nos uma oportunidade especial para gerar alguma influência e por outro lado continuar a dar visibilidade a esta dramática situação, dois aspectos que são fundamentais para que não deixemos esmorecer todas as investidas que podem e devem ser tomadas para encontrar o Afonso, as quais serão certamente estimuladas se houver algum empenho político.

Lançámos por isso uma petição na internet, a qual se dirigirá à Presidência da República. Convido-vos assim a assinar a mesma, neste endereço:

Agradeço também que divulgueis esta iniciativa pelos meios que achardes convenientes.
Muito obrigado
Um abraço,
""

To: PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA. PETIÇÃO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA POR AFONSO TIAGO.

Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, Prof. Aníbal Cavaco Silva.

Assunto: DESAPARECIMENTO de AFONSO Freire de Novais Santos TIAGO.

Considerando que:

a) O Afonso Tiago, 27 anos, Engenheiro Mecânico, está em Berlim desde Junho de 2008 ao abrigo do programa INOV Contacto promovido pelo Estado Português;

b) Este cidadão foi visto pela última vez em Berlim a 10 de Janeiro de 2009;

c) As polícias - alemã, portuguesa e europeia - têm dedicado a maior atenção para localizar o Afonso Tiago, mas sem sucesso;

d) A Presidência da República manifestou extremo interesse e empenho, desde a primeira hora;

e) S. Exa. o Senhor Presidente da República realiza, entre 03 e 06 de Março próximo, uma visita de Estado à Alemanha, que terá início em Berlim.

Os subscritores desta petição solicitam a S. Exa. o Senhor Presidente da República a continuidade dos seus esforços para:

1º - Que haja ainda maior envolvimento e dedicação na resolução do caso do desaparecimento deste cidadão português;

2º - Realizar todos esforços junto das autoridades alemãs para encontrar o Afonso Tiago. Atentamente,
Sincerely,
The Undersigned.

2/13/09

O NAVIO ENSOMBRADO - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão)

(Clique na imagem para ampliar - Imagem ilustrativa original do ForEver PEMBA baseada na mixagem de diversas fotos)

Não havia em toda baia de Pemba a praia mais preferida pela minha malta, para a actividade lúdica, do que a Praia da Marinha. Ela ficava por trás do Quartel da Base Naval da Marinha e era muito calma e menos frequentado por banhistas por ter características impróprias ou menos atractivas para um merecido mergulho. Tinha águas quentes e cristalinas e um chão rochoso coberto por um tapete verde de algas e outras ervas marinhas. Aqui e acolá, quando a maré fosse baixa, via-se pequenas poças de água, onde peixes minúsculos e carangueijos vermelhos aguardavam a maré cheia. Já na orla marítima, o cenário era desolador: Búzios, areia grossa, montes de algas secas, ramais, folhas de árvores e frutos silvestres trazidos pela força das águas, da outra margem da cidade, no silêncio da noite, faziam parte do cenário oferecido naquele ponto da baia.

Para além disso, era frequente avistar grupos de mulheres pintados de mussiro e com lenços na cabeça pescando cardumes minúsculos com recurso às redes finas e outras apanhando ameijoas, ostras, carangueijos e caracóis marinhos que guardavam em bacias metálicas e floreadas cobertas de peneiras. Era igualmente frequente cruzar-se com pescadores simpáticos e humildes subindo e descendo às encostas da praia descalços, de tronco nú, trajando calções rotos pela acção contínua das águas do mar, chapéus de palha e empunhando remos, fios e redes de pesca, boías e, por vezes, o pescado.

De longe, ouvia-se o marulhar das ondas, via-se barcos à motor sulcando o mar e casquinhas à vela balançando e cortando impetuosamente as águas com os remos dos pescadores servindo de leme.

Já na parte superior da orla, desenhava-se um cenário diferente e belo, um tanto quanto, esverdeado e acinzentado composto por ervas, arbustos e plantas indêmicas que davam flores fechados e inchados, cor de rosa, que precionados estoiravam produzindo um barulho ligeiro muito apreciado pelos adolescentes da baia. Uma estrada asfaltada serpenteava a orla maritima ligando Paquitequete (rocha mãe da cidade de Pemba), Ingonane, Natite, Cariacó e Wimbe. Frontalmente ao mar, a natureza oferecia uma vista espectacular em que podia-se sentir o cheiro intenso do mar e vislumbrar, na outra margem da baia, as florestas de Ulonto, Bandari e um pouco de Metuge, para além de uma cadeia de pequenos montes no horizonte longínquo que desenhava-se horizontalmente desde à entrada da baia passando por Miéze e chegando a findar no cais local.

Como dizia, a preferência pela Praia da Marinha por parte da minha "legião" não se devia simplesmente à existência de inúmeras poças de agúa por onde podia-se soltar casquinhas de brinquedo artesanal e nem ao cenário oferecido do alto da estrada, mas sim à existência na margem daquela praia de uma flotilha da marinha de guerra avariada, desactivada e com o casco quase a cair de podre.

Este navio servia de sobremesa das nossas brincadeiras e era nele que aconteciam as nossas derradeiras brincadeiras, subindo ao convés, correndo por entre os corredores dos camarotes, acenando na claraboia, descendo à casa das máquinas, correndo com a mão passando na borda do navio e saltando do barlavento para o chão de areia grossa e branca como a neve, onde depois voltavamos a entrar para a casa das máquinas através de um pequeno orifício feito pelas águas do mar no casco da flotilha bem junto à hélice bronzeada que há muito resistia às investidas nocturnas do mar.

Uma certa tarde de Dezembro, após às nossas brincadeiras no mar, uma camada espessa de nuvens escuras cobriu inesperadamente o sol quando lentamente caia no horizonte colorindo o ambiente de um tom alaranjado. O céu ficou sinistro e rugiu vezes sem conta, como se do alto lançassem inúmeros tambores vazios que rolando rapidamente precipitavam-se para o outro lado da baia num percurso quase infindável.

- Vamos ao navio! – Disse Amur visivelmente dominado pelo medo do fenómeno que ocorria.
- Não. – Atalhou Saide e continuou. – Melhor é corrermos para casa...

Mal disse estas palavras, ouviu-se um forte ribombar do trovão acompanhado de um relâmpago assustador que corriscou os céus emitindo faíscas vivas que acabaram se lançando rapidamente na imensidão do azul do mar. Molhados pelas águas do mar da ponta dos pés aos cabelos, saímos correndo atrapalhados ao encontro de um abrigo no navio amigo. Entramos pela abertura junto à hélice, alcançamos a casa das máquinas e no meio da penumbra subimos ao convés passando por dois camarotes trancados. Já no convés, a chuva despenhou-se em catadupa sobre a baia criando má visibilidade no mar e na terra firme.

- Estamos tramados! – Disse alguém entre nós.
- Não se preocupem! – Disse-lhes em jeito de encorajamento. – Isto é simplesmente uma nuvem passageira.
- Espero que realmente as tuas palavras sejam reais. – Desabafou Saide encolhido nos seus vestes molhados.

A chuva caiu todo fim da tarde acompanhado de relâmpagos e rugidos de trovão. Longe da chuva abrandar-se, a noite fez-se presente com as trevas envolvendo lentamente o ambiente. O silêncio no navio tornou-se incómodo e a escuridão pesadíssima. De quando em vez, ouvia-se o ranger das portas dos camarotes e o bater constante e suave de uma chapa na zona entre a popa e a proa.

De súbito, ouviu-se um forte sapatear no corredor dos camarotes acompanhado de vozes imperceptíveis que se confundiam com humanas e animais de tipo gato selvagem. Ficamos atentos com os ouvidos apurados e muito medrosos sem saber o que fazer. De repente, o sapatear infinito e as vozes imperceptíveis cessaram e lá fora a chuva abrandou e a trovoada começou a ouvir-se longe.

- Vamos embora, gente. – Sugeriu Nuro sussurando. – Isto não é normal.
- Mas donde sairemos? – Quis saber Saide medrica.
- Há uma pequena escada no princípio do corredor que leva aos camarotes que sobe até ao mastro. – Respondi-lhe sussurando e mais ou menos tranquilo.
- Então o que esperamos? – Amur briu as mãos reforçando as palavras e prosseguiu. – Vamos devagar e sem barulho.

Iniciamos a marcha pé-ante-pé e instantes depois ouviu-se o som de arrasto de correntes metálicas no corredor acompanhado de uivos e gritos humanos de desespero. Paramos e dirigimo-nos à claraboia. Os sons metálicos, os uivos e os gritos prosseguiram já com muita intensidade seguido de um outro som de abrir e fechar a porta com impetuosidade. Ficamos com os corpos e cabelos arrepiados e no meio do escuro vimos vultos altos vestidos de branco movendo-se vagarosamente em nossa direcção. Num impulso imperceptível, Nuro forçou uma das vidraças da claraboia e caiu quebrada no chão do lado frontal do navio. Pendurou-se na abertura e com pouco esforço, devido ao seu tamanho, lançou-se à borda lateral esquerdo do navio, onde caiu e sentou-se contorcendo-se de dor. Rapidamente, todos emitamos desesperadamente a proeza do Nuro e já fora do convés saltamos em conjunto para o chão profundo e arenoso, onde em seguida saimos correndo em debandada subindo a encosta da praia e mergulhando no escuro através de um pequeno e cansativo atalho tortuoso que conduzia à estrada que serpenteava o litoral. Assim que alcançamos o asfalto todos ofegantes, imediatamente, atravessamos a estrada e sem olhar para atrás, corremos desesperados debaixo da chuva que não parava de pancadear-nos com os seus pingos doces que, atingindo-nos à cabeça, escorriam involuntariamente até a boca, onde eram imperceptivelmente sorvidos com gosto no meio daquela corrida involuntária. Entretanto, atravessamos o Quartel da Marinha correndo em diagonal e, com a velocidade quase de uma estrela candente, deixamos para atrás espaços baldios e arborizados e, sem dar em conta, derrubamos arbustos e capim alto. Contudo, transcorrido algum momento desembocamos, sãos e salvos, na estrada que separa os bairros de Ingonane e Paquitequete, onde paramos no meio da luz de um poste de iluminação pública e deitamos em conjunto os olhares para atrás todos exaustos e com a respiração arquejante.
- Allman Ndyoko, 05/02/2009.
- Extrato do livro: Contos de Infância Distante.

O Autor:

  • -Francisco Absalão;
  • -Nome artístico -Allman Ndyoko;
  • -Nasceu em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
  • -Residência actual - Maputo;
  • Breve biografia - Nasceu em Pemba no não muito longinquo ano de 1977. De pais originários do sul de Moçambique, residiu em Pemba de 1977 a 1990 quando foi residir para Maputo onde trabalha e tenta prosseguir os estudos (ciências sociais).

Leia também:

  • "O Incêndio" - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 23 de Janeiro de 2009 - Aqui!
  • "O Suicídio" - Um conto de de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 02 de Junho de 2008 - Aqui!
  • "A Origem - Ou como surgiu o povo Makonde", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 29 de Março de 2008 - Aqui !
  • "O Turbilhão Lendário", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 24 de Outubro de 2007 - Aqui !
  • "O Nó Sagrado", um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) - publicado no ForEver PEMBA em 19 de Março de 2008 - Aqui !