4/10/08

Eleições no Zimbabwe - Diz o ditador Mugabe: Daqui não saio...daqui ninguém me tira ! - II

(Imagem original daqui)
.
Tendai Biti apelou à Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e à União Africana (UA) para que intervenham de forma "a evitar um banho de sangue" no Zimbábue.
.
Harare, 9 abr (Lusa) - O silêncio dos líderes regionais sobre a crise eleitoral e institucional no Zimbábue é criminoso, disse nesta quarta-feira à Agência Lusa o secretário-geral do Movimento para a Mudança Democrática (MDC, oposição), Tendai Biti.
Tendai Biti apelou à Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e à União Africana (UA) para que intervenham de forma "a evitar um banho de sangue" no Zimbábue.
Só uma condenação regional e uma intervenção dos líderes africanos poderá impedir que o Zimbábue mergulhe no caos, disse Biti, que destacou o aumento de incidentes violentos entre forças de segurança, milícias do partido no poder (a Zanu-PF, do presidente Robert Mugabe) e veteranos da guerra de libertação leais a Mugabe, de um lado, e a população que votou na oposição, de outro.
"África foi lenta a reagir no caso de Ruanda e em outros países, o que resultou em genocídios e conflitos desnecessários. A África está sendo muito lenta a responder aos apelos do povo do Zimbábue e a situação está ficando insustentável", disse Tendai Biti.
As preocupações de Biti são partilhadas por Jestine Mukoko, diretora da Zimbabwe Peace Project, organização não-governamental que está recolhendo diariamente um número considerável de queixas contra as forças de segurança.
"Desde 29 de março que em vários pontos do país cidadãos indefesos têm sido visitados, espancados e intimidados verbalmente por agentes da polícia e apoiadores do partido Zanu-PF", disse Mukoko à Agência Lusa em seu escritório, em Harare.
As 15 operadoras que recebem telefonemas de todos os pontos do Zimbábue têm recebido constantemente relatos de incidentes de violência contra a população, especialmente nas áreas onde o MDC obteve a maioria dos votos, que lhe deu vitória nas legislativas. O mais recente relatório divulgado pela Zimbabwe Peace Project menciona casos como o ocorrido em Gweru. Várias pessoas relataram terem sido agredidas por policiais uniformizados, que diziam: "Votaram de forma errada". Matabeleland North e Binga são outras regiões que a ONG, que tem por missão recolher dados sobre a violação aos direitos humanos e a violência do Estado contra os cidadãos, está monitorando com grande apreensão.
Na capital, Harare, a situação é tensa. Os residentes continuam seguindo com grande ansiedade a situação. O impasse na divulgação dos resultados eleitorais levou a esmagadora maioria das pessoas a acreditar que Robert Mugabe perdeu as presidenciais e não aceita a derrota. Vários residentes da capital disseram à Agência Lusa que a frustração e o desespero são os sentimentos dominantes e que muitos zimbabuanos sentem que a única saída é emigrar para os países vizinhos. Na fronteira com a África do Sul, em Beit Bridge, observadores afirmaram que um número crescente de zimbabuanos tem abandonado o país desde 29 de março. "Não sabemos o que fazer das nossas vidas: se vamos para as ruas e começamos a quebrar e a queimar tudo, o presidente terá, então, a oportunidade de mandar as forças policiais agredir e matar o povo. Se nos mantivermos calmos e ordeiros, nos chamam de covardes. Estamos entre a espada e a parede e morrendo lentamente de fome", disse à Lusa Moses Matara, um técnico de informática da capital.
Por António Pina, da Agência Lusa - 09-04-2008 14:21:50.

  • Alguns post's deste blog sobre a situação social e política vivenciada no Zimbábue - Aqui; Aqui; Aqui; Aqui e Aqui !

ForEver PEMBA FM RádioBlog - Posição no ranking da "Cotonete"

Posição da rádio blog ForEver PEMBA FM no ranking da "Cotonete" em 09 de Abril de 2008:
  • 7º. lugar entre 35.725 rádios.
Essa posição é dinâmica e evolui levando em consideração o tempo de audiência diária de todos que a "sintonizam" automáticamente ao visitar este blog.
Poderão também encontrá-la clicando neste endereço aqui ou no banner:

ForEver PEMBA FM - Até ao momento, 793 temas-sons musicais de ontem e de hoje selecionados. E, quanto mais escutar mais se surpreenderá agradávelemente ! Tem música e vozes de todos os tempos para horas...

Obs.- Ao "testar" os link's acima, para evitar sobreposição de sons não se esqueça de "desligar" o player da ForEver PEMBA FM inserido no lado direito do menu deste blog.

4/09/08

Moçambique 1980 - Operação Produção ...

(Imagem original daqui)
.
Encontrei hà pouco na net sobre a injustificável, preconceituosa e aviltante "Operação Produção":
.
Omar Ribeiro Thomaz-historiador e antropólogo fala sobre a Frente de Libertação de Moçambique e sobre os campos de reeducação que existiram no país por volta de 1980:
.
"... ... Há uma série de lideranças africanas que vão se destacar tentando construir uma opção à Frelimo, e que serão classificados como inimigos, tais como Joana Simão e Uria Simango, entre outros. Eles foram enviados para um campo de prisioneiros no Niassa, ao Norte de Moçambique e ali morreram. ... ..."
.
Em um processo difícil, de guerras entre brancos e negros, nativos e colonizadores, Moçambique conseguiu sua independência em 1975, mas o período de transição foi marcado pela instituição de medidas impopulares que deixaram cicatrizes em boa parte da população.
O historiador e antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, da Universidade Estadual de Campinas, voltou recentemente de uma de suas viagens a Inhambane, uma província de Moçambique, onde tem acompanhado um grupo de pessoas que foram levadas pela Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique, na década de 1980 - para trabalhar em campos que abrigavam pessoas tidas como desocupadas, inúteis, indesejadas, pelo governo e que, então, deveriam ser reeducadas, a partir do trabalho braçal no campo. Esse projeto, denominado Operação Produção, foi uma das medidas adotadas. Nesta entrevista, Thomaz dá uma idéia do contexto histórico em que essas ações acontecem e fala um pouco sobre o destino das pessoas que passaram pela Operação Produção.
.
ComCiência - Em seu trabalho o senhor trata dos deportados no período pós-colonial em Moçambique, pessoas que eram levadas dos centros urbanos para os campos de reeducação criados logo após a independência. O que o senhor tem descoberto pelas narrativas dessas pessoas? A atuação da Frelimo marca realmente uma ruptura entre o período colonial e o pós-colonial?
Omar Ribeiro Thomaz - A primeira coisa a dizer é que trabalho com a idéia de deportado, mas as pessoas que passaram por essa experiência se dizem raptadas. Em alguns contextos elas de fato foram seqüestradas pela Frelimo ou pela Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) durante a guerra civil. Eu uso o termo deportação, que não é o termo que o Estado da Frelimo usava, para me referir às pessoas que eram enviadas para os campos, fossem os de reeducação ou os de trabalho. E uso o termo raptados para aqueles que foram seqüestrados durante a guerra civil, por parte da Renamo, que era o movimento que se opunha ao governo da Frelimo, e que compunha a maior parte de seu exército com jovens que pegavam nas ruas, sem consultar os pais e sem nenhum processo formal. Isso era um rapto, um seqüestro. As pessoas que eu entrevistei diziam: “fomos raptadas”. Elas faziam uso do mesmo termo que se usa para falar das pessoas que foram raptadas efetivamente pelos exércitos, quer da Renamo, quer da Frelimo, que muitas vezes usava do mesmo expediente.
.
ComCiência – Em que contexto surgiram os campos de reeducação?
Thomaz – O contexto é o da guerra de independência de 1964 a 1974. Em abril de 1974, a Revolução dos Cravos em Portugal acabou ditando uma certa disponibilidade dos portugueses para negociar com a Frelimo que, na prática, tinha também uma vitória militar, pois os movimentos de libertação africanos estavam ganhando as guerras em Moçambique, Guiné Bissau e Angola. A Frelimo já sinalizava a formação de um regime de natureza revolucionária, marxista-leninista, e mesmo sem clareza do que estava por vir, a maioria da população branca, criada na sociedade colonial fascista portuguesa – cerca de 200 mil pessoas, que moravam em Moçambique – não se mostrava disposta a viver uma revolução ou sob um regime de maioria negra, onde não pudessem manter privilégios. Nesse período, de muitos conflitos entre brancos e negros nas cidades, boa parte dessa população branca abandona o país rumo a Portugal. Alguns permaneceram, mas procuraram sabotar iniciativas do regime que se instalava. Outros eram apenas suspeitos de sabotagem. A esses, sendo portugueses, era aplicada uma punição: tinham 24 horas para abandonar o país e podiam levar 20 quilos de bagagem. Essa medida ficou conhecida como o 20-24 e aconteceu com uma certa freqüência nos anos posteriores aos acordos entre a Frelimo e Portugal e após a independência, em junho de 1975. Logo após o estabelecimento dos acordos entre Portugal e a Frelimo – em 7 de setembro de 1974 – ocorreu o início de uma série de expedientes de ordem administrativa que vão dar origem ao que posteriormente vão se chamar de campos.
.
ComCiência - Que expedientes foram esses?
Thomaz – A primeira coisa foi eliminar o habeas corpus. Foi criado um regime de exceção, conferindo à Frelimo ou a órgãos ligados ao regime, poderes extraordinários no tratamento de pessoas acusadas de sabotadoras, ou que teriam um comportamento moral inadequado – mulheres suspeitas de prostituição, indivíduos alcoólatras, pessoas consideradas vadias ou ligadas ao tráfico. Essas pessoas foram enviadas para o que foi chamado de campos de reeducação, pois deveriam ser re-socializadas pelo trabalho. Deveriam trabalhar na roça, que se chamam machambas e, nesse processo, deveriam aprender os princípios do marxismo-leninismo e os da construção do homem novo. Para esses campos eram levadas também pessoas consideradas suspeitas ou que teriam conexão com o antigo regime colonial, colaboradores da polícia política portuguesa, ou régulos, que eram as autoridades tradicionais atreladas ao funcionamento do Estado colonial. Também eram levados indivíduos acusados de curandeirismo e feitiçaria e os Testemunhas de Jeová. Isso porque o novo regime pretendia superar não apenas o colonialismo, mas também o obscurantismo e o tribalismo. Portanto os régulos, os curandeiros e os feiticeiros seriam representantes do obscurantismo e do tribalismo que segundo uma análise das elites da Frelimo teriam promovido, em conjunto com os portugueses, o sistema colonial fascista que tinha perdurado em Moçambique por tanto tempo.
.
ComCiência – A esse processo deu-se o nome de Operação Limpeza?
Thomaz - A Operação Limpeza foi implantada ainda em 1974. Já existiam os acordos entre o Estado português e a Frelimo, mas pouca clareza sobre o futuro do país, e muitos rumores. A população branca estava muito assustada, inclusive porque ocorreram dois dias de enfrentamento violento entre brancos e negros, em Lourenço Marques, atual Maputo, nos dias 7 de setembro e 21 de outubro. Foram dias muito difíceis. No 7 de setembro há um levante branco. A população branca se organiza e dá um golpe de Estado, tentando promover uma independência branca em Moçambique. Ela fracassa, mas nesse enfrentamento ocorreram muitas mortes, sobretudo de negros, porque as milícias brancas saíam matando nas ruas. E no dia 21 de outubro, em um enfrentamento no centro da cidade, militares portugueses matam um adolescente e provocam um outro levante da população branca com a morte de negros, mas dessa vez de brancos também. Esse processo fez com que aqueles que estavam dispostos a permanecer, resolvam sair do país com medo.
Nesse processo a Frente estabeleceu novas medidas, em acordo com as tropas portuguesas, a começar pela eliminação do habeas corpus. Iniciou-se então o que eles chamam de Operação Limpeza no centro da cidade de Lourenço Marques (atual Maputo). Isso ocorreu porque havia uma percepção, por parte de Samora Machel e de parte da Frelimo, de que uma cidade colonial como Lourenço Marques era forçosamente corrupta do ponto de vista de seus costumes, ou seja, uma cidade imoral, onde a mulher seria corrompida pela prostituição, e o homem africano, pelo álcool. Lutar contra o colonialismo significava também lutar contra esse tipo de comportamento. Na Beira a coisa foi assim também. Mulheres que usavam minissaia ou pintura nos olhos eram presas acusadas de prostituição, e levadas para algum desses campos. Em 12 de novembro de 1974, dia em que se desencadeia a Operação Limpeza, cerca de 142 mulheres foram enviadas para campos não se sabe onde. Elas simplesmente foram colocadas em caminhões e levadas embora. A prisão de mulheres suspeitas de prostituição foi recorrente em anos subseqüentes. E na Operação Produção também. Uma das senhoras que eu entrevistei, que foi vítima da Operação Produção, foi acusada de prostituição por ser mãe solteira.
.
ComCiência - E quantos eram esses campos de reeducação?
Thomaz - Não se sabe ao certo o número desses campos, mas tenho algumas estimativas a partir da documentação encontrada em arquivos do Departamento do Estado Americano. Calculo que, no final da década de 70, havia entre 20 mil pessoas – sem contar os 10 mil Testemunhas de Jeová – que foram enviados para a reeducação. A Operação Produção afetou entre 50 e 100 mil pessoas só na cidade de Maputo. Em Inhambane e na cidade da Beira, a Operação Produção foi marcante também. Um grande número de pessoas foi levado da cidade para os campos, sem nenhuma notificação prévia, julgamento, ou apresentação de provas. A maioria dos campos se concentrava na região do Niassa , e o Estado da Frelimo usava o termo colonização para falar dessa operação. A idéia era tirar o excesso populacional da cidade e levar para regiões vazias, mas não foi só nessa região.
.
ComCiência - Mas havia outro tipo de campo também, para prisioneiros políticos.
Thomaz - Sim. Outras pessoas foram enviadas a campos de prisioneiros políticos; aqueles indivíduos, claramente inimigos do regime, que no período em que já se sinalizava a independência cometeram o grande equívoco de se aliar aos portugueses. Há uma série de lideranças africanas que vão se destacar tentando construir uma opção à Frelimo, e que serão classificados como inimigos, tais como Joana Simão e Uria Simango, entre outros. Eles foram enviados para um campo de prisioneiros no Niassa, ao Norte de Moçambique e ali morreram.
.
ComCiência - A Operação Produção tinha o objetivo de reeducar os delinqüentes, ociosos, mas tinha também uma função de gerar renda para o país?
Thomaz - A idéia era essa. Existia um expediente punitivo, mas havia uma idéia de fundo de produzir para as pessoas e para o país. No campo que eu trabalhei, por exemplo, eles produziam abóbora, feijão, vários gêneros alimentícios, só que não ganhavam. Era um trabalho escravo, e as pessoas viviam em condições inaceitáveis, muitos não agüentavam. Mas temos que perceber que isso tudo acontecia em meio a um caos que se instaurava no país. O primeiro ponto é a saída dos portugueses que foi bastante complicada porque eles controlavam o aparelho produtivo e burocrático do país. Eles controlavam as escolas e tudo mais. Um exemplo que eu sempre dou é que em 1974 havia 300 maquinistas em Moçambique e desses, somente um era negro. A saída dos profissionais brancos seja médico, burocrata, professor, maquinista, gerou um caos econômico no país, que precisava ser reorganizado.
.
ComCiência - Sobre o seu trabalho com as famílias seqüestradas pela Operação Produção, como eles têm vivido depois do abandono dos campos?
Thomaz - No caso da região de Inhassune, eles têm as machambas, essas roças, e graças à Dona Ester, uma senhora que tinha muita experiência em comércio, anterior à Operação Produção, eles organizaram um mercado que se tornou um entreposto de produtos onde os camponeses vendem e encontram mercadorias importantes como óleo, sabão, açúcar, sal, e produtos para sua alimentação em geral. É uma vida bastante digna, não é uma vida miserável.
.
ComCiência – E eles arrendam essas roças?
Thomaz - Até hoje a questão de terras é complicada, porque não existe propriedade privada em Moçambique. As machambas comunais não existem mais, foram abandonadas e essas pessoas que ficaram, fazem uso dessas terras abandonadas, reconstruíram suas vidas em torno disso, mas a terra pertence ao Estado. O que pertence às pessoas são as benfeitorias que forem feitas na terra, o que dá direito ao usufruto dessa terra. Para promover algum tipo de desapropriação de terras seria preciso contar com um mínimo de cumplicidade, de legitimidade por parte de algum setor da população. Não é qualquer um que vai tirar a população dali. No período logo após a independência, a Frelimo gozava de imensa legitimidade. Tinha ganhado uma guerra contra uma potência colonial européia, tinha apoio e simpatia da maioria da população moçambicana e do congresso nacional. Hoje em dia, a Frelimo e o governo não contam com o apoio da comunidade internacional, de quem dependem, que são os doadores, que prestam auxílio ao país, e nem têm apoio total da própria população.
.
ComCiência - Quais são as reivindicações dessas pessoas que foram raptadas, levadas para os campos de produção?
Thomaz - As reivindicações não são claras. De forma geral, querem o reconhecimento do sofrimento pelo qual passaram. Existe a idéia de que “nós sofremos, foi um sofrimento injusto”, ou seja, “fui injustamente acusado de improdutivo, quando eu não era improdutivo, durante anos eu não tive vencimento” – salário – “e agora eu não tenho reconhecimento, nem um pedido de desculpas”. É muito interessante, conversando com eles, percebemos que não queriam dinheiro, uma indenização, a casa de volta. O que eles gostariam é que o atual presidente de Moçambique, Guebuza, fosse a Inhassune e pedisse perdão, pedisse desculpas pelo que aconteceu. Imagino eu que eles espram um reconhecimento público.
.
ComCiência – Essas pessoas não falam em voltar para suas casas, para as cidades de onde vieram ou foram tiradas?
Thomaz - Não, eles consideram que houve uma ruptura. Afirmam claramente que há uma vida antes e uma depois da Operação Produção. Mais de uma vez falaram: “eu não recuperei a minha vida e não vou recuperar nunca”.
.
ComCiência - Eles têm medo de sofrer esse tipo de agressão novamente?
Thomaz - Têm. Isso também repetem com freqüência, que não gostariam que isso ocorresse outra vez. O que indica que acreditam que existe essa possibilidade.
.
ComCiência – Qual o papel dos intelectuais no processo de libertação de Moçambique e para dar visibilidade aos problemas do país? Essas histórias sobre os seqüestros, por exemplo, chegam ao grande público?
Thomaz – Sim, essas histórias são claras, mas não há uma história oficial do país. A Frelimo se nega a dar qualquer depoimento sobre a morte dos líderes políticos, mas não se tem um silêncio da parte do Estado. Algumas vezes eles fazem referência às lideranças. Mas todo mundo fala, a população comenta o tempo todo. E os intelectuais viveram esse período. No final da década de 80, o editor do principal jornal do país, Notícia, era o Mia Couto. Mas cuidado! Temos que entender que a Frelimo não é um bloco. Dentro do partido havia tendências, oposições, como hoje. Havia pessoas que olhavam a Operação Produção com verdadeiro horror. Há uma concentração de movimentos literários em Moçambique e essa intelectualidade nasce comprometida com a produção do país. Até hoje o compromisso deles – escritores, poetas, professores universitários – com o país é uma coisa extraordinária. Com maior ou menor encanto. Muitos sonharam que a revolução promoveria o fim da pobreza, e isso não aconteceu, o que gerou uma certa amargura. Mas se vê uma ligação muito forte dos intelectuais com toda a história do país.
.
ComCiência - Você diria que Moçambique é um país democrático?
Thomaz – O país tem uma imprensa livre, muito mais livre que muitos outros países, comparável à África do Sul. Tem uma universidade livre também, onde é possível discutir praticamente todos os problemas com bastante liberdade, tem livre circulação, as pessoas podem sair e voltar. Tem eleições periódicas, que são mais ou menos honestas. O que não significa que não tenha conflitos, que não haja corrupção, crimes políticos. A questão é até onde chegam as instituições. A esmagadora maioria da população está no campo, não tem acesso a benfeitorias como água, luz. Para essas pessoas a palavra democracia não faz o menor sentido.
.
ComCiência – Essa é uma história da África que deveria constar do ensino que se propõe para o Brasil?
Thomaz - O ensino da história da África é obrigatório hoje no Brasil, em diferentes níveis de ensino o que exige um esforço historiográfico sério, o que implica incorporar o trabalho de autores africanos e africanistas que estão trabalhando seriamente para recuperar uma história recente. Acho que temos que tomar cuidado no sentido de tratar apenas de uma África mitológica. Podemos tratar disso também, e é legítimo que os movimentos negros reivindiquem uma África mitológica. Mas, existe uma lei que tem que ser levada a sério e isso quer dizer não tentar fazer uma história de mocinho e bandido. A história da África é complicada, como de qualquer outro contexto. E não tem uma história da África, são histórias da África, são histórias nacionais e também regionais.
Por Simone Pallone In Com Ciência - SBPC/Labjor - Aqui !

Meio ambiente - Brasil e Indonésia lideram ranking de desmatamento.

O relatório Global Monitoring Report, realizado pelo Banco Mundial (Bird) e divulgado nesta terça-feira, afirma que a maior parte do desmatamento mundial vem se dando no Brasil e na Indonésia.
Um ranking publicado no relatório afirma que, entre 2000 e 2005, o Brasil teria desmatado um total de 31 mil quilômetros quadrados de sua área florestal, seguido pela Indonésia, que desmatou 18,7 mil quilômetros quadrados, e o Sudão, que derrubou 5,9 mil quilômetros de sua área florestal.
O desmatamento nos dois países com as maiores regiões de floresta no mundo vem ocorrendo, predominantemente, devido à transformação de suas áreas florestais em terras agrícolas.
Segundo o documento, o desmatamento no Brasil tem sido movido pela demanda por carne, soja e madeira.
Na Indonésia, ele tem sido estimulado pela demanda por madeira e por terras para o cultivo de palmeiras que fornecem óleo.
Nos dois países, afirma o Bird, o desmatamento tem sido causado "tanto por grandes interesses corporativos como pelo de pequenos proprietários".
.
Transformação
No Brasil, o relatório afirma que o índice de hectares desmatados foi de 2,7 milhões, entre 1990 e 2000, mas que ele passou para 3,1 milhões de hectares entre 2000 e 2005. Na Indonésia, ao contrário, os índices permaneceram inalterados no mesmo período.
O estudo do Bird afirma que áreas florestais do tamanho de países como Serra Leoa ou Panamá são perdidas anualmente devido a sua transformação em terras agrícolas. As regiões mais afetadas têm sido a América Latina e Caribe e a África Subsaariana.
O documento afirma que problemas de saúde causados por fatores ambientais são responsáveis por 80% das doenças, entre elas malária, diarréia e doenças respiratórias em todo mundo.
O relatório afirma que a maior parte dos países não conseguirá cumprir as chamadas Metas do Milênio até 2015.
As oito metas foram fixadas em 2000 por 191 países da ONU. As diferentes nações se comprometeram a implementar até 2015 medidas como pôr fim à fome e a miséria, fornecer educação básica e de qualidade para todos, reduzir a mortalidade infantil, combater a Aids, a malária e outras doenças e promover a qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente.
Bruno Garcez da BBC Brasil em Washington - 08 de abril, 2008 - 17h08 GMT (14h08 Brasília).

4/08/08

Diversificando - O boicote aos jogos Olímpicos de Pequim.

Boicote os jogos Olímpicos de Pequim 2008

A falta de liberdade democrática na China, a violência, repressão e prisão de jornalistas e populares em regimes de ditadura, a opressão no Tibete e mais acentuadamente a próxima realização dos Jogos Olímpicos em Pequim - China vêm causando protestos crescentes no mundo.
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tornou-se a primeira líder mundial a decidir não comparecer à Olimpíada de Pequim este ano, conforme noticiado na edição eletrônica do jornal britânico "Guardian".
Sob grande pressão para tomarem uma posição diante das manifestações por liberdade no Tibete e da dura repressão do governo chinês, líderes da União Européia (UE) discutem a questão.
A notícia de que a delegação da Alemanha cogita não participar da cerimônia de abertura da mais importante competição esportiva do mundo levou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, a anunciar que poderia tomar a mesma medida, contrariando os esforços do premier britânico, Gordon Brown, para que não haja um boicote.
O primeiro chefe de Governo na UE a decidir não comparecer aos Jogos Olímpico foi o premier polonês, Donald Tusk, sendo seguido pelo presidente da República Tcheca, Václav Klaus. "A presença de políticos na abertura das Olimpíadas me parece inapropriada", disse Tusk. (O Globo Online)
E, por onde vai passando a "chama olímpica", os protestos e manifestações sucedem-se.
A organização "Repórteres Sem Fronteiras" através de seu portal na net vem mobilizando a opinião popular mundial para o boicote ao jogos Olímpicos de Pequim/2008 e despertando a atenção para a violação dos Direitos Humanos no Tibete, na China e em outros locais onde os "predadores da liberdade de imprensa e inimigos da internet livre" mantêm o poder e cometem arbitrariedades.
O mesmo portal disponibiliza banner de apoio ao boicote como este abaixo, para os blogueiros que queiram aderir à campanha:
  • Repórteres Sem Fronteiras - Aqui !

4/07/08

ERA UMA VEZ - Onde se pensa na Mulher Moçambicana e nas crianças de Moçambique sequestradas para a África do Sul...

(Imagem original daqui)
.
ERA UMA VEZ

- Escrevi este poema a pensar nas crianças Moçambicanas que estão a ser levadas para a África do Sul:

ser mulher
bastou-me
para ficar presa a uma nuvem como recordação do meu único momento de infância

levaram-me pela mão pequenina dizendo que era bonito o lugar onde ia com cores diferentes que meus pés pisariam marcando minhas alegrias e eu sorria
levaram-me pela mão pequenina com um punho cerrado de rebuçados
e eu alegre sorria

levaram-me pela mão pequenina para um sítio escuro e em cada passo deixei a alegria
no chão o brilho da prata dos rebuçados que eu queria

levaram-me pela mão onde a solidão não é segura

levaram-me pela mão e socaram meu peito
rasgaram meu vestido novo com as cores das flores que eu mais queria
única referência da família
e eu chorei

levaram-me pela mão e deram-me homens
que me disseram para acreditar e chamar-lhes tios
homens que usaram meu vestido para lavar meu sangue misturado nas pequeninas flores pintadas
e eu gemia em agonia

levaram-me pela mão e eu não queria
eu chorei no chão
jazia envolta em flores que um dia queria

sou mulher e olho-te a ti outra
mulher que por companhia me levaste um dia
e me deixaste na mão de imundos

sou hoje mulher e peço a quem me lê que o diga
estou presa

estou presa a uma nuvem que me trouxe até Deus
velo por ti criança que no chão vermelho de sangue recolhes as tuas flores
as apertas no peito para sonhar o único momento em que nossas mãos se tocam
é-te devolvida a luz do dia e se mistura numa correria entre campos de mapira

7 de Março de 2008
Inez Andrade Paes - In blog " Arte de Inêz Andrade Paes".
.
- Inez Andrade Paes, natural de Pemba - Moçambique e residente em Portugal é também, além de poetisa, artista plástica e escritora. Alguns de seus trabalhos podem ser apreciados na net aqui: