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9/02/10
De Porto Amélia a Pemba - Em busca da História! Documentos... 4
Location:
Mocimboa da Praia, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
A NAIFA
«Tá ver? Tá ver? É o que lhe digo, um home num pode deixar de ser seguro! Hoje, de manhê, tive mesmo p´ra trazer a naifa. Disse cá p´ra mim: “ bem, num debe ser preciso, esta malta é porreira “, afinal, é o que se vê. Abaliei bem mal! Olhem-me qu´isto! Já onte, quando saíram do lagar e começaram a mandar vir, diga-se de passage, sem razão nenhuma, deu-me logo cá uma zoeira no toutiço que nem imagina a minha impressão! Só me deu bontade de abandonar a prensa e botar logo a gadunha a um! São alebantados lá os gajos! Tá bonito isto! Anda-te aí um que não é nada bem encarado, na minha palavra de honra! Onte, atão, era o que mais palrava, “que não, que não“, e não entraram mesmo no lagar! O tipo é o chefe deles, é mesmo reguila, e armou-te aí um banzé dos diabos! E eu cheio de bô fé a dizer que esta malta é porreira! Sim, senhor,bonito serviço!Num importa o quê? Isso é o que lhe parece! Atão acha bem uma desfeita destas? Tem que haver respeito, isto inda num é o Brasil, ora esta! Eles pensam que vêm p´ra cá abusar ó quê? Que abusem na terra deles, homessa! Anda a gente a rogá-los, a dar-lhes dinheiro a ganhar, e depois fazem isto! Olhem-me qu´esta num tá mal, não senhor... Se me dá na bolha, inda bou a casa buscar o instrumanto! Tou a ver que sim! Inda bou buscar o alfange p´ra dar uns riscos àquele terrorista! Vocemessê num faz ideia da impressão que o gajo me mete!
Como? Num entendi o que o senhor disse? Não, já o merquei há uns tampos. Aquilo, carago!, tem p´raí o comprimanto da mão daquele rolador! Só visto! Autântico! Tem aquele comprimanto à segurança! P´ra que preciso eu disso? Tá boa a chiba, tá! A cada passo é preciso. Há sampre quem nos queira mal, uma zanga, uma espera, sei lá, uma hora de aflição. Onde calha se encontra um patife. À moda do outro, um home num gosta de ir p´ró xadrez, mas em vez de as levar num há-de dar? Conversa... mas isso é indiscutíbel! Com calma? Com calma, leba-as um home e cala! É o que lhe digo! Eu tamém já lebei... Uma vez foi aqui no estômago, salvo seja aqui neste sítio, que nem lhe conto. Inda tenho a marca dos pontos e nunca mais me esquece! Lebei à volta de cinco pontos. Diz a minha qu´inté me saíram as tripas! Ela é que diz isso, eu num bi nada... Mas eu mandei-lhe, tamém, três rasgos que o puz às portas da morte! Andava eu a podar, nessa ocasião, numa Quinta duns ingleses, era uma coisa grande, até queriam pôr torneiras p´ra regar aquilo, veja bem; eu binha todos os dias a casa, nesse tampo a minha escrita tava sempre em dia, entende-me o que quero dizer?, bom, eu binha todos os dias a casa e, uma noite, encontro aquela alma no caminho. Desgraçado! Trazia uma borracheira que só bisto! Deu-me p´ró entreter. Às páginas tantas, começa-te lá cum relambório! Inda aguantei, mas depois num pude mais, inté a minha Mãe ofendeu, o grande cabrão! Como o senhor sabe, isso nenhum filho, que o seja de bom sangue, finge que num oube. Mandei-lhe umas lostras nas bantas e umas troviscadas no lombo cum pau que eu trazia sampre comigo, quando, sem eu contar, ripa-te de uma naifa e zás!, enterra-ma aqui mesmo, salvo seja. O que me valeu? A navalha da enxertia! Num lhe digo nada! Amandei-lhe umas cortadelas que nem queijo! Deixei-o lá a gemer, ali nos Quatro Caminhos, e soube, depois, passada uma boa tamporada, que se tinha mudado p´ra Lisboa e que andava lá a chegar massa nas obras. Eu lá me arrastei até casa, inventei que me tinha cortado cuma foice e quem me deu os pontos foi o Dr. Silvério, um santo home, num desfazando, e que Deus tenha em bom lugar. Claro que ele desconfiou logo, que era bô médico, e disse-me: “Pilroto, p´ra próxima chamo a Guarda!“ . Aquilo morreu, já foi há muito ano e inté nunca mais tive nada, mas nunca mais me fiei. Tanho andado sampre firme, nas devidas condições, que o mundo num tem só putos de Pais e putos de Mães, mas, tamém, filhos de outros Mães que num sabemos donde vêm e para onde vão, percebe-me o senhor o que quero afiançar?
Olhe, que horas são? Pela nova ou pela velha? Minha Nossa Senhora! Já bou oubir um reportório desgraçado da patroa, que aquilo quando a comida esfria ela aquece quinté parece que a casa bai abaixo! Tem um génio estuporado! E ai de quem lhe responda, bai tudo raso, parece um ciclone! Daquilo é que tanho medo! É cá uma naifa que o senhor nem bai ao fundamanto! Amanhê, às seis velhas, tanho aí um lagar p´ra incubar. Santas noites e desculpe-me esta franqueza.»
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
- Também pode ler M. Nogueira Borges no Blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua.
Location:
Peso da Régua, Portugal
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
9/01/10
De Porto Amélia a Pemba - Inauguração da ponte-cais de Porto Amélia 2
Location:
Porto Amelia, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
De Porto Amélia a Pemba - Inauguração da ponte-cais de Porto Amélia
Location:
Porto Amelia, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
De Porto Amélia a Pemba - Em Busca da História! Documentos... 3
Location:
Porto Amelia, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
8/31/10
De Porto Amélia a Pemba - Em busca da História ! Documentos... 2
Location:
Palma, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
De Porto Amélia a Pemba - Em busca da História ! Documentos...
Location:
Palma, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
8/29/10
O MEU REENCONTRO COM O SAUDOSO E QUERIDO PADRE CARMINHO
Todos nós recordamos a figura ímpar do nosso amigo que tão depressa nos deixou.
Não cheguei a vê-lo por estas terras tão longínquas. No casamento da minha filha nascida em Porto Amélia quisemos ter o prazer de ter connosco, além de outras amizades também lá nascidas, a presença dele que a tinha baptizado e o Dr. Carmo que assistiu ao parto. Este deu-nos essa alegria mas o Pr. Carminho, por qualquer razão não pode estar presente.
A minha filha mais velha e o marido tinham estado na Índia e falavam-me maravilhas. Em 2004 voltavam lá e aguçaram-me o apetite (não gosto nada de viajar...).
Resolvemos então que após as “andanças” deles nos encontraríamos em Goa em Janeiro seguinte. Fui primeiro a Nova Delhi para conhecer o celebríssimo Taj-Mahal e dia 15 desembarcava na nossa Goa. Tinha tido a preocupação de me munir do endereço do Padre Carminho e contactá-lo foi das primeiras coisas que fiz. Ficou feliz e queria logo ir buscar-me para ficar em casa dele. Expliquei que estava com os filhos e que ainda andava a visitar a região mas que iríamos o mais depressa possível.
Sorri com a visão da ideia de ele vir buscar-me pensando num Padre Carminho de batina branca e a sua motoreta comigo atrás.
Eu tinha sido submetida a uma melindrosa e complicada operação à base do cérebro e além da inerente debilidade estava bastante desfigurada devido a uma paralisia facial e também 30 anos haviam passado...
No momento do nosso encontro não estava o nosso querido amigo. No lugar um simpático e elegante cavalheiro no seu automóvel conduzido por um jovem goês. Mais magro, sem batina, sem motoreta com o mesmo sorriso e no rosto a alegria de me ver e abraçar mas disse :
- “Estás tão velha minha filha!”
Também ele, como eu, tinha esquecido o TEMPO esse grande mas implacável Escultor.
- “Já passaram 30 anos…” - lembrei eu.
Mas os sentimentos esses não são tão vulneráveis e isso é que é importante.
Fomos para sua casa onde nos esperava um delicioso almoço, visitamos a família e andou a mostrar-nos a ilha, a sua paróquia onde criara uma obra social orientada para mulheres e crianças. Tinha uma irmã já bastante avançada no tempo e duas sobrinhas, uma de férias acabada de chegar da Alemanha onde reside com o marido, cidadão alemão. Teimava em que lá ficássemos e aproveitamos para deixar as malas e compras entretanto feitas, para irmos mais leves à descoberta daquelas paragens tão acolhedoras e que ainda nos falam da nossa História e nos recordam, na sua Natureza, o nosso querido Moçambique.
Voltamos e de novo convivemos momentos muito agradáveis mas com tristeza e saudade porque, claro, seria muito pouco provável um novo reencontro. Mas nunca pensei que tão cedo ele nos iria abandonar para sempre, como infelizmente aconteceu.
Notava-se que era muito querido mas receava que, para continuar, o quisessem obrigar a tornar-se cidadão indiano e ele então renunciaria porque nunca deixaria de ser português.
Descansa em Paz, temos a certeza.
- Portugal, 28 de Agosto de 2010, Maria Emilia Amorim Gil.
- NOTA: Faleceu em 19 de Janeiro de 2007, com 82 anos de idade, na paróquia de Curtorim, diocese de Goa-Damão, o Padre Carminho Francisco Rodrigues que exerceu funções pastorais no Patriarcado de Lisboa entre 1977 e 2001. Ordenado sacerdote em 1952, o Padre Carminho pertenceu ao presbitério da diocese de Goa-Damão, tendo dedicado alguns anos do seu sacerdócio à diocese de Pemba, em Moçambique. É desta diocese que vem para Portugal, sendo admitido no Patriarcado de Lisboa no ano de 1977. No Patriarcado, exerceu funções paroquiais como pároco do Cercal, Alguber e Figueiros, coadjutor em Alcoentre, e colaborador na Amadora, Alcoentre e Manique do Intendente. Além disso, prestou assistência religiosa nas cadeias prisionais de Alcoentre e Vale Judeus. Tendo regressado definitivamente a Goa, no ano de 2001, o Padre Carminho, nos seus últimos anos de vida, manteve uma generosa actividade pastoral, com especial dedicação aos mais necessitados, tanto na sua como noutras dioceses do país. - Do ForEver PEMBA, 28 de Janeiro de 2007.
Location:
Goa, India
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
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