5/25/09

PEMBA e a luta contra o Hiv/Sida nas madrassas

Madrassas começam a discutir prevenção de HIV/SIDA com alunos - Pemba, 25 Maio 2009 (PlusNews) - É hora da oração na madrassa Nur, em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, na costa norte do país. Crianças e adolescentes com idades entre oito e 20 anos se dividem em grupos de meninas e meninos para rezar. Na lousa, versos do Alcorão escritos em árabe e uma seriedade que não se vê nas salas de aula comuns.

As madrassas são escolas islâmicas, onde alunos são educados sobre o islamismo e aprendem a se portar segundo o Alcorão na sociedade, na família e nos relacionamentos. Na madrassa Nur, no entanto, essa educação não para aí. Em determinados sábados, quando os 120 alunos dos dois períodos podem se reunir no mesmo horário, o jovem malimo [professor] Mitilage Rashid fala sobre HIV e SIDA, adaptando as informações segundo a idade das crianças.

Rashid foi um dos malimos que em 2008 receberam formação sobre HIV do Conselho Islâmico, em parceria com outras organizações. Na formação, ele, com 30 outros professores, aprenderam mais sobre a epidemia e como ensinar os alunos. Mas o tema não era novidade para ele.

“Nós, muçulmanos, já fomos alertados no Alcorão sobre essa doença, que quando os actos sexuais fossem cometidos de qualquer maneira, sem compromisso, haveria uma doença sem cura.”

A inclusão do HIV/SIDA nos currículos das madrassas é uma inovação bem-vinda no rígido sistema educacional. Embora algumas madrassas ainda proíbam o assunto, malimos de escolas como Nur entenderam a importância de se abordar a epidemia num país cuja seroprevalência nacional é de 16 por cento.

No contexto do Alcorão - A mensagem sobre HIV nas madrassas, no entanto, é bem diferente da passada nas escolas regulares. Segundo o sheikh Mohammed Abdulai Cheba, director das 54 madrassas de Cabo Delgado, a mensagem é transmitida em duas partes: a primeira deixa claro que o HIV é um castigo divino; a segunda reforça a ideia de que a única forma de prevenção é a abstinência e a fidelidade.

“As pessoas fazem sexo ilegalmente, mas isso é um erro muito grande, porque é fora da autorização da família. Se querem fazer esse acto, eles devem preparar todos os requisitos: casar, aproximar as famílias e legalizar aquela vida que vai levar”, explica. Nas madrassas, os alunos não questionam tais ensinamentos.

“O Profeta falou que se as pessoas fizessem coisas que Alá não gosta, haveria uma doença sem cura. É uma forma de castigo”, repete Darisse Muarabo, 19 anos, aluno da quinta classe da madrassa e décima classe na escola regular.

O estudante Kadafi Joaquim leva as lições da madrassa ao pé da letra. Aos 18 anos, ele se mantém longe das raparigas – namorar, só se for para casar.

“Temos que ouvir o Profeta e nos afastarmos das moças antes do casamento, porque é pecado”, diz.

Ao defender a abstinência e a fidelidade, preservativos são automaticamente excluídos da discussão, porque, na opinião dos malimos, podem levar os alunos ao sexo. Haram (ilícito, em árabe) é o termo usado para descrevê-los.

“Quando confiamos na camisinha, ao invés de ter medo, o aluno vai querer fazer o adultério. Ele não terá mais medo de praticar o sexo”, explica Rashid.

Cheba vai além: “Todos os livros celestiais condenam o uso de camisinha. Quando o líder diz às crianças que têm que usar camisinha, ele está a autorizá-las a usar e a pecar.”

Joaquim explica a lógica da perspectiva dos adolescentes: “O rato não pode ver o amendoim, senão vai querer comer. Se você carregar preservativo no bolso, vai começar a pensar em coisas.”

Para os malimos, associar o HIV a comportamentos ilícitos não estimula o preconceito ou a discriminação. “Quando aparece um castigo ele é para toda gente, não só para quem cometeu o acto”, explica o sheikh Cheba. “Se uma pessoa está doente, muçulmana ou não, ela merece conselho e nós apoiamos, moralmente e materialmente.”

Nem todos os alunos, porém, parecem entender dessa forma. “Eu não conheço ninguém seropositivo, mas se conhecesse, eu iria me afastar”, disse Ausse Said, 17 anos, que cursa a quarta classe da madrassa Nur.

Enquanto isso, na escola - Adamo Selemani Daúdo, professor e activista da Geração Biz, projecto conjunto do governo de Moçambique com ONGs como Pathfinder International sobre saúde sexual e reprodutiva para adolescentes e jovens, critica a forma como o HIV, e o sexo em geral, é abordado nas madrassas.

“Religião e ciência quase não se dão, uma contradiz a outra. Mas eu, como professor, sempre aconselho os alunos no uso do preservativo”, diz. “Nas madrassas eles defendem o não-uso do preservativo para praticar a fidelidade, mas hoje não existe fidelidade em Moçambique.”

Muçulmano, casado e pai de dois filhos pequenos, Daúdo diz que usa camisinha nas relações extra-maritais “porque hoje em dia não há confiança. Nem mesmo as próprias muçulmanas são fiéis. Eu uso para a minha própria segurança.”

O jovem professor dá aulas de história na Escola Secundária Fraternidade, mantida pela comunidade islâmica e que fica ao lado da Africa Muslim, uma das mesquitas mais conservadoras de Pemba. Também faz palestras sobre saúde sexual. “Eu digo aos alunos que o preservativo é uma questão individual”, defende. “Não se pode falar dele como sendo um pecado, porque o preservativo é uma questão de segurança, proteção.”

A escola dispõe de uma sala batizada de Canto do Aconselhamento, onde alunos podem esclarecer dúvidas ou pegar preservativos. Segundo ele, muitos rapazes que frequentam as madrassas vão até lá em busca de preservativos. Tímidas, as meninas geralmente não aparecem.

“Não estamos a incentivar o sexo, mas a ajudar o jovem na prevenção”, diz Daúdo.

Ajira Abdul Razak, uma extrovertida rapariga de 20 anos, defende a educação sexual como ela é dada nas escolas regulares, “porque não é realista esperar que o jovem seja abstinente e fiel”. Para ela, os jovens precisam de informações práticas, mesmo que decidam não usá-las. Ela fala por experiência própria. Mãe de um menino de um ano e meio, Ajira frequentava uma madrassa onde não recebeu nenhum tipo de orientação sobre HIV. Na escola, aprendia sobre saúde sexual e participava de palestras sobre a epidemia. Mesmo com todo o conhecimento, ela dispensava a camisinha nas relações sexuais com o namorado. Ficou grávida e quase foi expulsa de casa pelo pai quando anunciou a notícia, principalmente por ser a única filha. Teve o bebé, que agora fica aos cuidados de sua mãe enquanto ela está na escola.
- PlusNews - Notícias e análises sobre HIV e Sida, 25/05/2009.
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5/23/09

Os Taxistas de Setúbal vistos por Pedro Nacuo de Pemba

Interessante, como sempre, o que nos conta Pedro Nacuo, jornalista de Pemba, no Notícias de Maputo acabado de ler nesta madrugada de sábado:

""EXTRAS - Os taxistas de Setúbal - Foi boa a nossa estadia, por uma semana, em Setúbal, cidade portuguesa que nos impressionou por muitas razões, desde a sua orla marítima de excepcional riqueza piscícola, uma identidade gastronómica da região que se afirma mormente nos pratos de peixe, de que merecem especial referência a caldeirada, a feijoada de choco, a espetada de tamboril, o choco frito e a sopa do mar, bem assim a variedade de pratos de peixe assado - a sardinha e do carapau ao linguado e ao salmonete. Muito prato cheio, sobretudo de peixe, incluindo amêijoa, camarão (à maneira de um mar menos rico que o moçambicano) e santola, iguarias que podem ser encontradas em esplanadas solarengas.

Muita água na boca, vêm daí a doçaria, as tortas, os queijinhos doces e os “esses” de Azeitão, que gozam, igualmente, de justa fama, como famosos são os taxistas setubalenses, com os quais convivíamos de cada vez que quiséssemos nos deslocar de um ponto para o outro, que não foram poucas. Interessante foi que só no dia de regresso tive um taxista que disse não conhecer Moçambique, pois mais de oito me tinham confidenciado o facto de terem estado no meu país, do qual têm muitas recordações e gostariam de cá voltar.

Mas os taxistas, como em todas as cidades, andam cheios de histórias para contar aos seus clientes e eu fui, mais uma vez, “vítima” do que eles são exímios repositórios, com a desvantagem de que todas elas giravam à volta do país onde uma vez estiveram a cumprir o serviço militar - Moçambique.

O trajecto a utilizar era, muitas vezes, do Novo Hotel, do grupo IBIS, onde nos encontrávamos hospedados, à Estalagem do Sado, outro hotel, onde decorriam os trabalhos do Congresso das Mais Belas Baías do Mundo, ou do local de hospedagem ao JUMBO, o maior Shopping de Setúbal, mas para todos estes lugares quase sempre dava em 6.10 euro, equivalente a 226,00 Mt ao câmbio daquela semana. Sem discussões nem negociações, o taxímetro falava mais alto e certo e estava claro, porque regulado que o ter sido chamado, simplesmente, estava em 80 cêntimos.

Invariavelmente, exibindo sempre o seu “certificado de aptidão profissional de motorista de táxi”, que são obrigados a ter, logo depois de dizer: “Leve-me à Estalagem do Sado ou ao JUMBO” a pergunta seguinte era “o senhor é angolano?”, como acontece sempre que estou na Europa (nunca acertam à primeira, pois na opinião deles o africano que fala a língua portuguesa é normalmente angolano).

- Não, sou moçambicano, senhor Ferreira da Silva.

-Como soube do meu nome?

- Pelo seu certificado de aptidão profissional de motorista de táxi, é a primeira coisa que vejo normalmente.

A seguir a esse intróito, vinham as histórias sobre Moçambique, terra bonita, rica, pena ter ido em cumprimento do serviço militar, cumpri a tropa em Mocímboa da Praia, depois às vezes subia para os macondes, em Mueda, etc. e no fim, 6,10 euro. Obrigado!

Da outra vez foi Jorge da Rocha que, depois de me identificar como acima, foi falando das suas histórias em Nova Freixo (Cuamba), mas já esteve alguns meses em Vila Pery, em Manica e Sofala. Com este taxista o meu trabalho era dizer-lhe os actuais nomes e chamar-lhe à atenção para o facto de que agora Manica e Sofala são províncias separadas uma da outra, a nível da administração territorial.

Rápidos quando chamados pelos recepcionistas dos hotéis, os taxistas de Setúbal iam-me enchendo de histórias da minha terra. O José Neves Capouchinhos trouxe uma sobre a sua digressão, como tropa colonial, em quase todo o norte de Moçambique.

Em Porto Amélia gostava duma pequena aldeia, mas interessante, chamada Paquitequete, confirmei-lhe que ainda era assim que se chamava e expliquei-lhe a razão porquê eu e outros moçambicanos estávamos na sua cidade, precisamente para receber o diploma de Pemba, como uma das Belas Baías do Mundo. O taxista exclama: “Merece, aquela maravilha da natureza, merece, merece, mesmo!”

Depois contou-me das suas andanças por Catur, Cóbwe, em Niassa, esta última região que tinha uma missão. Chamei-lhe à atenção para o facto de que ali saíram homens que agora estão a dirigir com competência o país. Não me pergunta os nomes e logo desvia-se para contar a história dum bairro da cidade de Nampula.

- Uns amigos disseram que havia muita mulher bonita, uma vez, aos copos fomos dar ao Namutequelíua, à porta duma cabana, iluminada apenas por uma lamparina, estava uma africana que era destinada a mim. Sinceramente não cheguei de certificar se aquela também era bonita ou não, estava escuro, mas lá fui eu, só soube que a minhoca lá entrara, dois dias depois a minhoca ficou inchada, estava escantado. Ah, ah, coisas da tropa!

P.S. A equipa do Vitória de Setúbal veio estagiar no hotel onde nos encontrávamos. Conversámos maningue com o treinador, que tinha, dia seguinte, o jogo decisivo em que perderia e por isso lhe afastaria da principal liga. Falou muito bem de Chiquinho Conde, o moçambicano que deixou saudades naquela cidade. Decretou-se que a assistência àquele jogo era gratuita, mas mesmo assim, ficou-se na bicha para adquirir o bilhete, apenas para contar quanta gente entrara. Perdeu, Setúbal emudeceu, até que no dia seguinte apareceu uma satisfação a partir dos feitos de Mourinho, na Itália.
- Pedro Nacuo, Maputo, Sábado, 23 de Maio de 2009, Notícias.