3/19/10

SELVA EM PAZ - Capítulo I

Capítulo I - O borracha, motor fora de borda, em várias travessias, colocou o pelotão na ilha de Edugo orlada de palmeiras, na embocadura do Zambeze com o Índico. Poderia ser, num prospecto turístico, um apelo de viagens de sonho; um daqueles lugares que os nostálgicos de paragens ignoradas procuram a vida inteira; lembrava um atol a rir-se da tecnologia.

Após contactos com o Samaçôa, bivacámos no terreiro em frente da sua palhota, abrigados por uma desconforme mangueira. Antes que a noite chegasse, comemos os restos da ração do dia: concreto de fruta, doce de pêra em tubo de plástico, como o das pastas dentífricas, e fluido de chocolate. O céu estrelado distraiu-nos do desespero mosquitado e dispensou os turnos de vigia.

Aliviados pela chegada da manhã, levantámos a tenda e perdemo-nos no paraíso de mil almas que vivem da mandioca e de algum caju donde conseguem uma aguardente postiça que lhes amoina as horas. É uma extensão administrativa do Posto de Bajone e, para irem e virem, deslocam-se em almadias, manobradas por remos espalmados em forma de guitarra, cirandando como barquinhos de papel pela correnteza de manhas conhecidas. Respira-se uma atmosfera de comunhão, colorida e sem pecado, a que não falta, sequer, uma rudimentar escola com paredes de bambu e cobertura de macubares num impressionismo tosco. A ordem de patrulha fixava, nesta paragem, a indagação de hipotéticos esconderijos de armamento e, a existirem, a sua captura. O Samaçôa, plágio fisionómico dum Gungunhana cinematográfico, rira-se, sonoramente, exibindo uma invejável saúde dentária, quando lhe manifestámos tais desconfianças. Dispensado o seu acompanhamento, batemos toda a ilhota, com demorada minúcia os outeiros de espinheiros, revolvemos círculos arenosos, aproveitando para lavar os corpos na rebentação das ondas, e confirmámos que melhor seria procurar uma agulha num palheiro. Antes da retirada, com a benevolência sorridente do corpulento caudilho deste pergaminho geográfico e da ganapada da escola, o enfermeiro fartou-se de dar consultas e distribuir comprimidos LM para o paludismo...

Atroando a selva - essa contradição de medos assombrados e harmonias de Vivaldi -, com a bicharada a abandonar as bermas e repetidas proibições de apontar a guelengues destrambelhados, chegámos, motores a fumegar, às imediações de Mocubela envolta numa espantosa claridade a espreitar por entre as mucibes de uma chiteta. Demos conta de um mulola aprazível e, logo ali, lavámos as caras sem nos importarmos com alguns nemas que, na borda, pachorrentamente, matavam a sede. Um pouco adiante, abria-se uma pequena chana de capim rasteiro, atalhada por murilaondes e palmeiras de cinco andares nas quais cantavam chiricos e - pareceu aos mais entendidos em ornitologia tropical - alguns barucos de mau agoiro.

Entrámos por um trilho, anavalhado no sopé de um monte, a desembocar num amplo quimbo em que tumultuaram, repentinamente, crianças desnudas, com barrigas de fuba, gritando aiués, pedindo quinhentas e disputando-as entre alegres tatiés e makas inocentes, ante a benevolência sorridente de velhos que, debaixo de uma mulemba, fumavam macanha como sobas à espera de vassalagem. Depois de os cumprimentarmos, em obediência à psico, dirigimo-nos ao Posto Administrativo, onde nos recebeu um descendente indiano. Depois de saudações efusivas, «Ora viva a civilização!...», facilitou-nos um telheiro nas traseiras dos seus reduzidos aposentos. No meio da conversa informativa da situação no terreno, arremedo de briefing de tropa menor, o jovem Chefe de Posto não resistiu ao seu memento familiar: filho de goeses, fugidos à invasão indiana, vociferava o seu anti-Nehruismo com uma convicção tão profunda quanto a aversão - quase ódio - marcada nos olhos. Despedimo-nos até à noite.

Mocubela fica num elevado sobranceiro ao rio Muchode, encontro de rotas para Pebane, Mocuba, Bajone e Molivala. Talvez por isso, ou porque a ambição, muitas vezes, se gera no ventre da aventura e se sublima na desforra de um passado indigente, logo se nota, no bravio do lugarejo, uma cantina - sucedâneo de locanda metropolitana - em que tudo se mercadeja: mandioca, cigarros, cerveja, vinho desgraduado, chitas garridas, gingas, rádios a pilhas, castanha de caju, peixe seco, farinha, alpercatas, petróleo, levas de contratados para os mares de chá do Gurué ou para a construção civil de Blantyre e Quelimane, óculos de sol, balalaicas, um rol infindável de precisos e apelações que – aqui como em qualquer lugar - as barrigas dispensam mas os olhos comem. É uma daquelas terras em que se vive por desconhecimento de horizontes diferentes, fruição caciqueira ou voluntarismo solitário.

Saltou-nos ao caminho um entroncado europeu de cara curtida pelo sol, olhos de eremita e sotaque das fragas transmontanas que a convivência autóctone não roubara. Tínhamos que o visitar no fim do dia, «desse para onde desse», para «bebermos umas cervejas e matar as barrigas de misérias, mas tem que ser o pessoal todo, ouviu?». Quando se confirmou a recíproca naturalidade regional quase nos esmagamos numamplexo de estremecimento: «Não percam muito tempo a andar por aí a gastar as botas e os canastros, aqui não há turras... Tomara Vila Real ter este sossego...»

A volta pelas Regedorias não escapou das regras. Em todos os pontos onde uma vida - uma só que fosse - pulsasse, distribuíamos panfletos apólogos, oferecíamos préstimos de curativos primários, transportávamos os que vinham das machambas distantes, interessávamo-nos pelas rotinas dos seus viveres, distribuíamos cigarros; os que, por desconfianças atávicas ou recusativos assumidos, esboçavam fugas à nossa chegada, erguíamos as armas, bem ao alto, bradando palavras de pazeamento; nem mesmo nos locais em que as coordenadas da carta conjecturavam esconsos e exigiam interrogatórios, as ameaças se esboçavam ou a prepotência se materializava.

Ao lusque-fusque, quando o sol levita num desmaio de paixão, as fogueiras inundam os terreiros, o mato se afunda num silêncio de justo, a bicharada se apronta para a caça da sobrevivênvia e os clamores irracionais do cio procuram respostas cevadas, o cantineiro transmontano, sob o alpendre da sua casa, distribuía Laurentinas geladas e sacos de amendoim.

- Não encham a barriga já! Depois não há lugar para o churrasco! – galhofava o Senhor Joaquim, seu nome de baptismo, mas conhecido por Vila Pouca. – Aqui toda a gente tem que me chamar por Vila Pouca, falta o Aguiar, mas era muito comprido e não calhava bem aos ouvidos desta cambada...

Abandonara a sua toca com carta de chamada de um primo estabelecido na Beira e enfeitiçara-se por uma mulata de corpo brasido. Como as servências familiares se cansam mais rapidamente que as estranhas, procurou um pouso em que fosse patrão. Tinha que ser um refúgio para, no desconhecimento, cumprir a sua felicidade, mas não um desterro sem poder desmaninhar o futuro. De fala em fala, pombos-correios verbais que vão tão longe que nem se percebe como chegam e não se perdem, andou por Mocuba onde já quase tudo estava desbravado. Tentou Pebane, com horizontes líquidos a abrir intentos, e cedo espertou que o seu assento deveria ser (re)criado na falta de concorrência... Descobriu, então, este lugar numa viagem de caçador, calculou necessidades de consumo e antecipou o prazer pelo espanto dos conhecidos.

- Chamaram-me de tudo: maluco, cafre, fugido da justiça e da mulher, eu que nunca casei, nem caso... Eu sei lá!... Até um parente afastado, a quem escrevera, me comunicou que constava, lá na terra, que eu matara o meu primo e andava fugido no mato!... Um riso!... Sabe, conterrâneo, as pessoas do puto são mais maliciosas que esta pretalhada...

Joaquim estava em África como se nunca tivesse sido de outro lugar. Bebeu água do coco, montou um arimbo, comprou umas bicuatas, arranjou um cabire para lhe espantar as invejas, mastigou muita ginguba, armou- se de maneliqueres e carabinas com que abateu fantasmas de ciúmes, caçou para a panela, perseguiu feras nos mangais e nos papiros de Marromeu, foi guia casual de safaris encomendados no Malawi, comeu cima com as mãos, encomendou-se a Nzambi, mandou ler os astros ao quimbanda mais afamado das redondezas, enfeitou-se de missangas, aprendeu o Macua e só não consultou os cuchcucheiros das lonjuras inóspitas, porque, já no chão natal, cimentara um ódio de estimação a todas as bruxarias desde que viu a Mãe matar galinhas e espalhar sal sobre o sangue para arredar maus olhados. A sua cantina e a lavra circundante, mais do que uma afirmação de posse, eram o seu entrelaçar africano, o seu pacto de sangue com aquela terra vermelha.

- Sabe, Alferes, já tenho o meu rectângulo para ficar. É no cemitério indígena, sou igual a eles... Só há uma diferença: quero uma cruz à cabeceira, e a minha mulatinha tem que rezar, todas as semanas, enquanto for viva, um padre-nosso e uma avé-maria que ela já se converteu à nossa religião, percebe?...

Lirila, a mulata do seu feitiço, de cabelos já brancos e barriga de alguns partos, ainda sinalizava, por entre as pregas do rosto de meia de leite escura, fagueiros antigos, engrandecidos por um riso que nenhum publicitário descobriria. Tinha o catitismo de uma matrona de favela brasileira ou de temba de coqueiros e a matiz da generosidade assimilada em comunhão de muitos anos. Pintara-se e aspergira-se para nos receber, distribuindo, de sorriso sempre feito, cervejas e pratos de mendubi como se quisesse quebrar acanhamentos. Domesticava a casa de alvenaria, construída junto à cubata antiga conservada como memorial, onde não faltava um gerador para iluminar as noites, alimentar a arca e o rádio, girar os discos e as ventoinhas de pé alto.

- Tem filhos, Senhor Joaquim?

- Cinco! – atirou sorridente. - Estão todos fora. O mais velho trabalha no chitengo da Gorongosa, anda lá a ensinar ricaços a caçar; dois estão em Lourenço Marques, um no comércio, tem um estabelecimento de roupas ali para os lados do Alto Maé, outro é escriturário no Polana. Os dois restantes, mais novos, um está nos serviços de terra da Deta, na Beira, e o mais novo de todos em Lisboa a estudar para advogado, vem cá uma vez por ano, de Julho a Setembro, quando são lá as férias grandes, mas o gajo já não está afeiçoado a isto, já me disse que, se calhar, ficava na Metrópole. Sabe como é, você para lá vai, os filhos só estão connosco quando lhes mudamos os fundilhos, depois querem andar à sua maneira, só servimos para calar as suas exigências. É a puta da vida, a gente cria-os e a mais não tem direito. Ó Mulher, então essas frangas nunca mais se comem? – rematou Joaquim, olhando-me matreiramente.

Ao fundo do quintal, dois mainatos, que manobravam as brasas sempre alimentadas com repetidas doses de carvão, como se a pergunta fosse para eles, espevitaram pressas, «tá cási patrão!», e deram mais umas voltas aos galináceos espalmados na grelha.

- Não acredito que o senhor fique aqui. Quando isto azedar vai até à terra.

- À terra?!... – exclamou por entre uma trovoada de gargalhadas. – A minha terra é esta! Julga que estou a armar-me em fazendeiro rico? Não tenho sisal, nem algodão, nem copra, nem chá, nem gado. A minha fortuna é isto que aqui vê – apontando, displicente, para as paredes que nos albergavam.

- A sua família...

- A minha família está toda em Moçambique, Alferes! Os meus Pais já morreram, o casebre onde viviam voltou ao dono, aquilo era arrendado. Ia voltar para onde? Para a serra guardar cabras? Para as minas de Jales? Para a lavoura, andar com uma besta a lavrar campos? E, depois, aquilo em Portugal não interessa nem ao Menino Jesus. Aquele velho de Santa Comba pôs o País à fome. Aqui há tudo: carne é só pegar na arma, mandioca e fruta é só apanhá-la, ninguém me aborrece. Sabe há quantos anos não vou a Portugal? Desde que saí de lá!...

- E se a Frelimo toma conta disto?

- E qual é o problema? Estou convencido de que, quando o velho morrer, que o tipo não é eterno, isto vai logo parar às mãos deles. Os americanos já se ofereceram para resolver isto, e nós, os brancos, também resolvíamos, mas o Ultramar é uma mina para os ricalhaços de lá. Não tenho medo nenhum da independência, pergunte aí se alguém tem razão de queixa de mim, só a malandragem...

- Então, a tropa que anda aqui a fazer?

- Você quis vir? Vocês andam todos obrigados ou não será verdade? Estão aqui porque os mamões de lá, que têm interesses cá, é que mandam nisto. Isto é tudo uma questão de massa, mais nada, o dinheiro não tem cor nem pátria. – Batendo-me paternalista nas costas: - Não quero desanimá-lo, homem! Deram-vos cabo da vida, andam aqui pelos cabelos, e dizem-vos que é para defender a Pátria, não é? A Pátria fazemo-la nós, a Pátria somos nós, a liberdade dum sítio, a fome na grande puta que a pariu, as invejas no raio que as parta, o sossego, o sono santo de portas abertas, a miséria no caralho que a foda... Desculpe lá, ó Alferes, você é da minha terra, porra!

- Nunca o chatearam?

- Chatearam como?

- O senhor fala sempre assim com as pessoas que não conhece, que nunca viu de lado...

- Ah! Já estou a perceber!... – cortou sorridente. - Mas quem é que sabe que eu existo?... Eu entendo o que diz... O meu amigo não tem cara desses... Há quantos anos – levantando-se de sorriso escancarado e braços abertos - não vejo um transmontano!!! Dê cá mais abraço! A Pide, aqui, sabe, anda entretida com os turras.

- Mas olhe que há muita tropa convencida de que está a defender a Pátria, não acredita nisso? Há muitas pessoas que pensam como o Senhor e isso soa-lhes a ingratidão.

- Alferes, não me leve a mal, isto são desabafos de um cacimbado... O meu filho mais novo, qualquer dia, também vai para uma frente e então é que vai ser...

Houve um mútuo descargo quando os mainatos anunciaram que estava tudo pronto. O senhor Joaquim gritou para o pessoal: «Toca a comer, malta! Se não chegar, assa-se mais, nem que esgote o galinheiro! Quem quiser com mais picante é só pedir!»

O Joaquim era, indiscutivelmente, um inconsútil transmontano: tinha um sorriso espontâneo como as montanhas da nascença e uma generosidade larga como os vales que aquelas defendem.

Quando abandonámos a sua quitanda já havia sombras dormindo nas caixas das viaturas e algumas nem se mexeram até chegarmos ao alpendre que o Chefe de Posto disponibilizara. Aqui, esperávamo-nos o jovem administrativo, sentado à soleira, a sugerir-nos uma visita, no dia seguinte, aos pontões da zona, mal o sol se levantasse.

Com as barrigas cheias, alguma etilização e disputa dos melhores turnos de plantão, o sono foi tão pesado que nem o silêncio nos acordou...
- Porto, M. Nogueira Borges - do livro "Lagar da Memória".
Continua...
  • Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!

3/10/10

Mundo não livre - CUBA, seus simpatizantes e seus prisioneiros políticos.

Transcrevo do brasileiro blog do Noblat de hoje, escrito por Merval Pereira, sobre os atropelos graves aos Direitos Humanos que o regime ditatorial cubano vem cometendo hà décadas, mais atualmente sobre seus prisioneiros políticos e o comportamento injustificável de representantes do governo brasileiro que, ao contrário do que apregoam e procedem contra Honduras e outros, vêm avalizando e justificando com pretextos "rotos", lamentáveis, tais crimes. Uma pena. Mas assim se vão revelando ao povo que vota as verdadeiras "faces" de aparentes democratas:

Contradições - O prestígio internacional do presidente Lula está abalado depois de sua absurda mudez diante da morte do dissidente cubano Orlando Zapata Tamayo em uma prisão, após 85 dias de greve de fome, e de sua aproximação com a ditadura teocrática de Mahmhoud Ahmadinejad, no Irã.

O jornal espanhol "El País", hoje o mais influente da Europa, que havia lhe dado o título de "homem do ano", retirou simbolicamente seu apoio com uma crítica em editorial, afirmando que o governo brasileiro poderia exercer mais pressão sobre o regime cubano, em especial na área de defesa de direitos humanos.

Antes disso, já havia publicado um artigo do editor da respeitada revista de assuntos internacionais "Foreign Policy", Moisés Naim, que colocou Lula como um dos cinco grandes hipócritas de 2009. Os outros quatro hipócritas, segundo Naim, seriam:

* Os banqueiros, que sempre desdenharam o Estado e acreditavam no mercado e que, apesar de terem sido salvos pelo Estado na recente crise internacional, não aprenderam a lição;

* O ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair, que declarou ter "profunda repulsa" por ditadores para justificar a necessidade de tirar Sadam Hussein do poder, mesmo que não tivesse armas de destruição em massa, mas, poucos dias depois, foi ao Azerbaijão para dar uma palestra na empresa do empresário mais rico do país, e se reuniu com o ditador Ilham Aliyev, amigo de seu anfitrião;

* "Os galãs" do Partido Republicano americano, que acusaram Bill Clinton de conduta inaceitável no affair Monica Lewinski, e agora aparecem envolvidos em escândalos sexuais, como o governador da Carolina do Sul, Mark Sanford, ou o senador John Ensign;

* E os magistrados britânicos que deram ordem de prisão à ministra de Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, acusada de crimes de guerra nos conflitos entre o Hamas e Israel na Faixa de Gaza, mas não acusaram Obama, Bush e Blair, por exemplo, pelos milhares de mortos no Iraque e Afeganistão.

Lula entrou na lista por não criticar as condutas autoritárias de seu amigo Hugo Chávez, e criticar as eleições democráticas ocorridas em Honduras, enquanto defende a eleição fraudada de Mahmoud Ahmadinejad no Irã.

A leniência de Lula com a ditadura de Cuba, explicitada pela amistosa visita a Fidel no mesmo dia da morte de Zapata, reforça certamente a lista de justificativas.

Ontem, a agência de notícias Associated Press (AP) divulgou uma entrevista com Lula em que ele volta a falar sobre a prisão de dissidentes cubanos. O presidente brasileiro trata Cuba como se não fosse uma ditadura, e faz comparações absurdas com o sistema judiciário brasileiro:

- Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de prender as pessoas em função da legislação de Cuba, como quero que respeitem a do Brasil.

Ou então: "Eu gostaria que não ocorresse (prisão de presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os prendeu, como não quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil".

O mais grave, porém, é que Lula tratou como bandidos os presos políticos cubanos, e mais uma vez culpou o morto: "Eu acho que greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto dos direitos humanos para libertar pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

Esses comentários do presidente Lula são preocupantes porque denotam que ele faz uma confusão terrível entre regimes democráticos e ditaduras, tratando-os igualmente.

É uma confusão mais grave do que a que faz entre o público e o privado. Recentemente, para justificar as inspeções que finge fazer em obras do PAC, mal acobertando a antecipação da campanha eleitoral, disse que só com "o olho do dono" as coisas andam.

Essa confusão conceitual de Lula pode ser definida pelo princípio da contradição de Aristóteles. Com duas proposições contrárias, se uma é verdadeira a outra é falsa.

Se Lula se diz um democrata, não pode aceitar a ditadura cubana. Se aceita, não é democrata.
- Merval Pereira, blog do Noblat, 10 de março de 2010

3/04/10

Arquipélago das Quirimbas e Lago Niassa ameaçados de desaparecer...

Cultivo nas zonas costeiras e destruição de mangais - Maputo (Canalmoz) – O Lago Niassa, na província com o mesmo nome e o Arquipélago das Quirimbas, na província de Cabo Delgado, estão sob ameaças de desaparecer do mapa geográfico nacional, nos próximos 100 anos, caso não se ponha termo às acções de prática de agricultura nas zonas costeiras e à destruição dos mangais nestas regiões. Este alerta foi lançado por Peter Bechetel, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (WWF) Moçambique, à margem dum seminário sobre o meio ambiente que teve lugar ontem em Maputo.

Falando ao Canalmoz, o representante do Programa das Nações Unidas para o Ambiente disse que, para além sofrer fortes acções agrícolas nas suas margens, o lago Niassa debate-se igualmente com problemas de disputa da fronteira entre Malawi e Tanzania e como o lago é único, isto tem efeitos para os três países que o partilham.

“Malawi e Tanzania estão a discutir um problema criado pelos colonizadores. A Inglaterra, depois da Segunda Guerra Mundial, passou a administrar a Tanzania e como já estava a dirigir os dois países, o aspecto da fronteira não teve relevância”, disse esclarecendo que agora que os dois países são Estados soberanos, o conflito das fronteiras está no topo da agenda e os efeitos fazem-se sentir nas margens do lago Niassa. Segundo Peter Bechetel, a fronteira entre os dois países está no meio do lago, mas agora o Malawi reivindica que a mesma deve ser removida mais para a costa tanzaniana.

Para os ambientalistas, estas discussões, em curso naqueles dois países, foram criadas pelos colonizadores e isto já está a criar problemas no lago, “apesar de existirem poucos impactos em Moçambique, em virtude da província de Niassa ser pouco habitada, o que não acontece do lado das províncias no Malawi e Tanzânia, que são densamente povoadas”.

Bechetel que falava ontem à margem do encontro ”Save Turism”, subordinado ao tema “Oportunidades para a Prática do Turismo Cientifico, Académico, Voluntário e Educacional em Moçambique”, organizado pelo Ministério do Turismo em parceria com a WWF, disse que Moçambique ao trazer este assunto para discussão, não está a fazer guerra contra nenhum destes países, mas sim a tentar salvar a biodiversidade do lado que está a ser posto em causa.

“As ervas marinhas são importantes para a reprodução e alimentação dos peixes, e estas estão a ser destruídas pelos agricultores”, lamentou.

Falando sobre o arquipélago das Quirimbas, sentenciou que as previsões mundiais indicam que o nível das águas do mar vai subir drasticamente nos próximos 100 anos, acompanhado de ciclones.

“Com o mar a galgar alguns metros, parte das ilhas do arquipélago das Quirimbas vai desaparecer e haverá muitos ciclones”, disse acrescentando que há dois anos, nalgumas zonas do arquipélago, a água aqueceu e espécies de animais aquáticos, bem como corais, foram destruídos.

Segundo explicou, os mangais que tem a função de defender a parte continental das tempestades estão a ser destruídos na ordem de 18 porcento e, neste momento, cerca de 700 famílias abandonaram uma das ilhas das Quirimbas, devido aos efeitos climáticos.

Um docente da Faculdade de Engenharia e Ciências Naturais, na Universidade Lúrio, em Pemba, que interveio no debate, disse haver necessidade de se requerer mais hectares de áreas na zona de Ibo para que se façam estudos durante as férias do verão.

“A Universidade vai dar uma parte da logística e os investigadores poderão trabalhar com os estudantes e comunidade. Depois vamos publicar os resultados deste trabalho que é muito urgente para salvar a zona”, desafiou, sublinhando que o estudo está aberto aos interessados, incluindo instituições do ensino superior.

Disse ainda que o passo mais importante será encontrar os parceiros interessados em participar nesta área, apontando que a partir do ano em curso vai se fazer naquela zona uma área de conservação.
- (Fenias Zualo) - 2010-03-03 05:46:00 - CanalMoz

3/02/10

LURDES - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão)

:: Allman Ndyoco pode ser lido em "Contos e Poesias do Índico" ::

Era mais um dia de trabalho. Tinha que fazer o percurso habitual: Hulene, Benfica e Cidade da Matola e usar o meio habitual – o chapa. Contudo, já havia feito o primeiro percurso e agora acomodado no acento traseiro do segundo chapa, um Toyota Hiace, branco, com uma faixa preta e escritas brancas onde no pará-brisas se lia: C.Matola / Benfica, rumava à cidade da Matola, quando na paragem da Zona Verde uma figura feminina, desmazelada, desprezível e anónima subiu para o carro e sentou-se num dos acentos centrais. A mulher tinha aparência de uns quarenta anos de idade. Trançara mirabas na cabeça que desesperadamente clamavam concerto. Trajava uma blusa larga com mangas cavas, uma capulana descorada e chinelos de banho. Trazia um bebé no colo envolto numa capulana fedorenta e um plástico preto contendo couve e alface.

Nisto, enquanto percorriamos a avenida 04 de Outubro o carro imobilizou-se na paragem do bairro T-3, onde subiram quatro jovens professores e três deles acomodaram-se no banco ocupado pela mulher desmazelada e um no acento próximo à porta. Do grupo dos docentes, três eram do sexo masculino e um feminino. A do sexo feminino era a que sentara no banco separado dos demais.

A madrugada ia ao fim. O sol no nascente espreitava altivo emitindo raios quentes de verão e deixando antever que o resto do dia seria de calor húmido e incómodo e que massa de ar quente fustigaria majestosa e impiedosamente sobre as cidades de Maputo e Matola.

- Olá, Lurdes! – Disse a docente surpresa, assim que se virou para dialogar com os colegas.
- Olá, Marta! - Replicou Lurdes, a mulher desmazelada e de bebé no colo.
- Há quanto tempo?! – Marta sorriu de alegria. Estava encantada com o encontro inesperado. – O que é feito de ti?
- Nada, Marta, senão ficar em casa.

O carro estava silenciso e apenas as duas vozes se faziam ouvir.

- Conhecem a ela? – Marta questionou os colegas.
- A cara dela não me é estranha. – Respondeu um deles.
- Para mim, – Disse um dos docentes que trazia uma bata branca ao ombro direito. – parece que conheço da Matola.
- Sim. – Marta acudiu. – Foi minha vizinha frontal e mais tarde casou-se com Todinho.
- Áh, já tou a ver… - Disse um dos docentes que trajava uma bata branca. – Mas parece-me ter “crescido” muito.
- É o que também noto nela. – Confessou Marta sem reservas. – O que está a passar-se?
- Sofrimento! – Lurdes sorriu disfarçadamente.

Lurdes expressava fluentemente a lingua do Camões e esta fluência contrastava-se com a sua aparência. O seu sotaque e domínio da lingua do colonizador era, agora, um indicativo para todos que ela havia frequentado a escola e vivera durante muito tempo num ambiente citadino. Sua expressão facial e vocal, agora, despertava mais curiosidade. Por detrás daquela mulher desmazelada, refugiada nas capulanas e conformada com o destino que a vida lhe reservara, escondia-se uma bela jovem, maltratada pelo egoismo e ciúme doentio de um homem que um dia lhe levara ao altar e que ela considerava esposo e pai de seus três filhos menores.

- O que está a acontecer? – Marta estava curiosa.
- Depois do casamento, a minha vida virou um pesadelo. Todinho proibiu-me de ir a escola, relacionar-me com meus parentes, amigos e vizinhos. Como senão bastasse, passei a viver enjaulada na minha própria casa.
- Enjaulada? – Marta parecia revoltada e a conversa começava a interessar à todos passageiros.
- Sim. Todinho tranca a porta do quintal com cadeado todos dias e leva as chaves ao serviço. Arrancou-me o telemóvel para não me comunicar com ninguém, bloqueou há já três anos os canas de televisão e proibiu as minhas amigas de frequentar a minha casa.
- É impossível! – Disse o docente que envergava a bata branca. – Conheci Todinho antes do casamento. Brincavamos juntos na Matola e era um gajo “fixe” com todos, pá!
- Virou um monstro. – Desabafou Lurdes. Depois de alguns instantes, prosseguiu. – Bate-me todos dias e quando mando recados para os meus tios eles simplesmente dizem para eu aguentar, pois, o lar exige sacrifícios.
- Sacrifícios qual que é?! – Inquiriu ironicamente um dos docentes.
- E quem faz compras para a casa? – Quis saber Marta.
- É ele.
- E as crianças não estudam? – Inquiriu uma das passageiras sentada no banco traseiro do carro.
- São ainda menores. – Lurdes quase que chorava.
- Então, vejo que esse homem faz-te de máquina de gerar filhos… - Precipitou-se a passageira a concluir,
- É o que acho também. – Disse Marta.
- Esse homem precisa de ser denunciado junto às autoridades para nunca mais maltratar mulheres indefesas. – Observou o motorista em apoio à Lurdes.

Houve silêncio. Depois de alguns segundos, o professor que trajava a bata branca quis saber:

- Como saiste de casa hoje?
- Ele autorizou-me, excepcionalmente hoje, a sair afim de comprar verduras para o almoço. Assim está em casa a minha espera, mesmo sabendo que está a atrasar no trabalho. Como demorei um pouco agora porque as vendedeiras de verduras demoraram-se a chegar, sou capaz de ser agredida verbal e fisicamente sob o pretexto não ter acatado a ordem de regressar a casa à hora.
- Não me diga que ele determinou-te o tempo para chegar a casa?! – Perguntou Marta.
- Determinou.

Nas palavras da Lurdes lia-se para qualquer um certo traumatismo psicológico que precisava urgentemente de um atendimento especializado. Parecia deprimida, conformada com a situação em que se encontrava e, aparentemente, sem forças para lutar. Parecia viver numa ilha, onde os vizinhos, amigos e parentes serviam de cenário e nada mais.

No entanto, chegamos a zona da prisão de máxima segurança da Machava e na paragem da barraca verde, Lurdes desceu despedindo-se de todos acanhadamente. Quando o carro arrancou, os passageiros olharam-a até desaparecer numa rua vizinha.

- É inacreditável que a situação daquela rapariga esteja a acontecer aqui na cidade. – Disse alguém entre os passageiros.
- Onde está a família? – Inquiriu o cobrador.
- Os pais morreram faz muito tempo e ela era filha única. Os tios, apesar de lhe terem criado, nunca ligaram para ela. – Respondeu Marta visivelmente afectada pela situação da Lurdes.
- Há que fazer alguma coisa. – Disse o professor de bata suspenso ao ombro. – Daquilo que li no semblante da rapariga, ela até é capaz de cometer algum suicídio. E se tal acontecimento ocorrer, todos que ouvimos o depoimento dela sentirémo-nos culpados de nada termos feito para ajudar aquela pobre alma.
- Isso é verdade. – Foram respondendo em cadência os demais passageiros.

Dali em diante, a conversa dominante no mini-bus era a relacionada com o que acabava-se de ouvir. Cada um contava uma história similar evidenciando o modo de conclusão. E de toda conversa surgida, foi possível notar o quão as mulheres sofrem em silêncio tumular na nossa sociedade e quão algumas pessoas ainda ignoram o tal sofrimento.

Entretanto, cheguei ao meu destino. Desci do chapa, paguei ao cobrador e caminhei para o serviço pensando na Lurdes. A sua história de vida comovera-me até as entranhas e não conseguia desembaraçar-me dela sem nada fazer. Nisto, decidi rabiscar esta linhas para fazer chegar a toda gente o grito e o marasmo da Lurdes, aquela mulher desprezível, maltratada e recolhida em si como um caracol.
- Allman Ndyoko, Moçambique, 28/02/2010.

2/25/10

Conhecemos, respeitamos realmente ÁFRICA? - Chimamanda Adichie... O perigo da história única !

"As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural - e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico.""
  • Clique em "view subtitles" para acionar legendas em português. O clipe dura 18,49 minutos. Convém assistir até ao final.
  • Chimamanda Adichie: O perigo da história única - link original! (Agradecemos a A. M. G. L. a pertinente e significativa sugestão).

2/23/10

A "linguagem secreta" dos elefantes...

Segundo a BBC-Brasil, os elefantes têm uma "linguagem secreta" que os homens estão tentando decifrar. Será que conseguem?...

- Pesquisadores do zoológico de San Diego, na Califórnia, estão estudando o que chamam de "linguagem secreta" dos elefantes.

Os pesquisadores estão monitorando formas de comunicação entre os animais que não podem ser captadas pelo ouvido humano.

Muitos dos sons emitidos pelos elefantes ocupam frequências inaudíveis para nós.

Na pesquisa que está sendo conduzida no Zoológico de San Diego, microfones sensíveis a essas baixas frequências e aparelhos de localização via satélite foram acoplados a oito elefantes fêmeas.

Assista à reportagem:

In - BBC-Brasil, 22/02/2010.

2/12/10

Em nome da Pátria - Portugal, o Ultramar e a Guerra Justa


O Tenente-Coronel, piloto Aviador, Comandante de Linha e Mestre em Estratégia, João José Brandão Ferreira é um dos autores militares que merece palmas por não se enfeudar ao espírito corporativista da geração que renegou os seus deveres e traiu o juramento que fez em relação à guerra do Ultramar.

Ainda está por escrever a História do golpe militar que de cobardes fez heróis e de golpistas fez mitos que começam, agora, a desdizer-se, uns aos outros, em obras de saldo que se inspiram umas nas outras, não para cada qual aperfeiçoar a verdade, mas para se defenderem das recíprocas acusações e contradições que se avolumam e que daqui a cem ou duzentos anos, quando já não existirem o medo e o complexo, vão reduzir-se ao oportunismo primário. Poucos serão aqueles que ainda não escreveram o seu testemunho sobre a Guerra do Ultramar. Uma das provas do que deixamos dito é a contradição crescente, por cada mais um protagonista que surge no mercado. Nenhuma bate certo, porque a essência do golpe foi a revolta dos capitães do quadro contra uma lei que saiu e que dava oportunidade aos milicianos de continuarem, querendo, a prestar serviço. Essa possibilidade amedrontou os militares profissionais que temiam a concorrência dos milicianos. Retardavam as promoções, interferiam na antiguidade, nas comissões de serviço, nas condecorações, nos proventos. Salvar o povo, foi o pretexto. Mas não o motivo primeiro. Que a guerra do ultramar teria que ter um fim, é inegável. Mas mais o desejavam os milicianos e os filhos do povo que nada tinham a ver com a guerra do que aqueles que, sabendo dela, acorriam à Academia militar e se preparavam para a enfrentar, profissionalmente.

As montras das livrarias estão hoje cheias dessas resmas de papel, porque todos reclamam uma heroicidade que só resultou em sucesso, porque a opinião pública não percebeu os intentos da revolução. Hoje, friamente, pode concluir-se por essa evidência.

Entretanto chegou-nos um volume de 600 páginas do Tenente-Coronel Brandão Ferreira, que é uma honrosa excepção. Preocupou-se ele em explicar o modo como se processaram as últimas campanhas militares ultramarinas, entre 1954 e 1975. Está longe de ser consensual na sociedade portuguesa. Bem pelo contrário, tem-na dividido profunda e transversalmente. Por isso começam a ser horas de encontrar consensos baseados na correcta interpretação dos factos históricos e nas verdadeiras intenções dos principais protagonistas do momento.

«Tudo não terá passado de uma «grande traição»? A pergunta pertence ao ilustre militar que acrescenta: «falamos de questões incontornáveis no panorama da história contemporânea portuguesa, aqui abordadas de um modo muito pouco ortodoxo em relação às ideias que a «história oficial» nos apresenta».

O autor começa por explicar a sua motivação: «decidi enveredar pela «carreira das armas» quando terminei o antigo 5º ano, no Liceu de Oeiras. Estávamos no ano de 1969. Preparei-me e entrei para a Academia Militar, em 20 de Outubro de 1971. Foi aí que o 25 de Abril me apanhou...

Nunca me conformei com a perda das nossas províncias ultramarinas, que na altura representavam cerca de 95% do território nacional e 65% da população portuguesa. Sobretudo pela forma iníqua e desastrosa como tudo se processou, já para não falar dos indecorosos comportamentos políticos e militares que então se registaram. Mais: até hoje, nunca houve a coragem de se assumir isso, nem de retirar as respectivas consequências. Em seguida, assisti ao desmantelamento de umas magníficas Forças Armadas que chegaram a dispor de 220 mil homens espalhados por quatro continentes e outros tantos oceanos. Motivado por todas estas perplexidades, decidi estudar o que se tinha passado, bem como a verdadeira razão que estava por trás dos acontecimentos.

O objecto deste livro é a justiça da guerra e o direito de fazê-la». O autor cita Melo Antunes que «pouco antes de morrer acabou por reconhecer que se tinha tratado de uma tragédia». E também Almeida Santos que, publicou uma obra onde declara «reconhecer que toda uma série de coisas que tinham corrido mal - «obviamente por causa dos militares, que não quiseram combater mais». Por outro lado, os combatentes começaram por ser execrados e condenados por lutarem numa guerra «imperialista», ao serviço dos «colonialistas» e de um «governo fascista». «Cerca de um milhão de homens ficou arrumado nas prateleiras do esquecimento e da ignomínia. Exaltaram-se desertores». E Brandão Ferreira é mais claro: «Este livro pretende demonstrar que Portugal fez uma guerra justa e, além disso, tinha toda a razão do seu lado!»

Adriano Moreira, afirma no Prefácio que nos Estados Unidos, em 1971, se verificou uma manifestação da sociedade civil contra o envolvimento do país na Guerra do Vietname. E que entre 19 e 24 de Abril desse ano, mais de 500 mil pessoas convergiram para Washington com o propósito de convencer a Administração a mudar de rumo. Os veteranos, os mutilados daquela guerra, deitaram fora as suas medalhas, cansados e arrependidos de terem participado nela. Não foi o aparelho militar que forçou o governo, mas o cansaço da sociedade civil. «Em Portugal, pelo contrário, foi uma decisão militar que colocou um ponto final na guerra», mas por razões paradoxais: eles tinham escolhido a profissão da armas. Tiveram de ser chamados, em reforço, aqueles que nada tinham a ver com essa profissão. Ora, em vez de serem os milicianos e os soldados em geral, a revoltar-se, deu-se o contrário: com medo de serem prejudicados nos direitos, os profissionais traíram os seus deveres. E aqueles que foram em seu socorro, provando ser tão bons como eles, foram traídos, perseguidos e enxovalhados.

Este livro é a voz dessa ignomínia.
- Peso da Régua, Barroso da Fonte, Dr. - bf@ecb.hopto.org - In Notícias do Douro, 12/02/10

2/09/10

Pemba nua e crua... XXIV

Continuação:

As magníficas praias próximas a PEMBA:
(Clique nas imagens para ampliar)

Agradecendo ao V. D. a amável partilha destas imagens, encerramos com este post a série de "Imagens de uma PEMBA que não está nos guias turísticos"... ou imagens de uma PEMBA bela, injustiçada pela incompetência, degradada quando a responsabilidade sai da alçada da própria natureza, sempre competente e pujante, passando para as mãos da sociedade moçambicana contemporânea, que a ignora e despreza.

Que estas imagens simples e esta série de post's sirvam pelo menos de advertência, de alerta e despertem consciências.

O futuro estável de um Moçambique que ansiamos ecológicamente correto está em jogo. E, não o fazemos ou dedicamos a nós, mas sim aos jovens do Moçambique de hoje e do "século XXI".