5/14/10

De Porto Amélia a Pemba: Família Andrade Paes

Já alguma vez arrancou uma planta útil da terra? Não o faça. Eu sei o que sente uma planta arrancada sem culpa do seu chão. Glória de Sant'Anna - poetisa do mar azul de Pemba, Amaranto.

GLÓRIA DE SANT'ANNA - O silêncio intimo das coisas. No Moçambique que precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de Junho de 1975, muita coisa aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade, não é sabido de quase ninguém, exceto de uns poucos (e não todos) que lá viveram. Muito se tem escrito, sobretudo no pelouro em que impera o "discurso político", acerca do que foi ou não foi o chamado período colonial português. Seja dito de passagem que mais se tem falado do que acertado. É com lindos sentimentos que se faz má literatura, disse-o um dia Gide, irritando Claudel, e é também com angélicas intenções que se trai, frequentemente, os mandatos da história. Não deixa sobretudo de ser curiosa a fácil boa consciência de quem, no chamado Portugal continental, bem mais se aproveitou (e prosperou) com a exploração colonial do que tantos que pelo ultramar tristemente se alienaram, pobre e honradamente viveram e, para o fim, alucinadamente se desintegraram. De gente séria, pobre e perplexa ( e não só da outra), está a história de Moçambique também cheia, como não é do conhecimento confortável de algumas consciências bastante poluídas, que depois facilmente se reconciliaram consigo próprias, por vias mais ou menos expeditas...
Com a publicação, em 1961, em Moçambique, do livro de poemas "Livro de Água", laureado com o premio Camilo Pessanha, confirmava-se, para alguns, e revelava-se, para muitos outros, um dos nomes mais importantes da poesia portuguesa, em Moçambique, e um dos poetas mais notáveis, em língua portuguesa, dos últimos vinte e cinco anos: Glória de Sant'Anna.
Para o leitor da antiga "metrópole", um livro em língua portuguesa, publicado em Moçambique, Angola ou também em Cabo Verde, era, por assim dizer, um livro "perdido". Os nomes de Rui Knopfli, Sebastião Alba, Glória de Sant'Anna, Lourenço de Carvalho e, até certo ponto, mesmo o de João Pedro Grabato Dias, entre outros, nada ou quase nada significavam para o leitor confinado, como diria Jorge de Sena, entre o Chiado e a Rua Ferreira Borges... Não se sabia muito bem quem eram, o que faziam, o que pensavam... E o fato de estarem a viver "lá" era já, em principio, um motivo de apreensão. ...
Glória de Sant'Anna foi, para Moçambique, um produto de importação. Nascida em Lisboa, em 26 de maio de 1925, concluiu o curso complementar de Letras no Colégio de Odivelas, casou em 1949 e, dois anos depois, partiu para aquela colônia portuguesa onde fixou residência, em Nampula. Em 1953 mudou-se, com sua família, para Porto Amélia (hoje Pemba), onde permaneceu, frente à vasta baía, quase até ao regresso definitivo a Portugal, em Dezembro de 1974 (os dois últimos anos passou-os a poetisa em Vila Pery)... O "seu chão" fora Pemba, o mar, a água, o "vento de prata/manso, manso". O "mar calmo e estranho" tornara-se a presença fraterna, terapêutica, ameaçadora, tranquila, lisa, ominosa, às vezes trágica-densa, sempre vigilante. E os momentos passados à sua beira exprimiam a dignidade de momentos "translúcidos e antigos".
Arrancada deste chão onde se encontrava "inteira", o exílio em que, ironicamente, se traduziu o regresso à pátria teve consequências traumáticas. ... Isto é, durante cerca de quatro anos, nada produziu.
Em Portugal, de Norte para Sul e do Sul para Norte, entre Ovar e o Algarve, tentando reencontrar o rumo que não havia (o mar, que é bom "porque é concreto", ficara para trás), Glória de Sant'Anna foi sobrevivendo ao rés de um desespero nem sempre inteiramente dominado. ... Durante vários anos arredada do "seu" mar, que era em Pemba, e da "sua" escrita, que dele se alimentara, Glória de Sant'Anna fixou-se finalmente em Ovar: - "Atualmente, na minha condição de aposentada, reparto o tempo pela casa e pela família e ajudo o meu marido num gabinete de arquitectura e obras, que abriu perto daqui".
A obra de Glória de Sant'Anna, na sua concentração e densidade, na sua liquidez secreta e cheia de pudor, na sua misteriosa claridade, na sua "mortal" e dominada angústia, consta essencialmente de sete livros publicados, seis de poesia (Distância, 1951; Música Ausente, 1954; Livro de Água, 1961; Poemas do Tempo Agreste, 1964; Um Denso Azul Silêncio, 1965 e Desde que o Mundo e 32 poemas de Intervalo, 1972) e um de crônicas (...Do Tempo Inútil, 1975). Além destes o volume agora editado (1984) inclui 4 livros inéditos: A Escuna Angra (1966-68); Cancioneiro Incompleto (temas de guerra em Moçambique, 1961-71); Gritoacanto (1970-74 e Cantares de Interpretação (1968-73). O resto é trabalho disperso por revistas e jornais: Diário Popular, Guardian (Lourenço Marques), Itinerário (L. M.) Diário de Moçambique (Beira) Noticias (L.M.), Tribuna (L.M.), Sul (Brasil) e Caliban (L.M.).
Glória de Sant'Anna tornou-se quase desde o seu "aparecimento" discreto, uma das vozes mais geralmente reverenciadas, no panorama literário de Moçambique. Mas aquilo a que poderíamos, sem exagero, chamar a sua "glória", nada teve de ruidoso. A autora do Livro de Água foi sempre um personagem de um pudor e "retiro" exemplares, na feira intelectual que, em Moçambique, como em todo o lado, tinha os seus profissionais da promoção e da acrobacia. "Serei tão secreta/como o tecido da água" afirmará ela, num dos seus poemas. De fato, toda a sua obra, de um extremo ao outro, é um alongado programa de homenagem à nobreza do "silêncio" e do "falar pouco"...
... Dizia um grande escritor deste século que sofria por causa dos homens a quem se não dá o lugar que merecem. E acrescentava haver nas letras francesas de hoje alguns exemplos dessa injustiça, por omissão. Há nas letras portuguesas de hoje também alguns exemplos disso. Glória de Sant'Anna é um deles, mas não é caso único. Entre os escritores que a ressaca da descolonização trouxe até estas paragens, há uma boa meia dúzia a pedir que os publiquem, os estudem e os divulguem. Constitui para mim uma honra e um privilégio esta tentativa de procurar a autora dos Poemas do Tempo Agreste "completa dentro desta pura água", para a dar a conhecer a um público distraído, mas eventualmente capaz de lhe reconhecer a estatura. Honra idêntica me daria poder fazê-lo por outros. O silêncio que sobre eles pesa, um silêncio morto, não é por certo o fecundo e "denso azul silêncio" que irriga e impregna o claro e enigmático discurso poético de Glória de Sant'Anna.
- EUGÉNIO LISBOA - Londres, Dezembro 1983/Janeiro 1984 - transcrito do Livro Amaranto.

GLÓRIA DE SANT'ANNA - uma poética de mar e silêncio! O silêncio funda um outro discurso, que não o comum; entretanto, é linguagem de grande teor significativo (STEINER, 1988, p. 73). Mar, silêncio e solidão atravessam a obra poética de Glória de Sant'Anna, cuja linguagem flui numa liquidez profunda, articulada por uma semântica aquática e abissal, que busca apreender os mistérios da alma humana. Por ter nascido em Lisboa e por ser sua poesia de cunho predominantemente universal, versando sobre temas existenciais, a poesia de Glória de Sant'Anna, durante algum tempo, não foi considerada como pertencente ao patrimônio literário moçambicano, embora grande parte de seus poemas tenha sido produzida durante os vinte e três anos vividos por ela em Moçambique. Consideramos esse critério bastante discutível, pois apenas leva em consideração a pátria de nascimento da autora, ignorando os pactos afetivos de identificação tecidos durante sua longa vivência em terras africanas.
Em 1951, recém-casada, Glória mudou-se para Nampula, cidade moçambicana onde viveu até 1953, ocasião em que se transferiu para Porto Amélia, hoje Pemba, outra cidade do litoral moçambicano.
Seus primeiros livros foram publicados nessa época: Distância (1951) e Música Ausente (1954). Nessas obras, é clara a desterritorialização do sujeito poético, cuja face, sobre o azul vogando (SANT'ANNA, 1988, p.47) se revela perdida, refletindo a imagem da própria identidade fraturada que não se reconhecia ainda nas paisagens africanas. Com o coração inteiro/no fundo do oceano (op. cit., p.35 ), o eu-poético tem consciência de seu naufrágio interior. Mergulha, então, nas marítimas águas do exílio, e, através de uma linguagem poética reflexiva, procura alguns pontos de ancoragem com as fronteiras diluídas da pátria distante.
Nos dois primeiros livros de Glória, domina uma semântica de vaguidão. As reminiscências da voz lírica se encontram esmaecidas, sem nenhum referencial, a não ser o oceano de prata que se esvai em longínquos horizontes e se configura, ainda, como um território vazio de memórias, conforme denunciam os versos do poema Música Ausente: Na minha lembrança batem águas de vidro/de um mar sem sentido.(op. cit., p.53).
Nas composições poéticas dessa fase, amargura, degredo e solidão aprisionam o sujeito lírico, que, sem uma fisionomia definida, se fecha em sua interioridade, à procura de elos emotivos capazes de equilibrarem sua subjetividade cindida entre duas pátrias.
É, pela contemplação do mar de Pemba e pelo exercício da poesia, que consegue alento para ultrapassar o desenraizamento provocado pela saída da terra natal para viver em terras alheias.
À medida que se contempla existencialmente no espelho das marítimas águas, o sujeito poético vai se encontrando e, naturalmente, começa a incluir em seus versos novas paisagens e pessoas. Do âmago das palavras emanam, então, emoções fraternas em relação ao povo moçambicano: Que importa seres meu irmão noutro país? (op.cit., p.56) indaga-se o sujeito lírico, com o coração já se abrindo aos novos horizontes.
Cartografias geográficas, culturais e humanas de Moçambique vão, aos poucos, integrando o imaginário literário da poesia de Glória de Sant'Anna, que, lentamente, passa a captar os ritmos e batuques africanos (Poema Batuque, op. cit. 63), como também as danças das negras à beira-mar:

Negrinha faceira,
dentro da água cálida,
quem olhará
tua graça?

Ou quem verá teu riso
esparso
entre uma onda translúcida
e um sargaço?

(...)
Os teus pés estão sobre os búzios claros
e vazios,
e há música e sol
em teus ouvidos.

Mas quem passa, deixando pegadas na areia,
não olha para ti, negrinha faceira.
(SANT'ANNA, 1988, p.62 )

Afirmando-se por um ethos existencial e humano, a poética de Glória, com imensa sensibilidade e delicadeza de sentimentos, também critica os preconceitos raciais presentes em Moçambique; só que o faz de forma suave, velada e sutil.
Contemporâneos da chamada poesia da moçambicanidade, seus poemas de Música Ausente (1954) e do Livro de Água (publicado em 1961, mas com poemas escritos na década de 50), embora não se utilizem do estilo veemente com que, por exemplo, Noêmia de Souza e José Craveirinha celebraram, nos anos 50, os valores autenticamente moçambicanos, também cantam as belezas africanas :

(Do fundo do tempo a negra se curva
sobre a inquieta água
e sobre seu cesto redondo
de palha entrançada.

Por dentro da tarde a negra se curva
no horizonte fechado,
o seu gesto é ancestral
e cansado).
(SANT'ANNA, 1988, p. 63)

Laureada com o prêmio Camilo Pessanha, em 1961, por seu Livro de Água, Glória de Sant'Anna tornou-se reconhecida literariamente.
Continuou a escrever nos anos 60 e 70, e sua obra se manteve fiel à linha existencial por que optou desde o início de sua trajetória poética. Embora acompanhasse as mudanças sociais por que passava a sociedade moçambicana, a poesia de Glória, nos anos de guerra a que ela chamou de 'tempos agrestes', não enveredou pelo ethos militante e revolucionário que dominou o panorama literário de Moçambique nesse período. Apesar de muitos de seus poemas terem denunciado os malefícios dessa época de lutas e violências, sua poética fez a opção pelo silêncio e pela metáfora, alinhando-se, por isso, ao lado dos poetas do Grupo Caliban, como Rui Knopfli, Sebastião Alba, entre outros, que, para driblarem a censura e repressão, enveredaram por caminhos poéticos universalistas e existenciais, sem, contudo, deixarem de problematizar as questões sociais.
O trabalho poético é às vezes acusado de ignorar ou suspender a praxis. Na verdade, é uma suspensão momentânea e, bem pesadas as coisas, uma suspensão aparente. Projetando na consciência do leitor imagens do mundo e do homem muito mais vivas e reais do que as forjadas pelas ideologias, o poema acende o desejo de uma outra existência, mais livre e mais bela(...), pela qual vale a pena lutar . (BOSI, 1983, p.192).
Em tempos desumanos, de brutalidade e jugo totalitário, há poetas que ultrapassam os ângulos limitados de políticas panfletárias, não tomando partido direto e radical, embora criticando as arbitrariedades do poder. É o caso de Glória de Sant'Anna e dos poetas de Caliban, que captaram a angústia das possíveis e cruéis injustiças, denunciando o sem sentido da força e ressaltando a importância do existir humano. O silêncio, nos versos desses poetas, fala, expressa a recusa do apenas circunstancial e político. Penetra os espaços abissais da própria poesia, buscando a expressão do puro, do indelével, dos sentimentos mais recônditos da alma humana universalmente concebida. Essa poesia foi, nos tempos de combate, considerada por alguns mais sectários como reacionária. Hoje, entretanto, não mais é vista assim, pois muitos críticos literários contemporâneos sabem que a saudade de tempos que parecem mais humanos nunca é reacionária.
(...) Reacionária é a justificação do mal em qualquer tempo.
Reacionário é o olhar cúmplice da opressão. Mas o que move os sentimentos e aquece o gesto ritual é, sempre, um valor: a comunhão com a natureza, com os homens,(...) com a totalidade. (BOSI, 1983, p.153)
Os poetas de Caliban denunciaram as desumanidades da guerra e mostraram a necessidade de recuperar valores existenciais mais profundos. Glória de Sant'Anna, em muitos de seus poemas escritos de 1964-1974, criticou o sem sentido da guerra que, para ela, igualou os soldados revolucionários e os cipaios (SANT'ANNA, Amaranto, p.164, p. 176). Comoveu-se com as mortes, chorou com a chuva sobre o rosto do cadáver do negrinho estirado no chão (op. cit. p. 99 e p.100), acumpliciando-se com as mães negras que perderam seus filhos nas lutas. E, como mulher, se identificou às negras, celebrando o sentimento universal da maternidade:

Olho-te : és negra.
Olhas-me: sou branca.

Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana.

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,
seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes,
E tão perto da morte...
(SANT'ANNA, 1988, p. 119)

Nos poemas onde Glória denuncia a urgência de sangue exigida pela guerra, o mar se faz ausente. A voz lírica se tece da angústia de um silêncio diferente, porque forjado por medos e atrocidades. Um silêncio de ciprestes, esquifes e espadas cegas. Um silêncio de anulação da arte e da vida.
No poema Sexto do livro Cancioneiro Incompleto (temas da guerra em Moçambique, 1961-1971), de Glória de Sant'Anna, o sujeito poético condena a violência que destruiu os macondes, cujas esculturas celebra :

(...)
(cada figura crescia de suas mãos negras
como se brotasse da sua própria fina pele
solta para a claridade e portadora
de igual agreste impulso
e em seu rosto
e em suas pupilas alagadas
era o mesmo secreto tempo de amar)

Hoje o pesado e oculto pau preto
jaz dentro da ausência
pleno de irreconhecíveis figuras
que perpassam iguais às da nossa memória(...)
(SANT'ANNA, 1988, p. 167-168)

Por entre sons de canhões e agrestes perplexidades diante da morte de pessoas inocentes, a poesia de Glória capta também a suavidade do mar , o canto dos negros e os tã-tãs dos tambores moçambicanos (Op. cit., p.201). Por entre os silêncios de lucidez crítica, seus versos assumem a consciência do fazer estético e, em meio às lacunas da denúncia explícita da opressão, teoriza sobre sua própria arte poética:

Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.

(E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda...)

Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.

(E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra...)

Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.

(E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda...)
(SANT'ANNA, 1988, p. 97 )

Metalinguagem, sensibilidade e silêncio levam a voz lírica a profundas reflexões sobre a sua textualidade poética que, de grito a canto, se reconhece mar, vento, som, melodia. O oceano traz as correntes submersas da memória. Mudanças atmosféricas marcam o ritmo introspectivo das lembranças e das catarses históricas.
Alterações cromáticas, luminosas e sonoras trazem o vento para dentro dos poemas como símbolo da transformação do eu-lírico, o qual busca, agora, apreender a expressão de belezas e angústias indizíveis: de sangue salgado se vestem estas minhas palavras e é sangue e sal o que escrevo e mágoa (SANT'ANNA, 1988, p.229).
Mar, tecido de mortos e vivos, magma da memória ultrajada, cuja liquidez salgada purifica as lembranças e as palavras. Mar, reservatório de mágoas e sangues acumulados que só se fazem expurgados pelas águas da própria poesia. Mar, mergulho abissal na interioridade mítica universal e reencontro com as raízes profundas de identidades submersas: 'Porque sempre o mar: / é isso / os mortos, as algas, as marés, os vivos' (SANT'ANNA, 1988, p.202)
A poética de Glória de Sant'Anna , como a poesia de Rimbaud, de Hölderlin, de Cecília Meireles, mergulha no silêncio e na musicalidade da linguagem, no 'mar absoluto' da própria poesia.
Captando a melodia cósmica das palavras, apreende a emoção do inexprimível, os sentidos profundos do existir humano universal:

Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano de tempos diversos onde também há sangue vegetal, buscando o que acabei por encontrar a imensa angústia que se reparte.
Sobre isso escrevo.
Mas cuidado : a música da palavra é um casulo de seda. Só dobando-os com olhos atentos se chega à verdade, à solidão ansiosa e disponível.
No entanto, que cada um faça a sua leitura.
(SANT'ANNA, 1988, poema da contracapa)

É uma poesia que faz opção pelo silêncio. Um silêncio, cujo significado 'fala' mais que o de poemas explicitamente engajados com o real histórico, pois é tramado pela densidade de emoções e sentimentos despertados por situações várias: de beleza, de ternura, de ódio, de dor, de medo , de angústia, de saudade.
Quando a autora, em 1974, teve de regressar a Portugal, o retorno à pátria se converteu para ela num segundo exílio.
Arrancada do mar de Pemba de que se alimentara por longo tempo, a poetisa ficou vários anos sem conseguir escrever, agora, num silêncio concreto, sem palavras. Ao recuperar a linguagem, mergulhou de novo no mar, em cujas águas, transformadas em canto, passaram a ressoar memórias, por intermédio das quais a voz lírica se reconheceu livre e inteira : eis-me solta de todas as amarras da canga a que forcei o pensamento de novo imersa nessa pura água em que me identifico e apresento (SANT'ANNA, 1988, p. 289).
Mar e silêncio, na obra de Glória, passam a conotar depuração. Depuração de sentimentos e emoções que não se traduzem em linguagem comum, mas que se revelam na expressão indizível das metamorfoses da própria poesia:

A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada.
(SANT'ANNA, 1988, p. 126)

Mar, música e silêncio fluem na sacralidade poética instaurada pelo discurso de Glória de Sant'Anna, para quem a literatura, acima de ideologias, de partidos, de nacionalidades, de etnias ou de gêneros, assume um compromisso maior com os valores humanos e com a essência universal da arte e da própria criação poética.
- CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO, Doutora em Letras Vernáculas e Profª. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. SP: Cultrix, 1983.
SANT'ANNA, Glória de. Amaranto: poesias 1951-1983. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1988.
STEINER, George. Linguagem e silêncio : ensaios sobre a crise da palavra. SP: Cia das Letras, 1988.
Brasil, 2 de Junho de 2009 - O tempo, dilapida implacável, inclemente nossas referências... Fica a saudade para alimentar o horizonte do hoje. Do "ForEver PEMBA" e do "São Paulo o Colégio" transcrevo:

Partiu esta madrugada nossa Querida Professora, Amiga e Poetisa, Glória de Sant'Anna. A notícia veio até mim por este pequeno e simples texto:

"... É com profunda dor, que te venho anunciar o falecimento da nossa Mãe. Morreu às 4 horas da madrugada do dia de hoje..."

Não é fácil falar ou comentar quando o coração está apertado, amargurado com mais esta passagem da vida que envolve e atinge um ser humano de valor sentimental imensurável para muitos de nós que aprendemos a caminhar na vida pela força e ensinamentos recebidos de suas delicadas mãos sempre dadas às nossas, desde os tempos da infância.
Só consigo dizer que jamais esquecerei seu olhar terno, suave, sua voz tranquila, meiga mas firme e de palavras inteligentes, doces, sempre doces, repletas de poesia e sabedoria...
Jamais deixarei de a considerar minha Querida Professora, quase uma segunda Mãe...
Jamais deixarei de a considerar a minha Querida e Eterna Poetisa do Mar Azul de Pemba...
E é com lágrimas nos olhos, com imensa tristeza, com uma tremenda saudade que não tem fim, que, aqui de longe, a revejo no meu imaginário no meu último abraço, no meu último adeus terreno, ciente que a reencontrarei sempre em meus sonhos e na poesia de todos os entardeceres que aprendi a descobrir com a beleza de seus versos e com a generosidade que emanava de seu coração de poetisa, professora e Mãe.
Que a beleza e força espiritual de D. Glória (como sempre e carinhosamente por nós era chamada), que são eternas, nos inspire a todos, seus Amigos, assim como a seus Filhos e Familiares, a superar a saudade que fica!
- J. L. Gabão, 02 de Junho de 2009.

Dedico este "post" e tudo que divulgo e tentarei continuar a divulgar sobre esta querida e notável personalidade, a minha paciente professora de inglês (Glória de Sant'Anna) quando seu aluno do Colégio de São Paulo e da Escola Comercial Jerônimo Romero em Porto Amélia, hoje Pemba, na década de 60.
    (Transferência de arquivos do sitio "Pemba/Régua" que foi desativado.)
    Continua...

    5/11/10

    Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Família Carrilho !

    A origem do apelido Carrilho é matéria de controvérsia.
    Tudo indica que nobres de Espanha tenham vindo fixar-se em Portugal por razões não claras, nomeadamente em Castelo de Vide, por volta do século XVII. Dai o apelido "Carrillo" foi aportuguesado para Carrilho. Estes nobres beneficiaram-se da protecção da coroa portuguesa e adquiriram brasão próprio que os distingue do brasão castelhano com algumas parecenças.
    Alguns Carrilhos teriam passado a usar o apelido Gil e estes parecem ter ligação com os Albuquerques, nomeadamente o famoso Mouzinho de Albuquerque.
    Tudo indica que o brasão dos Carrilhos foi por isso sofrendo mutações.
    Um Carrilho é nomeado pelos reis de Portugal para ser Governador das Ilhas de Cabo Delgado, em Moçambique, no século XVIII. Este governador aparece com um corpo de soldados da guarda com um outro Carrilho como sargento. Daí a origem dos Carrilhos de Moçambique.
    Muitos dos Carrilhos hoje em Portugal ainda se referem a Castelo de Vide como possível origem da família. No entanto, alguns Carrillos de Espanha podem ter migrado ao Brasil e daí terem surgido outros ramos dos Carrilhos. Nada nos diz que a origem dos Carrilhos é toda a mesma.
    Isto é resultado de uma pesquisa minha muito longa na internet. Não tenho agora todas as referências. Parece que temos que continuar a procura!
    - Manuel Carrilho Alvarinho - 30 de Janeiro de 2005.
    O Sr. Babo Carrilho - Patrono da Família Carrilho.
    D. Judith Carrilho e Sr. António Baptista Carrilho - Casal originário de famílias tradicionais da histórica Ilha do Ibo. Pais de Francisco (Chico) Carrilho, José Eduardo, Rodrigo, Zé Norberto, Teresa, Nandinha, Matilde.
    José Franco Carrilho (4/6/1922 – 29/1/2001) é pai do Júlio, Luísa, Zeca, Nando, Gunass (Renato), Joneca, Tonecas, Maria do Carmo e Carlinha Carrilho.
    João Manuel Zamith de Franco Carrilho - Foi vice-Ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural desde 2000, presidente do Instituto Nacional do Desenvolvimento Rural de 1979 a 1999 e trabalhou vários anos em questões rurais moçambicanas. João Carrilho nasceu a 22 de Setembro de 1955, na Cidade de Pemba, na província setentrional de Cabo Delgado. Descendente das famílias da Ilha do Ibo (norte de Moçambique), é o sexto dos 9 filhos de José Franco Carrilho e Maria das Dores Zamith Carrilho. Seu pai dedicou-se primeiro à venda de roupa e mais tarde foi guarda-livros. Quando João Carrilho nasce, o pai trabalhava numa empresa de sisal em Nangororo, nas margens do rio Ridi (Cabo Delgado). É aqui, onde o pequeno João vive até aos seis anos. Então, sendo grande o número dos irmãos a estudarem e por ser difícil sustentar os filhos em vários colégios, a sua mãe transferiu-se para Pemba. Dos seus irmãos, recordamos Júlio Carrilho, ex-Ministro das Obras Públicas e Habitação, Maria Luísa Carrilho, ex-Administradora do Banco de Moçambique.
    José Norberto Carrilho - Filho de D. Judite e Sr. António Baptista Carrilho, nasceu em Pemba aos 9 de Maio de 1955. Exerce função no Judiciário Moçambicano.

    Júlio Carilho - O escritor Júlio Carrilho, também natural de Pemba e filho de José Franco Carrilho e Maria das Dores Zamith Carrilho - entre seus nove irmãos está o Joneca, acima citado como João Manuel Zamith de Franco Carrilho. Júlio Carrilho é formado em arquitectura e desempenhou no período pôs-independência as funções de Ministro das Obras Públicas de habitação. (Notícias, 02/05/01).  Além artista, escritor, Júlio Carrilho é também Arquitecto e Professor na Universidade Eduardo Mondelane.
    Algumas de suas obras - Riário, Apontamentos, Um olhar para o habitat informal moçambicano - de Lichinga a Maputo, Pemba - As duas cidades.

    De Júlio Carrilho também:

    OS TRUQUES
    Quantas Áfricas terão de se afirmar no truque do aparente desprendimento? Quantas ainda terão de se aprimorar na sua própria ignorância calculada?

    Hoje já não creio que só o futuro é que nos traz mensagens. E a Nação? Era candura a minha, essa de fazer da história uma tábua de passar a ferro. E queimei-me nas minhas próprias subtilezas de argumentação.
    - "Madera Zinco", Revista Literária Moçambicana.

    SER MWANI
    Não é que ser mulato me abra portas:
    é preciso que tenha aprendido a beber
    esse saber da praia
    qualquer que seja a dor que se transporta

    A guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
    A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se.
    Na sabedoria dos escravos
    Na subtileza do servir dos servos
    Na paciência dos barcos adornados

    Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
    Da intriga
    Viscosamente escrutinada nas sub-ilhas dos murmúrios
    Dos quintais fechados.
    - Júlio Carrilho (Sugestão de Andrea Andrade Paes)
    Recordando ZECA CARRILHO...
    Uma vez em Caia - Moçambique !

    Decorriam os anos de 1975/1976.
    As chuvas caiam com intensidade.
    Uma avioneta faz-se á pista de Caia e, uma jovem de vinte anos com o seu filho de dois meses descem.
    Além de seu marido que a aguardava, ao seu lado estava o Engenheiro Carrilho, naquele modo educado e brincalhão, a dar-lhe as boas vindas e a divertir-se com o seu ar assustado.
    Foi bom encontrá-lo.
    A jovem suspirava por saudades de Maputo e aquele fim do mundo, aquela umidade, aquele calor doentio, aquelas chuvas castigavam seu peito... Era enfim uma zona de Moçambique que não conhecia.
    Nos serões na grande varanda de estilo colonial falava-se de terras e gentes de Cabo Delgado, da faculdade já que todos que ali estavam estudaram na mesma época na Faculdade de Engenharia em Maputo: o Zé Rendas e o Japs - José António Pereira da Silva que vive em Maputo. Eram da Somopre - da ponte sobre o Zambeze. E o marido da jovem trabalhava na Manuel da Silva Oliveira... a celebre estrada centro nordeste... O Engenheiro José Carrilho era da fiscalização por parte do governo.
    Com o tempo, o estado do bebê , filho da jovem, ia piorando vítima de uma grave disfunção muscular. A jovem levou-o para se tratar e viver em Portugal,... mas ela voltou depois de deixá-lo com os seus pais na Povoa de Varzim...Voltou para Caia.
    Um dia, quando regressa da Beira na avioneta do Guerra , chega a casa e é informada que o seu marido está preso e a ser interrogado pelo grupo dinamizador e policia.
    Em pânico procura ajuda...
    Está no seu quarto lavada em lágrimas quando alguém bate á porta e senta-se ao seu lado, abraça-a e diz-lhe:

    - "Nada vai acontecer. O Delgado (marido da jovem) é um bom colega e um bom profissional, confia em mim, não permitirei que lhe façam mal."

    E partiu...
    A noite decorreu cheia de lágrimas.
    Mais dois dias se foram e ninguém aparecia.
    Disseram à jovem que o Engenheiro Carrilho presidia às reuniões sempre muito zangado quando falava.
    Ao fim do terceiro dia, o sol começava a pôr-se e a jovem ouve gritos dos empregados da casa.
    Corre para o portão e aos poucos vai saindo para o meio da estrada de terra vermelha batida pela chuva com explosões de pequenos cristais, tamanha era a força com que a água tocava o chão.
    Ao fundo começavam a surgir duas silhuetas que pareciam emergir do estrondo da trovoada e relâmpagos... Eram José Carrilho e João Delgado!... Ali os dois... todos molhados...
    A jovem desmaia e acorda na sala.
    Ao seu lado o seu marido pálido com a barba por fazer de dias e o Engenheiro José Carrilho... ...
    Um dia partiram para Maputo e, no aeroporto, a jovem abraçada ao Engenheiro Carrilho promete que nunca o esquecerá e voltaria a encontrá-lo.

    1997 - Pemba... Um abraço bem forte: o Zéca Carrilho ali estava. Conheceu o bebê já homem e mostrava felicidade porque aquela mulher, aquela família, nunca o esqueceram...

    1998 – Maputo, foi a ultima vez que o viu.

    2005 – Hoje, essa jovem sou eu. O bebê é o meu filho mais velho de 30 anos, irmão de mais três. Muitas vezes me lembro da noite em que o pai dos meus filhos voltou para casa quando, numa época política instável e tumultuada que se vivia em Moçambique, quando poderia ter ido prisioneiro para um dos campos da Gorongosa.
    Sou moçambicana. Com os erros passados aprende-se a construir um país melhor... mas ali, naquele tempo, o enorme coração do Engenheiro Zeca Carrilho evitou que um ser humano fosse vítima de um erro.
    Considero-te Zeca Carrilho, uma das estrelas que mais brilhará no céu de Caia e Moçambique.
    Quem sabe a qualquer hora, ao olhar o firmamento estrelado, irás mandar-me uma mensagem, um sinal, como acontecia quando éramos parceiros nos jogos de cartas de tantos serões?...
    E então, pedir-te-ei, seja lá onde estiveres, para tomares conta de nós, como tão bem fizes-te em 1975/76 na distante Caia.
    Aqui deixo a eterna saudade das famílias Delgado e Fernandes Pinto.
    Um beijo terno muito meu.
    - 06/10/2005, Maria Manuela de Fátima Marques Pinto (Fátinha).

    - Do ForEver PEMBA em 09 de Novembro de 2005 e via mensagem postada no Bar da Tininha alusiva ao aniversário de falecimento do saudoso parceiro e amigo desde os bancos escolares na então Porto Amélia – Zeca Carrilho.

    (Transferência de arquivos do sitio "Pemba/Régua" que será desativado em breve)

    5/10/10

    Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Apontamentos de Histórias Perdidas 2...

    Outras Histórias perdidas...:
    Ex-farmacêutico, ex-polícia, José Alves vive (vivia em Portugal...) em condições desumanas!!!!

    DR. JOSÉ ALVES - O Diabo (jornal português) retoma a causa dos espoliados das ex-colónias e aborda mais um caso humano dramático: José Alves, de 88 anos, vive agora os últimos dias da sua vida em condições difíceis. Para trás fica uma história côr-de-rosa de um licenciado em Farmácia por terras de Moçambique:
    Da polícia para a Universidade - Na recôndita aldeia de Gondelim, concelho de Penacova, todos o identificam como o «doutor José Alves», devido ao seu passado como farmacêutico. Este idoso, de barba e cabelos brancos em desalinho e unhas enegrecidas, move-se com muita dificuldade, apoiando-se num providencial cajado.

    A idade não perdoa. Para ele o tempo passa devagar. Muito devagar. Revela uma lucidez e uma preparação intelectual invulgar para um homem de tão provecta idade. Vive ao abandono e somente a generosidade dos sobrinhos lhe disfarça a fome. Sobrevive com uma parca pensão de 30 contos.

    Ele é um dos muitos espoliados das ex-colónias, que, da noite para o dia, ficou com uma mão-cheia de nada. Dir-se-ia que como o deste homem, nascido no período em que a I República dava os primeiros passos, há centenas de casos em Portugal. É possível. Mas cada história é uma história, e a de José Alves reveste-se de peculiaridades.

    A pacata Gondelim, nas imediações da Barragem da Raiva, foi a terra que o viu nascer. Afecto à classe dos "pés-descalços" como faz questão de realçar, começou logo aos 5 anos a trabalhar no campo. «Não de sol a sol, mas de estrela a estrela», apressa-se a corrigir. O serviço militar foi cumprido em Vendas Novas. Os estudos ficam para trás sem grande êxito, apesar das otencialidades que todos lhes reconhecem. Concluiu o 2º ano do liceu apenas com a instrução primária cumprida. Entretanto, aceita o desafio de dois colegas e concorre à polícia.

    Entusiasmou-se, e mais tarde retomou os estudos. A experiência obtida numa farmácia da terra fá-lo ganhar o gosto por estas matérias. Demanda a «cidade dos estudantes», onde tira o bacharelato em Farmácia, para espanto de muitos que indagavam o que fazia um polícia na universidade. Só posteriormente, com 35 anos e uma distinta média de 15 valores, logra a licenciatura na Universidade do Porto. Inicia o périplo por algumas farmácias do País, primeiramente no Padrão, no centro da cidade do Porto.

    Mas o apelo das províncias ultramarinas revelar-se-ia mais forte. Em 1948 instala-se em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques, na Farmácia Augusto Nazaré, onde era sócio a título simbólico, porque «a lei assim o obrigava». O despedimento leva-o até ao estabelecimento de João Ferreira dos Santos, na ilha de Moçambique, descoberta por Vasco da Gama em 1498 e onde os portugueses se instalaram em 1506. Reconhece que em três anos de permanência em África arrecadou mais do que nos restantes anos em Portugal. «Só para dar uma idéia, passei de dois para seis contos por mês, o que na altura era significativo.»

    Em 1956 atinge a emancipação, quando passa a gerir a única farmácia de Porto Amélia. O facto de ter prescindido de ajudante obrigou-o a uma entrega total ao negócio, trabalhando «24 sobre 24 horas». -Ganhei a independência e deixei-me ficar para ver se ganhava mais algum. Só num mês acumulou 50 contos.

    O esboroar do sonho africano - Os dias de tempestade levam-no à cadeia, apesar de ser o primeiro a reconhecer que o «preto moçambicano gostava de ser português». Detido, conviveu com nove pessoas como sardinha em lata, sujeitos a torturas e interrogatórios numa cela à temperatura de 40 graus. As acusações de traidor eram as mais frequentes no tempo de cativeiro, período em que perdeu dez quilos. -Só havia pão e água, e o peixe que serviam era podre e nem os cães o queriam comer, relembra.

    Entretanto, dá-se a transferência da prisão provisória de Porto Amélia para o estabelecimento prisional de Machava, em Lourenço Marques. «Não me mataram porque não quiseram», relata, e conta as suas experiências nesta prisão política.

    Aos 65 anos regressa a Lisboa, com "alguma roupa e um transístor". Dinheiro nem vê-lo. Antes de ser detido depositou cinco mil contos no consulado português em Moçambique, quantia que nunca mais reaveu. Fala com especial ternura do "canudo da formatura, escrito em latim", que o precipitar dos acontecimentos fizeram com que ficasse esquecido nas quentes terras de África.

    Já em Lisboa seria acolhido pela Santa Casa da Misericórdia, onde, ironicamente, declara «não ter visto mostras de muita santidade».

    À reforma social, no valor de cinco mil escudos, juntava-se o mesmo montante para a reforma da polícia, na sequência de um decreto-lei da responsabilidade de Mota Pinto, que privilegiaria quem tivesse sido funcionário do Estado. Um dia, na Segurança Social, um zeloso funcionário informou-o de que «não podia ter direito a duas reformas». Resultado: ficou reduzido a uma reforma, do tempo em que foi agente da autoridade. Do período em que foi farmacêutico, só perduram as memórias, porque da compensação social, nem tusto.

    Por estes dias dorme num leito tosco e pobre sob quatro paredes sem condições, que, gracejando, denomina como «o palácio do doutor». Confessa que sofre muito com os rigores do Inverno, e o que lhe vale é o ar puro proveniente da imensa mancha de pinhal que o circunda - se calhar o segredo da sua longevidade.

    Mais um, dos muitos casos, que continuam a escapar à sensibilidade dos políticos da nossa praça.
    Nota da redação do "O Diabo": Indaguei, por várias vias, se o Dr. José Alves ainda seria vivo e soube que ele teria morrido em finais de 2001.

    AQUELAS FIGURAS DE PEMBA QUANDO ERA PORTO AMÉLIA... ou saudades daquela "má-lingua" - amigável e no bom sentido - que nos fazia sorrir...! - (Trechos extraídos do Bar da Tininha-Yahoo!"):
    Sobre o Dr. José Alves - De: Fernando Gil - Data: Dom Mai 11, 2003 10:55 am - E o WalksWagen a apodrecer em frente à porta da farmácia? Lembram-se? Mas não sei se vocês sabem um pouco da história da vida deste Homem. Ele era polícia em Portugal e, ficando sem pais, ajudou um irmão mais novo a formar-se. Como tantas vezes e infelizmente acontece, quando o irmão se apanhou com "canudo" não mais o quiz ver e contactar. Ele, que só tinha a 4ª classe, encheu-se de brio e em 3 anos, a trabalhar, fez o liceu e entrou na Universidade para Farmácia. Foi assim que, quando acabou o curso, foi ter com o irmão com a passagem para Moçambique e o "canudo de farmacêutico" e tanto se quis isolar que escolheu o lugar mais remoto em Moçambique: Porto Amélia, na altura. Era um bom homem que ajudava muita gente cedendo medicamentos de borla a muitos africanos. Um abraço.
    - Fernando Gil.

    De: Jorge Alberto Eusébio Carneiro, Data: Dom Mai 11, 2003 12:00 pm - Lembro-me sim que era o José Carrilho, magro de estatura média/alta. Dos frequentadores do Bar para além de todos os nomeados muitos outros como o Cristina (Mário?) (Sagal e algodão-compras??), o Nuro Gani muito amigo da minha familia e de nós em especial e de muitos dos condutores de camião ao serviço da Sagal. Pesquei também nas noites na ponte/cais com o dr. Alves e isto numa altura em que em 57/58 o Governo deu a possibilidade de férias pagas a quem cá estivesse na Universidade e tivesse os Pais em Àfrica; as alternativas então eram ir para o cais no fim da tarde/noite, ir para o Desportivo ou para o Pemba jogar ping-pong. Foi por esses anos que a praia do Wimbe começou a ser mais frequentada; até então era a praia em frente à Sagal e de vez em quando a chamada praia do Palmar que julgo eu era nas cercanias do Wimbe. Bom domingo a todos.
    - Jorge Carneiro.

    Sobre o Carling do Miéze - De: Antonio Fernandes Coelho - Data: Seg Mai 12, 2003 5:34 am - Assunto: Alemão solitário - De seu nome Carling (é assim que se escreve?) era o maior fornecedor dos saborosos carangueijos nados e criados nos matopes e mangais do Mièze...
    Por falar em figuras "típicas" daqueles tempos; quem se lembra daquele que, na loja do Ávila ao lado do Marítimo, recusou comprar umas quantas chávenas porque, segundo ele, tinham a asa do lado esquerdo e lá em casa ninguem era canhoto?
    Se não é verdade, pelo menos a história corria... e umas tantas outras do género, atribuidas ao mesmo personagem?
    Fica o desafio à vossa memória.
    E quem se lembra do pequeno-grande homem, alfaiate, de nome Piera?
    Vamos lá a puchar pelos neurónios... e a tirar do baú as recordações que pertencem à infância de todos.
    RECORDAR É VIVER!
    - António Fernandes Coelho.

    Sobre o Dr. José Alves - De: João Manuel C Araujo - Data: Seg Mai 12, 2003 5:52 am - Do Dr. Alves lembro-me de 2 curiosidades:
    1. Uma vez tive uma virose, supostamente depois de ter sido objecto de rigorosas manifestações de irritação por parte de uma cria de Leoa capturada pelo Sr Nunes Vicente (lembram-se dele?). O Dr. Alves, que além de bom coração era conhecido pela sua frontalidade teve o seguinte comentário dirigido à minha Mãe: "Ó minha senhora, isso não é nenhuma virose. É daquelas doenças que periodicamente matam uma data de crianças por aí!". Mas sou mesmo eu que vos estou a escrever...
    2. Conta-se (será talvez lenda) que periódicamente ia ao Banco com um tambor de lata de óleo cheio de notas para fazer depósitos (a curiosidade é o tambor).

    Já agora, e prometo continuar brevemente, lembro:

    • A madame Dallman(?) que foi a primeira senhora que vi a conduzir camião e a fumar cachimbo. Se bem me lembro vivia ao lado dos Andrade Pais.
    • Um capataz alemão da plantação do sr. Moreira Longo, de nome Siegert, que tendo adormecido em cima de uma árvore enquanto esperava por um leopardo caiu da árvore quando o leopardo lhe "atirou" com um rugido.
    Abraços,
    - João Manuel Araújo.

    Sobre o Dr. José Alves - De: Antonio Fernandes Coelho - Data: Seg Mai 12, 2003 7:20 am - Falando do Dr. Alves, contava-se ainda a história de uma conhecida e querida figura da "nossa Praça" que um dia lhe foi pedir um creme para as rugas.
    O nosso amigo, com ar pensativo, pôs-se a olhar as prateleiras dos medicamentos enquanto cantarolava baixinho:

    - "Oh tempo, volta p'ra trás"...

    Estava aviada a receita...
    - António Fernandes Coelho

    De: Jaime Luis Gabão - Data: Seg Mai 12, 2003 10:48 am - Assunto: Re: Alemão solitário - O tal das chávenas... Parece que lembrei... Não seria o famoso Pinto da Cunha ?...
    - Jaime Luis Gabão

    De: Inez Andrade Paes - Data: Seg Mai 12, 2003 11:53 am - Jaime, era sogra do Sr.Frank também consul da Alemanha que trabalhava na Pillipy. Era a Frau Dalman que nós por sermos amigos dos netos dela a tratávamos por Oma (Avó). Eles viviam mesmo ao nosso lado.
    Muitos se devem recordar daquela pequena ponte que ficava no meio da grande avenida que ía ter aos fusileiros e que chamavam de Gravata.
    Foi essa Senhora que numa das suas idas para "Pequena Macarara" (a machamba mais pequena ali perto da cidade)e já com um "grão" valente na asa, deitou uma das guardas da ponte abaixo, pois além de fumar muito gostava dos seus Whiskies...
    Foi a melhor maneira de fazer ali uma avenida decente.
    Mais um abraço,
    - Inez Andrade Paes.

    De: Antonio Fernandes Coelho - Data: Seg Mai 12, 2003 12:27 pm - Assunto: Recordações - Sim, Jaime, a pessoa em questão na história das chávenas é mesmo essa.
    Falava-se ainda de uma sua ida à Capitania do Porto para obtenção de licença para ter o Petromax aceso na varanda. É que, no gozo, o "velho" Patacua, ex-faroleiro, o convencera de que a luz podia induzir os navios em erro... (da casa dele nem o mar se via, embora fosse perto).
    Havia histórias fabulosas naquela terra! Basta começar a recordar e é como as cerejas; vêm umas atrás das outras.
    Lembram-se de alguém que, à noitinha, junto ao Estádio e escondido no banco trazeiro de um carro, levou com uma chapa de matrícula na tola?
    NB: Desculpem mas aqui não há nomes.
    - António Fernandes Coelho.

    De: Zé Norberto - Data: Seg Mai 12, 2003 1:46 pm - Assunto: Re: Recordações - Eu era muito miúdo, mas falavam tanto das originalidades dele que virou "herói" da minha infância. Devia ter tido qualquer coisa a ver com o carvão. Não foi por isso que vocês, os da geração do Tó Coelho e do Jaime, terão dado carinhosamente a alcunha de Charbonnier ao filho, irmão da Adélia, ou já estarei confuso?
    Um dia foi à Niassa Comercial devolver uma máquina de escrever novinha que havia comprado só porque alguém lhe disse que ela dava erros ortográficos!
    Um abraço.
    - Zé Norberto

    De: João Manuel C Araujo - Data: Seg Mai 12, 2003 3:03 pm - Assunto: [Bar da Tininha] Re: Pois... - E doeu que se fartou. Ainda tenho cicatrizes visíveis. Mas o pior estava para vir: quem me tratou foi o inesquecível Dr. Carmo, que não se calou nem 1 segundo enquanto me limpava os cortes.
    - João.

    De: Antonio Fernandes Coelho - Data: Seg Mai 12, 2003 5:07 pm - Assunto: Recordações - Oh Zé Norberto,
    Com pena minha mas estas (maldita falta de acento aqui no teclado de casa) enganado.
    O Charbonier era o saudoso Luis Faria (o pai negociava carvão e a malta, pimba: Sai alcunha. Sabes como é...).
    Essa da maquina de escrever estava engatilhada mas disparaste tu, tudo bem. Vale na mesma.
    Rodam-me na mente mais algumas historietas que irão saindo com o tempo. Saborear devagar sabe melhor.
    Quanto a nomes, tem paciência Jaime mas tem que ser com muitos "pesinhos de lã" pois casos ha que são um tanto sensiveis.
    Vamos com calma. Voltaremos à chapa na tola. Prometo.
    - António Fernandes Coelho.

    De: Zé Norberto - Data: Ter Mai 13, 2003 6:13 pm - Assunto: Re: Recordações - Obrigado, Tó Coelho. Bem me parecia que eu estava equivocado sobre qual deles tinha tido o privilégio de ser rebaptizado Charbonier. Ainda bem que a tua memória é mais fiável do que a minha!
    Um abraço.
    - Zé Norberto.
    (Transferência de arquivos do sitio "Pemba/Régua" que será desativado em breve)

    De Porto Amélia a Pemba: Apontamentos de Histórias Perdidas...


    Nos anos 60 esteve em Porto Amélia um médico de nome Camilo de Araújo Correia que, em 1991, publicou um livro denominado "Livro de Andanças". Desse livro extraímos:

    APONTAMENTOS DE HISTÓRIAS PERDIDAS - Quando recordo o tempo de Porto Amélia, muitas vezes me salta na memória o meu amigo Armando Cepêda.

    Era um homem largo, inteligente e bondoso. No carão de pugilista a linha dos olhos e a linha da boca traçavam, a miúdo, um sorriso paralelo a deixar transparecer uma acomodada filosofia de vida.

    Era casado com D. Maria, senhora absoluta da Pensão Miramar. E digo senhora absoluta porque ali quem mandava era ela. Nem o marido nem os filhos davam a mínima ordem naquela nau de tripulação negra, capaz de todas as preguiças e descuidos. Com dois berros e dois cascudos aquela criadagem indolente andava numa roda viva. D. Maria era uma senhora robusta, de língua solta com sotaque do Porto.

    Parecia um salpico, na costa de Moçambique, do pincel genial de Abel Salazar, em momento de inspiração tripeira. Armando Cepêda mandava na sua oficina de reparação de motores de que era especialista em Diesel. A oficina ficava na Rampa, aquela encosta medonha que nem a bordadura de acácias rubras conseguia suavizar. Medonha e obrigatória na ligação da parte alta com a parte baixa de Porto Amélia.

    Passei muitas horas naquela oficina entre carcaças da mais diversa maquinaria avariada, à espera que Armando Cepêda lhe restituísse a serventia perdida. E dava gosto ver aqueles dinossauros sair de um sono pesado e regressar ruidosamente à floresta, com uma palmada na anca. Uma palmada que só o meu amigo Cepêda sabia dar.

    Conseguíamos conversa entre roncos de motor e marteladas de todos os sons. E tudo servia para dois dedos de conversa, a fazer sede para dois goles de cerveja. Guardo ainda um cinzeiro de pé alto que Armando Cepêda me fez numa pausa do serviço. É a estilização de uma cobra erguida na ponta do rabo a equilibrar meio coco na fúria da cabeça.

    Antes e depois de jantar, Armando Cepêda derramava o corpanzil naquelas cadeiras do jardinzinho da pensão à espera de todos os cansaços, de todos os tédios e nostalgias. Recordo ainda o perfume adocicado das magnólias que o calor da noite parecia libertar suavemente.

    Os hóspedes vinham chegando, um a um, à roda das cadeiras e a eles se juntavam residentes de Porto Amélia para dois dedos de conversa. Pessoas vindas de toda a parte pelas mais variadas razões, algumas delas muito roladas pelas mais diversas geografias. Comerciantes, agricultores, médicos, funcionários públicos, engenheiros, militares, todos enleados naquele fio de nostalgia tropical que parece igualar todos os homens.

    As palavras iam ficando mais espaçadas e moles com o andar daquelas noites suadas. Mas se a conversa caía sobre o mato, Armando Cepêda erguia-se um pouco da posição quase horizontal, para, pouco a pouco, dominar o assunto.

    E todos nos erguíamos um pouco também para o ouvir contar histórias de camiões atolados no matope, dos perigos e dos encantos do mato. E de caça. Armando Cepêda não era, digamos, um caçador de safaris. Era caçador solitário, muitas vezes por exigência da esposa, quando a despensa fraquejava. Apertado por ela, Armando Cepêda ia ao mato abater um javali como quem vai ao fundo da capoeira buscar um frango.

    Por duas vezes o acompanhei nesta caça de subsistência. A ele e ao Jacinto dos Caminhos de Ferro devo o conhecimento do mato. Sem eles a minha África teria sido pouco mais do que uma África de cidade. Jacinto era uma velha glória do Benfica. Ter sido guarda-redes das primeiras categorias era uma recordação que lhe fazia ainda rebrilhar os olhos. Jacinto era um caçador tão metódico como apaixonado. Dois pisteíros negros, o velho Land Rover, um bom farolim e a arma escolhida para o tipo de caça determinado. E eu, às vezes, graças a Deus! Sim, dou graças a Deus por ter vivido o emocionante espectáculo de andar a esmo pelo mato, com o jeep aos solavancos, farolim a esquadrinhar os espaços mais suspeitos e a surpreender os animais na intimidade da noite.

    Inesquecíveis aquelas imbabalas saltitantes e graciosas como bailarinas a fugir ao palco de luz que lhes ofereciamos. E aquela sensação de liberdade plena que se experimenta, ao descansar nas quinandas, ouvindo o crepitar da fogueira e do falajar dos negros contra o silêncioprofundo do céu?Sempre me pareceu que Jacinto, mesmo a mexer na burocracia do seu emprego, tinha os olhos no mato. Tanto que, mal deixava a secretária, caía no quarto a pintar. A pintar o mato; sempre com animais em primeiro plano e, tão recortados, que pareciam postos ali depois do quadro pronto. Não era um bom pintor. As telas eram o seu mato teórico para onde gostava de ir, a qualquer hora. Uma vez, só porque me demorei um pouco mais a ver três gnus a pastar, ofereceu-me o quadro. Na bagunça do regresso, o quadro perdeu-se. E tenho pena. Estaria hoje numa das minhas paredes com as saudades da África a retocá-lo todos os dias.

    De uma vez o Jacinto convidou também para a caça o Dr. Manuel Jóia, médico do «Bartolomeu Dias», ancorado na baía de Porto Amélia, em patrulha da costa de Moçambique. Foi o seu baptismo de mato. O grande entusiasmo com tudo o que ia acontecendo redobrou quando, ele próprio, abateu um javali. Entre as seis e as dez da manhã é fácil encontrá-los nas áreas da sua predilecção. Passam como carruagens de um comboio rápido. Jacinto aconselhou:

    — Aponte a um dos primeiros... Pode ser que acerte num dos últimos...

    E o Manuel Jóia acertou, julgando, a princípio, não ter acertado. O raio do bicho com um rombo na barriga ainda se fartou de correr como se nada fosse com ele! Depois lá caiu como se tivesse caído do comboio.

    No «Bartolomeu Dias» os oficiais comeram javali até lhe chegarem com um dedo e festejaram o seu médico como um herói da selva.

    Voltemos ao meu amigo Armando Cepêda. Ele era, como já lhes disse, um caçador solitário. Saía antes da madrugada e regressava antes do entardecer. Da segunda vez que fui com ele «à carne» aconteceu uma coisa que me apetece contar.

    O sítio escolhido para o abate foi uma velha machamba de milho abandonada, entre Porto Amélia e Mecufi.

    — Aqui é um sítio bom por causa dos restos do milho e não há macacos a denunciar a nossa presença com a gritaria — disse o Armando Cepêda, saindo da picada.

    Não havia meia hora de sol, quando apareceu um javali do outro lado da pequena veiga que dominávamos completamente de onde nos haviamos instalado. Era um animal relativamente pequeno, a grunhir e a estraçalhar a um e outro lado do focinho temeroso.

    Parecia nada recear e, no entanto, toda aquela energia de patas e focinho parava, de vez em quando, como se tivesse havido um curto-circuito. Depois de uns segundos de imobilização total, a fúria do javali restabelecia-se para, daí a pouco, sofrer nova pausa.

    — O bicho está desconfiado... eles são muito desconfiados... — disse Armando Cepêda, à boca pequena, sem tirar os olhos do javali.

    Como vinha na nossa direcção, a certa altura ficou a uma boa distância de tiro.

    — Então?! — perguntei baixinho.
    — Quanto mais perto o abatermos, menos custa a arrastar para o jeep...
    — Pois é... —  disse, reconhecendo a minha inexperiência.

    Armando Cepêda sorriu aquele sorriso de linhas paralelas.

    Quando o javali ficou a uns trinta metros, perguntou-me se queria atirar.

    — E se falho e não aparece mais nenhum? Não podemos aparecer à D. Maria de mãos a abanar!...
    — Deus nos livre!... Ninguém a aturava!...

    Soaram dois tiros com intervalo de um segundo. O javali caiu no meio da erva como um saco de batatas.

    Com um arame atado às patas de trás e um pau atravessado na outra ponta foi fácil arrastá-lo até ao jeep.

    O «mata-bicho» à sombra daquela mangueira isolada no mato rasteiro, ainda hoje me sabe. D. Maria era uma senhora farta. Arranjou-nos um farnel que dava para atravessarmos a África. Fígado de cebolada, meio metro de omelete, carne assada, queijo, muito pão, cerveja e água mineral. Do começar ao palitar, foi uma larga hora a comer. A comer e a contar coisas.

    No fim de arrumar a tralha, com o método e a lentidão que o caracterizavam, disse o Armando Cepêda, já todo contente com a ideia:

    — Vamos cumprimentar o meu amigo Rosas! É chefe de posto aqui perto. Vai ficar todo contente!

    Era realmente ali perto e o senhor Rosas ficou todo contente. Quis logo que nos sentássemos na varanda e foi dizendo:

    — Vindes em boa altura! Tenho uma esplêndida carne de búfalo novo; vou já arranjar uns bifes e umas costeletas...
    — Para mim, não! — cortei, aflito.
    — Ora essa!... Por quê?! — admirou-se o senhor Rosas.
    — Desculpe... é que acabámos agora mesmo de comer este mundo e o outro...
    — Bem... Bem! — respondeu desalentado, mas logo a berrar lá para dentro:
    — Hassan!

    Apareceu um negro, a limpar as mãos, a fazer vénias e a sorrir de orelha a orelha.

    — Prepara uns bifinhos e umas costeletas daquela carne... com aquele molho... Tu sabes como é!

    Hassan sabia como era. Meia hora depois, apareceu na varanda com uma travessa enorme no meio de uma pequena mesa portátil, já posta para três pessoas. O cheiro da carne apanhou-me de surpresa. Era de tal maneiras agradável e penetrante que até as glândulas salivares me doeram!

    — Vai uma pontinha, doutor, só para provar? — perguntou-me o senhor Rosas de olhinho irónico.
    — Isso cheira pela vida... — consegui dizer em plena vertigem.

    A pontinha de carne que o senhor Rosas me pôs no prato «só para provar» foi uma costeleta do tamanho de uma raquete de ping-pong espessa, suculenta e aromática...

    A princípio com uma certa cerimónia e depois com uma certa gula lá fui andando pela costeleta fora. Acabei a «raquete» como mandam as regras: pegando-lhe pelo cabo... Quando pousei o osso rapado, diz-me o senhor Rosas com sorriso de vitória:

    — Então, doutor, estava boa?

    A vitória não foi do senhor Rosas. Foi da África. Daquele sentir tudo de novo, como uma estreia dos sentidos, em cada momento que passava.

    Conheci Megama Abdul Kamal muito antes de o vir a encontrar, frequentemente, na Pensão Miramar.

    Megama era régulo do Chiure, com influência religiosa numa larga faixa de terreno entre o Rovuma e o Lúrio. Homem abastado, senhor de terras e camiões, era também transportador habitual da grande companhia algodoeira Sagal.

    Fui a sua casa a convite do Armando Cepêda, chamado a consertar o motor de um poço. Nas apresentações vi que eram grandes amigos. Julgo que, por isso, Megama me olhou logo com respeito e franqueza, sem duvidosa humildade dos negros daquele tempo.

    O motor ficou composto num instante. Nós levámos mais tempo... Megama quis que provássemos de todos os seus petiscos. Seu era também o café, da planta à chávena. A mâozada firme e confiante com que nos despedimos havia de repetir-se, vezes sem conta, por todo o meu tempo de Porto Amélia.

    No regresso ao jeep, ouvi falas e risinhos por detrás de uma paliçada. Notando a minha estranheza, Armando Cepêda logo me esclareceu:

    — São as mulheres de Megama...

    Na cidade, vim a saber pelo Jaime Ferraz que deveriam ser umas sete... Em Porto Amélia o Jaime sabia um pouco de tudo!

    Um dia, Megama apareceu no Hospital Militar todo dobrado e cheio de dores. Era uma hérnia estrangulada, há três dias... Os cirurgiões costumam «berrar» com os doentes por virem tão tarde, em evidentes situações de solução cirúrgica. Mas o Dr. Manuel Simões Coelho não berrou. Tratava-se de Megama Abdul Kamal! E por se tratar de tão importante personagem o post-operatório teve aspectos de peregrinação.

    Vinham negros de toda a parte, trazidos por aquele fio invisível que é o sentimento religioso, temperado na fé e na obediência.

    Com o vai e vem da gentiaga, a vida do hospital acabou por se perturbar. Ao ponto de, pelo terceiro dia, o Simões Coelho me pedir:

    — Tu, que és todo amigo do Megama, podes garantir-lhe que está livre de perigo, que tudo vai correr bem... e pedir-lhe que faça constar as suas melhoras, a ver se acaba esse corrilório!...

    Assim fiz. Megama compreendeu e actuou muito bem. As visitas acabaram de um dia para o outro. Nem umas só voltou a aparecer! Ainda hoje me espanta o extraordinário poder de comunicação dos negros naquelas lonjuras primitivas, sem rádio, sem telefone e sem correio.

    Armando Cepêda era um caso curioso de fotógrafo. Nem amador, nem profissional. Era fotógrafo de ocasião, para ganhar uns cobres suplementares. Essa ocasião surgia quando os indígenas precisavam de retrato para a caderneta. Dava-lhe jeito aproveitar os domingos, que no mato não têm qualquer significado. Era sempre recebido nas aldeias com grandes manifestações de contentamento. Nas pausas da algazarra, fotografava quatro negros de cada vez, sentados numa tábua. Depois, no «estúdio», a tesoura lá os separava. No domingo seguinte, a caminho de outra, passava pela aldeia fotografada e distribuía os retratos. Havia corridinhas e gritos de alegria, com todos a querer ver a cara de cada um no retalhinho de papel.

    Um dia houve um pequeno acidente... Toda a gente parecia satisfeita, quando apareceu uma reclamação, já com o jeep a ronronar a partida.

    — Patrão!... Patrão!... esta não é do nosso!
    — Não é tua?! É tua, sim senhor!! — garantiu Armando Cepêda olhando para o negro e para o retrato.
    — Não é!... Não é!... Nosso não tem chapéu!

    Armando Cepêda sabia lidar com os negros. O grande respeito e admiração que lhes infundia emanava do seu grande espírito de justiça e bondade. Além disso, era um branco forte, compunha máquinas e matava leões.
    :: O saudoso Armando Cepêda (Pai) ::

    Não teve a mínima dificuldade em desfazer o equívico. Pôs a mão no ombro do negro e sossegou-o, assim:

    — Ah!... o chapéu?... Fui eu que pus. É saguate! (brinde, oferta).

    Os olhos do negro rebrilharam com aquela gorjeta inesperada. Depois vieram as palavras de gratidão de uma boca babada de riso:

    — Brigado, patrão!... Brigado, patrão!...

    E partiu, a misturar-se com os outros. Talvez a fazer-lhes inveja.
    - Por Camilo de Araújo Correia, Livro de Andanças.

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    Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - O Dr. Talhante

    DR. MANUEL DOS SANTOS TALHANTE - Não sem uma certa dose de emoção, descobri ontem no “Bar da Tininha” as fotos ali colocadas pelo Carlos Araújo. Nelas revi velhos amigos e conhecidos. Alguns, infelizmente, já não estão entre nós.

    Hoje, por mensagem do Nelito Loureiro, colocada no mesmo local, soube com pesar que mais um passou a fazer parte deste último grupo. Foi o Dr. Manuel Talhante, ex-director da Escola Comercial Jerónimo Romero de P. Amélia e, por caprichos do destino que aqui não vêm a propósito, também meu professor de Português.

    Totalmente diferente do seu antecessor, sobretudo no convívio, não tardou que granjeasse a aceitação e estima de toda a massa estudantil. Foi, naquela época, algo de novo a que não estávamos habituados, nas relações professor/aluno. Bem haja, Doutor!

    Como se de um filme se tratasse, desfila a memória deste personagem franzino de corpo mas grande nas recordações, boas ou más, que deixou em todos os que com ele conviveram.

    A existirem, deixo de lado as más para quem e se as tiver. Das outras, permito-me recordar duas que julgo pertencerem a toda uma geração:

    - Com certa frequência, organizávamos uns bailaricos. Hoje em casa deste, amanhã na garagem daquele, segundo a disponibilidade e paciência de uns e outros. Como em todo o bailarico, em todas as épocas e locais, também nos nossos se formava por vezes um ou outro par mais “atrevidote”.

    Era fatal!... Mal se apercebia (e até parece que “tinha faro”…), lá ia ele (Dr. Talhante) buscar alguma das senhoras presentes, de preferência a que mais mal dançasse, para vir “obrigar” à troca de par, desfazendo o idílio apenas iniciado e, por vezes, tão penado…

    - Peripécia que também ficou célebre foi a ocorrida na placa do aeroporto, em dia de chegada de uma alta individualidade.

    O aeroporto era um mar de gente. Autoridades, povo das mais diversas condições do mais cotado ao mais anónimo. Encasacados uns, fardados outros, pessoal da Escola, do Colégio, da MP (Mocidade Portuguesa). Havia de tudo com fartura…

    A certa altura, um enxame resolve atacar tudo e todos, com especial incidência a cabeça do dr Talhante, cuja protecção capilar era bastante frágil. Gerada a confusão, logo houve quem “aproveitasse para uma vingançazita”, prodigalizando-lhe alguns mimos servindo-se dos bonés usados pela MP.

    Sendo estes providos de fivelas, fácil é adivinhar as marcas ainda visíveis alguns dias depois…
    - António Coelho - Luxemburgo, 08/11/2001.

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