9/02/10

A NAIFA

«Tá ver? Tá ver? É o que lhe digo, um home num pode deixar de ser seguro! Hoje, de manhê, tive mesmo p´ra trazer a naifa. Disse cá p´ra mim: “ bem, num debe ser preciso, esta malta é porreira “, afinal, é o que se vê. Abaliei bem mal! Olhem-me qu´isto! Já onte, quando saíram do lagar e começaram a mandar vir, diga-se de passage, sem razão nenhuma, deu-me logo cá uma zoeira no toutiço que nem imagina a minha impressão! Só me deu bontade de abandonar a prensa e botar logo a gadunha a um! São alebantados lá os gajos! Tá bonito isto! Anda-te aí um que não é nada bem encarado, na minha palavra de honra! Onte, atão, era o que mais palrava, “que não, que não“, e não entraram mesmo no lagar! O tipo é o chefe deles, é mesmo reguila, e armou-te aí um banzé dos diabos! E eu cheio de bô fé a dizer que esta malta é porreira! Sim, senhor,bonito serviço!

Num importa o quê? Isso é o que lhe parece! Atão acha bem uma desfeita destas? Tem que haver respeito, isto inda num é o Brasil, ora esta! Eles pensam que vêm p´ra cá abusar ó quê? Que abusem na terra deles, homessa! Anda a gente a rogá-los, a dar-lhes dinheiro a ganhar, e depois fazem isto! Olhem-me qu´esta num tá mal, não senhor... Se me dá na bolha, inda bou a casa buscar o instrumanto! Tou a ver que sim! Inda bou buscar o alfange p´ra dar uns riscos àquele terrorista! Vocemessê num faz ideia da impressão que o gajo me mete!

Como? Num entendi o que o senhor disse? Não, já o merquei há uns tampos. Aquilo, carago!, tem p´raí o comprimanto da mão daquele rolador! Só visto! Autântico! Tem aquele comprimanto à segurança! P´ra que preciso eu disso? Tá boa a chiba, tá! A cada passo é preciso. Há sampre quem nos queira mal, uma zanga, uma espera, sei lá, uma hora de aflição. Onde calha se encontra um patife. À moda do outro, um home num gosta de ir p´ró xadrez, mas em vez de as levar num há-de dar? Conversa... mas isso é indiscutíbel! Com calma? Com calma, leba-as um home e cala! É o que lhe digo! Eu tamém já lebei... Uma vez foi aqui no estômago, salvo seja aqui neste sítio, que nem lhe conto. Inda tenho a marca dos pontos e nunca mais me esquece! Lebei à volta de cinco pontos. Diz a minha qu´inté me saíram as tripas! Ela é que diz isso, eu num bi nada... Mas eu mandei-lhe, tamém, três rasgos que o puz às portas da morte! Andava eu a podar, nessa ocasião, numa Quinta duns ingleses, era uma coisa grande, até queriam pôr torneiras p´ra regar aquilo, veja bem; eu binha todos os dias a casa, nesse tampo a minha escrita tava sempre em dia, entende-me o que quero dizer?, bom, eu binha todos os dias a casa e, uma noite, encontro aquela alma no caminho. Desgraçado! Trazia uma borracheira que só bisto! Deu-me p´ró entreter. Às páginas tantas, começa-te lá cum relambório! Inda aguantei, mas depois num pude mais, inté a minha Mãe ofendeu, o grande cabrão! Como o senhor sabe, isso nenhum filho, que o seja de bom sangue, finge que num oube. Mandei-lhe umas lostras nas bantas e umas troviscadas no lombo cum pau que eu trazia sampre comigo, quando, sem eu contar, ripa-te de uma naifa e zás!, enterra-ma aqui mesmo, salvo seja. O que me valeu? A navalha da enxertia! Num lhe digo nada! Amandei-lhe umas cortadelas que nem queijo! Deixei-o lá a gemer, ali nos Quatro Caminhos, e soube, depois, passada uma boa tamporada, que se tinha mudado p´ra Lisboa e que andava lá a chegar massa nas obras. Eu lá me arrastei até casa, inventei que me tinha cortado cuma foice e quem me deu os pontos foi o Dr. Silvério, um santo home, num desfazando, e que Deus tenha em bom lugar. Claro que ele desconfiou logo, que era bô médico, e disse-me: “Pilroto, p´ra próxima chamo a Guarda!“ . Aquilo morreu, já foi há muito ano e inté nunca mais tive nada, mas nunca mais me fiei. Tanho andado sampre firme, nas devidas condições, que o mundo num tem só putos de Pais e putos de Mães, mas, tamém, filhos de outros Mães que num sabemos donde vêm e para onde vão, percebe-me o senhor o que quero afiançar?

Olhe, que horas são? Pela nova ou pela velha? Minha Nossa Senhora! Já bou oubir um reportório desgraçado da patroa, que aquilo quando a comida esfria ela aquece quinté parece que a casa bai abaixo! Tem um génio estuporado! E ai de quem lhe responda, bai tudo raso, parece um ciclone! Daquilo é que tanho medo! É cá uma naifa que o senhor nem bai ao fundamanto! Amanhê, às seis velhas, tanho aí um lagar p´ra incubar. Santas noites e desculpe-me esta franqueza.»
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no Blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua.

    9/01/10

    De Porto Amélia a Pemba - Inauguração da ponte-cais de Porto Amélia 2

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    De Porto Amélia a Pemba - Inauguração da ponte-cais de Porto Amélia

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    De Porto Amélia a Pemba - Em Busca da História! Documentos... 3

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    8/31/10

    De Porto Amélia a Pemba - Em busca da História ! Documentos... 2

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    De Porto Amélia a Pemba - Em busca da História ! Documentos...

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    8/29/10

    O MEU REENCONTRO COM O SAUDOSO E QUERIDO PADRE CARMINHO

    Todos nós recordamos a figura ímpar do nosso amigo que tão depressa nos deixou.

    Não cheguei a vê-lo por estas terras tão longínquas. No casamento da minha filha nascida em Porto Amélia quisemos ter o prazer de ter connosco, além de outras amizades também lá nascidas, a presença dele que a tinha baptizado e o Dr. Carmo que assistiu ao parto. Este deu-nos essa alegria mas o Pr. Carminho, por qualquer razão não pode estar presente.

    A minha filha mais velha e o marido tinham estado na Índia e falavam-me maravilhas. Em 2004 voltavam lá e aguçaram-me o apetite (não gosto nada de viajar...).

    Resolvemos então que após as “andanças” deles nos encontraríamos em Goa em Janeiro seguinte. Fui primeiro a Nova Delhi para conhecer o celebríssimo Taj-Mahal e dia 15 desembarcava na nossa Goa. Tinha tido a preocupação de me munir do endereço do Padre Carminho e contactá-lo foi das primeiras coisas que fiz. Ficou feliz e queria logo ir buscar-me para ficar em casa dele. Expliquei que estava com os filhos e que ainda andava a visitar a região mas que iríamos o mais depressa possível.

    Sorri com a visão da ideia de ele vir buscar-me pensando num Padre Carminho de batina branca e a sua motoreta comigo atrás.

    Eu tinha sido submetida a uma melindrosa e complicada operação à base do cérebro e além da inerente debilidade estava bastante desfigurada devido a uma paralisia facial e também 30 anos haviam passado...
    No momento do nosso encontro não estava o nosso querido amigo. No lugar um simpático e elegante cavalheiro no seu automóvel conduzido por um jovem goês. Mais magro, sem batina, sem motoreta com o mesmo sorriso e no rosto a alegria de me ver e abraçar mas disse :

    - “Estás tão velha minha filha!”

    Também ele, como eu, tinha esquecido o TEMPO esse grande mas implacável Escultor.

    - “Já passaram 30 anos…” - lembrei eu.

    Mas os sentimentos esses não são tão vulneráveis e isso é que é importante.

    Fomos para sua casa onde nos esperava um delicioso almoço, visitamos a família e andou a mostrar-nos a ilha, a sua paróquia onde criara uma obra social orientada para mulheres e crianças. Tinha uma irmã já bastante avançada no tempo e duas sobrinhas, uma de férias acabada de chegar da Alemanha onde reside com o marido, cidadão alemão. Teimava em que lá ficássemos e aproveitamos para deixar as malas e compras entretanto feitas, para irmos mais leves à descoberta daquelas paragens tão acolhedoras e que ainda nos falam da nossa História e nos recordam, na sua Natureza, o nosso querido Moçambique.
    Voltamos e de novo convivemos momentos muito agradáveis mas com tristeza e saudade porque, claro, seria muito pouco provável um novo reencontro. Mas nunca pensei que tão cedo ele nos iria abandonar para sempre, como infelizmente aconteceu.

    Notava-se que era muito querido mas receava que, para continuar, o quisessem obrigar a tornar-se cidadão indiano e ele então renunciaria porque nunca deixaria de ser português.

    Descansa em Paz, temos a certeza.
    - Portugal, 28 de Agosto de 2010, Maria Emilia Amorim Gil.
    • NOTA: Faleceu em 19 de Janeiro de 2007, com 82 anos de idade, na paróquia de Curtorim, diocese de Goa-Damão, o Padre Carminho Francisco Rodrigues que exerceu funções pastorais no Patriarcado de Lisboa entre 1977 e 2001. Ordenado sacerdote em 1952, o Padre Carminho pertenceu ao presbitério da diocese de Goa-Damão, tendo dedicado alguns anos do seu sacerdócio à diocese de Pemba, em Moçambique. É desta diocese que vem para Portugal, sendo admitido no Patriarcado de Lisboa no ano de 1977. No Patriarcado, exerceu funções paroquiais como pároco do Cercal, Alguber e Figueiros, coadjutor em Alcoentre, e colaborador na Amadora, Alcoentre e Manique do Intendente. Além disso, prestou assistência religiosa nas cadeias prisionais de Alcoentre e Vale Judeus. Tendo regressado definitivamente a Goa, no ano de 2001, o Padre Carminho, nos seus últimos anos de vida, manteve uma generosa actividade pastoral, com especial dedicação aos mais necessitados, tanto na sua como noutras dioceses do país. - Do ForEver PEMBA, 28 de Janeiro de 2007.

    8/28/10

    A MISSA LUBA em Cabo Delgado e os Irmãos Meels

    A Missa Luba foi executada na Catedral de São Paulo, em Porto Amélia, hoje Pemba, nos anos 60, ensaiada e regida pelo padre Guilherme Meels (Guillaume (Giel) Meels), cidadão holandês, da Missão de Nangololo (Missão do Sagrado Coração de Jesus de Nangolo, criada em 1924) e irmão do padre José Meels (Jan Jozef Meels), pároco da Diocese de São Paulo em Pemba. Sobre o padre Guilherme Meels [Guillaume (Giel) Meels], recomenda-se a leitura de "A Guerra dos Macondes", de D. José dos Santos Garcia, primeiro Bispo da Diocese de Porto Amélia.

    A Missa Luba é originária do ex-Congo Belga (Congo Leopoldville, mais tarde Zaire e hoje RDC) e foi adaptada e cantada em XiMakonde. Alguns dos jovens que faziam parte do coro e do grupo de instrumentistas ainda estão vivos. Fizeram sucesso em Pemba (na época designada por Porto Amélia), de tal modo que - mas não se pode afirmar com certeza - estavam para atuar na Ilha de Moçambique e outras cidades do país, naquele tempo ainda colônia portuguesa.

    O padre Guilherme Meels [Guillaume (Giel) Meels] nasceu em 24 de Maio de 1915 [era 8 anos mais novo que seu irmão o padre José Meels (Jan Jozef Meels)]. Ordenado sacerdote em 8 de Setembro de 1935, foi para Moçambique em 1946, para a Missão de Nangololo. Teve de sair de lá pouco depois do início da luta armada de libertação nacional e só regressou em 1976. Repetimos que, deste período, D. José dos Santos Garcia, Bispo de Porto Amélia, dá informações e depoimentos muito interessantes no seu livro já mencionado acima “Guerra dos Macondes”. De 1976 a 1979, esteve em Hoensbroek - Holanda. De 1979 a 1982 trabalhou em São Paulo - Brasil (os Monfortinos estão espalhados pelo Mundo). Regressou em 1982 a Hoensbroek - Holanda, onde ficou até 1986. Faleceu com 86 anos, em Houthem – Holanda em 23 de Novembro de 2001.

    Seu irmão, o padre José Meels era sacerdote da Congregação de São Luís de Montfort. Esta Congregação veio para Moçambique através da Companhia do Niassa. Esteve em Moçambique desde 1933 onde permaneceu até 1979. Foi pároco da Paróquia de São Paulo - Porto Amélia (hoje Pemba). Nasceu em 27 de Agosto de 1907, em Schweijkhuizen – Holanda. Faleceu aos 85 anos, em 29 de Dezembro de 1992, em Houthem - Holanda e foi sepultado em 2 de Janeiro de 1993 em Schimmert - Holanda.

    Os padres Meels eram, respectivamente, o 3º e 5º de um total de 8 filhos do casal holandês Jan Willem Meels e Maria Cornelia Petri, originários de uma família com laços na Holanda e na Bélgica.

    Tivemos a felicidade de os conhecer e com eles conviver na então Porto Amélia. Este post é um tributo modesto mas devido a dois missionários (entre outros) que, únicamente imbuídos de espírito solidário e cristão, se dedicaram a ajudar o povo humilde e pobre de Cabo Delgado. E, quando jovens eramos, nos permitiram aprender a apreciar a beleza da MISSA LUBA que ainda hoje nos emociona e encanta.
    - Agradeço a meu “velho” e caro Amigo J. N. Carrilho as informações que permitem este texto.