1/27/09

HIV-SIDA - Moçambique: Triste história de Natal...

É uma triste mas real história de Natal:
Sem identificação, mas com HIV - Moçambique, Beira, 27 Janeiro 2009 - Andar sem bilhete de identidade (BI) se tornou factor de risco para o HIV entre as raparigas da cidade da Beira, na província de Sofala-Moçambique. Agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) têm abusado de sua autoridade para extorquir dinheiro e exigir sexo em troca de liberdade de moças que não apresentem os seus bilhetes de identidade ou passaportes. Segundo as vítimas, moçambicanas e estrangeiras, principalmente zimbabueanas, o acto sexual é desprotegido, aumentando as chances de infecção pelo HIV.

Foi o que aconteceu com Carolina Johane*, 26 anos, que diz ter contraído o vírus numa relação desprotegida com um agente da polícia em troca de liberdade, na noite de Natal de 2006.

No trajecto da igreja até a sua casa, no bairro de Chipangara, Johane e outras pessoas foram paradas por dois polícias, que exigiram os bilhetes de identidade. Os que não tinham identificação, inclusive Johane, foram levados até a 5ª Esquadra. “Mas antes disso, um dos polícias me disse em voz baixa: uma mão lava a outra”, conta.

Por medo de dormir na esquadra e depois ser expulsa de casa, porque não havia avisado a seus pais que iria à igreja, Johane ofereceu aos polícias 50 meticais (US$ 2). “Eles recusaram, alegando que não eram corruptos. Ameaçaram processar judicialmente por tentar corrompê-los, o que deixou-me com medo”, diz.

Depois de algumas horas, as outras pessoas foram soltas, menos Johane. “Comecei a chorar, implorando fazer tudo que desejassem para soltarem-me. Eis que um dos agentes perguntou-me se tencionava manter relação sexual com ele em troca da liberdade”, revela.

“Não tive escolha.”

Depois de cinco meses, o seu namorado, na altura na província de Inhambane, pediu que ela preparasse alguns documentos e fizesse o teste de HIV para uma candidatura a um emprego numa organização não-governamental. “Aí descobri que era seropositiva. Concluí logo que fui infectada pelo polícia, visto que sete meses atrás eu e o meu namorado tínhamos feito o teste de HIV antes de ele viajar e o resultado havia sido negativo”, diz.

Interessante e sem BI.
Essa rotina era familiar para Alfredo Chimaze*, polícia há 15 anos e afecto na 4ª Esquadra, na Munhava, o bairro periférico mais populoso na cidade da Beira.

Chimaze, 39 anos, é seropositivo e faz tratamento antiretroviral. Ele acredita ter contraído o HIV numa relação sexual com uma rapariga que deteve por falta de bilhete de identidade, no bairro da Muchatazina, nos arredores da Beira.

“Quando interceptava-se uma mulher sem BI que achássemos interessante nos patrulhamentos nocturnos, nós a persuadíamos a transar com um de nós em troca de liberdade”, conta.

“Elas, por temer dormir na cela, aceitavam o nosso pedido.”

Segundo Chimaze, eles enganavam as mulheres dizendo que elas seriam indiciadas por trabalharem como “isca de larápios” e responderiam em tribunal, onde seriam condenadas entre seis a oito meses de prisão. Porém, depois que um de seus colegas contraiu sífilis e chitaio (perda, no dialecto Sena) [doença tradicional transmitida sexualmente, ligada a um rito de purificação, e que causa dor nos pulmões, cansaço e dores de cabeça], Chimaze resolveu mudar.

Três meses depois da sua decisão, a notícia: a sua mulher havia sido diagnosticada com o HIV numa consulta pré-natal. Foi aí que ele soube que era seropositivo.

“Quando a minha esposa disse-me não duvidei, porque comecei a recordar aquilo que eu fazia”, diz.

O seu filho também nasceu com o vírus. “Eu ignorava os perigos que corria ao praticar esse acto, tendo em conta que uma equipa da saúde vem ao meu posto de trabalho mensalmente fazer palestras sobre ITS e HIV”, lamenta.

Moçambique tem uma seroprevalência de 16,2 por cento numa população de pouco mais de 20 milhões de habitantes. Beira, segunda maior cidade depois de Maputo, é a capital de Sofala, província com 1,6 milhões de habitantes e 26 por cento de seroprevalência.

Medo da discriminação e do desemprego.
Representantes do comando provincial da PRM na província de Sofala dizem não ter conhecimento da prática. Segundo Mateus Mazive, chefe da secção de imprensa da instituição, não há registo de denúncias populares acusando agentes da polícia de exigirem relações sexuais de mulheres sem BI em troca de liberdade.

“Andar sem BI não é crime, mas é um dever da cidadania. Se está a acontecer isto, pedimos que a população denuncie este mau hábito para que os infractores sejam penalizados pelo crime que estão a cometer”, afirma.

Dados oficiais mostram que há 93 policiais seropositivos na província de Sofala, todos em terapia antiretroviral e recipientes de um bónus de 30 por cento do salário para a aquisição de cesta alimentar, que ajuda com o tratamento.

Porém, Massada Elias João, coordenador do núcleo de prevenção de HIV/SIDA no comando provincial da PRM em Sofala, acredita que os números sejam mais altos, se for levado em conta o efectivo da polícia na região, que ele não tem autorização para divulgar.

“Acredito que haja mais polícias seropositivos na corporação que tencionam anunciar o seu estado de saúde, mas acham que fazendo isso poderão ser discriminados ou perder o emprego”, diz.

O núcleo de prevenção de HIV/SIDA no comando provincial da PRM em Sofala foi criado em 2000 pelo Ministério do Interior para sensibilizar funcionários da polícia. Segundo João, o núcleo conta com pouco mais de 100 educadores de pares, que semanalmente realizam palestras e sessões de vídeo para a prevenção do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. “Temos vindo a sensibilizar os nossos colegas para usarem correctamente o preservativo e levar as suas famílias para fazer o teste”, destaca.
- *Nome fictício jc/am/ll - PlusNews África Portuguese Service, 27/01/09.

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1/26/09

Ecos da imprensa lusa - SAÚDE: A Grande Mentira de Sócrates!

Enquanto em Portugal o sr. primeiro ministro faz propaganda televisiva e não só, repetitiva, chata, quase diária, pouco convincente e pacientes/beneficiários do sistema de saúde português lutam contra o desmantelamento do aparelho de saúde pública enfrentando com sofrimento a "ferrugem" burocratica de um sistema ineficiente, mau e atrasado pagador em comparticipações devidas, ativistas, reunidos em Belém-Brasil no Fórum Social Mundial da Saúde (FSMS), valorizam, acarinham e defendem que o SUS (Sistema Ùnico de Saúde) esteja mais próximo da população e seja considerado patrimônio da humanidade.

Segundo o ministro da saúde brasileiro "essa é a primeira vez que uma política pública será patrimônio da humanidade. É uma iniciativa dos movimentos populares e acho importante pela abrangência do SUS e pelo fato de que ele atende indistintamente todas as etinas, todas as nacionalidades que vivem no Brasil”, afirmou Temporão."

Entretanto, a mídia/imprensa lusa, com raras exceções que se contam pelos dedos, quase sempre discreta, gentil, pouco contestadora ou exigente a respeito, descreve hoje via "Distrito On Line - Informação Regional de Setúbal", em opinião do médico Pedro Correia Azevedo, o que realmente acontece no país governado pelo sr. Socrates quanto a Saúde que deveria ser pública, mas cada vez mais se transforma em "privada", para quem pode sim senhor!:

""A Grande Mentira de Sócrates - Vivemos um período de recessão, atraso de crescimento, dificuldades económicas… o que seja… ao povo português interessa o simples conceito de dificuldade em subsistir!

Para falar verdade, vivemos há tempo demais neste quadro negativo de relação social e estamos cansados de um discurso optimista de espera constante em que o pote de ouro no fim do arco-íris nunca mais é alcançado! Este tema domina as conversas de café, as tertúlias familiares à hora de jantar, as trocas de impressões entre colegas de trabalho… e toca todos os sectores da sociedade – dos mais abastados àqueles com maiores dificuldades. Urge a necessidade de resolução como se de uma inspiração profunda necessitássemos para nos sentirmos confortados depois do esforço realizado.

Na Saúde o panorama não é distinto. A falta de meios, que é tradução da falta de dinheiro e de vontade política, levou a um estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que já não consegue responder de forma satisfatória às necessidades da população.

Caso paradigmático de discussão acesa e opiniões fervorosas é a suposta falta de médicos em Portugal! Convictamente vos digo que Portugal tem 3,4 médicos por mil habitantes, enquanto a média da União Europeia é 3,2 médicos por mil habitantes – o nosso problema não está na falta de profissionais médicos no sector, mas na sua distribuição por especialidade e por área geográfica. Isto para não falar na redução dos incentivos para a realização da actividade e de algumas medidas castradoras dessa actividade enquanto Ciência que motivam muitos médicos a abandonar o SNS e a dedicarem-se à actividade privada.

Neste contexto volto a tocar naquilo que realmente interessa à população: os Cuidados Primários (vulgo, centros de saúde) – sendo a primeira face de abordagem da pessoa doente e da pessoa que busca aconselhamento médico!

Nesta área de acção, o nosso Primeiro-Ministro anunciou no último debate quinzenal, na Assembleia da República, a contratação de mais 250 novos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF, vulgo médicos de família), para colmatar algumas falhas nos Cuidados Primários!

Mentira!

Interessa perceber como funciona a formação pós-graduada de um médico que siga a carreira de MGF para entender a falta de verdade: findo o curso de Medicina, um médico passa por um ano de formação generalistas (Internato do Ano Comum, semelhante ao antigo Internato Geral) e depois por 5 anos de formação específica (Internato da Especialidade, semelhante ao antigo Internato Complementar), integrando à posterior o SNS já como especialista. Quer isto dizer que os 250 novos médicos de MGF, que José Sócrates diz ter contratado, são 250 médicos licenciados em Medicina em 2002, tendo realizado a formação generalista em 2003 e a formação específica entre 2004 e 2008 – no fim deste processo não lhes restava grande opção a não ser serem contratados para trabalharem numa unidade de Cuidados Primários.

Em todo o caso, o anúncio foi feto como se de uma grande medida se tratasse – se em teoria estes 250 profissionais fossem todos colocados na área da Administração Regional de Saúde de Lisboa de Vale do Tejo (ARS-LVT), não resolveriam nem metade dos problemas aí existentes.

A juntar a isto, o actual método de reestruturação dos Cuidados Primários começa a levar à ruptura de muitas unidades. Em traços gerais, apesar de em teoria a criação das Unidades de Saúde Familiares (USF’s) parecer em tudo positiva, acontece que os utentes não abrangidos pelas USF’s continuam a acumular-se nas antigas e tradicionais extensões dos Centros de Saúde que ainda não aderiram a essa reforma – o que assusta, é que mesmo que aderissem, muitos seriam os utentes que ficariam sem médico de família e sem apoio por parte das unidades, agravando a situação em que vivemos. No mesmo agrupamento de Centro de Saúde assistimos a realidades tão distintas como a Lapa e o Biafra! Urgem novas medidas mais coerentes com a realidade! Estas reformas não se coadunam com longos tempos de espera!

Para vos deixar um exemplo prático: no Agrupamento de Centros de Saúde de Almada/Costa de Caparica/Cova da Piedade existem 17 unidades, das quais 5 são USF’s e 12 funcionam ainda à moda antiga, algumas num molde antigo muito mau!

Lanço com isto a verdade para a discussão! É preciso mobilizar a Sociedade Civil para esta problemática.

Assim tenhamos todos opinião!""
- Pedro Correia Azevedo - 2009-01-26.

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1/23/09

O INCÊNDIO - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão).

(Clique na imagem para ampliar - Imagem original do ForEver PEMBA)

Passavam poucos dias que as aulas na escola haviam terminado e o espirito de férias já manifestava-se em nós através de inumeras brincadeiras: caça aos passarinhos, às escondidas nocturnas, o passeio desautorizado ao quartel da “Meia-Via”, o banho na praia do INOS, a visita ao navio abandonado nas imediações da base naval da marinha, a perseguição nos galhos das amendoeiras do jardim infantil, roubo de amoras e jambalão no quintal da SOGERE, entradas “roubadas” nos jogos de futebol do Estádio Municipal, entre outras.

Uma certa manhã de céu azul e de sol dourado, eu, Quino, Amur, Bacar – o filho do árbitro – e Kaidar, o filho primogénito do ché Omar, jogavamos o “bate-sai” com a bola de trapo junto à valeta que delimita os bairros de Ingonane e Natite, precisamente, atrás do belo monumento de emulação socialista, quando de súbito alguém entre nós gritou em macua apontando à zona cimento:

- Olhem pra aquilo!

Paramos o jogo; Kaidar pegou a bola, pôs debaixo do braço e pregou o olhar na direcção da zona cimento. Imitamos o gesto rapidamente e os nossos olhos viram uma nuvem enorme de fumaça preta que teimava subir ao céu acompanhada de grandes labaredas que ameaçavam engolir a zona intermédia entre o fundo do Hotel Cabo Delgado e o prédio Cunha Alegre.

- É o hotel a arder! – Disse Kaidar em voz alta.
- Não. – Atalhou Bacar e acrescentou meio excitado. - Parece o prédio Cunha Alegre...
- É inacreditável! – Gritei pasmado pelo acontecimento.
- Vamos ver de perto. – Sugeriu Quino fazendo movimento para caminhar.
- Não. Não dá, é perigoso. – Advertiu Amur visivelmente dominado pelo medo.
- Vamos, malta! – Insistiu Quino movido pela curiosidade.

Kaidar fitou a malta de esguelha por algum momento. Com uma espressão corporal que denunciava-lhe uma apetencia voraz de matar a curiosidade, cedeu a insistência do Quino iniciando a marcha decididamente com o destino ao coração da pacata e modesta cidade de Pemba, vulgarmente conhecido por “wa Texeira”, entre os nativos.

Timidamente o gesto foi imitado por todos nós e juntos precipitamo-nos a seguir um pequeno percurso da estrada, muito arenoso, que levava a zona urbana. Trajando camisas e camisetes cansados de uso, calças e calções desbotados, empoeirados, rotos nos tornozelos e nas nádegas e denunciando orgulhosa e humildemente a nossa origem, iniciamos, pouco tempo depois, a andar na estrada de terra batida, cor vermelha e poeirenta todos ofegantes e banhados de suor.

Enquanto caminhavamos curiosos, dos dois bairros vizinhos vinham gente despertada pela fumaça e pelas linguas de fogo assustadores que bailavam ao sabor do vento ameaçando à qualquer instante causar tragédia. Mais adiante, juntamo-nos a um grupo de homens, mulheres e adolescentes que também dirigia-se ao nosso destino.

- Dizem que um bandido armado ateou fogo os últimos quartos do hotel e fugiu à sete pés, sem deixar rastos. – Explicou alguém no meio da multidão.
- Ouviram?! – Questionou Amur sussurando e tomado pelo medo.
- Não é nada isso. – Tranquilizou Quino muito confiante. – Deve ser um boato.
- E se fôr verdade? – Interroguei-o contaminado pelo temor do Amur.
Quino não respondeu e limitou-se a marchar. Naquele momento ideias medrosas fizeram a minha mente sua oficina e diversas imaginações macábras passaram insistentemente na minha consciência, um tanto quanto, repletas de razão. Pois, a guerra de desistabilização estava nos seus momentos iniciais em Cabo Delgado, pese embora Pemba não se ressentisse tanto como em algumas províncias do centro e sul do país, donde vinham relatos de cenas aterrorizantes protagonizadas por bandos armados; Daí que, todo cuidado era pouco, e razão pela qual todos viviamos em constante vigilância, que na altura apelidou-se de vigilância popular. Porém, deixemos de lado esta página triste da história de Moçambique independente e voltemos ao mais primordial.

Volvido algum momento alcançamos a zona urbana. Atravessamos uma ponteca de ferros de linha férrea atravessados horizontalmente de uma extremidade da valeta principal à outra secundária muito pequena, que delimita a zona urbana e a peri-urbana e começamos a percorrer a avenida Eduardo Mondlane no seu lado asfaltado, que ficava à escassos metros do local do incêndio.

A cidade estava agitada, barulhenta e abarrotada de gente apavorada que aproximava e saia do local do incêndio provocando um murmúrio ensurdecedor. Tanto no hotel, assim como, nos estabelecimentos comerciais e nas residências das redondezas eram visíveis rostos espantados pelo acontecimento e indignados pela ausência de corpo de bombeiros na cidade. Já próximo do sinistro, homens e mulheres civis e alguns militares corajosos tentavam em vão extinguir as chamas com areia e água trazidas da vizinhança em pequenos baldes. Enquanto isso sucedia, na carroçaria do camião ressaltavam faúlhas muito reluzentes acompanhadas de um estalar constante de madeira e as chamas, por sua vez, elevavam-se cada vez mais ao céu ameaçando queimar os fios de transporte de energia eléctrica da rua 12.

No entanto, houve uma explosão repentina acompanhada de uma bola enorme de chamas vermelhas. Abrigamo-nos todos medrosos debaixo de uma das palmeiras que erguia no centro das duas faixas de rodagem da avenida Eduardo Mondlane.

- O que vem a ser isso? – Questionou Amur.
- Deve ser o tanque do camião. – Disse uma idosa que também abrigara-se numa das palmeiras próxima.
- Camião? – Inquiriram todos em coro e incrédulos.
- Sim. – Gritou a idosa arranjando-se uma das capulanas que lhe desprendera do corpo no momento da explosão. – É um camião militar que, sem mais, nem menos, entendeu pegar fogo no meio da estrada quando vinha roncando no sentido descendente da rua 12.

Quando a velha acabou de proferir estas palavras, deflagraram tiros de armas ligeiras no meio do incêndio, fazendo os curiosos correrem em debandada em todas as direcções. Nesse instante, um bando de corvos que grasnava nas palmeiras douradas do centro da cidade bateram as asas em vôo espectacular e desapareceram nas frondosas amendoeiras e incontáveis amoreiras do parque infantil do ring desportivo.

- Vamos pra casa, malta. – Anuiu Amur tremendo de medo.
- Nem pensar! – Contrariou Kaidar. – Agora que estamos aqui vamos procurar saber o que realmente está a passar-se.
- Concordo contigo! – Observou Bacar olhando para a fumaça cinzenta e escura que já abrandava de intensidade deixando mais nítido o camião militar em chama.
- Let´s go, malta. – Decidiu Quino iniciando a caminhada.

Retomamos a marcha já rapidamente por entre as palmeiras douradas da faixa central da grande avenida e pouco depois, alcançamos a rotunda das avenidas 25 de Setembro e Eduardo Mondlane que fica em frente do Hotel Cabo Delgado. Embrenhamo-nos corajosamente no meio da multidão e com muita agilidade como formigas encontramo-nos, finalmente, a escassos metros do camião em chama. Era um Ziro Russo, cor verde e de caroçaria de madeira. Tinha o vidro frontal caido e estilhaçado no capón, seis rodas grandes vazadas e em chama.

- Deus do céu! – Exclamei visivelmente excitado e continuei inquirindo. – Como foi possível isto?!
- Houve um curto circuito... – Respondeu-me alguém dentre os espectadores vizinhos.
- Ninguém morreu? – Quís saber Quino.
- Felizmente, não! – Disse uma senhora que se achava à nossa frente vestida ao rigor a moda macua: lenço na cabeça, blusa de manga comprida, brincos nas orelhas e no nariz, capulanas multicolores, pulseiras nos braços e chinelos nos pés.
- Mas porquê não criam um comando de bombeiros nesta cidade? – Questionou em voz alta um velhote visivelmente irritado com o que sucedia.
- Estão a espera que aconteça o pior! – Alguém respondeu no meio da multidão em tom de voz cómica.

Porém, as chamas consumiram o camião, por completo, no meio de olhares impotentes dos mirones e no fim, o fogo abrandou deixando o local poluido de fumaça esbranquiçada e espessa, acompanhada de um forte cheiro de borracha queimada.

Passado algum momento, a multidão foi esvairando-se até que não tendo mais graça a permanência no local, saimos dalí correndo e brincando animadamente o pega-pega com destino ao jardim infantil, próximo ao campo municiapal.
- Allman Ndyoko, 20/01/2009, para o ForEver PEMBA.
- Extrato do livro: Contos de Infância Distante.

O Autor:
-Francisco Absalão;-Nome artístico -Allman Ndyoko;
-Nasceu em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
-Residência actual - Maputo;
-e.mail's:

Leia:

  • "O Suicídio" - Um conto de de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 02 de Junho de 2008 - Aqui!
  • "A Origem - Ou como surgiu o povo Makonde", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 29 de Março de 2008 - Aqui !
  • "O Turbilhão Lendário", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 24 de Outubro de 2007 - Aqui !
  • "O Nó Sagrado", um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) - publicado no ForEver PEMBA em 19 de Março de 2008 - Aqui !

1/22/09

Cólera & cólera em Pemba... Desta vez em Mecúfi!

O que o "Notícias-Maputo" nos conta hoje sobre a "cólera" em Cabo Delgado/Pemba:

""Cabo Delgado: Brigada anti-cólera espancada no distrito costeiro de Mecúfi: Mais uma acção popular contra medidas anti-cólera teve lugar em Cabo Delgado, com o espancamento, há quatro dias, de um enfermeiro do Programa Alargado de Vacinação, um motorista e seis activistas, na região de Ngoma, distrito costeiro de Mecúfi, acusados de estarem a dissiminar a doença, numa altura em que, na capital provincial, Pemba, o número de doentes existentes no Centro de Tratamento da Cólera se elevou para 41, muito embora o de óbitos continue o mesmo (três) desde a eclosão da epidemia a 5 de Janeiro corrente.

O facto foi denunciado na segunda reunião que o Governo provincial convocou na quarta-feira para a avaliação do actual ponto de situação da doença, que neste momento, e segundo as estatísticas actualizadas, teve 177 entradas, sete das quais voltaram ao CTC, 141 altas, para uma taxa de letalidade avaliada em 1,7, havendo até às 7.00 horas daquele dia 41 internados por causa da cólera.

A pedido do médico-chefe provincial, Cesário Augusto, o secretário permanente, que dirigiu a reunião do Governo com todos os intervenientes no combate à colera, entre agentes da Saúde, líderes comunitários e presidentes dos bairros residenciais, para além de confissões religiosas e ONG’s, orientou a Polícia, em Mecúfi, para que esclareça o caso o mais rapidamente possível.

Enquanto isso, de acordo com o médico-chefe provincial, a enfermaria de cólera, constituída por três tendas, queimada por populares no bairro Eduardo Mondlane, na cidade de Pemba, está a ser reconstruída para voltar a funcionar, numa altura em que se suspeita que a qualquer momento o CTC que funciona no Hospital Provincial pode revelar-se exíguo caso a velocidade das entradas não venha a abrandar. Já foram montadas as três tendas e decorre a vedação do local por meio de capim, mas ainda se pensa na sua electrificação.

CRITICADA A APATIA DO CONSELHO MUNCIPAL.
No encontro, os participantes criticaram as reiteradas ausências de representantes do Conselho Municipal nas reuniões que visam debater a cólera, nas quais se avançam medidas de luta contra a doença, mesmo tendo em conta que ela não dá sinais de estar a diminuir.

De acordo com o médico-chefe provincial, apesar de o número de óbitos manter-se, o de entradas deve continuar a preocupar, se bem que há situações em que famiíias inteiras encontram-se hospitalizadas, sendo de concluir que as causas da doença estão longe de ser debeladas.

Intervenientes na ocasião estranharam que tanto na primeira como nesta reunião o Conselho Municipal pautasse pela ausência, estando em causa, por sinal, problemas de saneamento do meio, e pediram que quem de direito obrigasse os titulares do município a nelas participarem.

“Este Conselho Municipal parece que não sabe que estamos a tratar da vida dos municípes que controla. Isso, para além da incompetência que já nos habituou, está outra vez a nos mandar passear numa situação de tamanha aflição”, disse um interveniente.

O secretário-permanente, João Ribáuè, em resposta disse que o Governo provincial também se encontrava agastado com o funcionamento e neste caso com a não colaboração do executivo municipal chefiado por Agostinho Ntauale.

“Se o Conselho Municipal fosse um órgão que se demitisse há muito que teríamos feito isso em relação a este da cidade de Pemba”, disse aquele governante, antes de prometer que em dois dias far-se-á uma reunião em que obrigatoriamente o Conselho Municipal deve estar presente, ao lado da Saúde e o Governo provincial para explicar o que tem vindo a fazer nestes dias.

Da última vez, Agostinho Ntauale foi largamente criticado por ter pautado pela auseência, embora tivesse sido pedida a sua presença. Por extensão, boa parte dos seus presidentes dos bairros igualmente gazetou a reunião, o que intrigou os presentes. Na semana passada o nosso Jornal quis saber do edil o que se passava, ao que nos respondeu que a sua direcção estava representada pelos responsáveis dos bairros presentes.

Na oportunidade, Agostinho Ntauale dissera que a edilidade inclusive havia adoptado um novo horário de recolha de lixo, que terminava às 18.00 horas, justamente por causa da cólera.

Na reunião de quarta-feira, para além da ausência do seu presidente, o número de chefes dos bairros diminuiu ainda mais, mas a cólera continua a actuar, principalmente, nos bairros de Cariacó, Natite e Paquitequete.
- PEDRO NACUO, Maputo, Quinta-Feira, 22 de Janeiro de 2009:: Notícias.

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1/21/09

No "paraíso" comunista da China até discurso de Obama é falsificado...

(Imagem original daqui)

Na China, da "liberdade", dos "Jogos Olímpicos do século" dos "direitos desumanos", dos fuzilamentos e das perseguições ignóbeis ao cidadão, enaltecida e louvada por tanto "progressista" vaidoso em voga, nem o discurso de Obama escapa à censura. Afinal a quem querem enganar esses déspotas que humilham e calam seu próprio povo pela força da violenta ditadura comunista...?
Vem assim escrito no portal Terra de hà momentos:

""China censura trechos do discurso de Barack Obama.
Marina Wentzel - 21 de janeiro de 2009 • 07h50 • atualizado às 10h51 - Partes do discurso inaugural do presidente americano, Barack Obama, que falavam sobre "comunismo" e "dissidentes", foram censurados na China.

O principal canal de TV estatal, CCTV, e populares portais de internet tiveram que suprimir as referências feitas pelo presidente americano a temas considerados sensíveis na China.

No discurso de posse, Obama disse: "Lembrem-se que gerações anteriores encararam o comunismo e o fascismo não apenas com mísseis e tanques, mas com vigorosas alianças e convicções duradouras".

Na transmissão da CCTV, o áudio da tradução simultânea foi interrompido a partir do momento em que a palavra "comunismo" apareceu na tela e a imagem do discurso em Washington foi cortada abruptamente para o estúdio em Pequim.

O apresentador da CCTV pareceu ter sido pego de surpresa, mas deu continuidade ao programa perguntando para um convidado sobre os desafios econômicos que Obama enfrentará.

Os portais Sina.com e Sohu.com, muito populares no país, também tiveram que omitir a palavra "comunista" do discurso de Obama.

Dissidentes.
Outro trecho do discurso que foi suprimido dos principais portais chineses falava da "opressão de dissidentes".

"Àqueles que se agarram ao poder através de corrupção e enganação e silenciando dissidentes, saibam que vocês estão do lado errado da história, mas nós vamos estender a mão a vocês se estiverem dispostos a abrir seus punhos", exclamou Obama.

Sites em chinês, como o da agência de notícias estatal Xinhua, omitiram a palavra "comunista", embora a tenham mantido na versão integral em inglês.

Outro site popular, o Netease.cn cortou completamente o parágrafo que mencionava "comunismo e fascismo", porém deixou o trecho sobre "dissidentes", o que motivou internautas a comentar a passagem.

Nas versões online do discurso em inglês o conteúdo original foi preservado na maioria dos casos.

Já nas traduções para chinês, somente sites de Hong Kong puderam publicar a versão integral.

Leitores dentro da China continental, entretanto, não têm acesso a sites de Hong Kong, como os dos jornais Apple Daily e o Mingpao, pois estes portais são constantemente bloqueados pela censura.""
- BBC Brasil - BBC BRASIL.com/Terra.

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Rumo ao paraíso chamado PEMBA...

A paixão, a afinidade com Pemba pode parecer parcial, favorecimento, vício ou maluquice de velho... Pode ser e até será em parte, quem sabe? Afinal a distância, a imaginação, o tempo, a saudade tão ao jeito lusitano de ser relevam defeitos e enaltecem virtudes, belezas, exacerbam amores perenes, loucos, de idolatria, ardor, entusiamo... afinal de "paixão apaixonada" mesmo, como acontece com adolescentes, jovens, eternos jovens que desejamos ser pelo menos em espírito e sentir ao entardecer da vida e de todos os dias.

Mas, para que esse "complexo" de "parcialidade apaixonada" não se acentue e possa tranquilizar a consciência em busca do equilíbrio sempre necessário, transcrevo a "voz especializada" do portal "travel - iafrica.com", mesmo em inglês tal e qual é publicado, como prova de que minha "paixão" não é louca e tem razão de ser:
- Nota - Poderá traduzir "aqui"!

""
- Pemba Beach paradise, Article By: Richard Holmes, Tue, 20 Jan 2009 10:28.
As our Airlink flight from Johannesburg soars gently down into Pemba, the capital of Cabo Delgado province in far northern Mozambique, I'm keeping a beady eye out for all the trappings of tropical paradise. Palm trees, turquoise water, coral reefs, traditional dhows plying the water, crayfish big enough to be seen from the air... you know the deal. But baobabs on the beach? I realised then that a flying visit to Pemba was going to be more than your average tropical escape.

Situated on what is said to be the third largest natural harbour in the world, the town of Pemba — thanks to increased air access via direct flights on Airlink — is fast becoming the gateway to the fantastic beaches this coast has to offer and the islands of the Quirimbas Archipelago further north.

There's a range of accommodation on offer in the area — from guesthouses to backpackers — but undoubtedly the most luxurious place to stay is the impressive Pemba Beach Hotel. Arabian wind towers, terracotta walls and Moorish arches are a gentle reminder of the days when the calm waters of East Africa were a popular stomping ground for Arabian slave traders to load up their deadly cargo.

Thankfully nowadays the dhows you'll see offshore will be full of tourists and fishermen catching your dinner rather than slaves off to servitude in a distant land. Dhow cruises in the bay are just one of the many options popular with the tourists who come here to enjoy the balmy waters of the Indian Ocean... whether you're in the mood for adrenalin action or something a little more sedate there'll be something to drag you away from that sun lounger.

- Under da sea.
With warm waters, fantastic visibility and incredible array of marine life, diving is a popular option and the Pemba Beach Hotel offers a fully-kitted dive centre where you can do anything from a fun recreational dive right through to advanced certifications. Boat dives (with no launch through the surf!) can take you to a choice of sites within minutes, so you can easily spend a few days blowing bubbles.

One of the most popular sites is 'The Gap', where the reef drops off the edge of the continental shelf all the way to 120m below the surface. If that's a bit extreme for you, there are snorkelling spots just off the beach in front of the resort (equipment provided at the Club Navale) or you can hop on one of the regular snorkelling trips ($25) by boat to coral reefs further afield.

More of a hunter than a watcher? Andre Bloemhof runs regular fishing safaris (either full or half-day) where you can troll for Marlin, Kingfish, Wahoo, Dorado and Tuna on deep-sea reefs and in and around the stunning Quirimbas Archipelago. Starting at $300 per person it's an expensive day out, but is sure to get your heart rate going. For cheaper thrills you can also throw a line off the end of the resort’s jetty, where you might bag yourself a small Kingfish or Snapper.

- Drop the locals a line.
If you want to get a feel for how the local fishermen do it though, hop onto one of the dhow trips run by Kaskazini tours (at Pemba Beach hotel). Run by the ever helpful Genevieve, you can book yourself on well-priced dhow trips ranging from a sunset cruise with their local skipper to a five-day safari exploring the southern islands of the pristine Quirimbas Archipelago.

Sound like far too much exertion? The Sanctuary Spa is the latest addition to Pemba Beach, offering a range of treatments from this well-known South African spa group. Book yourself in for a bit of pampering with a front-row seat to the Indian Ocean.

When evening rolls around, the Quirimbas Restaurantr is the place you want to end up, tucking into the buffet that stretches on into the distance. Fragrant curries, fresh marlin and tuna on the skillet, crayfish tails to your heart’s content and a pile of prawns that does Mozambique’s reputation justice. White tablecloths, excellent service and the musical accompaniment of the Indian Ocean complete the picture of a perfect dinner in the tropics. The beachfront restaurant at the Club Navale is also an option for something more casual, but it’s a place best enjoyed at lunchtimes, eating barefoot with your toes wiggling in the sand.

- Hit the town.
Of course you don’t have to — and shouldn’t — spend all your time in the resort. The town of Pemba doesn’t have the impressive Portuguese architecture or attractions of some of Mozambique's larger towns, but a stroll through the market and Old Town are well worth a few hours, if nothing else to see a little of daily life in Cabo Delgado. The dusty streets occasionally reveal a quaint craft stall or carpenter at work, but the beach is really the place to catch a glimpse of day to day life in Pemba.

Start at the reed village of Paquitequete — a mostly Muslim community of fishermen where a 'Salaam' will elicit a warm smile and perhaps an offer to take their photograph. Children lay in the dust, women sell their catch on the beaches and talented carpenters fix their traditional dhows using the most rudimentary tools; while almost everybody pitches in to haul the fishing nets laden with sardines up the beach.

There are a few roadside markets in town where you can pick up colourful local cloth to take home, but if you’re souvenir hunting your best bet is the Makonde Co-op on the road from town to Wimbe beach, where men and children use rudimentary lathes and chisels to skillfully carve out statues, bowls and masks from enormous logs of indigenous hardwoods. It’s also just a few hundred metres from the airport, so a good place to stock up on souvenir for friends and family back home just before you leave.

And you’ll want to take home a souvenir or three. With a wonderful lack of the ‘bakkie brigade’ who descend on the resort towns further south, Pemba is the kind of place you’ll want to remember. The buildings may be crumbling, but the town still holds an air of Mozambique in days gone. The people are as friendly as ever, and as long as you don’t stray too far from Hylton’s hotel buffet you’ll never go hungry.

For more info:

  • Visit the "Pemba Beach Hotel & Spa" website for more information and to book
  • Airlink flies direct from Johannesburg to Pemba twice weekly, on Tuesdays and Saturdays. For more information on Pemba and the airline's 25 other destinations, visit http://www.flyairlink.com/ or call 011 961 1700.
  • "Kaskazini Tours" are as close as you’ll get to an information bureau in Pemba, and can assist with booking anything from accommodation and tours to flight. Their website should be your first stop when planning a trip.
  • Wimbe Beach is the most popular strip in town, and offers a range of guesthouses and restaurants to suit all budgets. If you’re staying at Pemba Beach Hotel it’s still worth a visit for an evening drink with the sand between your toes.