11/05/09

Moçambique - O regresso do mono-partidarismo


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Por Álvaro Teixeira de Oliveira - Em 09/06/2009, coloquei, neste Blog, um Artigo intitulado “Democracia em Moçambique caminha para o fim?”. Os elementos que, já na altura, possuía, pressagiavam um resultado, nas eleições realizadas em 28/10/2009 idêntico ao que se veio a verificar. A Frelimo conseguiu ultrapassar os dois terços de assentos na Assembleia Nacional o que condena os restantes partidos a meros espectadores de tudo o que se irá passar na A.M., nos próximos cinco anos.

Nesse mesmo artigo, o autor considerava que os partidos concorrentes às eleições não iriam ter as mesmas condições do partido no poder, pelo que seria impossível uma disputa verdadeiramente democrática, mas, pelo contrário, falseada à partida. Nessa altura ainda não se conheciam as “doutas” decisões de uma CNE, totalmente dominada pela Frelimo, nem da “sábia” decisão final da Comissão Constitucional. O que havia, na altura, eram unicamente presságios e talvez, um pouco, de futurismo, veio a confirmar-se com as decisões acima referidas e os usos e abusos dos meios do Estado em favor do partido que o gere, a Frelimo. As posteriores declarações de variadíssimos membros deste partido vieram a confirmar as piores previsões de que a máquina do Estado iria estar ao seu serviço. E foi o que aconteceu, além das imensas fraudes eleitorais praticadas na grande maioria das Assembleias de Voto.

Aproveito para citar as palavras de um jovem moçambicano, que não votou e que, através do MSN, me transmitiu a seguinte afirmação: “O meu pai é da Frelimo e o partido nunca iria perder as eleições, porque tudo isto é uma fraude imensa”. Isto são palavras textuais de um jovem que, ao não votar, faz parte daquela grande fatia dos 60% de abstencionistas que, por diversos motivos, não se revêem no actual sistema partidário existente em Moçambique. Por outro lado, este mesmo jovem disse-me: “nós, em África, votamos no poder”. Perante esta última afirmação, não valeria a pena a Frelimo entrar no jogo de fraudes, porque a vitória, mais ponto, menos ponto, estaria garantida, mas a Frelimo queria mais, queria o resultado que alcançou, ou seja, a maioria de dois terços na Assembleia da República nem que, para isso, tivesse que humilhar os seus adversários, como veio a acontecer, a fim de se ressarcir da derrota, que, do seu ponto de vista, foram os Acordos de Roma de 1992.

O mono partidarismo regressou em força. Será que vamos ter, novamente, “Campos de Reeducação” ou mais “Campos de Metelela, Lupilichi, Bilibiza e tantos outros”, para aqueles que se recusarem a aceitar este estado de coisas? Os mentores desses locais tenebrosos estão lá todos. Ou vamos voltar a uma nova guerra civil fomentada pelos veteranos da Renamo e mantida por parte dos 60% dos abstencionistas? O clima é favorável a situações de explosão, dado que 80% dos moçambicanos vivem em pobreza extrema e sabem que nada têm a perder com situações de revolta popular, como veio a acontecer com a guerra civil encetada pela Renamo em 1976 e o campo de recrutamento é imenso.

O mundo ocidental tudo fará para que nada disto venha a acontecer, mas o primeiro passo está dado. Vamos aguardar pela tomada de decisão dos Países Doadores que são, em última análise, os responsáveis por este estertor da democracia multi-partidária, em Moçambique, ao não controlarem os fins a que se destinaram as suas doações.
- Ovar, 3 de Novembro de 2009, Álvaro Teixeira (GE).

Para o final de noite: Earth Song por Michael Jackson


11/03/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulo 1

MÃE: ESTE LIVRO FOI ESCRITO COM LÁGRIMAS, VERDADE E AMOR, NAS TUAS MÃOS O COLOCO.

I
Estirou-se na cama. Cansado, chatiado, triste, muito triste, mais triste que o dia cheio de chuva lá fora.

João era um tipo esquisito. Mesmo antes de ir para África usar arma e camuflado. Sempre fora um idealista. Trincava silêncios poéticos, gemia projectos políticos proibidos, juntava-se a um ou outro da sua condição – até ao momento de ser traído – e conversava longamente, dando murros nas paredes, atirando as pedras dos gritos recalcados. As outras pessoas metiam-lhe nojo. Detestava-lhes a rotina dos gestos e dos actos, a hipocrisia dos fingimentos, o egoísmo de quem quer submeter os outros à sua maneira de viver, ao seu comodismo, à sua falsidade. Achava que elas não viviam. Mentiam. Mas não podia dizer nada, esboçar um protesto. Tinha que calar. As pessoas estavam velhas, preconceituadas, atrasadas em tudo, mas acima de tudo, na cultura e no intelecto. Não sabiam raciocinar ou raciocinavam só para eles, acarretando-lhes a inimizade natural de quem não está para os aturar. Mas calar porquê? Cobardemente? Mas ele não existia só no mundo dos seres humanos. Tinha família e ter família, na maioria dos casos, é um aborrecimento porque uma pessoa tem que se atraiçoar. Refugiava-se dentro da sua concha, como o caracol quando lhe tocam. Vinha para o seu quarto. Um quarto alugado ao mês. Um quarto de uma pessoa única: ele. Ele dentro de quatro paredes frias, sem vida, sem revolta, sem dizerem nada. Fumava. Contava o dinheiro. Fazia contas. Quanto poderia gastar amanhã? E depois? Não lhe chegava? Fazia ginástica. Olhava o tecto, olhava o nada.

João pensava:«Isto é um problema. Um tipo quer trabalhar, ganhar algum para cigarros, fazer alguma coisa de jeito e mandam-lhe um pontapé no traseiro. Anda um tipo dois anos lá fora, estudos parados, a criar vícios e outros hábitos, a aturar este e aquele que nunca viu de lado nenhum e chega vendo tudo ao contrário do que sonhara. As palavras são bonitas e sentimentais. São, são. O pior é o resto. As cartas que se escrevem não têm rosto. Por isso é que as palavras são tão bonitas e sentimentais. Às vezes até dá vontade de voltar para lá. Beber água do coco e comer mandioca como o negro e amendoim como o macaco. Arranjar machamba e derreter os ossos no seu amanho. Deixar-se andar até as pessoas dizerem que um homem está «apanhado pelo clima». E há quem se safe. Vêm cá fazer de ricos. Depois voltam mais uns tempos. Vêm de novo e zás. E regressam. Acabam por lá. O calor obriga à cerveja e ao uísque. As barrigas medram. Pode-se ter um, dois, vinte criados. Sem receio de grandes despesas pois a mão de obra é barata. Há praia todo o ano. Anda-se à vontade, em mangas de camisa, e até de tronco nu, mas com calções se não era uma vergonha. O marisco é barato e acompanha-se com álcool gelado. Há sempre festas e festinhas para se encher a pança, em que o burguês mostra que é mais burguês que o outro, em que se dança com as esposas dos outros dentro do maior companheirismo e seriedade. Mas também se trabalha, lá isso é verdade. Mas aquilo é porreiro. «Sim senhor, Patrão!». Eu se fosse para lá só o mato me interessava. O mato metido lá bem para dentro, onde não me cheirasse aos bifes e aos cosméticos das cidades. Viver com a natureza selvagem. Aprender os dialectos. Construía uma palhota, abraçada a um imbondeiro, casava-me com uma negra (se ela quisesse ir à igreja até nem me importava nada) e devia ser giro eu ter filhos chocolates. Abastecia-me no cantineiro mais próximo e que não me enganasse muito, comprava uma ginga, um portátil, e, nas tardes em que não me apetecesse dormir a sesta, escreveria o meu livro de sucesso, intitulado, por exemplo, «Vai para o mato malandro» ou então «A comodidade selvática». Claro, teria que arranjar uma lavra de qualquer coisa para fazer tudo isso e os filhos não andassem de barrigas inchadas. Mas seria bom. Só queria que os negros não me elegessem chefe, nem por Sufrágio Universal. Se o fizessem mudava de sítio.».

Puxou de um cigarro. Olhou o relógio. O próximo só poderia ser fumado daí a quarenta e cinco minutos.

«Mas porque será que não arranjo um emprego compatível? Claro que não vou servir burgueses nos Restaurantes ou nos Cafés, nem atender clientes a quem tem sempre de se dar razão, mesmo quando não a tenham. Trabalhar seis horas por dia e ganhar dois mil escudos por mês! Isso quase que ganha um empregado qualquer, numa semana, em um daqueles países em que até as greves acontessem. E mais: no fim de um ano, se não servisse, ia para a rua! Bonito, sim senhor. E ainda estão os estudos que tenho que prosseguir para amanhã não andar a pedir esmolas. E se eu fosse para o estrangeiro? Lavar pratos, limpar retretes, cortar as ervas dos jardins, cuidar das crianças dos ricos? Nos intervalos tiraria um curso de línguas e pintaria quadros para expôr às portas dos teatros. Juntar-me-ia a uma sueca ou francesa ou a uma qualquer liberal e faríamos amor no palheiro mais próximo duma quinta abandonada. Seria engraçado até ao dia em que um de nós se saturasse e dissesse: «Good bye». Não. Quero ser mais do que isso.».

Foi à janela. Parara de chover. As ruas estavam semilavadas e os automóveis desciam com cuidado. Um polícia, arrogante e espectacular, comandava o trânsito, no fundo.

«Como as pessoas correm, esquivando-se aos encontrões. Sem ordem, sem método. À balda, sem definição. Dir-se-ia que um frio e calculista cérebro electrónico as move, gozando a seu belo prazer o efeito que resulta de as ter lançado na confusão. Para que fim correrá esta gente? Terão algum objectivo? A angústia de perder os tostões com que se vestem e se alimentam, com que vão aos domingos ver o futebol e possam preencher o totobola. A esperança de que um dia seja melhor. E oxalá que sim. O que é preciso é que não matem a esperança, embora muita gente diga que já morreu no determinismo dum contexto social apócrifo. Mas é necessário continuar a acreditar. A minha fé é esta. Não uma fé pagã. É uma fé lúcida mesmo que, por vezes, se fundamente na ilusão como todas as fés. Só queria saber os pensamentos daquele barbeiro velhote que passa as manhãs à porta da barbearia conservadora, onde nem há sequer um secador de cabelo, fazendo uma barba de quando em vez, lendo a página de desporto do jornal. Que é que ele espera? A morte? Mas isso todos esperamos. A morte ceifa tudo. Até as fragas do silêncio das serras se desfazem na morte dos tempos, do vento e da chuva. E aquele arrumador, vesgo que se farta, que torce a boca quando fala e tem sempre uma perisca na orelha? E aquela mulher feia, com varizes nas pernas, que vende pentes, lapiseiras e preventivos para furtar homens às guerras? A vida é uma maçadoria. As gentes arrastam-se. Arrastam-se como o combatente na selva sempre à espera que um tiro lhe rebente os miolos e diga adeus, por uma vez, a todas as cavalgaduras que inventaram as guerras. Mas, afinal, tudo isto é uma guerra. E as cidades são a selva. Uma selva mais civilizada (se o termo é correcto), talvez, mas, por isso mesmo, mais perigosa. A selva da sociedade com bichos de variada espécie que roncam de modos estranhos e não se fazem rogados para morder um qualquer, achincalhar a sua dignidade, matar o seu pensamento, a sua liberdade. Porra!, o sacrifício que um tipo passa para os aturar. Quando há vontade de os mandar ter com as mães – que, ao fim e ao cabo e bem vistas as coisas, não têm culpa de parir tais bestas – e não se pode? E assim se anda...».

O telefone tocou.

- Tou. Olá pá! Diz lá. O quê? Bolas, estou farto disso, pá! Aparece amanhã e depois conversamos. O telefone é pouco próprio, pá. Adeus.

«Este anda iludido coitado. Julga que está no mar da tranquilidade. Lê de manhã à noite e vai a caminho da maluqueira. Ignora que esta porcaria não se explica – consome-se. Ou se vive assim ou então dá-se um tiro na cabeça. Sei lá se é solução. Ainda não pensei nisso a sério.».

Fechou o rádio, mal uma voz começou a fazer propaganda facciosa. Deu um murro na cabeceira da cama. Sorriu. Tirou o sapato direito e atirou-o ao candeeiro. Nenhuma lâmpada se partiu. Aquele ficou só a marcar segundos como o pêndulo de um relógio de sala, daqueles que assinalam os quartos, as meias e as horas com um fadinho monótono e sonolento. Foi buscar o sapato. Enfiou-lhe metade do pé e lançou-o ao tecto. Foi buscar outra vez o sapato e riu-se. Mirou-se ao espelho e disse: «Estás cada vez mais na mesma. Tens montes de estupidez.». Sentou-se junto da máquina de escrever e acabou o poema que há quinze dias aguardava desfecho com os seguintes versos: «Sorri e fala enquanto és criança / Quando fizeres a barba e usares calças compridas a sociedade calar-te-á.». E ficou satisfeito. Pareceu-lhe viril, duma virilidade triste e irremediável, aquele final. Olhou o relógio: Ainda não podia fumar.

«Apetecia-me nadar. Flutuar nas ondas cansadas duma cansada praia africana onde até o amor é cansado. Caramba!, aqueles noites de calor quando um tipo ia para a baía e, todo nú, com a lua envergonhada a ver tal descaramento, se enfiava por ali fora e deixava que a água salgada entrasse para os ouvidos e a sensação doce e gritante de possuir, naqueles instantes, a liberdade no corpo. Correr depois pela praia aos saltos, aos berros de «aioé», e rir, rir alto para as estrelas, sem nada no corpo, sem nada nos dedos da noite, ouvir as palmeiras a chorar a solidão, o tam-tam do batuque, lá ao longe, no meio do mato, festejando rituais de principiantes, corpos de cores diferentes rebolando-se na areia com risos sufocados pelos prazeres da carne, prazeres adquiridos pelo dinheiro. Noites de descontrole natural pelos ambientes dia-a-dia ruminados, noites de lágrimas em que, olhando-se o longínquo das águas, se lembravam os nossos e se gemia: «Mãe, diz a ela que me espere com uma esperança igual à tua!”. E aquela vez em que me deixei cair e esgadanhei a areia até os dedos serem derrotados e gritei: «Não! Mil vezes não!» Mas que lucrei? Quem me ouviu? O nada sem voz, o silêncio das coisas mortas. E agora? Agora que já só cumprimento quem me apetece, sem ser por obrigação? Que vou fazer? Andar por aí a cuspir palavras, salivar complexos, continuar sendo escravo desta miserável sociedade que me persegue e me quer destruir, sorrir quando a minha vontade era dar murros, acenar-que-sim para poder continuar a sentar-me a uma mesa, sujando-me na incoerência por necessidade, masturbando porcamente os meus princípios, ouvir palavras de fingida comiseração? Pois sim. Acordar todas as manhãs num quarto escuro dum terceiro andar, com a chuva a castigar as vidraças, o movimento dos carros, acelerando, travando, apitando, roncando e as pessoas, de umbelas, fugindo ao choque, dançando o tango pluvial, e eu, cá em cima, sentindo o vazio à minha volta, uma indiferença tão fria como a da máquina de escrever sobre a mesa, um hábito de vida sempre igual em que nada de novo sucede nem um exaltado a oferecer pancada.».

João espirra. Tosse. Escarra no penico. Assoa-se. Abre um livro. Começa a ler. Fuma o cigarro que passaram os quarenta e cinco minutos. Levanta-se para ir buscar o lápis vermelho. Sorri e sublinha: «É mais fácil organizar e dirigir uma sociedade de escravos do que uma sociedade de homens livres.».

João poisa o livro na mesinha. Vira-se para o outro lado e adormece com o seu sonho de esperança, enquanto a chuva recomeça e se faz amor, comprado ou grátis, na cidade-selva.
- Continua.
  • MANUEL COUTINHO NOGUEIRA BORGES NASCEU EM SÃO JOÃO DE LOBRIGOS, SANTA MARTA DE PENAGUIÃO, EM 1943. É ALUNO DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. CUMPRIU SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO, COMO ALFERES MILICIANO, NA PROVÍNCIA DE MOÇAMBIQUE. COLABOROU EM VÁRIOS JORNAIS: INICIAL, GAZETA DE COIMBRA, DIÁRIO DE LISBOA – JUVENIL, MIRADOURO, NOTÍCIAS DO DOURO, REPÚBLICA-JUVENIL, DIÁRIO (DE LOURENÇO MARQUES), VOZ DA ZAMBÉZIA. NÃO MATEM A ESPERANÇA É O SEU PRIMEIRO LIVRO ESCRITO EM 1970.
«NINGUÉM CONSEGUIRÁ BARRAR O CAMINHO DA VERDADE, E ESTOU PRONTO A MORRER PARA QUE ELA AVANCE.» (SOLJENITSYNE)

«SEJAMOS POIS IMPOPULARES, NO MUNDO DE HOJE, ESSA É A FORMA ÚNICA DE NOS SABERMOS HIPOTÉTICAMENTE CERTOS.» (NELSON DE MATOS)

11/01/09

Coronel Tito Lívio Esteves Xavier: Missa de 7º dia


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Será rezada missa de 7º Dia, em memória do Coronel Tito Lívio Esteves Xavier, 2ª feira, dia 2 de Novembro de 2009 às 17 horas na capela dos Salesianos do Estoril (dentro da escola), em Lisboa - Portugal.


DIZ-ME A. JOÃO SOARES EM 31 DE OUTUBRO DE 2009 20H06:
Caro Jaime,
Recebi este texto por e-mail de alguém que conviveu com o Tito e que o Jaime talvez conheça:
""Faleceu o Coronel TITO LÍVIO XAVIER
De: J. Verdasca:
ACABO DE RECEBER DO AMIGO GIL (Macua de Moçambique) a infausta notícia do passamento do velho amigo, admitido junto comigo - e em 1955 - na Academia Militar de Lisboa, onde só permaneceu durante meio ano lectivo. Oriundo do Colégio Militar, Tito Lívio logo foi promovido a aspirante, tendo feito carreira na antiga Porto Amélia (hoje Pemba) capital do Distrito moçambicano de Cabo Delgado, onde se situa o Planalto dos Makondes e a povoação de Chae ou Chai, a primeira a ser atacada pela guerrilha da Frelimo, na noite de 25 de Setembro de 1964, data hoje considerada DIA das Forças Armadas Moçambicanas.


Tito Lívio era e foi um homem singular; pragmático, desinibido, polivalente, tornou-se útil - mesmo indispensável - junto aos governadores do Distrito de Cabo Delgado, onde exerceu várias funções, como comandante da polícia, oficial de inteligência e, mais tarde, de ligação às F.A. Sul Africanas, alcançando grande prestígio e preponderância durante o difícil período anterior à guerrilha que durante cerca de dez anos assolou o território de 700.000 quilómetros quadrados, então com cerca de sete milhões de habitantes, pertencentes a mais de 30 etnias, cada uma com seu dialecto, sua cultura própria e seu animismo, se bem que - na costa a Norte de Sofala, se tivesse implantado uma variante do Islamismo, desde cerca do ano 1000 d.C., e uma espécie de língua franca - swhailli - também de influência árabe, hoje língua oficial da União Africana, por alguns confundida com etnia, mas, na realidade, falada por vários povos, de muitas etnias.


Foi nesse ambiente que alguns de nós sofremos e combatemos, e Tito Lívio - também ele nascido de vários sangues e cruzamentos - viveu parte de uma vida dedicada mais aos africanos que aos europeus, pois era um homem do Mundo, de que tinha uma visão própria, singular, muito especial. Na minha próxima viagem a Lisboa, já não degustaremos juntos aquele arroz de caranguejo que uma família vinda de Moçambique confecciona, ali à Rua da Glória, na Baixa Alfacinha.
Repousa em Paz, meu bom amigo.""
Aqui fica o texto de J Verdasca.
Cumprimentos,
João - Só Imagens - http://thirthyfour.blogspot.com/2009/10/t.html

10/30/09

Moçambique - A bola !


Mozambique - The Ball: Vale a pena ver de novo.

10/29/09

Ronda pela imprensa portuguesa: O PREGADOR!


Ronda pela imprensa lusa - opinião:

Evidentemente que Saramago tem um problema pessoal mal resolvido com a religião. Isso é tão claro que dispensa a interpretação psicanalítica dos seus comportamentos. Aliás, um dos muitos problemas de Saramago é julgar-se o próprio Deus. E não admitir concorrência. Nobel, ainda por cima, sente que o Mundo se deveria prostrar perante o seu génio. É um narciso universal a quem tudo deve ser consentido, mesmo o insulto grotesco e ignaro.

O mundo de Saramago é um mundo sem Pátrias nem Religiões. É um mundo centrado na sua pessoa e alimentado pela sua obra. É um mundo que assenta nas premissas extremas do capitalismo. Se para vender um produto tiver de matar a mãe, mate-se a mãe e venda-se o produto. É o que Saramago faz. Insulta e vilipendia para vender. Confortado no seu "auto-exílio" em Lanzarote que lhe garante direitos de autor sem encargos fiscais. O mundo de Saramago é, neste contexto, um mundo sombrio de ódios de estimação e de perseguições infrenes.

Mas é também um mundo inconsequente. Rejeitou a Pátria porque um dia a Pátria o não reconheceu. Mas dela colhe homenagens e recebe fundações. A sua vaidade não lhe permite resistir à idolatria. E gosta mais de si próprio do que a coerência e a decência deveriam admitir.

Por tudo isto, é-me absolutamente indiferente a leitura que Saramago faz da Bíblia. Sei, como todos, que a idade ou agudiza os defeitos ou acentua as virtudes. No caso de Saramago refinou os primeiros. Não gosto do homem. Estou no meu direito. Embora a Bíblia me recomende tolerância, respeito e misericórdia. Prometo que tentarei alcançar esses "maus costumes".
- O Pregador é de autoria de José Luis Seixas, in O Destak, 21/10/2009.