12/09/09

Praias de Pemba - Erosão e maus tratos... Que futuro ?

A questão ambiental debatida nos mais diversos fóruns internacionais e também, no momento, na conferência em Copenhague faz-nos refletir sobre atitudes e comportamentos quotidianos que não contribuem para um planeta sustentável e que implicam em mudanças de hábitos, em abdicarmos de interesses individuais para, com isso, contribuirmos para o bem e melhoria da sociedade que nos rodeia e para um futuro onde o assustador fantasma do aquecimento global possa ser amenizado e sobressaltar menos. Porto Amélia no passado colonial (hoje Pemba) era exemplo de cidade planejada, ecologicamente equilibrada dentro do que se conhecia a respeito naquele tempo até 1975, de ruas amplas, limpas, arborizadas, edifícios airosos, modernos, perspectivando um futuro prometedor voltado para o turismo. Para isso contribuíram diversas figuras que, direta ou indiretamente a foram desenhando e lapidando como jóia rara encravada nas areias do imenso mar azul que a cerca. Citarei, entre outros, somente os Dr. Cristina e Tito Livio Xavier, como presidentes do município e o saudoso arquiteto Andrade Paes, idealizador e responsável pela construção de inúmeras residências belas e edifícios que ainda hoje fazem e dão ar de graça à atual Pemba. Uma Pemba que em 2009, sentimos estar crescendo desorganizada, super povoada, com esgotos a céu aberto, lixo nas ruas, informalidade desregrada e crescente praticada por um povo que busca sobreviver mas em rumo direto, inevitavel á crescente insalubridade da urbe e à destruição de suas praias... hoje, muitas delas (como as praias do Wimbe, Maringanha ou até Mecufi) transformadas em latrinas públicas, vitimas da erosão, quase redutos murados, fechados por construções aleatórias ou não mas inconvenientes, redutos esses exclusivos e destinados a classes sociais mais “abonadas”.

Ainda bem que a próxima cúpula sobre mudança climática de 2011 será na África do Sul como hoje anunciou a presidente da conferência em Copenhague, a dinamarquesa Connie Hedegaard.

Quem sabe e por proximidade, cheguem mais fortes a Moçambique e a Pemba as necessárias demandas para mudanças radicais de conduta e usos que são imperativas quando se trata da questão ambiental.

E, para “desenhar” um pouco mais nitidamente minha apreensão, transcrevo, de autoria de Edmundo Galiza Matos – 2008, um texto encontrado na net, que faz parte de suas “Impressões após nove anos de ausência” da nossa querida Pemba e arredores:

""Mecufi: Impressões após nove anos de ausência - A erosão, é verdade, é um cancro maligno que dilacera impiedosamente o distrito costeiro de Mecufi. Há anos. Antes mesmo da independência nacional.

O fenómeno abate-se com maior inclemência sobre a praia e as várias tentativas para aplacá-lo de nada serviram. Os estudos científicos para a correcção da acção do oceano e do homem não passam disso mesmo. Muitos mas engavetados.

Desapareceram da praia a prancha para o mergulho. Os parrôs implantados nas frondosas causuarinas nem sequer deixaram marcas. Do balneário só restam o entulho em forma de pedra. As raízes desventradas dos coqueiros são como que a prova de que ali se bebericava whisky com agua de lanho.

O barquito “pilotado” pelo velho Jenguesse já lá não está... para meu desgosto, uma vez que, para além da travessia (paga) para Kambala, com ele “navegavamos” entre os inúmeros canais e mangais até “aportar” em Muária, aldeia construída já depois da independência nacional.

O bar do Herculano Faria está numa lástima à espera que um diferendo qualquer, inexplicável, seja sanado. Ali perto funciona uma cabana feita com macuti.

Reduzido devido à invasão das aguas do mar o terreno que utilizavamos para acampanar com tendas feitas de macuti e bambu, simplesmente já não existe.
- Em 31 de Outubro de 2008 - Edmundo Galiza Matos.

12/06/09

Contos E Poesias do Índico - HUVILO



(Clique na imagem para ampliar. Gravura fictícia formada por imagens livres recolhidas na net)

Corria o ano de 1840. Nas terras do velho Mbavala, o rei makonde, o sol caia vermelho colorindo o manto verde da floresta. Um grande grupo de guerreiros makondes de troncos nus e com as partes intimas cobertas de pedaços de pano encardido, adquirido nos comerciantes árabes e aventureiros swahil, acompanhavam atentamente, no terreiro da povoação, o discurso contagiante do rei Mbavala. Enquanto discursava, corria nas suas terras, de boca em boca, a surpreendente notícia de aproximação de um grupo Nguni que raptava homens e mulheres e cobrava coersivamente tributos às populações das povoações que ia atacando enquanto avançava em direcção ao extremo norte do actual território de Moçambique. O grupo pertencia a um outro grande grupo de guerreiros Nguni proveniente de Zwangendaba que, por volta de 1837, estivera no vale do Zambeze e em zonas limítrofes semeando terrores entre populações endefesas e mais tarde atravessou o Zambeze, perto de Cachomba, tendo uma boa parte se dirigido para Tambara e outra para o norte atraído pelas notícias de existência de um rendoso negócio de ouro, marfim e escravos.

- Meu povo! – Disse o ancião com uma voz trémula. – Tenham coragem para enfrentar o inimigo que vem. Ele vem de longe e carrega o ódio nos olhos, por isso, vai destruindo tudo que lhe aparece na sua frente. Os nossos mensageiros trauxeram notícias frescas dando conta da aproximação do inimigo. Os nossos irmãos que vivem nas imediações da nossa povoação começaram a chegar aterrorizados pelas notícias da chassina que inimigo vai cometendo enquanto caminha ao encontro das nossas terras...

Enquanto o velho falava para a multidão de guerreiros, pequenos grupos de velhos, mulheres e crianças aproximavam-se sorateiramente às varandas das cabanas que se achavam no limiar do terreiro ávidos de acompanhar as palavras do Mabavala.

- Protejam as crianças, os velhos e as mulheres. Defendam com bravura a nossa tribo e toda a riqueza que os nossos antepassados nos deixaram. Cantem as canções de bravura e coragem para que dignifiquemos o sangue derramado pelos guerreiros mais valentes da nossa tribo.

A multidão ululou, os guerreiros aceneram ao ar arcos e flechas e em conjunto deram o grito de coragem. Havia gente demais e o ar estava abafado. A noite entrava calma trazendo consigo estrelas e o nevoeiro. No alto, uma caravana de passáros cortou o céu num chilreio carregado de apavor. O velho calou-se. Acendeu um tabaco. Aspirou voluptosamente o fumo e, no fim, prosseguiu:

- Vigiem as fronteiras do nosso reino. Coloquem homens em todos os cantos para que o inimigo não nos surpreenda. Na hora da chegada, toquem o lipalapanda – o chifre de antílope – para que todos saibam que o inimigo está nas nossas terras.

Calou-se novamente. Levou o tabaco aos lábios. Puxou duas vezes. Tossiu vezes sem conta e voltou ao ponto onde havia interrompido.

- Meu povo! – Disse o ancião com uma voz entrecortada e trémula. – Preparem esconderijos para que as crianças, os velhos, os enfermos e as mulheres grávidas possam se proteger contra a chassina que vem. Preparem as armadilhas que os nossos antepassados nos ensinaram e ordeno para que esta noite todos guerreiros fiquem de vigia cantando e dançando para afugentar o espirito do medo. O curandeiro Namakhoi fará o trabalho que lhe compete distribuindo alguns punhados de ervas que vos protegerão de todo o mal durante a batalha. Coragem, guerreiros! Coragem...

O kôta virou-se para a corte, cruzou os braços nas costas e fez um sinal indiscrptivel para um dos anciãos mais antigo da tribo. De seguida, abandonou o terreiro dirigindo-se para a grande palhota andando com um cómico aprumo e movendo-se na noite tão cautelosamente como se estivesse a pensar em alguma coisa. Ao chegar a porta, mandou o mensageiro real reunir o chefe dos guerreiros, o curandeiro Namakhoi e outros ancião mais importantes da povoação e no fim, entrou na palhota fechando a porta nas suas costas. O kôta queria se inteirar de tudo, desde a estratégia da guerra até ao tipo da magia que o curandeiro Namakhoi pretendia usar para derrotar o inimigo. No entanto, o rufar dos tambores e o ecoar das vozes fizeram-se ouvir no terreiro. Vozes embaladas na brisa nocturna atravessavam a floresta densa do planalto dos makondes e homens fortes e valentes dançavam e cantavam canções de autores imemoráveis e perdidos na poeira do tempo cujas suas letras passavam de boca em boca e de geração em geração modificando-se constantemente de acordo com o momento. Os guerreiros dançavam em redor de uma grande fogueira contorcendo-se com abandono, simulando combates, zombando o inimigo e fumando bangui, a rainha da coragem. A medida que dançavam, as labaredas cresciam, a lenha ardia com intensidade e, de vez enquando, pequenas faúlhas saltavam no ar apagando-se rapidamente na noite fria.

O rei saiu da palhota, soltou um profundo suspiro e parado em frente da palhota pôs-se a contemplar no escuro a densa floesta, sentindo o ar frio da noite e aspirando o agradável aroma do planalto. Caminhou lentamente pelo quintal com os braços cruzados nas costas como era o hábito. Porém, deteve-se num tronco de Mula e sorriu consigo mesmo animando a sua face tatuada e dominada de profundos sulcos. O kôta recordava-se com saudade a sua juventude, principalmente, na época em que com bravura enfrentava gente de outras tribos que caçavam mulheres makondes nas machambas e riachos, afim de vende-las como escravas aos comerciantes árabes e aventureiros swahil. Fechou os olhos como se quisesse trazer de volta aqueles momentos e depois, deu meia volta e encaminhou-se novamente a palhota movendo-se com um aprumo forçado e cómico, típico da idade.

Já a madrugada, um jovem, que o chefe dos guerreiros escalara para guarnecer as imediações da povoação, irrompeu no terreiro correndo apavorado e vomitando sangue coagulado. Os guerreiros Nguni haviam lhe mutilado a lingua e obrigado a se dirigir a povoação afim de anunciar a sua chegada. O tam-tam dos tambores cessou imediatamente; Dois guerreiros dirigiram-se a palhota real, anunciaram ao rei o sucedido e voltaram novamente ao terreiro, onde os outros guerreiros haviam já abandonado e tomado a posição no limiar da floresta e nos ramos das árvores que se espalhavam nas redondezas da povoação. O rei e a corte fugiram para a floresta, onde foram escondido num abrigo preparado para tal. De súbito, a povoação ficou silenciosa e quando o sol ia se erguendo lentamente e a queimar, pouco a pouco, o orvalho no capim e nos arbustos ouviu-se um forte ulular e um grande grupo de guerreiros Nguni vestidos de peles e munidos de lanças e escudos de peles de animais bravios irrompeu o centro da povoação, pilhando mantimentos e animais domêsticos, quebrando potes e outros objectos de barro, e, quando ia incendiar as palhotas, os guerreiros makondes lançaram-se contra o inimigo dirigindo-lhe flechas envenenadas com ervas selvagens. A batalha levou muito tempo e, usando uma táctica de guerra desconhecida entre os makondes, os guerreiros Nguni infringiram pesadas derrotas aos guerreiros do rei Mbavala. Os prisioneiros de guerra foram severamente humilhados e quase metade da população foi escoraçada numa louca perseguição até às margens do rio Rovuma, onde atravessando a nado e numa visível situação de desespero refugiaram-se para as terras do Tanganhica, rei dos Massai, no actual território da República da Tanzania. Um outro grupo de Makondes liderado pelo o rei deposto exilou-se nas terras do Mataca, o rei ajaua, na actual província do Niassa.

Entretanto, meses depois guerreiros makondes apoiados por homens valentes e corajosos da tribo ajaua expulsaram os invasores tendo-lhes perseguido até às terras mais distantes, em direcção ao centro do actual território de Moçambique . Passados alguns dias, o rei Mbavala e a sua corte regressaram do exílio acompanhado do rei Mataca. Porém, os que haviam atravessado o Rovuma jamais voltaram e por lá criaram a comunidade dos makondes da Tanzania. Nisto, alguns dias depois, houve uma grande festa na povoação que durou uma semana comendo-se carne caçada no interior da floresta, bebendo-se diversas bebidas tradicionais, dançando-se ao som dos tambores e assistindo-se diversas sessões de mapico. Como gratidão dos feitos heróicos dos guerreiros ajaua demonstrados no momento da expulsão e perseguição dos invasores, o rei Mataca recebeu de presente, do seu homólogo Mbavala, uma bela donzela para casar, uma enorme estátua de pau-preto com a sua figura «estampada» no tronco e teve de volta meia centena de mulheres da sua tribo que serviam de escravas nas residências oficiais dos membros da corte dos Makondes. Para além deste acto, houve uma cerimónia tradicional de firmamente de amizade entre as duas tribos, onde os curandeiros de ambos os lados foram convidados a oferecerem os seus préstimos por forma a abençoar aquela amizade que nascia e a garantir por via mágica a sua renovação de geração em geração até ao mais infinito.

No último dia da estadia do rei Ajaua nas terra dos Makondes, o sol nasceu muito quente e os seus raios brilhavam intesamente resplandescendo manjestosamente sobre o tapete verde da floresta. Um grupo de flamingos sobrevoou silencioso a povoação e, no fim, aterrou numa pequena lagoa que se achava no extremo sul da palhota do rei Mbavala. Um grupo de crianças nuas e desnutridas brincava debaixo do sol em frente da palhota do chefe dos guerreiros Makondes e dois cães vadios atravessaram o terreiro perseguindo-se numa empolgante brincadeira. Dois guerreiros ajaua munidos de lanças afastaram-se repentinamente da porta da quarta palhota real. A porta abriu-se e o velho Mataca saiu seguido pela rapariga oferecida pelo seu homólogo Makonde. De olhos cerrados, o rei aspirou o ar frio do planalto, lançou um olhar apreciador ao seu presente e caminhou para o terreiro, onde a sua corte e os donos da terra o esperavam para a despedida. Ao chegar, foi servido um acento no alpêndre improvisado para a despedida. Pouco tempo depois, o kôta Mbavala ergueu-se e discursou para o seu povo agradecendo o apoio dos Ajaua e pedindo às duas tribos para que valorizassem a amizade conquistada contando a sua história às novas gerações. Já perto do fim do discurso, a sua voz ficou demasiadamente trémula e, nesse momento, foi interrompido por um seu funcionário que o encaminhou ao acento. Quando ia se sentar, o chefe dos guerreiros quis apoia-lo, mas o ancião apartou-o com os braços fazendo um gesto de protesto de quem diz não sou tão velho para precisar de apoio para se acomodar. De seguida, o som dos batuques irrompeu o espaço reservado para a despedida e um grupo de dançarinos começou a dançar no meio da roda humana que assistia ao espectâculo rindo e cantando. Ao cessar o tam-tam dos tambores, o kôta Mataca fez um breve discurso agradecendo a hospitalidade, os presentes oferecidos e a libertação das mulheres da sua tribo feitas escravas muito antes da invasão Nguni. No fim, prometeu aos Makondes retribuir o gesto da devolução das escravas, defendendo que já não havia mais razões para as duas tribos manterem a prática de captura de mulheres das duas tribos para fins de escravatura.

O rei foi interrompido por uns aplausos que soaram de forma entusiástica. Contudo, quando os aplausos desvaneceram, o kôta retomou o discurso agradecendo vezes sem conta tudo quanto o povo Makonde havia lhe proporcionado. Dali, as duas cortes abandonaram o terreiro enquanto o rufar dos tambores se faziam sentir novamente e encaminharam-se na saída da povoação. Ao aproximar as paliçadas que circundavam a povoação, protegendo os habitantes contra os animais bravios, os dois reis apertaram-se as mãos efusivamente em sinal de despedida final e o kôta Ajaua deu meia volta e começou a caminhar juntamente com a sua corte e os seus guerreiros escoltando-o em todos os lados. O velho Mbavala não tinha ainda voltado para a povoação e se encontrava petrificado no sitio onde havia se despedido do amigo Ajaua, olhando-o de longe enquanto desaparecia por entre árvores frondosas e arbustos de meia altura que emergiam quase por toda a floresta. Quando os visitantes desapareceram, por completo, deixando a sua atrás vozes entrecortadas e trazidas pelo o vento, o velho encaminhou-se ao terreiro, onde pôs-se a assistir mais uma sessão de mapico até ao entardecer.

Passados muitos anos, a amizade das duas tribos ainda continua manifestando-se sob forma de huvilo e a sua genese corre de boca em boca entre as novas gerações de Makondes e Ajauas.
- Allman Ndioko, Moçambique, 17/05/2005

VOCABULÁRIO:
Huvilo - Uma espécie de amizade carregado de aspectos cómicos e menos sérios;
Makondes Grupo étnico de Moçambique localizado no planalto de Mueda, província de Cabo Delgado. Note-se que existe na República da Tanzania outro grupo de Makondes conhecido por Makondes da Tanzania e que é originário do actual planalto de Mueda.
Ajauas - Grupo étnico de Moçambique localizado no planalto do Niassa, no norte do país.
MbavalaRei do povo Makonde.
Mataca Rei do povo Ajaua.
Kôta Pessoa mais velha que pode ser pai, mãe, avô, tio, etc.
Bangui Soruma ou melhor cannabis sativa;
Mula Árvore frondosa e muito alta frequente no planalto de Mueda. Entre os Makondes de Moçambique a Mula servia, desde os tempos remotos até altura da independência nacional, para sinalizar campas nas grandes florestas do planalto;
Lipalapanda – Chifre de antílope, normalmente, usado para anunciar uma festa ou animar uma sessão cultural;
N’tela Erva medicinal que serve para curar alguma infermidade ou proteger qualquer mal. Normalmente tem tido efeitos mágicos.


12/04/09

Apontamentos do Tito Xavier: Ilha do Ibo - Forte de S. José


Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu recentemente em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

12/03/09

Ecos da imprensa moçambicana: Apenas oito das 129 empresas controladas pelo estado têm lucros.

Apenas oito das 129 empresas controladas pelo Estado têm lucros - AS RESTANTES 121 REGISTAM PREJUÍZOS ENORMES SEGUNDO IGEPE. Somente oito das 129 empresas participadas pelo Estado geram lucros em Moçambique e as restantes 121 registam prejuízos enormes, segundo o Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), realçando que “algumas delas ignoram as boas práticas de gestão e nem sequer apresentam relatórios regulares das suas contas”.

Para inverter o cenário, o IGEPE está a apurar a viabilidade da sua comparticipação na gestão das empresas onde é accionista, segundo Daniel Tembe, presidente daquela instituição estatal que não deu pormenores sobre a matéria.

Nos últimos oito anos, o Estado abdicou das suas participações em 150 empresas, de um universo de 279 que controlava desde 2001, de acordo ainda com Tembe, falando esta quarta-feira, em Maputo, durante um encontro de apresentação do guião de boas práticas de governação corporativa nas empresas participadas pelo Estado moçambicano.

No encontro, o IGEPE analisou ainda o estabelecimento de sistemas de relatórios que facilitem a monitoria e avaliação do desempenho das empresas participadas pelo Estado.

Um documento apresentado na ocasião realça que o Estado como proprietário deve estabelecer políticas e legislação que assegurem a gestão criteriosa da coisa pública a nível das empresas e deve assegurar que as empresas do Estado se sujeitem às mesmas condições competitivas de mercado, para além de encorajar a adoptarem códigos de conduta e de ética e aplicar os instrumentos regulatórios já aprovados nesse sentido.

Já como Estado sócio, o documento refere que a intervenção do Estado deve ser exercida de forma equivalente à dos sócios de direito privado nessas sociedades e que os direitos especiais do Estado devem estar claramente regulados e divulgados, destacando em seguida o documento que o Estado deve articular com os administradores por si nomeados a respectiva linha de intervenção nas sociedades.
- (J. Ubisse) - Correio da Manh, Ano XIII, Nº 3207, Quinta-feira, 03/Dezembro/2009

Os comportamentos que mais minam o ambiente de negócios em Moçambique - Corrupção, burocracia e oportunismo continuam.
- taxas mais elevadas da região no desalfandegamento aduaneiro, 45 dias para licença de construção, constam igualmente na lista.
- governo nega comentar o relatório do Banco Mundial.

(Maputo) Moçambique encontrase no grupo dos 50 países do mundo, onde o ambiente de negócios é o mais caótico. Últimos dados indicam que o país está quase na cauda no Ranking do Doing Business, que reflecte a idoneidade e facilidade para fazer negócios em determinado país. Neste momento, Moçambique encontra-se na posição 135 de um conjunto global de 185 posições.

Dado este constrangimento ao desenvolvimento nacional, o governo através do Ministério da Industria e Comercio, decidiu contratar uma equipa de consultores do Doing Busines, (integrantes do Banco Mundial, BIRD) de modo a fazerem um pesquisa no c a m p o e c o n ó m i c o empresarial, com vista a se saber o que estará a atrasar o país em termos da criação de condições para o melhoramento do ambiente de negócios e a consequente atracção de investimentos para o país.

Resultados apresentados na manhã de ontem, na capital do país, pela equipa do Banco Mundial, apontam a corrupção, burocracia e oportunismo como, os comportamentos que mais dificultam o ambiente de negócios em Moçambique.

Estes são tidos como verdadeiros atentados ao ambiente de negócios, disseram os consultores. Constam ainda na lista dos constrangimentos detectados por aquela equipa, o facto de Moçambique continuar a cobrar as maiores taxas aduaneiras dos últimos tempos (cerca de 120 dólares por scaning de cada contentor, contra os 16 dólares cobrados em alguns países), o que na óptica dos investigadores afugenta os investidores e importadores.

Também apontam a existência desnecessária das inspecções pré-embarques e com elevado custo, deficiente rede de transportes e comunicações, maior tempo de espera de licenças de construção ( cerca de 45 dias contra os 6 dias em alguns países) bem como a demora de processos judiciários em vários níveis.

Estes comportamentos estão sempre associados a comportamentos corruptos a vários níveis.

Recomendações.
Assim, aquela equipa de consultores recomendou, ao país, para que acelere o processo de criação de infra-estruturas melhoradas, que inicie de imediato a formação contínua de pessoal destinado ao mundo empresarial. Há também a necessidade urgente de juízes especializados para lidarem com processos de natureza económica, bem como, uma monitorização contínua dos projectos em curso.

CTA reconhece esforços.
Embora reconhecendo o esforço que vem sendo desenvolvido pelo governo na procura e criação de um melhor do ambiente de negócios, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), considera que as acções ainda são poucas comparadas com os avanços que se registam noutros países. Exemplo, citado foi o Ruanda que na última análise do Doing Business, subiu 75 pontos contra 5 pontos conseguidos por Moçambique.

“O governo está a implementar reformas, mas as implementa muito pouco. Ter uma licença para a construção é uma dor de cabeça” disse Orlando da Conceição, Director Executivo da CTA, para quem o país deve em primeiro lugar, procurar reduzir actos de corrupção burocracia e oportunismo, bem como, procurar concretizar as recomendações deixadas pelos consultores.

Aliás, caso Moçambique adopte estas medidas poderá subir 10 a 15 lugares até finais de Abril próximo, de acordo com a equipa do Doing Business.

Governo não se pronuncia.
Facto estranho é que, no fim da sessão e como é habitual nestes encontros, tentamos abordar o governo para se pronunciar em relação ao relatório dos consultores, mas o seu representante simplesmente mostrou-se indisponível a abordar o assunto.

A preocupação colocada foi no sentido sabermos quais os esforços adicionais que seriam desenvolvidos pelo governo no sentido de concretizar as recomendações da equipa do Banco Mundial. Infelizmente, a responsável do Ministério da Indústria e Comércio escusou-se a responder, alegadamente porque a sua instituição (MIC) não tinha convidado a imprensa para o encontro.
- (Hélio Lucasse e Redacção), MediaFax, Maputo, Quinta-feira, 03.12.09 *Nº4427.

Por 4 milhões de USD transaccionados 11 mil hectares de terra para produção de Jatropha em Moçambique.

Maputo (Canalmoz) - A SAB Mozambique criada em Maputo em Outubro pelas firmas italianas Leonardo Business Consulting e pela SECI API BIOMASSA vai adquirir por 4 milhões de USD os haveres da ESV Group Plc em Moçambique.

A ESV é uma sociedade cotada na Bolsa de Londres e presidida pelo britânico de origem iraniana Massou Alikhani. Ao ceder os seus haveres à ESV cede as suas plantações de Jatropha e os seus onze mil hectares de terra em Moçambique.

A SAB Mozambique fez uma joint-venture com duas sociedades italianas especializadas em energias renováveis: A API NOVA ENERGIA e SECI Energia Spa, parceira do Gruppo Maccaferri, como também noticiou esta semana o ION, que se edita em França.
- (Redacção / ION), CanalMoz, Ano 1 * N.º 91* Maputo, Quinta-feira, 03 de Dezembro de 2009.

12/02/09

Arte e Artesanato de Cabo Delgado - Ilha do Ibo Abril/2008


12/01/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulos VI e VII


Não Matem a Esperança - Capítulo VI
Procuro no poço da minha memória, vasculho as pedras rugosas, esgadanho a terra movediça e apalpo a tua recordação. Foste pobre. Trabalhaste que nem um desalmado, criaste calos nas mãos e na alma. Foste rico. Apertaste a bolsa furiosamente com um nagalho, amontoaste, quiseste fazer fortuna. Morreste. E o sonho de uma grande fortuna morreu contigo. E lá do teu mundo em que te esqueces, perguntarás: «Para quê?». Sim, para quê? Todas as fortunas servem para nada. Todas as fortunas se esvaiem. Conheci-te já velho. Eras um velho alto, forte, corado no rosto e amparavas-te a uma bengala e bebias o vinho por uma cabaça. Gastavas um cesto de vindima por ano, sentando-te todas as tardes, além, no fundo do quintal, com a tua bengala ao pé. Eu fugia para junto de ti quando alguém me batia pelas asneiras que a minha irresponsabilidade de criança cometia. Reconhecia-te autoridade para o meu refúgio. Fazia-te festas, colocavas-me no teu colo e beijavas-me, roçando o teu bigode na minha cara imberbe. Gostava de ti, sabes? Só não gostava quando te pedia um brinquedo e tu dizias que era um por ano. Tu lembras, não lembras? E eu, então, pegava num pedaço de cana e fazia-te a barba... E tu gostavas e davas-me tostões para rebuçados. Em casa, as criadas, tiravam-te, sem tu saberes, azeite e batatas, por que davas tudo por ração e a ração não chegava. Eu vi muitas vezes minha mãe chorar, à mesa, por que tínhamos que comer batatas sem azeite havendo tanto na dispensa. E as lágrimas de minha mãe eram o azeite. Era demais. Tu não reconhecias isso? E para quê? Morreste e cá deixaste. Dos que originaste nem todos te souberam seguir. Estavam habituados a pouco e depois de tu morreres, quando se viram commuito, estragaram. De nada valeu trabalhares que nem um galego e poupar que nem um avarento. Tu saberás perdoar-lhes como perdoaram a ti. Uma mulher te amou e sofreu e morreu a sofrer por ti. Deste-lhe um tecto igual ao que te cobria, mas não lhe deste o carinho, o amor, a lealdade que ela queria e merecia. Foste mau. Muito mau. Não te admires da minha sinceridade. Sabes, muita gente não gosta de mim porque não sei fingir e digo a verdade. E têm medo de mim assim, chamam-me antipático, bruto. O que eles queriam era que eu dissesse sempre que sim com eles, lhes aparasse todo o jogo. Mas eu não me acobardo naquilo que mais nobre e puro há no homem: a sua integridade moral. Não me importo que me detestem os mentirosos, os interesseiros (os que gostam mais deste ou daquele consoante lhes enchem mais ou menos a bolsa insaciável), os bonecos de luxo de estimação, os que batem com uma mão no peito e roubam com a outra, os que dão beijos pela frente e lançam punhais pela retaguarda. Não me interessa de nada. Antes assim, com a tranquilidade consciente, do que viver no meio desta escumalha toda sendo como eles. A esses mando-os dar uma voltinha pelo Marão da vida a ver se aprendem mais alguma coisa do que aquilo que a sua tacanhez lhes ensinou. Mas porque foste assim tão mau para com a tua mulher que sempre te guardou lealdade, te deu os TEUS filhos, para aquela mulher que nos tempos da sua juventude te entregou a reputação, cega por um amor puro? E porque não calaste as bocas porcas e ignorantes e incivilizadas do mundo, levando-a a uma Igreja para um padre vos pôr as alianças que se compram nas ourivesarias em negócio regateado? Sabes, a sociedade é assim. Faz-se porque é bonito, porque é o bem, porque a tradição manda, porque os preconceitos tapam os olhos da inteligência. Mas eu não te censuro por não teres ido à Igreja, o que eu te censuro é teres atraiçoado um amor autêntico (daqueles que não precisam de carimbos nem de selos), um amor do qual te vieram os filhos da tua vida. Isso não se faz. Uma mulher que é nossa é-o sempre até morrer. Não te rias dessa maneira. Repara que choro. E nós nunca devemos rir dessa maneira para uma pessoa que chora como eu, agora.

Era uma criança quando morreste. O corpo ia-te pesando e a bengala já mal aguentava. E caíste um dia na cama para nunca mais te levantares. Eu vi-te. E chorava muito por saber que ias morrer (sim, eu já sabia que ias morrer, pois o meu sentido de criança pressentia-o). E tu querias sorrir para mim, mas a paralisia não te deixava. E eu ia-te beijar nos meus intervalos de brincadeira (perdoa-me o ter brincado com os meninos pobres da minha idade, enquanto tu morrias aos poucos). E as lágrimas (lágrimas de arrependimento e saudade que a morte sempre traz) saltavam-te para as faces ao veres-me na tua frente. Pensavas o que seria eu mais tarde, mais tarde quando o teu corpo frio e digno (não há posição mais digna que a morte) estivesse já nas fezes dos bichos subterrâneos. E pedias papel para escrever, mas a letra não se percebia, as mãos estavam-te presas pela inércia dos nervos; quererias emendar alguma coisa de que te tivesses arrependido? Há momentos assim: em que já é demasiado tarde para voltar atrás. Os que te amavam fizeram tudo para que vivesses. Os que te invejavam fizeram tudo para que morresses. Vieram médicos da família para te ver. Algumas pessoas que antigamente te batiam nas costas impediram que outros, vindos de longe com a sua fama aos ombros, diagnosticassem a tua doença; tinham medo que eles te salvassem. Mas deixa lá que já estás vingado – a morte é «privilégio» de todos. Morreste que nem um santo, dizem os que assistiram ao teu adeus (já reparaste que toda a gente morre como um santo?). E lembro-me do ambiente do dia da tua morte. Tenho ainda nos ouvidos os gritos de minha mãe que me cobriu toda com seu corpo a esconder-me da verdade e eu agarrei-me a ela e chorei também. E vi pessoas vestidas de negro que se mexiam em bicos de pés e cochichavam umas com as outras e se mostravam muito atenciosas para minha mãe. Tive nojo e medo dessas pessoas e estive mesmo para gritar (mas eu não podia, ainda era criança): «Cuidado!». Esses vultos entravam pela porta dentro, uns atrás dos outros, como se estivessem todos na rua à espera de que morresses. Depois trouxeram um tabuleiro, daqueles em que mandavas pôr os figos a secar, e depositaram-no em cima duma caixa. Vestiram-no bem, com gravata e tudo (a sociedade tem a preocupação de vestir os mortos como se vestem os políticos para botar discurso), puseram-te no tabuleiro e taparam-te com um lençol branco, enquanto umas velas (sempre detestei as velas, fazem lembrar os mortos), de pavios tristes, alumiavam o silêncio do teu corpo. Nessa noite dormi mais agarrado a minha mãe. Tive medo. Um medo que me dava ganas de gritar que eras nosso, de berrar àquela gente que me passava as mãos pela cara e dizia: «Meu menino, coitadinho!...» que se fosse embora velar os seus mortos lá em casa. Quando acordei já estavas na urna (tudo calculado, tudo calculado), uma urna bonita, cara, toda forrada, de não sei quantos contos de réis e até tinha uma chave dourada (hás-de-me dizer se resta alguma coisa disso). E aqueles vultos negros, de mulheres principalmente, cirandavam à volta como moscas zunindo. E levaram-te, numa tarde, com homens engravatados a pegarem-te no caixão e gritos desesperados de quem te via partir sem a esperança de que voltasses. E pela estrada fora, a gente que te acompanhava, ia de chapéus nas mãos com o ar de quem cumpria um ritual, muitos indo lá só com o receio do que os outros dissessem se não tivessem ido. Eu fiquei impávido, vendo-te levado por outros homens e não disse nada. Olhei sempre, sempre, até a multidão desaparecer no fundo da recta. Voltei, pelas mãos de minha mãe, à casa que ficou vazia sem ti. Sentia-se que faltava alguém, mas esse alguém nunca mais voltou.

Não Matem a Esperança - Capítulo VII
Uma dessas famílias de saltimbancos que arrastam, de terra em terra, de feira em feira, sofrimento e miséria, pousou na aldeia. Armou sua barraca de pano. Simples a operação: um lençol que já fora branco e, agora, nem branco nem negro, não tinha cor, um pau espetado e aí está a cónica cortelha. Uns por cima dos outros ali dormirão seres humanos.

No dorso da burra, de pé, em equilibrismos e decorados falarios, aumentados por um funil, ergue-se o chefe.

- Venham ver! Venham dois irmãos: um de sete outro de nove anos,fazerem maravilhas; fazem o salto mortal, dão cambalhotas e muitas mais coisas que só à vista se acreditam!

O povo escuta e interessa-se. A sua monotonia estremece. A indiferença transforma-se em curiosidade. Tudo que desperte estes espíritos adormecidos e mofosos tem atenção. O que esta gente precisa é, de vez em quando, de uns murros na sua rotina. São os velhotes, troncos curvados pelos anos, colete a boldrié, arrastando os tamancos, que se levantam das soleiras e dos bancos das tabernas e das casas a apreciar o «circo»; é o rapazio que deixa de esgadanhar o chão e brincar às escondidinhas para ir ver os «trapezistas»; os moços adultos ou adolescentes que abandonam a sueca ou o sete-e-meio e deixam de gritar «coringas!» no andor da capela para observarem os «saltimbancos». Em breves comenos, o terreiro está apinhado. Empurram-se uns aos outros na busca do melhor sítio.

- Bá, ó Zé, nada de empurras, ouviste?! Lá ver!...
- Tu é que és o gordo ou quê?! Até parece que não cabes! Olha o catano!...

Os mais idosos não procuram as melhores posições: dão-lhas. Têm direito à primeira fila, como família burguesa que marca de tarde as cadeiras da plateia para a sessão da noite. A garotada fura, de gatas, pelas pernas da assistência.

- Que raio de canalha esta! Que andais aqui a fazer?! Ide para casa, ide!

«A canalha», porém tem o direito de ver. Querem admirar as «maravilhas» dos «artistas».
No cimo do animalejo, o chefe anuncia: «Atenção! Vamos começar o nosso espectáculo!». Desce. Pega num bombo e ataca-o com marteladas furiosas e estridentes. Dois rapazitos, troncos-só-ossos, olheirentos, faces amantinas, saiem da barraca. Perfilam-se. Fazem vénias de agradecimento aos assistentes que batem palmas. Um, deita-se numa manta, erguendo ao mesmo tempo os braços e encolhendo as pernas, o outro finca as mãos nos joelhos, os ombros nas mãos daquele e, num salto, fica erecto, pernas retesadas até a assistência se cansar de aplaudir. Levantam-se. Num imprevisto, o que parece ser o mais novo, dobra-se, no ar, num salto que deixa o povo boquiaberto.

- Viste Chico? Fantástico! Isto é que é um salto mortal! Sim senhor! É objecto!

O miúdo desfaz-se em mesuras. O bombo, triunfante, trepida ainda mais. Agora muda de tom, silencia, quase. Aparece uma corda. Os rapazitos pedem que alarguem o círculo. O povo cede e afasta-se exageradamente. Um daqueles envolve a cintura na corda. O outro agarra a extremidade e faz girar o irmão num carrossel, a princípio lento, em seguida acelerado. O tamboril aumenta. Rufa. Com força. Mais força ainda. Mais ainda. Diminui. O carrossel humano roda devagar já. Aquele decresce até ao silêncio. O «artista» endireita a cabeça. Toca os pés na terra. Pára. A gente grita: «Bravo!». Aproveitando o entusiasmo, uma mulher, de saia e blusa pintadas de remendos, comida nas carnes, aparece, estendendo humilde, demasiado humilde, um prato. Aprimeira dádiva tilinta. A dois assobios um cão indolente e careca torna-se presente. Uma vergasta rodopia em retorces rápidos.

- Biscoito levante-se!

O cão ergue as patas dianteiras. Sem convicção. Maquinalmente.

- Quieto Biscoito!

O canídeo não se mexe.

- Salta Biscoito!

Assim fez. Ao retardador. Empoleirou-se nos ombros do garoto. De novo mais palmas. O Biscoito não agradece. O «Domador» acariça-o e cospe-lhe nas ventas. A mulher-mãe aparece com o prato das esmolas, como na missa um ajudante, e recolhe-se envergonhada, silenciosa, triste. O chefe-pai anuncia que «a primeira parte do espectáculo terminou. A segunda parte é daqui a alguns instantes.».

Enquanto as gentes comentavam, fumavam e zaragateavam, ele retirou-se e foi abafar os seus gritos onde ninguém lhe pudesse escutar as asneiras da revolta.
- Continua.