10/09/09

Herta Muller - sobrevivente de ditadura comunista que ganha Prémio Nobel da Literatura 2009

Herta Muller, escritora radicada na Alemanha desde 1987, nascida na Romênia e que viveu 30 anos sob intensa ditadura comunista, vence o Nobel de literatura 2009.

Herta Muller venceu o Prêmio Nobel 2009 na categoria literatura nesta quinta-feira, por conta de uma obra "com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, que descreve a paisagem dos excluídos''.

- Minha escrita sempre tratou de como uma ditadura surge, como uma situação pode ocorrer em que um punhado de pessoas poderosas dominam um país e o país desaparece, e só resta um Estado - disse Muller à Reuters.

- Acho que a literatura sempre emerge de coisas que fizeram dano a alguém, e há um tipo de literatura em que os autores não escolhem seu assunto, mas lidam com um que lhes foi lançado - não sou a única escritora assim.
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Muller, que imigrou para a Alemanha após deixar a então comunista Romênia em 1987, fez sua estreia em 1982 com uma coletânea de contos intitulada ''Niederungen'', que foi prontamente censurada pelo governo romeno. O livro relata a vida em um vilarejo na região de Banat, na Romênia, onde ainda vive uma minoria que fala alemão, língua em que a autora sempre escreveu. Em 1984, uma versão sem censura foi publicada na Alemanha e seu trabalho foi devorado pelos leitores.
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- Este país me salvou. Quando cheguei, em 1987, pude finalmente respirar - afirmou. - E quando a ditadura caiu, senti que não estava mais ameaçada. Eu me sinto livre no presente, e as coisas que aconteceram não foram canceladas, estão na minha cabeça. Só tenho uma cabeça, essa que levo por aí, e ela contém tudo aquilo com que cheguei a este país.
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O livro foi seguido por ''Oppresive tango'', lançado na Romênia. Por conta de suas críticas abertas ao governo romeno, e à sua temida polícia secreta, a escritora e seu marido deixaram o país em 1987.

Sua obra é marcada por suas experiências de estranhamento e perseguição política, como no livro "O compromisso", lançado no Brasil pela editora Globo, em que narra as adversidades e humilhações sofridas na Romênia comunista.
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- Não sei se o prêmio tem a ver com os 20 anos do fim do regime comunista. Mas tudo o que escrevi tem a ver com o que tive que viver durante 30 anos sob uma ditadura, disse Herta, em entrevista coletiva, ao ser perguntada sobre o possível caráter político da concessão do Nobel.

- Para as pessoas que viveram nas ditaduras as coisas não terminam quando mudam os tempos, explicou Herta. "Há gente que morreu como vítima da ditadura. Tive amigos que morreram e a queda da ditadura não os reviveu", disse a escritora. Segundo ela, esse é o tema de todos os seus livros e a escritora acredita que "toda a literatura tem a ver com as coisas que fizeram dano às pessoas".

A obra da autora reflete em grande parte o destino das minorias na Alemanha e nos países da Europa Central que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, em muitas ocasiões tiveram que pagar duplamente pelas culpas do nacional socialismo em seus países.

Muller, que vive em Berlim desde 1987, nasceu em Nytzkydorf, na Romênia, em 1953 em uma família de minoria alemã - da qual faziam parte outros escritores como Oskar Pastior - e desde muito cedo tentou fazer a ponte entre as duas culturas a quer pertencia. Ela estudou filologia germânica e romena para se aprofundar no conhecimento das duas literaturas das quais se sentia parte.

"Niederungen", seu primeiro livro de contos, foi publicado em 1982, depois de ficar quatro anos na editora e de sofrer cortes impostos pela censura na Romênia do ditador Nicolae Ceaucescu. Antes de se lançar como escritora, Muller chegou a ser demitida de seu cargo de tradutora em uma fábrica de máquinas por negar-se a colaborar com o serviço secreto comunista.

A obra de Muller é uma combinação de uma linguagem especial, por um lado, e o fato de que ela tem uma história para contar sobre como é crescer em uma ditadura, em uma minoria, em outro país. E de como crescer como estrangeira em sua própria família", declarou o secretário da Academia Sueca após o anúncio do Nobel. "É uma escritora fenomenal", concluiu.
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Em seu romance mais recente, "Atemschaukel", Muller conta a história de um jovem de 17 anos que, após a Segunda Guerra Mundial, é levado pelos russos a um campo de trabalhos para ajudar na reconstrução da União Soviética - destino que foi compartilhado por muitos membros da minoria alemã na Europa Central. Os russos acreditavam que, com isso, os alemães estariam pagando suas dívidas por terem sido "cúmplices de Hitler", sem se dar conta que alguns deles também haviam sido vítimas do nazismo.

A obra é uma tentativa de Herta Muller de revelar o que se escondia por trás do silência de sua mãe e de outros romeno-alemães de sua geração que não se atreviam a falar nunca do tempo que haviam passado nos campos de trabalho-escravo soviéticos.

Esta é a primeira vez desde 2003 que o prêmio vai para uma autora em língua alemã, após o recebido pela austríaca Elfriede Jelinek, naquele ano. O último alemão que ganhou o prêmio foi Günter Grass, em 1999. O Nobel da Literatura é entregue anualmente desde 1901. Entre os escritores que já venceram o prêmio estão Thomas Mann, Herman Hesse, Ernest Hemingway, Samuel Beckett, Gabriel García Márquez, José Saramago e J.M. Le Clézio, ganhador do prêmio em 2008.
- Fontes de dados: portal "G1" e "O Globo".

10/07/09

Eleições 2009 Moçambique: Últimas Notícias...

:: Boletim publicado pela CIP e AWEPA ::


Na Imprensa Moçambicana:

Canal Moz, Ano 1, n.º 52, Maputo, Quarta-feira, 07 de Outubro de 2009:

  • Prosseguem actos de violência e intimidação por parte do partido no poder -
    Maputo (Canalmoz) - Os actos de intimidação e violência, perpetrados fundamentalmente pelo partido no poder em Moçambique, contra formações políticas da oposição, continuam a manchar a campanha eleitoral em curso. Não obstante o presidente da República, Armando Guebuza, ter recentemente minimizado os incidentes que se repetem amiúde em diversos pontos do país, o facto é que essas graves irregularidade põem em causa a autenticidade do acto eleitoral que, por princípio, deveria ser livre, justo e transparente. Se em eleições anteriores um Sebastião Mabote dizia abertamente que “em Gaza o bandido não tem campo”, hoje, a intimidação por parte de quadros partidários e de funcionários de um Estado que sente dificuldade em se despartidarizar; a repressão exercida por militantes que ostensivamente envergam camisetas do Parti do Frelimo; e o abuso de poder por parte de dirigentes governamentais a nível local, servem para ilustrar a vocação totalitária de uma formação política que, sob a fachada da democracia, está apostada em manter-se no poder com recurso a todo o género de tropelias. Notícias que nos chegam de Tambara dão conta da ocorrência de fluxos populacionais em direcção ao vizinho Malawi como consequência de actos de intimidação desencadeados por elementos afectos ao partido no poder. A violação de domicílios, os espancamentos de civis “suspeitos” de serem membros de partidos da oposição, o rapto e as prisões arbitrárias de pessoas filiadas em partidos como o MDM e a Renamo caracterizam o ambiente que se vive em Machaze. Para além da dramática situação vivida na Província de Manica, na cidade de Tete uma fonte da Renamo afirmou que cerca de três dezenas de militantes desse partido “desapareceram de uma cadeia local, depois de terem sido arbitrariamente presos”. Estão, pois, reunidas as condições para mais um acto eleitoral controverso, que em nada beneficia a imagem de um país arrancado, ainda recentemente, a ferro e fogo das grilhetas da opressão. Para o candidato Armando Guebuza, “os focos de violência que se registam um pouco por todo o país” poderão “não afectar a imagem de Moçambique”, mas para os cidadãos de toda a Nação, crentes numa democracia sã, o que se está a passar tem necessariamente de pôr em risco a legitimidade democrática de um processo que, à partida, está a ser submetido a vicissitudes várias. Para um regime que por tradição se colocou sempre acima da lei, desrespeitando, por índole, os mais elementares direitos dos cidadãos, os actos de intimidação e violência em curso poderão constituir algo de normal. Todavia, para a grande família moçambicana, a situação prevalecente vem confirmar a existência de um esquema de cariz totalitário que acabará, inevitavelmente, por pôr à prova a tolerância e a flexibilidade democráticas das pessoas de bem desta Pátria que deve ser de todos, mas que um punhado teima em tratá-la como feudo à mercê de uma seita política apostada na perpetuação de sistemas caducos. (Redacção)

Correio da Manhã, Ano XIII, n.º 3168, Maputo, Quarta-feira, 07 de Outubro de 2009:

  • CAVALO DE BATALHA DE GUEBUZA “COXO”- Corrupção está em crescendo: Aquele que foi dos mais evidentes “cavalos de batalha” política de Armando Guebuza na sua corrida eleitoral ao mandato na sua fase terminal, a luta contra a corrupção, parece estar “coxo”, a avaliar pelos relatórios dos mais variados organismos de prestígio mundial. Para além dos dados da pesquisa da Fundação Mo Ibrahimo que faz manchete nesta edição, outro dado publicado esta semana dá conta de que o nível de corrupção em Moçambique aumentou nos últimos 12 meses. De acordo com os dados da Transparência Internacional, Moçambique está em 126º lugar, cerca de 15 lugares abaixo da classificação obtida no ano passado.
    Com um total de 180 países avaliados a lista é encabe çada mais uma vez pela Dinamarca, seguida da Nova Zelândia, Suécia e Singapura, num cenário em que dos lusófonos o Cabo Verde foi o único país a melhorar a classificação subindo de 49º para o 47º lugar.
    No relatório anterior Moçambique ocupava o 111º lugar. O mais recente (Set.09, vide Cm 3154, pág. 3) relatório sobre ambiente de negócios à escala mundial revela que Moçambique baixou a sua performance a nível da SADC, quando comparado com o relatório imediatamente anterior. (Redação)