12/15/09

Apontamentos do Tito Xavier - Ilha do Ibo - Vista aérea em 1960


Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulos VIII, IX e X


Não Matem A Esperança - Capítulo VIII
O Verão ia quente. Nas obliquidades dos montes, a verdura fresca e saudável das vinhas desaparecia; iam amarelecendo sob as inclemências solares, os bagos dos cachos aganavam. O povo andava alarmado. Previa-se um ano seco. Os proprietários faziam contas de cabeça, multiplicando ou dividindo, somando ou subtraindo, e o resultado era sempre o mesmo: «Ao valha-nos Deus! Que desgraça a nossa!». A Casa do Povo nunca teve tanta assistência. As gentes queriam ouvir que dizia o «Boletim Meteorológico». Depois, nas ruas sem luz e cheias de buracos, discutiam e comentavam: «Ora vejam bem! Aqui, na Espanha, que é mesmo ao lado, a chover e nós a secar! Até nisto nos levam vantage!».

Em cada dia que nascia olhava-se Abões a ver se vinham nuvens escuras. Mas não havia meio. Os poucos trabalhos que antecediam as vindimas eram feitos às manhãs e, até mesmo assim, não se podia com aqueles calores: «Um home com estes escaldões até se lhe consomem os ossos.».

Os lavradores iam imaginando os salários que deviam dar aos trabalhadores, na iminência quase certa, por aquele andar, de fracas colheitas. Estes, adivinhando os intentos daqueles, lamentavam-se. A chuva, no Inverno, por vezes mal recebida, agora, porém, não era capaz de vir refrescar aquele estio tórrido, os vinhedos e os corações das gentes: «Raios partam esta vida! Quando se julga que endireita logo quebra!». E, tomando a fresca depois da malga de caldo, os pais contavam com os filhos ao colo, outros anos em que de vez de se vindimarem uvas se vindimaram passas: «Um ano, já lá vão sete cobre ele, é que foi. Quem colhia cem só tirou p'raí umas vinte. A desproporção!».

Baldadas as implorações à natureza, a plebe lançou os olhares e as suas preces para a capelinha da Nossa Senhora da Ermida. Lembraram-se d pedir ao pároco para que a santa fosse levada para a Igreja matriz numa procissão de velas. É que já num ano isso se fizera e a chuva caíra.

A aldeia movimentou-se. Ao longo dos caminhos e nas janelas das casas acenderam-se velas. Era estranho ver aquelas gentes de pavios a tremelicar na escuridão – pareciam figurantes de um filme histórico em desempenho de error. Em breve, a escultura da Senhora da Ermida, em cima dos ombros calejados, passava em seu andor repleto de flores. Os mistérios do terço eram rezados com fervor. O povo chorava. O povo que se embebedava e se anavalhava nas tabernas e nas esquinas, o povo que não pensava e fazia tudo que lhe mandavam fazer. Cânticos de louvor levavam à Senhora que sorria as esperanças dum povo que queria sobreviver e sorrir com ela, deitando para longe o enguiço da miséria.

E aquela, na Igreja, em altar mais rico do que o da sua humilde capela, quedava-se, de sorriso moldado pelas mãos do esculpidor, sob as arcadas silenciosas e frias que, aos domingos, as vozes das gentes, rezando, aqueciam.

E o povo, sempre devoto e fiel, continuava a acreditar no milagre da chuva.

Não Matem A Esperança - Capítulo IX
Indolentemente, baloiça-se nas suas pernas retezadas, roça o ventre no chão, e deita-se, preguiçosa, na sombra de um degrau. Três gatinhos, seus filhos, miando ansiosamente, acorrem, submissos, ao aconchego materno. Aquela estende-se ainda mais e as bocas esfomeadas ocupam-lhe o ventre. As folhas dos limoeiros e das macieiras revolvem-se sem destino à aragem da tarde. No alto, flocos de nuvens, umas metálicas e negras, outras azuis claras como os lilases, evolucionam cadentes, muito lentas, quase paradas... O sol, em rutilantes agulhas, trespassa a cortina daquelas, provocando cataratas no cimento. Ouvem-se risos desencontrados, acompanhados dos choros das crianças e dos ralhos das mães.

- Quero broa... Tenho fome... Dá-me, mãe, dá?...
- Já vai! Olha! Credo! Nem me deixas pousar o caneco! Santo Deus!

E as crianças calam o estômago com o pão de milho. (Crianças tão puras e inocentes! É pena que a necessidade, que é negra e triste, vos vá tornando más!).

Nas lajes do atalho, chocalham, agora, os socos de um camponês, à mistura com interrogações dezenas de vezes já repetidas.

- Pois é, Ti Tónio, a cava vai mal...
- 'Stá dura... Se chovesse... Mas não há meio de cair uma pinga d'auga...
- Deixe lá que se chovesse não era melhor. A rapaziada encharcava-se de lama...
- Pois é, mas no meio disto tudo que tal um copázio?!...
- Bá lá!... Já'agora!...

E o chocalhar dos socos, à mistura com conversas dezenas de vezes já repetidas, perde-se na distância, até se abafar na taberna do Manuel da Antónia.

Negros abelhões poisam e voam em procura do néctar das flores matizadas. Um pássaro, entontecido pelo lumaréu, ziguezagueia, espadanando as asas frágeis, as asas da sua liberdade. Poisa num galho da ramada e aí se queda, observando à volta a confirmar a segurança do pousio. O monodiar dos melros e pintassilgos, presos acolá naquelas gaiolas, entoando, talvez a esperança de amanhã poderem voar e cantar sem clausuras: nervosos, inquietos, para cá e para lá, olhando para todos os lados, como que desconfiados, chapinando na água, para depois se sacudirem donairosos. Na casota, o rafeiro ladra ao camarada que lhe roubou um osso e aqueles que parecem ainda mais inquietos.

Um pobre bate ao portão e pede uma esmola «pela alma de quem lá tem».

A criada enche os recipientes das aves burguesas com água e outros com painço. O papagaio tagarela. Os gatos espantam-se. E o Chico vem regar os limoeiros.

- Então o Zé?
- Foi p'ra França.
- Não me diga...
- Foi. Levou o Manel, tamém. Atão foram ver mundo!
- Há quanto tempo?
- Não me alembra bem, mas p'raí há dois meses. Pois foram. Já escreveram e dizem qu'stão muito bem.
- Melhor, melhor.
- Deus os ajude. Fartavam-se de trabalhar e não supria nada, agora vamos lá ver... Já que não se arranjaram cá que se arranjem lá. Aquilo são outras terras!

O Chico: camisa, calças e barba de oito dias, com uma carrada de filhos em casa: roxos, magricelas, semi-nús, a esburacarem o chão para mentirem à fome e que aguardam os primeiros contos de réis dos irmãos que estão em França para se vestirem e comerem mais à farta.

- Oiça lá, ó senhor Chico: não gostava de ir até França?
- 'Stá boa essa!... E a mulher e os filhos?... Isso é que mata tudo!... Se os tivesse já todos criados... Assim...

Não Matem A Esperança - Capítulo X
Não sei quando, onde e como protestaste para a vida. Conservo uma ideia vaga, uma ideia que, na sua vacuidade, me mostra a máscara de um sofrimento estranho, um sofrimento feito de humildade e amor que já é desta época.

Trabalhaste nas ruas e nos caminhos, calcorreaste as subidas dos montes da minha terra, o teu corpo habituou-se cedo, talvez cedo de mais, a sentir na carne a aspereza da vida. Nasceste pobre como a grande maioria daqueles que habitam este planeta, mas a tua pobreza deu-te a formosura de que os ricos se julgam possuidores. Cresceste nas dificuldades, espicaçada pela negrura da necessidade. Aos dezasseis anos caíste na cilada, como uma ave na ratoeira, armada pelos homens traiçoeiros. Aí ficaste cativa, debaixo da prisão do céu, com as nuvens destapando o sol e, ao longe, a melodia recriando-se por entre as escarpas, no fundo das quais, o rio corria manso, farto de vagar, lambendo os seixos e, no alto, mulheres rindo às gargalhadas e outras chorando, tingidas de luto. Já não eras tua. Tinhas-te dado. Foi amor? Loucura? Que foi? Pensaste muito e nada concluíste. É sempre assim: o repentino foge, corre-se atrás dele, mas depois vem a perpetuidade real, a dolorosa certeza de que a vida se prolonga para além das cordilheiras em que o sol morre e a lua nasce. E já não se pode voltar atrás. Há dois caminhos: ou se ergue a cabeça e se continua ou se a baixa e se cai depois; a mentira não se admite, o fingimento não serve. Continuaste. Porquê? Nem tu o saberás.

Porque será que as pessoas são tão más? Más como a fome que degola os inocentes que nascem das relações sexuais dos seres humanos, más como as guerras que os interesses fabricam e os políticos teimosos e fanáticos e cegos e gananciosos e maus sustentam, más como a manhosice das pessoas que lidam connosco nos cruzamentos e nos «stopes» da vida, más como, etc. Viveste no meio de pessoas más (como todos nós viveremos sempre), mas nunca te renegaste. Sofreste tudo com a paciência e a capacidade de amor que sempre te acompanhou. Sofreste a acção do tribunal da sociedade (sociedade porca e imunda) sem te importares, fazendo disso o alento para aguentar a vida, uma vida curta (como todas as vidas).

Acartaste canecos de água e de vinho para o patrão que te possuirá. Nunca exigiste nada. As lágrimas ficavam para a noite, na solidão da tua cama, com a lua a fazer carícias nas telhas da casa.

Nasceu-te um filho. Um filho de pai rico e mãe pobre (que culpa temos nós da ato nascer-se assim. Vale mais nascer-se ou só de pais pobres ou só de pais ricos: há mais igualdade. Mas outros vieram e cada um havia de ser o que quisesse e as contingências permitissem. Não serias muito feliz se vivesses ainda hoje. Ver filhos partir às portas das tabernas a serem maltratados por este e por aquele é coisa que nenhuma mãe gosta de ver.

Trabalhaste sempre, não desistias. Punhas rodilhas nos pés para que sangrassem menos. (Eu queria escrever a tua história com a fungível possibilidade de ela ir ao além túmulo! É-me impossível e terás de me perdoar).

O senhor rico chamou-te. Deu-te o mesmo tecto. Mas antes não o tivesse feito; é que o vias ir, na escuridão da noite, ao encontro de outra mulher e até as portadas das janelas trancava com tábuas e pregos. Nada dizias, o coração fervendo, os vómitos do desgosto à flor dos lábios, os nervos ameaçando partir.

Para matares a fome àqueles que eram do teu sangue ou imploravam debaixo das janelas (fala Peche! Diz como era, caramba!), tinhas que o fazer às escondidas de modo a não caíres nas embirrices de quem mandava. E, no entanto, o senhor rico que te seduzira, deixaria mais tarde proventos a quem nunca os mereceu e nem sequer eram de sangue igual, sabiam latim, cultivavam malícia. Mas não importa, pois não? Contentem-se os famintos.

Morreste ingloriamente numa tarde inglória da minha infância. Pediram um padre para que te fosse pôr no chão onde todos acabamos por apodrecer e esquecer, mas não veio ninguém. É que tu não eras casada à face da Lei e da sociedade, Porquê? Não sei. Pergunta-lhes, talvez os pseudomoralistas deste mundo te saibam responder.
- Continua.

12/14/09

Corrupção em Cabo Delgado aumenta: Mais de 50 milhões de meticais roubados ao povo.

Durante o ano em curso, em Cabo Delgado, Roubados mais de 50 milhões de meticais do erário público.
No entanto, o governador de Cabo Delgado, Eliseu Machava, diz que os níveis de corrupção, em Cabo Delgado, estão a reduzir graças a reformas do sector público.

A Procuradoria Provincial de Cabo Delgado registou, durante este ano, um total de sete processos de desvio de fundos do estado, que ultrapassam mais de 50 milhões de meticais, dos quais dois foram acusados e julgados.

Estes dados foram tornados públicos na última sexta-feira durante as comemorações do dia mundial de combate à corrupção. Os setes casos notificados foram subtraídos de um total de 14 processos de corrupção notificados durante o ano em curso, segundo fez saber Emília Chirindza, procuradora-chefe provincial.

Os processos em alusão, segundo a nossa fonte, envolvem funcionários do estado que se dedicam a extorsão de valores a cidadãos que se dirigem a diversas instituições, procurando vários serviços, o que faz crer que na função pública a corrupção ainda está longe de ser eliminada. Chirindza foi categórica ao afirmar que o conceito corrupção, formas de manifestação, seus efeitos e razões do seu combate exigem uma reflexão profunda de toda a sociedade.

O governador de Cabo Delgado, Eliseu Machava, disse, na ocasião, que as reformas do sector público, introduzidas nos últimos anos, estão a concorrer para a redução de casos de corrupção na função pública, afirmando que o governo vai sempre levar a justiça os funcionários que se envolvem em esquemas de corrupção.

“Porque os cidadãos que se envolvem em esquemas de corrupção desprestigiam os esforços do governo no combate à pobreza absoluta e envergonham os demais funcionários honestos”, lamentou.

Entretanto, cidadãos entrevistados pelo o “O País” foram unânimes ao afirmarem que a corrupção não está a diminuir, mas sim a aumentar, contrariando, deste modo, as declarações dos governantes.

Miguel Akanaida, jornalista do jornal Horizonte, uma publicação local, disse a este matutino que todos os dirigentes do governo, em todos os níveis, são corruptos e são da mesma “panela”.

“Todos são ladrões aqui em Cabo Delgado. temos exemplos claros de corrupção envolvendo administradores de Quissianga, Manuel de Limas Mário, de Macomia, Xavier Vancela, e de Namuno, Casimiro Calope, que roubaram fundos de iniciativa local, mas nada está acontecer. O tribunal diz que não tem provas, que provas quer? Se há cópias de cheques que até à imprensa teve acesso, não há nenhum combate à corrupção. São os mesmos que dizem isso”, acusou.

Para Gilberto Machona, em Cabo Delgado há sempre ladrões de fundos do estado, mas em nenhum momento foram julgados e condenados. “todos os anos bombardeam-nos com a mesma música. Como é que estão a combater se os ladrões dos fundos do estado andam impunês?”, questionou.

Em janeiro deste ano, cinco funcionários da direcção provincial do Plano e Finanças de Cabo Delgado, incluindo o respectivo director provincial, Paulo Risco, tinham sido detidos pelo ministério público, acusados de roubar mais de 50 milhões de meticais.

Sobre este assunto, Nazimo Mussá, porta-voz da procuradoria provincial, esclareceu que todos os cinco funcionários vão ser julgados em data a anunciar. “O tribunal está fazer o seu trabalho e como não podemos interferir, estamos atentos a espera que isso aconteça. O certo é que vão ser julgados”, prometeu.
- SEGUNDA, 14 DEZEMBRO 2009 08:53 REDACÇÃO - O PAÍSOnLine.

Pemba: Construções ilegais não mais vão ser permitidas... Assim prometem!


Pemba: Presidente do município promete mão dura contra construções ilegais - O presidente do município de Pemba, Sadique Yacub, disse que vai haver mão dura contra construções ilegais na cidade, grosso modo, de barracas e lojas edificadas nos passeios da autarquia, visando corrigir os erros cometidos no passado, facilitados pelos secretários de bairro que concederam licenças, igualmente ilegais, para que tal fosse possível.

Yacub, falando durante a V sessão ordinária da Assembleia Municipal, que decorreu de 7 a 9 de Dezembro corrente, disse que para tal vai agravar as taxas a pagar pela ocupação dos espaços que foram cedidos em conluio com os secretários dos bairros e os residentes que quiseram com isso tirar proveito, em detrimento da boa circulação dos peões e viaturas.

“Por exemplo, os passeios da avenida Eduardo Mondlane, todos foram ocupados por barracas, lojas, barbearias, enquanto que a estrada tinha reservado largos passeios e a passagem da vala de drenagem que evacua todas as águas cépticas da montante para o mar”.

O presidente do Conselho Municipal, acrescentou que naquela avenida ocorrem muitos acidentes, pois os peões disputam as estradas com as viaturas, não havendo sequer espaço para aqueles evitarem os automobilistas que por sua vez vêem-se na contingência de transitarem com medidas acrescidas de precaução, se bem que a avenida acabe ficando muito estreita, devido às pessoas que a invadem.

Este cenário contrasta com os esforços envidados durante largos anos visando a construção de um mercado municipal, localizado na mesma avenida, entretanto não utilizado pelos vendedores que preferem edificar barracas, nas bermas da estrada.

“Nós construímos um mercado, mas os agentes económicos não o estão a utilizar, consequentemente o municipio não está sequer a recuperar o dinheiro investido, quando na mesma rua há concorrentes que construíram ilegalmente os seus respectivos postos de venda”, disse.

Para estancar este estado de coisas, o municipio, segundo o seu presidente, vai aplicar uma taxa de 3000,00 Mt pela ocupação do espaço e pela actividade comercial ao mesmo tempo que vai baixar significativamente as taxas a pagar pela ocupação das bancas no mercado municipal.

“Vamos baixar as taxas no mercado e agrava as taxas das barracas que estão em locais impróprios. Quem não aguenta que vá ao mercado. Não podemos destruir, porque isso implicaria que tivéssemos que indemnizar as pessoas, porque de alguma forma houve quem em nome do município autorizou a construção. A saída é essa, pagam-nos muito dinheiro ou vão ao mercado, onde estamos à espera das taxas e temos muito lugar desocupado”, determinou.

Enquanto isso, a Assembleia Municipal na última sessão deu aval à proposta do Conselho Municipal, do orçamento para o exercício de 2010, que aponta para uma receita e despesas de 102549000,00 Mt, superior em 22,59 por cento, quando comparado com o do ano anterior, se bem que estava fixado em 83655000,00 Mt.

O órgão não viu inconvenientes para o aprovar por reunir todos os requisitos exigidos por lei para a sua aceitação, para pôr em marcha o funcionamento da edilidade durante o próximo ano em que as rubricas que vão consumir maior fatia serão as despesas com pessoal, 17314528,00 Mt, e bens e serviços, no valor de 16554500,00 Mt, para o que a Assembleia Municipal aprovou uma resolução, a 12/2009, de 8 de Dezembro deste ano.
- Maputo, Segunda-Feira, 14 de Dezembro de 2009:: Notícias.

12/11/09

Apontamentos do Tito Xavier: Ilha do Ibo - Fortaleza de S. João Baptista


Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

MANGONDÈ


Um bando de aves em vôo apressado cortaram a aldeia em diagonal enquanto andorinhas em seu estilo característico batiam as asas em franca liberdade no céu claro, fresco e azulado de Mahunda.

Kabwela, um homem afável da linhagem vamatambwe, alto, forte, de rosto tatuado e dentes afiados conforme mandava a tradição, atravessou o limiar da povoação empunhando uma catana na mão e levando nas costas um arco e flechas e seguiu um carreiro serpenteante que conduzia à floresta adentro. Andou no meio da floresta cerrada e tenebrosa ouvindo os pássaros que lhe cantavam serviçalmente naquela manhã bela e boa para um passeio no bosque. Com a barba desleixada, descalço, palmas ásperas e um andar na floresta experiente, Kabwela marchava firme com a fisionomia denunciando um homem maduro, vivido e que deleitara e usara abusivamente os prazeres da vida.

Entretanto, aproximou-se a uma moita bem tenebrosa e logo deteve-se com pasmo. Recuou dois passos e voltou a deter-se fazendo bater as pálpebras vezes sem conta. Passou a mão aos olhos, esfregou-os rapidamente e continuou olhando fixamente na moita. Em frente dos seus olhos uma figura humana envolta em pano branco, semelhante ao que se envolve aos cadáveres, lhe aguardava cabisbaixa e em silêncio tumular. O sujeito tinha a face pálida, olhos esbugalhados e um olhar apavorado que denunciava uma excessiva insatisfação. Kabwela olhou-o fixamente e no fim, pareceu-lhe familiar. Matutou insistentemente procurando se lembrar do homem. Rapidamente veio-lhe a cabeça. Deitou no chão a catana, o arco e as flechas que trazia e tremendo de medo no meio da floresta fugiu a sete pés com as mãos sobre a cabeça e gritando aos berros:

- Acudam-me, acudam-me, acudam-me...

De repente, a figura em volta em pano branco seguiu o gesto correndo atrás de Kabwela de forma incrível e sobre-humana. Pouco depois, Kabwela tropeçou um tronco escondido e enterrado no capim alto que predominava a floresta e logo o sujeito alcançou-o. Apeado em sua frente, o sujeito olhou-o assustadoramente com olhos ofuscantes e lhe rodeou com ar ameçador. Parou levando a mão às costas e, com uma rapidez indiscriptível, começou a bater Kabwela com uma haste delgada e flexível que parecia de uma árvore. Kabwela gritou forte e profundamente provocando um eco na imensidão da floresta, que se propagou imediatamente chegando a ouvir-se nas palhotas iniciais da povoação. No entanto, o sujeito bateu-lhe forte e feio e logo as lágrimas não tardaram a saltarem-lhe dos olhos. Desesperadamente tentou erguer-se para se escapulir, mas o homem de pano branco impediu-o deixando-lhe cair no tapete verdejante da floresta. Passado um momento, o agressor parou. Uma tempestade forte fustigou, repentinamente, a floresta e, precisamente, no ponto onde Kabwela lutava em vão para se pôr em fuga. Nesse instante, o agressor desapareceu misteriosamente entre nuvens densas e negras que, inexplicavelmente, formaram-se naquele ponto do bosque. Nisto, Kabwela ergueu-se com a cabeça mergulhada entre os braços. Soluçando fez uma ronda com os olhos em volta da floresta e temeroso fugiu, novamente, a sete pés fazendo caretas de dor.

Sem olhar para atrás, Kabwela, correu incansavelmente como um antílope e depois de muito tempo e de uma fuga desorientada desembocou na aldeia reiniciando os berros como uma criança.

A povoação parou e os aldeões curiosos seguiram o infeliz cerimoniosamente até a sua palhota, onde no meio do quintal deixou-se cair chorando fortemente esgravatando a terra e, de vez enquando, cerrando os punhos cheios de areia. Kabwela chorou durante muito tempo lacrimejando copiosamente e depois calou-se. Dois anciãos sairam no meio dos curiosos que o assistiam e ajudaram-o a erguer-se do chão. Depois, banhado de areia, encaminharam-o à palhota, onde após uns breves instantes de silêncio, os anciãos quiseram saber:

- O que sucedeu?

Kabwela calou-se. Passado algum momento suspirou profundamente, mergulhou a cabeça nas mãos e mentalmente começou a reviver o que lhe sucedera na floresta. No fim, soluçou uma vez e tremendo, respondeu:

- Ia andando a caminho da floresta, onde tencionava visitar as minhas armadilhas e arranjar algumas estacas para concertar o celeiro, quando, de súbito, numa moita tenebrosa vi um vulto envolto em pano branco. Parei, olhei fixamente e vi que era alguém que conhecia e que já não está no mundo dos vivos. Fiquei assustado e fugi. – Kabwela voltou a chorar fortemente limpando depois com a costa da mão um fio de ranho que lhe escorria pela narina abaixo. De seguida, calou-se e voltou ao ponto onde havia interrompido. – A pessoa perseguiu-me e junto de um tronco cai...

- É um mangonde. – Concluiu um dos anciãos. – É preciso sadaca para que não volte a reaparecer-lhe.

- Ele está aborrecido com alguma coisa. – Disse o outro ancião. – E para saber o que é será preciso consultar um wihyango.

- Não é preciso consultar a ninguém. – Disse Kabwela triste. – Ele é meu avô que não cheguei de conhecer e segundo os relatos da minha mãe, ele faleceu na floresta de kundonde, presumivelmente, devorado por leões quando voltava a povoação. Uma vez que não se teve certeza desse acontecimento, ninguém fez matanga. Quando hoje me batia, o avô fez referência a este assunto e advertiu-me que caso não fizesse nada algo fatal me sucederá.

- Então, faça a cerimónia o mais breve possível. – Disse um dos anciãos. – Os mangondes não mentem e podem matar.

- Farei o mais breve possível para que o avô descanse em paz. – Disse Kabwela aterrorizado.

- Estas situações são frequentes e as pessoas que normalmente fazem isto são as que lhe negamos a cerimónia relativa à sua morte. Quando isto acontece eles vagueiam aqui na terra e não são recebido no mundo dos ancestrais. – Disse alguém entre os dois anciãos.

- Então, quer dizer que matanga constitui para os mortos um cartão de entrada no mundo dos antepassados. – Concluiu Kabwela juntando os braços no peito.

- É sim um cartão muito importante para os mortos entrarem no mundo dos antepassados.– Respondeu uns dos anciãos sentado à beira da cama dentro da palhota iluminada por uma lareira que ardia lentamente no centro exalando uma densa fumaça branca. – E para provar isso, a agressão feita hoje basta para ilustrar a importância que a cerimónia tem para as pessoas que passam para o outro lado do mundo.

Entretanto, os anciãos deixaram a palhota e foram às suas vidas, um gesto também imitado pelos curiosos que cercava o quintal do Kabwela.

Dias depois, Kabwela fez matanga tendo , em memória ao seu avô, dado, no seu quintal, uma festa de invejar, onde os aldeões de Mahunda evocaram os espiritos dos antepassados de Kabwela, comeram, beberam e dançaram ao som secular dos tambores. Assim, após aquela festa pomposa à meneira makonde, Kabwela jamais voltou a avistar algo semelhante com o que havia visto na floresta naquela manhã clara, fresca e fatídica, confirmando-se assim o pensamento popular sobre a questão...
- Allman Ndyoko, 19/03/2008.

GLOSSÁRIO
Vamatambwe – Pessoas da linhagem matambwe;
Mangonde – Espirito ou fantasma;
Wihyango – Advinho que também pode ser curandeiro;
Kundonde – Zona baixa do planalto dos makondes;
Matanga – Cerimónia ou festa alusiva a morte de alguém familiar;
Sadaca – Festa que se oferece as pessoas após ter prometido ao antepassados fazer em sua memória.