Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Ilha do Ibo. Classificar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Ilha do Ibo. Classificar por data Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

FORTIFICAÇÕES MILITARES DA ILHA DO IBO (parte 3).

Pelo interesse cultural, histórico, pelo valor intelectual do autor (Carlos Lopes Bento) e porque faz parte de Cabo Delgado, transcrevo continuando o "post" de 24/Novembro/2006FORTIFICAÇÕES MILITARES NA ILHA DO IBO, MOÇAMBIQUE
O FORTE DE SANTO ANTÓNIOPor Carlos Lopes Bento[1] - [1]- Administrador do concelho do Ibo, entre 1969 e 1972, doutorado em Ciências Sociais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa,. Antropólogo e Prof. Universitário. Na continuação do trabalho anterior que teve como objecto a Fortaleza de São João Baptista, ocupar-me-ei, hoje, da última fortificação construída pelos Portugueses, na ilha do Ibo:


O FORTE DE SANTO ANTÓNIO
Situado a SSE da Vila, o reduto (em Kimwani rituto por corruptela) de Santo António[1],sito na extremidade da Vila e perto da praia, está assente em pedra corálica, possuindo uma construção idêntica às duas outras fortificações.
De forma quase quadrada, mede 16,75 metros de frente e 17,35 metros de fundo, rondando a altura da muralha 1,93 metros e o parapeito 1,43 metros. No centro do forte eleva-se um baluarte com a altura de 3,5 metros, com as dimensões de 7,58 metros de frente e 7,64 metros de fundo. Deste local, onde estava um mastro destinado a içar a bandeira real, se avistavam as embarcações a grande distância e se transmitiam as ocorrências, através de sinais, à residência do Governador.

Fig I. - O Forte de S. António, com mastro, em 1929.
Crédito: Santos Rufino, Álbum nº8.

A sua construção e funções.Na opinião do novo Governador das Ilhas José António Caldas, que tomou posse em 2/6/1816, as alterações efectuadas no fortim de São José pareciam não ter resolvido o problema da defesa da Capital do território, sedeada na Ilha do Ibo, que continuava a ser nula "porque a fortaleza que aqui está não defende nem a entrada do porto nem a terra, apenas pode servir para recolher uma pequena parte de indivíduos da Vila".
De modo a minorar este grave problema e acalmar os moradores em pânico, sempre receosos de novos ataques por parte dos sakalava, aquela autoridade mandou construir, numa primeira fase, para protecção da povoação do Ibo, "três redutos de estacas e faxina, com artilharia, que cruzam os fogos de um a outro e com a fortaleza e para esse efeito tirou da fortaleza 12 peças para as guarnecer e evitar os acontecimentos de 1808 em que tudo ficou reduzido a cinzas e nem a Igreja escapou"[2].
Não satisfeito com este novo sistema de defesa, por ser muito frágil, o Governador optou por tornar a sua construção mais sólida e definitiva.
Como a segurança da Vila dependia de estar fortificado o passo em que se fez o reduto de Santo António, que era de estacas e de faxina[3], congemina um novo plano e informa o Capitão General ter consultado os habitantes da Vila, propondo-lhe que seria de grande utilidade e respeito fazer-se ali um forte de pedra e cal.
Por a Fazenda Real não dispor de verbas, nem tão pouco haver autorização para a realização desta obra, a mesma população aprovou, prontamente, a diligência "concorrendo todos para esta obra"[4], que teve início imediatamente. A pedra talhada utilizada na dita obra veio de uma casa que se fez demolir, e que, no passado, havia servido de cadeia pública da Vila[5].
A escolha da sua forma quadrada foi justificada pelo facto de ter de "defender 3 lados e outro também se precisa caso tenhamos a infelicidade do inimigo por algum descuido poder entrar"[6]. Esta pequena fortificação constituiria, nas palavras do Governador, uma flecha no intervalo da fortaleza e do forte que permitiria uma boa defesa para a ilha do Ibo, sem receio de poderem entrar os Sakalava[7].
A nova construção foi sancionada por Moçambique que incita o Governador José António Caldas que a planificou e mandou executar, "a concluir a obra no tempo de seu Governo para glória sua e benefício público, pois sua Magestade não deixará de remunerar este serviço"[8].
Em estado de adiantamento nos princípios do ano de 1819, viria a ser dada como acabada, nos meados desse mesmo ano, quando o dito Governador[9] terminou a sua primeira comissão.
Ainda que custeada a construção pela população ficaram por liquidar 843 cruzados em dinheiro e 40 alqueires de milho gastos no pagamento de pedreiros e serventes cativos, produto proveniente do rendimento da Alfândega, não remetido a Moçambique, mas, ilegalmente, depositado, por ordem do Governador, na mão de um particular, com o consentimento do respectivo Juiz[10]. Foi tudo o que se encontrou relativamente ao custo do forte de Santo António.
No frontispício deste pequeno forte encontra-se uma lápide cujos dizeres: "MANDADO FAZER EM 1847 POR T. V. N. FERRARI, GOV. DESTAS ILHAS", não estão de acordo com a realidade e terão induzido em erro muitos dos estudiosos(Teixeira Botelho, Gomes e Sousa, Ribeiro Torres, Leote de Rego, Amaro Monteiro e Pierre Verin, entre outros) que lhe dedicaram alguma atenção[11]. Em 1847 ter-se-ia procedido a grandes reparações, mas não à sua construção de raiz, realizada 30 anos antes, aproveitando-se o Governador Ferrari do facto para se glorificar e perpetuar a sua memória.
As discrepâncias de datas constatadas, relativamente às três fortificações construídas na ilha do Ibo, devem-se, principalmente, à falta de consulta, sistemática, das principais fontes documentais fidedignas( primárias e secundárias) e, ainda, ao facto de nem sempre haver a preocupação de confirmar ou desmentir os factos que serviram de base aos seus trabalhos, aceitando-os como verdadeiros e sem grandes cuidados de crítica e de análise.

Fig.II- O forte em 1972.
Crédito: Carlos Bento

A manutenção em estado razoável destas três obras fortificadas da ilha do Ibo continuava a preocupar as autoridades do Ibo, chegando mesmo a propor-se[12] que ao ajudante da Praça de São João deveria caber também as funções de conservador dos outros dois fortes.
As três fortificações acabadas de examinar, voltadas, essencialmente, para desenvolver e defender os interesses de Coroa portuguesa e dos seus representantes em Moçambique e, ainda, dos moradores das Ilhas pertencentes a uma classe social privilegiada, viriam, simultaneamente, a influenciar as estruturas sócio-culturais das várias formações sociais em contacto.
Pela primeira vez surgiram, na Ilha do Ibo, obras públicas, com carácter definitivo, que exigiam mão-de-obra diferenciada e abundante, trabalho assalariado, livre e escravo, que, viria a ter repercussões, quer a nível da sociedade escravocrata, quer da comunidade aldeã e das suas estruturas políticas, económicas e sociais, provocando novas clivagens sociais, novas formas de relacionamento e novas solidariedade sociais.
Contudo, face a novos condicionalismos geopolíticos, foram as mesmas, pouco a pouco, perdendo as principais funções, anteriormente referenciadas, que estiveram na base da sua edificação, passando a desempenhar outras como resultado da imposição de novas estruturas político-administrativas.
Embora com outras funções, estes bastiões da secular presença portuguesa não deixaram, no entanto, dadas as suas deficiências de construção, de continuar a criar consecutivos problemas de conservação, exigindo, para se manterem de pé, constantes reparações, nem sempre realizadas a tempo, e avultadas despesas poucas vezes disponíveis.
Como reconhecimento da sua grande importância na defesa e consolidação do domínio português nas Ilhas e terras adjacentes, constantemente ameaçado por forças inimigas que delas se queriam apoderar e pelo papel que desempenharam em relação ao restante espaço territorial moçambicano, as autoridades coloniais portuguesas, consideraram-nas, por Portaria de 3/4/1943, monumentos nacionais, deixando-as, à data da independência de Moçambique, em bom estado de conservação, constituindo já, então, importantes factores de atracção turística[13].
Durante os seus anos de existência, estes pontos fortificados da ilha do Ibo constituíram, conforme as circunstâncias, tanto de locais de defesa e protecção, no caso de ataques inimigos, como de instrumentos de coacção e de repressão, especialmente, dos elementos da população mais rebeldes à presença portuguesa e aos seus objectivos, valores e símbolos, considerados, ao tempo, como de imposição legítima e de reconhecimento internacional.
Actualmente, são obras militarmente insignificantes. Ainda que tenham perdido as suas primitivas funções, elas constituem complexos de cultura indispensáveis para compreender a evolução sócio-cultural das múltiplas comunidades humanas que se originaram, desenvolveram e transformaram numa vasta área, que se estende do Cabo da Boa Esperança até ao Oriente.
São um património cultural pertença de todos os cidadãos do Mundo, que é necessário conservar e doar às futuras gerações da Humanidade[14].
Serão, futuramente, de extraordinária importância no desenvolvimento turístico das Ilhas, que se avizinha e começa, no presente, a ser uma realidade palpável
Os meus sinceros agradecimentos ao grande amigo Jaime Luís Gabão pelo trabalho gráfico, que muito valorizou a presente análise e pela sua publicação.
Continuarei com o património construído, de carácter sagrado, levantado pela administração colonial portuguesa, especialmente, nas ilhas do Ibo de Querimba.


BIBLIOGRAFIACartografia manuscrita do AHU
Nº 513 - Plano e perfil da Fortaleza que o IIImº e Exmo. Snr. Governador, Capitão General de Mossambique, António Manuel de Melo e Castro, mandou fazer na Ilha do Ibo, Capital das de Cabo Delgado, que dezenhou por ordem do mesmo Snr. o Cappitão da Primeira Companhia de Granadeiros da Praça de Mossambique António José Teixeira Tigre (c. 1791).
Nas 524-525 - Planta do forte velho da Ilha do Oybo, Capital das de Cabo Delgado/Planta A (tem legenda, c. 1791).
Nº 560 - Planta/Da Fortaleza/De São João da Ilha/do Oibo, com Legenda/levantada em Maio de 1817/Pelo Capitão de Artilharia/António Francisco/de Paula e Hollanda Cavalcanti. [Petipé de] 30 braças [e de] "30 pés"; D. 367x236; MS; Color; Av.
Nº 561 - Planta/de Hüa parte da Costa/da Capitania de Cabo Delgado/Na África Oriental, compreendendo uma parte da costa de Querimba e a/Ilha do Oibo, da dita Capitania, cõ/a Discripção da sua barra tirada em Mayo/de 1817 pelo Capitão de Artilharia António/Francisco de Paula e Hollanda Cavalcanti (com legenda, D. 778x610mm, Color, Av).
Nº 566 - Planta da Fortaleza de São João do Ibo das Ilhas de Cabo Delgado, tirada em 6 de Julho de 1831/oferecida a correcção do IIImº e Exmo. Snr. José Miguel de Brito Governador e Capitão General/da Capitania de Moçambique. Petipé de 32 paços, de 24 polegadas cada hum"; D. 450x388 mm; MS; Av.


ImpressaNº 181 - Planta do Forte Velho da Ilha do Ibo, Capital de Cabo Delgado. 0,245x0,390, colorida. Ver Ofício do Governador António Manuel de Melo e Castro, datado de Moçambique, 22/8/1791. Enc. VIII.
Nº 183 - Planta da Fortaleza de São João da Ilha do Ibo. Levantada em 1817, pelo Capitão de Artilharia António Francisco de Paula e Hollanda Cavalcanti. 0,368x0,495, colorida.
Nº 184 - Planta da Fortaleza de São João do Ibo das Ilhas de Cabo Delgado. Tirada em 6/7/1831 e oferecida à Correcção do Governador e Capitão General da Capitania de Moçambique Paulo José Miguel de Brito. 0,330x0,330. Av.
SERPA PINTO e CARDOSO, Augusto - Expedição Científica Pinheiro Chagas - 1884-85. nº 1 Matibane, nº 2 Porto Bocage, nº 3 Porto Andrieta, nº 4 Fernando Veloso, Memba - Samuco, nº 5 Terras de Luli, nº 6 à volta de Pemba, nº 7 Ibo e terras vizinhas, nº 8 Ilha do Ibo, nº 9 Planta cotada do Ibo. 9 mapas manuscritos, coloridos, a papel vegetal (S.G.L.).
VILHENA, Ernesto Jardim - Carta dos Territórios da Concessão da Companhia do Nyassa. Lisboa, 1904. Escala: 1:750.000 (S.G.L.).


Especifica das Ilhas
ALVES, Carlos- BENTO, Carlos Lopes "(As) Fortalezas do Ibo". In Revista Militar, 1932. Lisboa, Ano LXXXIV, nas 7-8, p.p. 461-464.
- "Conheça o Ibo". In Notícias da Beira, de 7/3/1972 e Revista Mensal Sonap, Maio/Junho, 1972.
- "Ilha do Ibo - A velha capital do arquipélago das Quirimbas". In Notícias - Natal 1972, pp. 133 - 136.
- "Importância e Contribuição das Ilhas Querimbas para a Fundação de Porto Amélia". In Diário da Beira, de 8/12/1973, 3º Caderno.
- Padrões de Cultura Portuguesa em África - As ilhas do Ibo e de Querimba. Comunicação apresentada em 21/11/1980 na Secção de Etnografia da S.G.L..
- "Os Wamwane do Ibo e a Formação da sua Cultura". In Boletim da S.G.L., 1981, 100ª Série, nas 1-12, Janeiro/Junho, p. 250.
- "A África Oriental Portuguesa no tempo do Marquês de Pombal - As Ilhas de Querimba ou Cabo Delgado". In Boletim da S.G.L., 1983, 101ª Série, nº 16, Janeiro/Junho, p.p. 255-257.
- "As Fortificações de alguns dos seus portos de escala (séc. XVI - XIX)". In Secção de Etnografia da S.G.L., em 1989, Boletim Série 107, nº 1 - 6, Jan. 89, pp. 99 - 113.
- "A Posição Geopolítica e Estratégica das Ilhas de Querimba - As fortificações de alguns dos seus portos de escala (secs. XVI- -XIX)". In I Reunião de Arqueologia e História Pré-Colonial, realizada de 23 a 26 de Outubro de 1989 Leba, Lisboa, nº 7, 1992, pp. 325-339.
- "La Femme mwane et la Familie - Étude quantitatif de quelques comportements des femmes de l'iles d'Ibo". In Revista 'Garcia de Orta', Série Antropologia. Lisboa, Vol. VI (1 e 2), 1989/90, p.p. 21-25 (Comunicação apresentada no XII Congresso de Ciências Antropológicas e Etnológicas, realizado em Zagreb, entre 24 e 31 de Julho de 1988).
- “Contactos de Cultura Pós- Gâmica na Costa Oriental de África. O Estudo de um Caso Concreto”, in Revista de Estudos Políticos e Sociais, ISCSP, Lisboa, 2000, p. 119-126.
- “Ambiente, Cultura e Navegação nas Ilhas de Querimba- Embarcações, Marinheiros e Artes de Navegar” in Boletim da S.G.L., Série 119ª- Nºs 1-12, Janeiro-Dezembro-2001, p. 83-121.
-“A Ilha do Ibo: Gentes e Culturas-Ritos de passagem” in Separata de Estudos Políticos e Sociais, ISCSP, 2001, Vol. XXIII, nºs 1-4, Lisboa, 2001, p. 121- 167.
BOCARRO, António-"Descripção das Ilhas de Querimba". In Livro de todas as Plantas. Arquivo Oriental Português, 1600-1699, Vol. II, Parte I, p.p. 40 e 41.
BOXER,C.R. - "The Querimba Islands in 1744". In Separata da Studia, Revista Semestral, nº 11, Janeiro, 1963, p.p. 343-352.
CILINDO, António da Câmara - "Quissanga - Usos e Costumes". In Relatórios e Informações. Anexo ao Boletim Oficial do Ano de 1910, p.p. 210-219.
CÓDIGO de Posturas do Concelho de Cabo Delgado (19/1/1894). Lourenço Marques, I.N.M., 1894.
"COMÉRCIO das Ilhas Querimbas", In Guia para o Negócio da India e África Oriental ..., 1777, p. 110.
COMPANHIA DO NYASSA - Relatórios de 1895-1933. 3 Vols..
CONCEIÇÃO, António da Conceição, Entre o Mar e a Terra- Situações Identitárias do Norte de Moçambique(cabo Delgado). Maputo, PROMÈDIA, 2006, p. 320+ Mapas.
CUNHA, Santana Sebastião (Padre)- Notícias Históricas dos Trabalhos de Evangelização nos Territórios do Niassa. Bastorá, Tipografia Rangel, 1934, p.p. 67.
DINIZ, Carlos (Capitão de Fragata) - Informações sobre a Costa Norte de Moçambique. Lisboa, I.N., 1890, p.p. 28.
DIOGO, Domingos Barreira - "Para a História dos Territórios do Nyassa". Ibo, In Quinzenário Eco do Nyassa, nº 2, de 15/3/1919, e segts..
DOMINGUES, Francisco Paula Castro - "Relatório do Governador de Cabo Delgado" (18/4/1865). In Anais do Conselho Ultramarino, 1866-67, 7ª Série, parte não oficial, p.p. 100 e 101.
EICHARD, Sylvain A. - "(La) Cote Orientale d'Afrique. Le Delta du Roufidji. Le Cap Delgado. LES ILES KERIMBA. MOZAMBIQUE. LES ILES BAZAROUTO. BEIRA". In Bulletin de la Societé de Geographie de Lille, 1904. Lille, Tomme 41, nº 6, p.p. 365-381 e 1 mapa.
GERARDS, Constantino (Padre) - Costumes e Vida do Povo Emetto (Apontamentos Etnográficos Reunidos e Traduzidos pelo Padre Norte). Porto Amélia, 1970.
- Algumas Datas e Factos Acerca das Ilhas de Querimba mais tarde designadas por Ilhas de Cabo Delgado (Policopiado). Ibo, Compilação da Administração do Concelho, sem data, p.p. 25. (Encontra-se cópia nesta Administração).
HUIBREGTSE, P. K. - "Dans l'Archipel de la Quirimba". In Geographica - Revista da S.G.L.. Lisboa, 1971, Ano VII, nº 27, p.p. 87-98, com estampa e gravuras.
MONTEIRO, Fernando Amaro e VERIN, Pierre - "Sites et Monuments de Madagascaret de l'Océan Indian - Notes sur Ibo, Ville du Mozambique attaquée par les Sakalava". In Bulletin de Madagascar, Octobre/Novembre, 1970, nas 293 e 294, p.p. 187-189, mapa e foto.
MONTEZ, Caetano de Carvalho - "O Reduto de Pemba". In Moçambique - Documentário Trimestral, 1954. Lourenço Marques, Ano XX, nº 79, p.p. 71-78.
OLIVEIRA, Mário Baptista de (administrador) - Monografia sobre a Ilha do Ibo. Ibo, 1962, p.p.223 (dactilografada).
PEREIRA, Luís F. Conceição - A criação da Alfândega da Ilha do Ibo e a Contribuição das Ilhas para o Comércio e a Vida de Moçambique no século XVII. Coimbra, Dissertação de Licenciatura, policopiada, 1970, p.p 107 e anexos.
PERRY DA CAMARA, Pedro de Ornelas (major) - "Distrito de Cabo Delgado"(com uma planta da vila do Ibo). In Boletim da S.G.L., I.N., 1886, 6ª Série, nº 2, p.p. 67-115.
PORTUGAL, Joaquim José da Costa - "Notícia da Situação das Ilhas de Cabo Delgado", de 26/7/1781. Lisboa, B.N., Man. Vermelho, p.p. 273 e In Anais da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais, 1954, Vol. IX, Tomo I, p.p. 275-280.
ROMERO, Jerónimo - "Memória Acerca do Distrito de Cabo Delgado". In Anais do Conselho Ultramarino, parte não oficial, Janeiro, 1856, p.p. 211-222.
- Suplemento à Memória Descriptiva e Estatística do Distrito de Cabo Delgado, com uma Notícia Acerca do Estabelecimento da Colónia de Pemba. Lisboa, Tipografia Universal, 1860, p.p. 164, 1 mapa; também publicado pela I.N..
SERPA PINTO, A. e CARDOSO, Augusto - Diário da Expedição Científica Pinheiro Chagas - Do Ibo ao Nyassa. Lisboa, S.G.L., Manuscrito Reservado de 10 fls. (146-B-27), 1885 e Boletim Oficial de Moçambique, nº 42, de 17/10/1885, p.p. 335-342.
SOUSA, A. Gomes e - "As Ilhas Quirimbas". In B.S.E.M., Ano XXIX, nº 122, Maio/Junho, 1960, p.p. 127-478.
SOUSA, Luís Salvador Francisco do Rosário e (cónego) - "Relatório da Paróquia de São João Baptista da Vila do Ibo". In Boletim da S.G.L., 14ª Série, nas 7 e 8, I.N., 1895, p.p. 697-728 e Manuscrito Reservado, nº 2, Maço 3-42, com 25 fls., daquela mesma Sociedade.
- "As Ilhas de Quirimba". In Moçambique - Documentário Trimestral, nº 12, Outubro/Dezembro, 1937, p.p. 107-111.
- "Os Portugueses e as Ilhas de Querimba". In Moçambique - Documentário Trimestral, nº 15, Julho/Setembro, 1938, p.p. 71-85.
VILHENA, Ernesto Jardim de - Relatórios e Memórias sobre os Territórios da Companhia do Nyassa. Lisboa, A. Editora, 1905, pp. 441.
VITTO, João- Notícias que dá João Vitto das Ilhas de Cabo Delgado. Lisboa, A.C.L., Manuscritos Reservados Vermelhos, nº 273, 1778, p.p. 14.


De Moçambique
"Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental". Lisboa, IN,1992, 3 Vol. anotados por Isabel Cid, e também In Arquivo Português Oriental, de BRAGANÇA, A. B. de (1600-1699), Tomo IV, Vol. II, Parte I, 1938, p.p. 89-216.
BOCARRO, António - Fortalezas Portuguesas de África. Lisboa, B.N., Reservados, Códice 11057, 1634.
REGO, Jaime Daniel Leote do - Guia de Navegação do Canal de Moçambique. Lisboa, I.N., 1904.
REIMÃO, Gaspar Ferreira - Roteiro da Navegação e Carreiras da Índia, com os seus Caminhos, e Derrotas, Sinais ... (25/3/1600), tirado do que escreveu Vicente Rodrigues e Diogo Afonso, pilotos antigos, agora novamente acrescentado, por Gaspar Ferreira Reimão ... piloto-mor destes Reinos de Portugal. Lisboa, B.N., Códice 1333, 1612 e A.G.C., 2ª Edição, Códice 1939.
REIMÃO, Gaspar Ferreira - Roteiro da Navegação e Carreiras da Índia, com os seus Caminhos, e Derrotas, Sinais ... (25/3/1600), tirado do que escreveu Vicente Rodrigues e Diogo Afonso, pilotos antigos, agora novamente acrescentado, por Gaspar Ferreira Reimão ... piloto-mor destes Reinos de Portugal. Lisboa, B.N., Códice 1333, 1612 e A.G.C., 2ª Edição, Códice 1939.
RUFINO, José dos Santos, Álbuns de fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique. Vol. VIII- Distritos de Tete e Territórios de Cabo Delgado(Nyassa), 1929. p. 82.
SANTOS, Frei João dos - Etiópia Oriental. Lisboa, Livrarias Clássicas, 1891, 2 Vols..
AHU


-Documentação Avulsa sobre Moçambique.
-Códice 1478
Dicionários e Enciclopédias


A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XIII.


Na NETBENTO, CARLOS Lopes,
As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado
Situação Colonial, Resistências e Mudanças(1742-1822)
Memórias das Ilhas de Querimba. Transformações no Bairro Rururbano da Ilha do Ibo(1969-1972):
Mogincual, suas Terras e Gentes
Achegas Para a sua Etno-Socio-Historia:
[1]- A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XIII, p. 452, apresenta uma figura deste forte com a denominação de "Forte de São João Baptista".
[2]- A.H.U., Doc. Av. Moç., Cx. 151, Doc. 101, Carta nº 541, de 3/12/1816, do Cap. das Ilhas José António Caldas para o Cap. Gen..
[3]- Idem, Códice 1478, fls. 268v, Carta de 11/3/1818, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen.. Nesta data estavam aí instaladas 7 peças de artilharia.
[4]- Idem, Ibid, Cx. 160, Doc. 42, Carta nº 584, de 9/11/1818, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen., também no Códice 1478, fls. 276. Nesta data a obra já estava principiada e já tinha cheios os alicerces de 2 cortinas.
[5]- Idem, Ibid, Cx. 160, Doc. 42, Carta nº 612, de 10/11/1819, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen..
[6]- Idem, Ibid, Carta nº 584, cit...
[7]- A.H.U., Doc. Av. Moç., Cx. 161, Doc. 74, Carta nº 601, de 20/2/1819, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen.
[8]- Idem, Códice 1478, Carta de 5/12/1818, fls. 278, do Cap. Gen. para o Cap. das Ilhas.
[9]- Idem, Doc. Av. Moç., Cx. 160, Doc. 42, Carta nº 612, cit. e Códice 1485, fls. 39 e 40.
[10]- Idem, Ibid, Carta nº 612, cit. e Cx. 168, Doc. 4, Carta nº 309, de 5/3/1820, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen..
[11]- Inclusive o autor deste trabalho que aceitou, durante a sua estada no Ibo, os factos sem os submeter a comprovação.
[12]- A.H.U., Doc. Av. Moç., Cx. 162, Doc. 8, Carta nº 600, de 9/3/1819, do Cap. das Ilhas para o Cap. Gen.. Propõe-se então para tal desempenho o sargento da companhia.
[13]- Durante a sua estadia nas Ilhas, o autor deste trabalho constatou que as referidas fortificações, pela sua imponência e beleza, constituíam para as muitas centenas de estrangeiros que as visitavam motivos históricos-culturais de grande admiração.
[14]- Para mais informação consultar o cap. VIII da minha tese de doutoramento.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

MEMÓRIAS DE CABO DELGADO - A Ilha do Ibo historicamente maltratada.


Nas minhas viagens pelo espaço da Net, sobre a encantadora ilha do Ibo, uma das jóias do arquipélago da Querimbas, detentora de um invejável e riquíssimo património histórico-cultural, encontrei alguma informação, distorcida e contraditória,(por mim assinalada a negrito) que está longe de ser verdadeira e de corresponder à realidade dos factos:

“A Ilha do Ibo foi ocupada pelos Árabes, a quem se atribui a construção da Fortaleza de São João Baptista e dos Fortins existentes na Vila.

Em 1834 chegaram à ilha os primeiros portugueses, na sua maior parte, professores e funcionários.

Em 1860, a Administração Colonial do Ibo registou uma população de 20 339 falantes de Kimwani, língua usada pelos povos de Quissanga a Mocímboa da Praia.

O aumento da população Mwani, no Ibo e em todo o litoral deveu-se ao apogeu da expansão comercial estrangeira que remonta a finais do século XVII e princípios do século XVIII, como resultado da proliferação, em larga escala, do tráfego de escravos, para o qual contribuíram as Ilhas do Arquipélago das Quirimbas e, sobretudo, a Ilha do Ibo e de Quisiva, onde foram montados entrepostos comerciais do chamado negócio negro, assim como à presença massiva dos portugueses entre os séculos XVIII e XIX, depois que a Colónia Ultramarina de Moçambique passou a ser administrada através da Companhia Majestática do Niassa.

Nos finais do século XIX, os territórios de Cabo Delgado passaram a ser directamente administrados pelo estado Colonial.”

“Fortaleza de S. João Baptista.
Segundo alguns autores foi construída em 1760, sendo restaurada em 1813, após ter sido queimada pelos sacalaves. Construída em pedra talhada ainda conserva peças de artilharia. Em forma de estrela foi uma obra militar de vulto.

Na época tinha espaço para acomodar mais de 300 praças, armazéns de víveres e munições. Sobreviveu aos ataques dos holandeses e dos sacalaves de Madagáscar.

Na decadência do império português transformou-se em prisão política. Foi restaurada e pode ver-se ainda a capela, latrina dos presos com cinco buracos, a cozinha, a sala do interrogatório no tempo da Pide onde se lia numa das paredes: entra vivo, sai morto.

As duas portas por onde entravam os escravos e uma porta bem escondida nas traseiras onde Vasco da Gama ia buscar os escravos. Actualmente é utilizada pelos ourives da ilha onde fazem os colares e os vendem. Será preparado para funcionar como museu da ilha.

Fortim de S. José.
O primeiro dos três a ser erguido. Construído em 1760 para defender a ilha dos ataques dos invasores franceses e Madagáscar. Também serviu de prisão civil.”

***************

É conhecida a importância da História na divulgação das potencialidades turísticas de determinada cidade, vila, lugarejo, com realce para as que estão relacionadas com o seu Património Cultural: arquitectónico, natural e histórico.

As várias entidades, responsáveis pela promoção e divulgação das potencialidades da sua realidade paisagística, têm de ser rigorosas na caracterização do produto turístico ofertado, que deve ser feita de acordo com a realidade dos factos, sejam eles de ontem ou de hoje.

Mas nem sempre as coisas se passam assim. Por vezes, por ignorância ou por razões de outra natureza, divulgam-se dados históricos sem fiabilidade, que não só desfavorecem o desenvolvimento turístico, como também enganam os estudiosos ao fornecer-lhes informação pouco fidedigna.

De seguida, mostrarei o que nos dizem as fontes documentais, a maioria delas de natureza primária, sobre cada um dos pontos controversos apontados:

“Fortim de S. José - O primeiro dos três a ser erguido. Construído em 1760 para defender a ilha dos ataques dos invasores franceses e Madagáscar. Também serviu de prisão civil.”

“A Ilha do Ibo foi ocupada pelos Árabes, a quem se atribui a construção da Fortaleza de São João Baptista e dos Fortins existentes na Vila.”

“Fortaleza de S. João Baptista - Segundo alguns autores foi construída em 1760, sendo restaurada em 1813, após ter sido queimada pelos sacalaves. Construída em pedra talhada ainda conserva peças de artilharia. Em forma de estrela foi uma obra militar de vulto.

Na época tinha espaço para acomodar mais de 300 praças, armazéns de víveres e munições. Sobreviveu aos ataques dos holandeses e dos sacalaves de Madagáscar.

Na decadência do império português transformou-se em prisão política. Foi restaurada e pode ver-se ainda a capela, latrina dos presos com cinco buracos, a cozinha, a sala do interrogatório no tempo da Pide onde se lia numa das paredes: entra vivo, sai morto.

As duas portas por onde entravam os escravos e uma porta bem escondida nas traseiras onde Vasco da Gama ia buscar os escravos. Actualmente é utilizada pelos ourives da ilha onde fazem os colares e os vendem. Será preparado para funcionar como museu da ilha.

A construção das três fortificações militares - Fortim de S. José (1764), Fortaleza de São João Baptista(1789-1794) e Forte de Santo António(1818) - edificadas na Vila do Ibo e chegadas aos nossos dias, deve-se aos Portugueses. No tempo em que foram erigidas, os Árabes apenas visitavam o porto do Ibo como mercadores.


Comecerei por fornecer alguns dados sobre o Fortim de S. José, que não foi construído para defender a ilha do Ibo dos ataques dos Franceses, que viriam a ser perpetrados em 1796, nem nunca foi queimado, nem tão pouco atacado pelos Sakalava. Estes, apenas, invadiram a ilha do Ibo, no ano de 1815, tendo, então, mas sem êxito, procurado tomar a Fortaleza de S. João Baptista.

As razões principais da sua construção formam as que de seguida se enumeram.

As autoridades de Moçambique e da Índia, a partir do primeiro quartel do século XVIII, face ao constante aumento de interesse dos Franceses e Ingleses por Moçambique , excelente território para o fornecimento, em condições vantajosas, de escravos, começaram a preocupar-se, seriamente, com as Ilhas de Querimba e com a sua defesa, uma vez que estava em jogo a segurança da capital da Capitania Geral, então sediada na ilha de Moçambique, e demais portos da sua jurisdição.

As ditas Ilhas que, até então, tinham constituído uma eficaz e firme barreira, pelo norte, do restante território sob o domínio português, encontravam-se, nos meados daquele século XVIII, sem qualquer fortificação digna desse nome e "em tais termos que é providência grande de Deus não se ter inserido nelas alguma nação estrangeira, mui, especialmente, naquelas que ficam mais a norte, vizinhas de Cabo Delgado, por lá não residir homem branco algum e aqueles cafres serem de condição de amigos de novidade ...".

Receava-se a sua perda e, com a sua queda, de todo o território moçambicano. Para ultrapassar esta fase crítica, o Governo da Índia fizera saber a Lisboa da conveniência de "fortificar-se alguma das Ilhas para ao menos se arvorar uma bandeira da nação, porque de não a haver, tomam os Franceses pretexto para entrar nelas" . As suas condições eco-geográficas limitariam essa escolha, pois, nem todas poderiam "ser fortificadas por não haver nelas portos capazes de ancorarem navios e, somente, na Ilha do Ibo há uma grande baía de fundo para todo o lote de naus e junto a ela uma coroa de areia capaz de fortificação, a qual se deve erigir e por nela um capitão-mor com guarnição (...), porque doutra sorte se virão a perder e por ali entrava primeiro a ruína desta conquista toda".

Reconhecia-se a importância e a necessidade urgente de uma obra de defesa, indispensável para proteger a barra do Ibo, manter o respeito dos habitantes ao seu Governador, conter "os diferentes régulos da terra firme com que avizinham, de cujo comércio dependem inteiramente as mesmas Ilhas" . Mas mais do que essa obra, procurava implantar-se novos símbolos que aos olhos das populações locais, submetidas ou não, e dos estrangeiros, demonstrassem mais autoridade, poder e força.

Os levantamentos prévios da área pareciam apontar para a escolha da ilha do Ibo, que era aquela que oferecia melhores condições para a implantação de uma fortaleza.

Por influências de moradores locais ou por outras razões, para as quais, por agora, não se encontram explicação, optou-se pela ilha de Matemo, que com as ilhas do Ibo e Querimba forma uma enseada e um surgidouro, sendo o mais capaz e mais seguro o situado "entre a Ilha do Ibo e a terra firme porquanto todo o fundo é limpo de pedra e consiste o fundo de areia e erva".

As Instruções provenientes de Moçambique não deixavam quaisquer dúvidas, ao determinarem que na parte sul da ilha de Matemo deveria ser erigida "uma fortificação no melhor terreno e paragem que achar para defender a entrada da barra", sendo suficiente que dispusesse de "uma bateria sobre o canal, que o defenda, capaz de sete ou oito canhões e algum fogo nos lados quanto baste a fazê-la defensável e com a capacidade de ter dentro dos quartéis, para água da guarnição (...) cisterna ou poço de que beba" . Para as Ilhas e segundo as mesmas Instruções, foi mandado, expressamente, o Capitão Engenheiro António José de Melo com a missão de examinar:
  1. O local mais vantajoso para a nova fortificação;
  2. Se no mesmo local existia pedra para a construção e da qual também se pudesse fazer cal, de modo a evitar as despesas de transporte de Moçambique e, igualmente, se havia lenha perto para os fornos de cal;
  3. Da existência de ostras na marinha próxima ou de pedra do mar, que localmente é designada por momba de que se faz a melhor cal, devendo na recolha de informação para além de ver, ouvir as pessoas práticas das Ilhas e o Juiz delas;
  4. O fundo existente entre os canais que separam as diferentes ilhas, elaborando um Mapa de todas elas em que esteja desenhada a fortificação projectada na ilha de Matemo, como também de toda a costa que corre até Moçambique.
Os trabalhos topográficos e hidrográficos executados na área levaram à conclusão de que a "fortaleza deve fazer-se na ilha do Ibo porque fica mais próxima ao canal do que a de Matemo" , que não tem barra capaz.

A este contratempo, outros se iriam somar, que seriam responsáveis pelo atraso no início das obras. Apesar de facilitadas, pela existência próxima de pedra, tanto para as fundações e paredes como para o fabrico de cal, elas não arrancariam pelo facto de não haver oficiais em Moçambique e os 20 recrutados em Damão e Diu tardarem a chegar.

Mas as coisas, em vez de se tornarem fáceis, complicavam-se. O Conselho Ultramarino solicitava a Moçambique, em 23/5/1758, Parecer sobre as fortificações levantadas e por levantar nos portos da costa de Moçambique. Em resposta o Capitão General, no que respeitava às Ilhas de Querimba, prestava uma informação que parecia contrariar todas as expectativas até então existentes. Pura e simplesmente manifestava a opinião "de que na Ilha  do Ibo, cuja barra é capaz de nela entrar toda a sorte de embarcações (...) não deve haver fortificação". Como fundamento para a sua argumentação apontava como principais causas:
  • a falta de verbas para suportar as despesas necessárias e não ser possível recorrer-se a empréstimos indispensáveis para as despesas ordinárias, por não haver, baneanes ou moradores, que os possam ou queiram fazer a El-Rei de Portugal;
  • a escassez de efectivos militares para a defesa de qualquer ofensiva do inimigo e a impossibilidade de ser socorrida, com êxito, de Moçambique, devido à distância e aos ventos, por vezes, contrários, levariam a sua queda, dando-se assim ao adversário uma "casa segura" à custa de erário público;
  • a sua queda viria a ser a ruína do resto do território por a praça de Moçambique passar a ter por vizinho um poderoso inimigo que não se limitaria ao domínio das Ilhas mas intentaria alargá-lo a horizontes mais vastos;
  • e, finalmente, a posse das Ilhas por qualquer nação europeia, representaria a perda do comércio dos Yao.
Tratava-se de uma construção dispendiosa para as débeis disponibilidades financeiras da Fazenda Real, apenas possível, com a ajuda dos foreiros e demais autoridades auxiliares e respectivas escravaturas.

As opiniões continuavam a divergir, e à tese dos que defendiam a não construção de uma fortificação, como meio de manter e conservar as Ilhas "debaixo do domínio português", juntava outra, segundo a qual seria suficiente, para fiscalizar o porto de desembarque, uma guarnição militar e o levantamento de "uma faxina, com parapeito de mar, de pedra, sobre o canalzinho que está na ponta da Ilha e de onde, somente, possam laborar 5 peças de calibre 18 e juntamente se arvorará um pau de bandeira".

A antiga ideia da construção de uma obra de defesa vem a ser concretizada quando da implantação da Vila do Ibo, no ano de 1764.

O Governador José Caetano Júdice incumbido dessa missão, entre as muitas obras que mandou edificar, contam-se "um forte em redentes a que se deu o nome de Santa Bárbara em que se assestou a artilharia que há nesta Vila e estava quase inútil, por se achar sobre a terra sem plataforma e em sítio onde não podia produzir o efeito que tanto é preciso e se requer do seu exercício" . A vila do Ibo ficava deste modo, "com alguma defesa, assim para a entrada do rio como depois, sendo entrado pela figura como o dito forte está construído que pode jogar a sua artilharia, para uma e outra parte sem grande trabalho".

Para assinalar e marcar mais rigorosamente o prestígio e a presença lusíada nestas paragens do Indico, o dito Governador "logo junto ao forte teve o honorífico trabalho e honra de arvorar a Bandeira de El-Rei Fidelíssimo de Portugal Nosso Senhor, com sua mestra de pedra e cal no extremo inferior do pau de bandeira, para segurança dele" , não se esquecendo da protecção dos seus defensores ao construir "em um ângulo da mestra, uma guarita, também de pedra e cal, com as suas fendas ou frestas, para abrigo e vigia da sentinela".

As obras iniciadas depois de Junho de 1764 viriam a ser concluídas, no mês de Dezembro, desse mesmo ano.

Este pequeno forte, mais tarde, denominado de S. José, que demora a SW da Ilha, junto ao porto de cabotagem e de pesca, construído a pedra, terra e cal, mede 3,49 m de altura, tendo de parapeito 1,50 m.

Estava artilhado, em 1810, com 1 peça de calibre 3, 1 de calibre 4 e 1 de calibre 6, a que se juntava mais a artilharia de campanha (incapaz), constituída por 1 peça de calibre 2 e 2 peças de calibre 3. Nos meados do século XIX continuava guarnecido com 7 bocas de fogo, de ferro.

Teve, com o decorrer do tempo, funções militares, de cadeia e de alfândega.

(Clique nesta e nas imagens acima para ampliar)

A total ruína e as fracas possibilidades de defesa que oferecia o forte de São José como consequência da sua má e irregular construção e implantação em terreno arenoso impróprio e das despesas avultadas exigidas para a sua restauração, aconselhavam a "fazer-se antes outro forte novo em terreno melhor para segurança da mesma construção como vantajoso para a defesa dessa Ilha e sua barra do que reparar-se a ruína do velho (...) V.M. proporá a construção de um novo forte no sítio vantajoso ..." . No entanto, anos mais tarde, num novo contexto geo-político, o velho forte de S. José viria a ser reactivado.

De acordo com os novos objectivos, o Governador das Ilhas escolheu o local, desenhou a planta e propôs a construção de uma fortaleza em forma de pentágono regular com as oficinas que devia conter. Esta figura geométrica era a que melhor se acomodava ao terreno; ficava menos dispendiosa à Fazenda Real; defendia os edifícios a construir no seu interior; permitia uma posterior ampliação; e defendia a Vila de "qualquer ataque de Mouros ou Macuas, que é o inimigo com quem presentemente nos defrontamos", para além de recuperar o comércio "nas mãos dos Mouros da Costa e usurpado pelos de Quiloa, Pate, Mombaça e Zanzibar" e dos Europeus, especialmente, dos Franceses.

As obras principiaram em 25/5/1789 com a ajuda de oficiais, cabouqueiros e serventes, vindos de Moçambique e por "serventes e gente de picareta que eram soldados, adimos oucafres forros, e escravos de alguns moradores e do então Governador Tigre" , fazendo-se o seu pagamento em milho, aguardente, fato e dinheiro.

Esta fortaleza, dedicada a São João Baptista, padroeiro da ilha do Ibo, foi construída em pedra talhada, extraída localmente , tendo no seu interior sido erguida uma capela militar que, depois de ali ser colocada a imagem daquele Santo , foi, convenientemente, ornamentada.

Demorando a NO da Vila, assenta em rocha firme, junto ao mar, mede 3,80 metros de altura e 1,36 metros de parapeito e cada uma das 5 estrelas do pentágono tem 50 metros de extensão. A sua área total é de 6 400 metros quadrados.

Dada a sua má construção, poucos anos depois, exigia grandes reparações.

Alguma vez foi queimada pelos Sakalava. Embora, estes piratas do mar tenham estado, no ano de 1815, por três vezes, na Ilha do Ibo, nunca conseguiram tomar a dita Fortaleza. No que respeita aos Holandeses, eles tentaram conquistar a Fortaleza da Ilha de Moçambique, nos anos de 1607 e 1608, datas bem longe de 1789-1794, anos em que decorreu a construção da Fortaleza de S. João Baptista do Ibo.

De igual modo é de questionar como seria possível Vasco da Gama, ir abastecer-se de escravos à dita Fortaleza. O grande almirante português, passou pelas Ilhas de Querimba, em 1 de Abril de 1498, quando, se dirigia para Índia, navegando, por ser enganado pelo piloto árabe, muito perto de uma delas, que passou a ser conhecida por ilha do Açoutado.
- Por Carlos Lopes Bento - Continua.
  • O autor, Dr. Carlos Lopes Bento, antigo administrador dos concelhos dos Macondes Ibo e Porto Amélia (actualmente Pemba) é doutorado, em Ciências Sociais e Políticas, especialidade História dos Factos Sociais e licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas pelo I.S.C.S.P., da Universidade Técnica de Lisboa. Foi professor coordenador do Instituto Superior Politécnico Internacional e professor catedrático convidado, da Universidade Internacional. Interessa-se pela Antropologia Africana- Moçambique e pela Antropologia Portuguesa, domínios do turismo e do comportamento organizacional. Faz investigação no domínio da cultura alimentar- Culinária tradicional. É sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, fazendo parte da sua Direcção e de algumas das suas Comissões e Secções!
  • Outros trabalhos do Dr. Carlos Lopes Bento neste blogue e anexos!
  • Porto Amélia/Pemba - distrito do Ibo!
  • Panorâmio - Photo of Ilha do Ibo!
A FORTALEZA DE SÃO JOÃO BAPTISTA DO IBO
A FORTALEZA DE SÃO JOÃO BAPTISTA DO IBO

sábado, 27 de novembro de 2010

A Ilha do IBO e a História: Café do Ibo ganha medalha de ouro... em 1906


UMA PÉROLA DE MOÇAMBIQUE - O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA - Por Carlos Lopes Bento(1).

Considerando o contributo e a mais valia que o saboroso e aromático café do Ibo poderá dar à divulgação do norte de Moçambique, designadamente, de Cabo Delgado e das Ilhas de Querimba, achei oportuno divulgar alguns interessantes dados, extraídos das minhas fichas de leitura e bibliográficas, relativos à sua produção e consumo, nos séculos XIX e XX.

Durante a minha estadia, em Cabo Delgado, de 1967 a 1974, e, especialmente, na ilha do Ibo, onde residi de 1969 a 1972, tive o privilégio de saborear o delicioso café do Ibo, e de o oferecer a muitas centenas de visitantes, nacionais e estrangeiros, que, então, a visitaram, sendo por todos muito apreciado.

O cafezeiro continuava, ainda, na década de 70 do século passado, a crescer ao ritmo natural, - que até se desenvolvia nos solos pedregosos de coral, existentes na parte insular do território -, merecendo poucos ou nenhuns cuidados por parte das populações do distrito, embora algumas tentativas tivessem sido feitas para alterar a situação.
Foi nesse sentido que autoridades portuguesas do Reino procuraram, nos finais do século XVIII, passar da recolecta à cultura do cafezeiro, de modo a introduzir o café no comércio com Lisboa, facto que acarretaria grandes benefícios, tanto para o Reino, como para as Colónias.

De modo a promover e a animar a plantação do café nas Ilhas de Querimba, a Provisão real de 2/3/1800, determinava que, anualmente, delas fossem remetidas 10 arrobas do melhor café, obrigando-se, para tanto, "cada morador e agricultor a plantar tantas árvores, proporcionalmente ao terreno que possuir, persuadindo-os que isto poderá a vir a ser, em pouco tempo, um ramo de comércio, muito útil aos moradores”.

Em 1803 foram enviadas, para o Palácio Real de Queluz, 3 arrobas e 18 arráteis de café das Ilhas remessas que continuariam até 1808, data em que seriam suspensas, pelas dificuldades da sua aquisição nas terras firmes.

Embora se tenham plantado algumas machambas de cafezeiros tanto na parte insular, como continental do território, os resultados, em 1810, ainda não eram visíveis, por vários motivos: a pouca idade dos cafezeiros plantados, que ainda não produziam; as incursões dos Sakalava, que perturbaram essa campanha; e pouco interesse dos agricultores por essa cultura, cujos benefícios imediatos não eram comparáveis, por exemplo, à cultura do coqueiro.

No sentido de ultrapassar todas as dificuldades, uma nova Provisão real, de 1810 recomendava todo o interesse das autoridades para incrementar a cultura do cafezeiro e outros produtos agrícolas, que pudessem constituir-se objectos de exportação e compensar-se os de importação.

As tentativas para introduzir, nas Ilhas e terras firmes, uma agricultura orientada para uma economia de mercado, redundariam em completo fracasso.

Nos meados do século XIX, o governador das Ilhas, Jerónimo Romero, presta-nos as seguintes informações sobre a produção de café:- São escassas as colheitas de café na ilha do Ibo; no Lumbo, margens do rio Cariamacoma achava-se café silvestre; nas margens do rio Lúrio encontram-se espessas matas de cafezeiros silvestres; Em Tungué, as margens do rio Meninguene são ricas em café do mato.

- Era somente na ilha do Ibo e proximidades do rio Cariamacoma que se fazia a cultura de algum café por um ou outro morador curioso, pois, os demais, não davam importância nem se dedicavam a tão útil cultura. Deste modo o cafezeiro produzia, espontaneamente, como qualquer outra planta do mato, sendo a sua apanha dificultada por eles se acharem entre matos cercados de arvoredo e pelo risco dos animais ferozes existentes nestas paragens.

- Então as maiores colheitas de café faziam-se na Ilha do Ibo (12 arrobas), em Criamacoma ou Lumbo (14 ar.), em Fragane (14 ar.), próximo da Quissanga, e em Bringano (10 ar.), a sul da ilha de Querimba.

- Os preços praticados eram, no Ibo, de 5 a 6$000 réis a arroba e o que saía para a ilha de Moçambique poderia atingir os 7$000 réis.
Em 1902, o Governador dos Territórios da Companhia do Niassa Ernesto Jardim de Vilhena dava conta que, no Ibo, anexa à propriedade urbana, nomeadamente, nos quintais os moradores plantavam os seus cafezeiros.

Três anos depois, em 31 de Julho de 1905, Governador dos mesmos Territórios, João dos Santos Pires Viegas, escreveu algumas notas sobre o café, do seu distrito, enviado para a Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), realizada, na sua sala Algarve, pela Sociedade de Geografia de Lisboa:

“O café dos Territórios da Companhia do Nyassa, geralmente conhecido por “café do Ibo”, tem qualidades de preferência muito superiores a muitas variedades das nossa colónias, mas quase sempre passa despercebido, atendendo à sua quase nula exportação, e esta devido ao nulo desenvolvimento que os filhos do Ibo e de Querimba, senhores de enormíssimos tratos de terreno no litoral, dão ao cultivo do cafezeiro.

Hoje o cafezeiro nasce, cresce, produz e morre, sem que alguém pense no amanho da terra, sem que o limpem ou cuidem renová-lo na época própria.

Não só não o cultivam, como não procuram tirar daqueles que existem e cuja maior parte espontaneamente surgiu da terra, convenientemente o seu produto.

Inteiramente verde, a formar-se ainda, o proprietário colhe-o sacudindo as árvores ou batendo os ramos com varas, seca-o, ligando pouca atenção às propriedades que ele poderia ter se a maturação se deixasse fazer e fosse completa, e isto para que o preto não o roube.

Ainda assim o café da ilha do Ibo é mais saboroso e superior em qualidade a outro qualquer dos Territórios, porque sendo fácil vigiar a propriedade, só é colhido na época própria e algum é seco e arrecadado segundo os preceitos aconselhados.

Nestas condições, em terreno próprio, entre altos coqueiros, que pouca sombra lhe dão ou entre acácias e macieiras bravas, que lhes roubam o espaço, os cafezeiros encontram-se em quase todas as circunscrições dos Território aquém do rio Lugenda.

O seu preço varia segundo as necessidades que o indígena tem de dinheiro; e assim não é difícil encontrar pretos pelas ruas do Ibo, na Quissanga e no litoral, a oferecerem-no à venda a 150 e 200 réis. O seu preço ordinário, porém, é de 300 réis o quilo, quando bem seco e limpo. O café da “Vista Alegre”, Ibo, o melhor talvez dos Territórios, tem sido vendido a 500 réis, em anos de colheita fraca.

A produção, em relação ao tratamento que o cafezeiro recebe, é grande, mas a sua aparência desagrada, pela pequenez do seu grão, comparada a outras qualidades; contudo o café é apreciado e apetecido pelo seu aroma delicioso e pelo seu sabor.

É afamado o “café do Ibo”, porém poucas pessoas o conhecem, além daquelas que têm permanecido ou passado pelos Territórios e pelo distrito de Moçambique, e ainda aquelas que no Reino têm relações nesta parte desta nossa África.

Nos Territórios da Companhia do Nyassa não tem consumo outro café.

Encontra-se café, em quantidade, não só em todo o litoral como nas margens do M´Salo, Naquidunga e Pequeue, no concelho de Mocimboa, nas encostas das serras Muare e M´chibala, serras que formam um garganta onde se acha estabelecida a sede do concelho do Medo, no Mualia.

Os Territórios da Companhia do Nyassa concorrem à exposição da Sociedade de Geografia de Lisboa com nove amostras de café:

- Quririmisi, Quiriamacoma, Olumbua, Ibo, do concelho do Ibo.
- Tandanhangue, Memba, do concelho de Quissanga.
- Naquidunga, do concelho de Mocimboa.”

Salienta ainda o dito Catálogo uma nova espécie de Café, o Coffea Ibo, de Frohner, assim caracterizado:


“ Dos cafés, além dos tipos Coffea Liberica e Coffea Arábica, especializaremos um espécie nova, o Coffea Ibo, de Frohner, apresentado pela Companhia do Nyassa, e que, pela pequenez do seu grão alongado, semelhante mais ao bago do trigo do que o do café ordinário. Cultivado com esmero, deve por certo produzir um produto que alcançará boa cotação no mercado, pelas suas qualidades aromáticas.”

Relativamente ao CAFÉ, a Companhia do Niassa foi distinguida com o Diploma de medalha de ouro.

O cafezeiro florido, de extrema beleza, também poderá, futuramente, constituir mais um factor de atracção turística a ter em consideração no desenvolvimento sócio-cultural de Cabo Delgado e de Moçambique.

Bibilografia: VASCONCELOS, Ernesto de, Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), CATÁLOGO. Lisboa, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1906, p. 104.

(1) - (colaborador do ForEver PEMBA) - Doutor em Ciências Sociais pelo ISCSP, Univ. Técnica de Lisboa. Antigo administrador colonial. Foi presidente da C. Municipal do Ibo, entre 1969 e 1972. Antropólogo e prof universitário, continua a ser um dedicado amigo das históricas Ilhas de Querimba, que continua a investigar de maneira sistemática e a divulgar as suas inquestionáveis belezas. Neste trabalho, de modo a evitar o plágio, tão usual no nosso tempo, apenas se indica um autor. Para os interessados, desde que o solicitem, poderei fornecer outros elementos bibliogáficos que lhe serviram de base.

  • Demais posts deste blogue onde se encontram trabalhos do Dr. Carlos Lopes Bento - aqui !
O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA
Uma Pérola de Moçambique
O afamado Café da Ilha do Ibo ganha medalha de Ouro em Lisboa
Por Carlos Lopes Bento 
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" http://www.youblisher.com/files/publications/12/69933/pdf.pdf)

sábado, 24 de agosto de 2013

Uma figura da História da Ilha e Vila do Ibo: JACOB MAMUDO (Bob)

Jacob Mamudo (Bob), há relativamente pouco tempo falecido (24 de Agosto de 2009), é ilustre filho e parte da história da Ilha do Ibo.
Até 1974, foi membro da Comissão Municipal local à qual prestou colaboração efectiva.
Amigo da terra que o viu nascer, respondeu sempre com prontidão e desinteressadamente, a todos os pedidos de ajuda feitos à época colonial pelas autoridades constituidas no concelho.
Para o recordar-mos, ficam aqui algumas imagens que consideramos documentos para a história da também histórica Ilha do Ibo e de Moçambique:
1970 - Visita de dois estudiosos, drs. Pierre Verin (francês) e Amaro Monteiro, antropólogos, linguístas, professores, pesquisadores da civilização malgaxe e de outras ilhas do Índico à Ilha Quisiva. Esta viagem de estudo acompanhada pelo Dr. Carlos Lopes Bento, administrador do Concelho do Ibo, só foi possível graças ao apoio logístico de Jacob Mamudo (Bob) também na foto.
 
Entrevista de Jacob Mamudo (imagem acima), vogal da Comissão Municipal do Ibo, concedida a 13 de Setembro de 1963 ao correspondente do jornal "Diário de Lourenço Marques" em Cabo Delgado, Jaime Ferraz Rodrigues Gabão, em consequência da ida de uma representação de Cabo Delgado a Lisboa, recebida pelo Dr. Oliveira Salazar.
A leitura do conteúdo da entrevista mostra calramente a dimensão e sentido da Pátria Portuguesa de então em relação às suas colónias.
(Clique nas imagens acima para ampliar)

Representação da Vila do Ibo, a Lisboa, em 1963 - Na foto está o Jacob Mamudo (Bob) com o estandarte da Vila do Ibo, entre outros participantes da representação de Cabo Delgado.

Histórico  de JACOB MAMUDO mais conhecido por BOB:
- Filiacao: Mamudo Agy Jacob e Luisa Zamith.
- Nasceu em 11/05/1927 na histórica vila do Ibo.

Desde 1959 que esteve a testa da firma comercial fundada no Ibo pelo seu pai em 1919, “Flor do Ibo” de Mamudo Agy Jacob.

Bob jogou a bola pelo Clube Desportivo do Ibo e  a sua actividade comercial incluia a venda de produtos alimentares, representações e agenciamentos de transportes maritimos (Companhia Nacional de Navegação), aéreos (Comag e TTA), banca (BNU - actual CGD), açucareira (Sena Sugar Estates) e também se dedicava à venda de peixe seco, percorria semanalmente, por terra e mar, centenas de quilometros desde o Ibo até Nampula.

Em 1975 mudou-se e transferiu a firma para Pemba, desta vez com maior destaque para venda, representação e distribuição de material de pesca (Equipesca), oleo alimentar e sabão (Companhia Industrial do Monapo) e açucar (Distribuidora Nacional do Açucar).

Devido a sua saude, encerra as actividades comerciais em 2006 e muda-se para Maputo, onde vivem sua filha, irmãs, cunhado e sobrinhos e pode ter melhor assistencia médica. Nesta altura a firma “Flor do Ibo de Mamudo Agy Jacob, Sucessor” devia ser a mais antiga firma comercial Moçambicana no norte ainda em actividade (87 anos).

Entre finais dos anos 80 e principio de 90, Bob e outros conterraneos seus nomeadamente Ernesto Silva (Simba), Candido Manuel Inacio (Kesso), Mussa Alimomade (Magaga), Leopoldino Costa e Jordãp Soares (Joda) todos já falecidos, e Issa Tarmamade  fundam a Associação dos Amigos da Ilha do Ibo (AAIIBO), cujo maior objectivo era de promover e tentar encontrar ou criar oportunidades que possibilitassem o renascer da esperança de desenvolvimento da Ilha do Ibo e neste caso concreto tiveram sempre o apoio dos srs. Antonio Simbine, Governador da Provincia de Cabo Delgado nessa altura e de Magido Ali, então Director da Industria Comercio e Turismo.

Também já se voltava a celebrar o “São Joao Baptista” no Ibo, 24 de Junho, anualmente, e realizavam-se excursões a partir de Pemba.

Anos mais tarde com a nomeação de Jose Pacheco (actual Ministro do Interior de Mocambique) para Governador de Cabo Delgado, a questão do Ibo voltou a ganhar interesse, tendo havido vários encontros entre o Governador Jose Pacheco e Jacob Mamudo para troca de ideias e impressões.

Hoje com os meios de comunicacão e de transportes existentes, ja estão criadas as bases para tornar o Ibo num destino turistico. O Ibo ja não dorme mais.

Em Julho e agosto de 2007, vai pela ultima vez à Europa, Inglaterra visitar o filho, nora e netos e Portugal visitar a filha e netos e tratamentos médicos.

Nessa viagem a Portugal teve o desejo de rever  amigos seus, elaborou uma lista da qual constavam os nomes de Carlos Bento, Carlos Soares, Rosario Dias, Barreira de Sousa e outros que não me lembro.

Infelizmente devido ao seu estado de saude nao concretizou esse desejo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Retalhos da História de Cabo Delgado - A ILHA DO IBO.

Dedico este post a meu muito prezado e querido Amigo António Baptista Carrilho.

Situada próximo da ilha Quirimba e com fácil ligação com ela, a ilha do Ibo tem cerca de 10 km de comprimento e cerca de 7 km de largura, sendo muito plana e arborizada.

Na sua parte norte localiza-se a vila do Ibo, o mais importante agregado populacional do arquipélago das Quirimbas.

Gaspar Ferreira Reymão que em princípios do século XVII invernou na ilha do Ibo na sua viagem para a Indía, refere que a ilha tem "uma fortaleza, cercada bastante para se defender dos cafres, que às vezes passam de guerra de baixa mar a pé as ilhas, com muito bom aposento de casas de pedra e cal, capazes para se aposentar nelas a pessoa de um Vice-rei, como esteve Rui Lourenço de Távora com toda a sua casa".(43)

Mais tarde, no ano de 1644, o "regimento e roteiro para virem de Portugal embarcações em direitura à ilha de Ceilão", recomenda que as embarcações "virão a Moçambique refrescar-se, ou ao Ibo, que é melhor, e tem mais água naquele porto, de onde partirão para a Índia nos primeiros dias de Agosto".(44)

Porém, em meados do séc. XVII, apesar de ter "bom aposento de casas de pedra e cal" e de ter "mais água" no seu porto, a ilha do Ibo entrou em acentuada decadência, como de resto aconteceu com as restantes ilhas do arquipélago, num processo em que se conjugaram muitos factores, que correspondem a um duplo abandono: o abandono dos residentes que inseguros e indefesos fugiam das frequentes incursões dos árabes de Zanzibar e Mombaça, mas também o abandono dos portugueses que deixaram de frequentar a região quando alteraram as suas rotas da carreira da Índia para evitarem a hostilidade holandesa no mar.

Adicionalmente, a partir da mesma época, o interesse português estava centrado no Brasil e todas as possessões portuguesas do Índico estiveram sujeitas a um certo tipo de isolamento ou mesmo de abandono.

No entanto, em meados do sé. XVIII, quando o comércio de escravos se tornou uma prática corrente na costa oriental africana, a ilha do Ibo prosperou rapidamente como um dos mais importantes elos dessa lucrativa cadeia dominada pelos mercadores árabes. A hidrografia da região proporcionava boas condições de acesso ao litoral e as ilhas vizinhas garantiam abrigos e fundeadouros seguros e discretos aos traficantes.

A povoação do Ibo cresceu com esse comércio intenso e surgiram novas actividades e novos edifícios, enquanto a sociedade local, que até então era predominantemente macua, foi acrescentada com elementos árabes e indianos, mas também com muitos mestiços e, em menor grau, com portugueses.

Quando em 1752 a reforma pombalina decretou uma nova organização para os territórios ultramarinos portugueses, Moçambique autonomizou-se e foi separado do governo de Goa, passando a ser governado por Francisco de Mello e Castro que, de acordo com as instruções recebidas de Lisboa, determinou que a fortaleza existente no Ibo fosse substituída por uma outra, numa tentativa de levar as posições territoriais portuguesas mais para o Norte.

A nova fortificação foi construída em 1754 e foi baptizada como Forte de S. João Baptista mas, em 1791, foi reconstruida e reforçada na ponta NW da ilha, tendo a forma de uma estrela com muralhas de 16 pés e sem fosso. A protecção da ilha foi ainda assegurada por dois fortins: o fortim de S. José, localizado a SW da ilha e que era artilhado com 9 peças e o fortim de S. António, situado a SE da ilha e que era artilhado com 6 peças.(45)

Com esta proteção fortificada, a ilha do Ibo ficou mais ligada aos interesses portugueses, garantiu alguma autonimia em relação à influência mercantil e cultural árabe, conseguiu resistir às tentativas francesas e holandesas para dela se apossarem e, também, aos assaltos dos sakalavares de Madagáscar que tinham começado a fazer incursões e assaltos naquela área.

No entanto, a autoridade portuguesa do Ibo parece não ter sido suficientemente interessada e eficaz na repressão da escravatura, que terá sido muito importante naquela área até quase ao final do século XIX.

*43 - Gaspar Ferreira Reymão, Op. cit., p. 32.
*44 - Alberto Iria, Op. cit., p. 102.
*45 - Leotte do Rego, Op. cit., p. 89.

O autor:
Adelino Rodrigues da Costa entrou para a Escola Naval em 1962 como cadete do "Curso Oliveira e Carmo", passou à reserva da Armada em 1983 no posto de capitão-tenente e posteriormente à situação de reforma. Entre outras missões navais que desempenhou destaca-se uma comissão de embarque realizada no norte de Moçambique entre 1966 e 1968, onde foi imediato da LGD Cimitarra e comandante das LFP Antares e LFG Dragão.Especializou-se em Artilharia, comandou a LFG Sagitário na Guiné, foi imediato da corveta Honório Barreto, técnico do Instituto Hidrográfico, instrutor de Navegação da Escola Naval, professor de Navegação da Escola Náutica e professor de Economia e Finanças do Instituto Superior naval de Guerra. Nos anos mais recentes foi docente universitário, delegado da Fundação Oriente na Índia e seu representante em Timor Leste. É licenciado em Sociologia (ISCSP), em Economia (ISEG), mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação (ISCTE) e membro da Academia de Marinha.

O livro:
Título - As Ilhas Quirimbas - Uma síntese histórico-naval sobre o arquipélago do norte de Moçambique;Edição - Comissão Cultural da Marinha;Transcrição da publicação "As ilhas Quirimbas de Adelino Rodrigues da Costa, edição da Comissão Cultural da Marinha Portuguesa, 2003 - Capítulo 11, que me foi gentilmente ofertado pelo Querido Amigo A. B. Carrilho em Pinhal Novo, 26/06/2006.

- Do mesmo autor neste blogue:


  • Retalhos da História de Pemba - A Companhia do Niassa e a fundação de Porto Amélia - Parte 1 - Aqui!


  • Retalhos da História de Pemba - A Companhia do Niassa e a fundação de Porto Amélia - Parte 2 - Aqui!


  • Retalhos da História de Pemba - A Companhia do Niassa e a fundação de Porto Amélia - Parte 3 - Aqui!


  • Retalhos da História de CABO DELGADO - O nascimento de Mocimboa da Praia - Aqui!


  • Retalhos da História de CABO DELGADO - Zanzibar e a escravatura nas Quirimbas - Parte 1 - Aqui!


  • Retalhos da História de CABO DELGADO - Zanzibar e a escravatura nas Quirimbas - Parte 2 - Aqui!


  • Retalhos da História de CABO DELGADO - Zanzibar e a escravatura nas Quirimbas - Parte 3 - Aqui!

- Outros post's deste blogue que falam do Ibo e região, com textos e documentos do também historiador e profundo conhecedor do Arquipélago das Quirimbas e de Moçambique, Dr. Carlos Lopes Bento - Aqui e aqui!
- Em breve neste blogue:

  • As Quirimbas em finais do século XIX e a decadência do Ibo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - ILHA DO IBO - PERDIDA NO MAR E NA HISTÓRIA

ILHA DO IBO - PERDIDA NO MAR E NA HISTÓRIA - Em Porto Amélia raramente se dizia a ilha do IBO; dizia-se, muito simplesmente, o IBO. Foi ao IBO, veio do IBO, vive no IBO...

Naquele falar e falajar do entardecer nas deliciosas varandas coloniais, fui ouvindo história daquela ilha da costa de Moçambique, entre o Lúrio e o Rovuma. O mistério ia, pouco a pouco, aguçando a minha curiosidade. O próprio café do Ibo, que o senhor Ferreira nos servia no «Botão de Rosa», ajudava ao mistério. Era um café delgadinho, acastanhado, de cheiro e sabor muito estranhos. Mas acabamos por gostar dele e precisar dele. Era revigorante e tirava a ideia de deitar em horas de andar a pé. E quem quisesse ler ou escrever pela noite fora, era só tomar um cafézinho do Ibo, depois de jantar. Insónia assegurada.

Quando a curiosidade começou a inquietar-me, não tive outro remédio se não reparti-la com o meu inesquecível companheiro Simões Coelho. O Dr. Manuel Simões Coelho, grande cirurgião e grande pianista, veio a falecer em Portugal, meses depois de ser desmobilizado.

Não foi difícil entusiasmá-lo. Ele também já andava mortinho por conhecer o Ibo. Difícil foi arranjar transporte que nos levasse pela costa acima, até ao ponto da travessia. O jeep do Hospital Militar 338, a que pertencíamos, estava mesmo a calhar, mas a viagem era paisana demais para o podermos usar sem dar nas vistas...

Acabámos por aceitar a oferta de um indiano—um velho Opel sempre a torrar ao sol implacável da Av. Jerónimo Romero. Só depois de aceitarmos, com muitas mesuras de parte a parte, é que soubemos do estado lastimoso do carro. A cor era o menos, mas sempre lhes direi que ia do vermelho alaranjado, nas pregas mais protegidas, ao diospiro podre nas superfícies mais expostas.

Depois de uma revisão que, afinal, só serviu para nos afirmar que era uma temeridade partir, assim, com duas senhoras e duas crianças, lá fomos aos primeiros raios daquele sol que se erguia do lado do mar e se punha do lado da terra.
Logo aos primeiros quilômetros, o Opel triplicou os barulhos da partida e começou a cambar para o lado esquerdo. Por sua vez, as senhoras iam fechando a cara, daquela maneira que só as esposas contrariadas sabem fazer... O que nos valia, a mim e ao Simões Coelho, era a grande satisfação dos nossos filhos, o João e o Jorge. Riam e batiam palmas de cada vez que um macaco-cão atravessava a estrada, solene e atrevido.

— Ó papá, tu não apitas nas curvas?! — estranhou a certa altura o Jorge.
— Ó filho, tomáramos nós encontrar alguém, mesmo contra a mão! — respondeu, galhofeiro, o Simões Coelho.

Naquela fita de terra vermelha, marcada pelas tempestades e pêlos aventureiros, naquela solidão que parecia vir do princípio do mundo, buzinar seria uma ingenuidade e um sacrilégio.

A certa altura o «diospiro» cambou perigosamente para o lado de que vinha a queixar-se desde Porto Amélia — o esquerdo.

— O feixe de molas está a dar o berro! — informou o Simões Coelho, de rabo para o ar, meio metido debaixo do carro.
— E agora? — perguntei com a nítida sensação de ser ridículo naquele ermo.
— Vamos andando devagarinho... Mahate deve estar perto!— sossegou o Simões Coelho a bater as mãos, vermelhas de terra.

Depois de meia dúzia de curvas, dadas de credo na boca, Mahate apareceu como um bocejo da floresta.

Mahate era uma terra pequena e poeirenta surgida, ao que me pareceu com a exploração, naquela área, da companhia algodoeira Sagal.

Para nós foi a Divina Providência que ali instalou umas oficinas capazes de reparar o nosso carrinho cambado e gemebundo. Não seria preciso, mas sempre fomos dizendo que éramos amigos do senhor Eng° Guedes de Paiva, ao tempo, administrador da Sagal em Porto Ameia... Além do préstimo, os mecânicos foram de uma amabilidade inesquecível. Só tivemos de esperar um tempinho bem bom. Fomos passá-lo a uma daquelas lojas que só se encontram na África em pleno mato. Ali se vende de tudo, mas tudo cheira a tabaco e peixe seco.

Resolvemos esperar na varanda, quase ao nível da rua, a uma mesa de tampo coberto de moscas. Daquelas moscas que voltam sempre mal acaba o gesto de as afastar. Ao fundo da varanda bebia cerveja um negro gordalhufo, esgoleirado, mas bem vestido. Limpava, a espaços, um suor azulado e parecia, de olhar fixo, contar as garrafas que já bebera e tencionava beber.

É o doutor do Ibo!... — informou o pretito que nos trazia os pedidos; adivinhando em nós a estranheza de ver ali tal figura.

Ainda pensamos em abordá-lo para lhe dizermos quem éramos e onde íamos, mas o nosso colega parecia estar ao fundo de uma varanda sobre o infinito...

Do outro lado da rua havia um inacreditável campo de futebol. Apenas umas canas espetadas no chão poeirento limitavam o necessário rectângulo em cujas extremidades havia uns paus tortos a servir de balizas. O piso era de terra moída e remoída por mil pés a ir e a vir na mira do golo. Mas o campo tinha uma vaidade que ainda hoje me dói... Por cima da entrada uma tábua ressequida dizia assim numa caligrafia acabada de aprender:

LEÕES DE MAHATE

Quando pensávamos em ir ver se o carro já estava pronto, o «diospiro» apareceu, trazido por um funcionário da Sagal. Vinha todo teso e reluzente de limpeza, íamos batendo as palmas de contentamento. As nossas mulheres sorriram, finalmente. Pareciam já duas noivas em viagem de núpcias...
Dali até ao ponto de embarque para a ilha do Ibo correu tudo bem, mas tudo feito com muito cuidado por causa do piso. Quando menos se esperava surgia um pontão de troncos, ali posto para dar passagem no leito seco de um riacho efémero. Se bem me lembro, só atravessamos um curso de água permanente — o rio Montepuez. Era em Tandanhangue que se embarcava para o Ibo. Não havia povoado, nem havia cais. Apenas uma enseada minúscula acolhia o barco a motor do vai-e-vem. Ao embarcarmos, as senhoras voltaram a fechar a cara e os rapazinhos a ficar mais contentes. Aquele barco pareceu-lhes, certamente, acabado de saltar de um quadradinho de banda desenhada... A mim pareceu-me pequeno para aguentar qualquer espécie de mar. Eu não sabia que no paraíso os barcos não têm tamanho... E foi uma viagem paradisíaca aquela que fizemos, ora quebrando espelhos de mar imaculado, ora atravessando florestas de mangai, de onde se erguiam bandos de pássaros, brancos e silenciosos como a neve.

Talvez influenciado pelas histórias de Somerset, esperava encontrar na Ilha do Ibo um pequeno porto com alguma agitação de gente curiosa e mercadorias pasmadas ao sol. O cais do Ibo não passa de um pequeno patamar com escadinhas a desaparecer na água quieta. À espera, apenas um rapaz de tronco nu, muito lesto nas manobras de atracagem.

Foi esse rapaz que nos levou a casa de Wong Jan, um chinês de hospitalidade lendária por toda a costas de Cabo Delgado e que, em Porto Amélia nos haviam indicado como único sitio do Ibo onde poderíamos ficar.

Wong Jan recebeu-nos com as vénias de todos os chineses a que, ao que me pareceu, juntou mais algumas de homenagem ao Simões Coelho, já famoso por aquelas bandas.

Depois de um banho, tomado a golpes de púcaro pela cabeça abaixo, fomos cervejar para a varanda. Íamos na segunda rodada, quando apareceu o «Madragoa» a esbracejar e a rir de lês a lês no carão moreno. O « Madragoa» era o Administrador da llha do Ibo. Não consigo lembrar-me do seu verdadeiro nome. Aliás, julgo que nunca o soube muito bem... Apesar de muito estimado e respeitado, ninguém a ele se referia de outra maneira.

—  Está cá o «Madragoa»! — anunciava-se, volta e meia, em Porto Amélia.

A simpática alcunha deve ter pegado por excesso de bairrismo do Administrador. Acho que dizia por tudo e por nada:

—  Sou de Lisboa e da Madragoa!

E por ser de Lisboa recordou pela noite fora com o Simões Coelho casos e recantos da saudosa terra de ambos.

Quando as senhoras e as crianças se foram deitar, como autómatos perdidos de sono, ficámos só os três. Melhor, os quatro. Wong Jan andava por ali, discretamente, atento à nossa sede e à nossa fome. A certa altura o Administrador insinuou que «estava mesmo a calhar» um certo pastelão de um certo marisco.

Apesar do marisco me parecer um tanto coreáceo, o pastelão, no seu conjunto, ficou delicioso. Mas esta delícia viria a estragar-me a noite... Não fiz a digestão daquele marisco tão aplaudido. De cada vez que me virava, sentia os pedacinhos inteiros a carambolar no estômago, como bolas de bilhar. E quando pela manhã, ouvi o Simões Coelho a falar no pátio com os criados, berrei-lhe, ainda da cama:

—  Arranja-me um pouco de aguardente!
—  'stá bem... 'stá bem! — respondeu com certa estranheza na voz.

Mas a aguardente nunca mais vinha. Passado cerca de um quarto de hora, voltei a berrar:

—  Então essa aguardente, Simões Coelho!?
—  Andam a tratar disso!... Tu julgas que estás na Régua?

Passados mais dez minutos, um criado bateu à porta.

—  Pronto, patrão! já 'tá — disse, contente, no seu riso de piano aberto.

Intrigado por não lhe ver nada nas mãos, perguntei:

—  Já está o quê?
—  O banho, patrão. Tem muita água!

Está visto que me andou a arranjar água quente em vez de aguardente!... Tomei um delicioso banho de bidom. O único banho quente em dois anos e meio de África.

O pequeno almoço tornou-se de fugida. Não queríamos perder o içar da bandeira naquele domingo passado tão longe.

A cerimónia foi breve mas de uma solenidade garantida pelo rigor militar dos sipaios. Nunca a nossa bandeira me pareceu tão nossa, a tremular assim naquele azul tão forte que parecia pintado.

Começamos a visita à ilha pelo Hospital. Ficava ali mesmo, naquele terreiro de árvores frondosas em redor do mastro da bandeira.

Não voltei a ver hospital tão limpo, tão arrumado e tão deserto. Apenas dois serventes negros nos fizeram as honras da casa, abrindo portas naquela solidão e respondendo baixinho às nossas perguntas. O Hospital pareceu-me apetrechado para o que desse e viesse. Viesse o quê? Apenas dois negros, muito velhos e muito magros estavam internados, mais por caridade que por doença. Nenhum respondeu às minhas perguntas. Nem os olhos mexeram, quando as repeti mais alto. Três mundos: o meu, o deles e o outro.

Ao recordar, agora, aquele deambular pelas ruas do Ibo, recordo paralelamente o percorrer das ruínas de Pompeia, visitadas muitos anos depois. Em Pompeia tudo aconteceu há tanto tempo que nada nos comove. Dir-se-ia que, ali, o Vesúvio e os séculos silenciaram tudo de tal maneira que as nossas almas e os nossos corações já nada podem sentir.

No Ibo o pano parece-nos caído sobre a opereta da grandeza e logo erguido para mostrar o drama da decadência. Entre a descida e a subida do pano, um curto intervalo para a História poder mudar de roupa.

Não pudemos visitar toda a Fortaleza por medida de segurança. Estavam lá prisioneiros muitos negros implicados na guerra, prestes a abrir ao sangue e à intolerância. O que vimos chegou para saber que a Pátria se defendia tão bem e tão longe.

Foi confrangedor passar diante de casas senhoriais, de paredes esventradas, sem telha que as proteja e porta que as guarde. Numa delas, em plena sala de jantar, de paredes apaineladas, crescia uma árvore com indescritível descaramento. Nas fachadas de armazéns arruinados, iam-se apagando os nomes de grandes firmas comerciais e um grande silêncio parecia amarrar-se àquela fiada de argolas de prender os animais de carga.

As casas habitadas eram poucas e dispersas. As pessoas vinham às portas ver-nos passar como fantasmas de um futuro que há-de vir. E ainda não veio.

Ao virar de uma esquina apareceu o nosso simpático Administrador. Vinha num jeep cheio de mossas, roncos de motor e grandes estoiros de tudo de escape. Queria oferecer-se para uma volta mais larga pela sua ilha.

Começou por nos mostrar, muito orgulhoso, um pequeno bairro social de sua iniciativa. As casas eram pequenas, de blocos feitos ali mesmo, sem qualquer estilo, a contar com um clima sem inverno. Foi uma nota de esperança naquela terra em agonia, desde o fim da escravatura. Sim. O Ibo foi próspero, enquanto entreposto de escravos. Ali se fixaram grandes famílias da Europa, vivendo na abastança, da compra e venda de negros.
Lá estão as casas senhoriais de estilo europeu a afirmá-lo e os apelidos nobres a resistir ainda aos humildes nomes indígenas: Ávila... Menezes... Carrilho... Ornelas... Alba... Coutinho... E o sangue? Ohl... o sangue... A garantir a sanidade dos cruzamentos de sangue latino e negro, temos o milagre das «brancas do Ibo». Milagre de brancura, de elegância, de beleza, de jeito de falar e jeito de ser. Iris Maria é uma branca do Ibo. Foi miss Portugal. Não tem havido mais porque o Ibo é longe e mau caminho...

Ao som daquele jeep rebentado percorremos boa parte da ilha com o nosso «Madragoa» a gesticular indicações com o braço livre do volante. Nada me pareceu cultivado com regra ou entusiasmo. Toda aquela agricultura de subsistência tinha o mesmo ar espontâneo do capim, mas toda aquela desolação definitiva não impedia o nosso Administrador de gesticular grandes projectos de abastança. Quando se punha de pé, de braço estendido a traçar lonjuras de cultivo, chegava a ouvi-lo como um eco de D. Quixote...

Por ventura a marca mais profunda que me ficou daquele passeio a esmo pela ilha, foi a visão das sepulturas individuais e familiares que íamos encontrando perdidas no capim. Mal se desligava o motor para irmos ver mais perto, caía sobre elas um silêncio quase doloroso. Que grande senhor negreiro estaria ali comido dos bichos e dos remorsos? Que formosura virginal teria acabado ali os sonhos de donzela?

Um ventinho de murmúrio respondia do infinito. Um grande silêncio respondia a toda a gente.

Outra vez o cais... outra vez o barco... outra vez o mangal no mar quieto... outra vez os pássaros brancos e silenciosos como a neve...

E a Ilha do Ibo lá ficou, perdida no mar e na História.
- Por Camilo de Araujo Correia (extraído de "Recordar é Viver")

- NOTA - Relato que se presume tenha acontecido na década de 1960, quando o médico duriense cumpriu serviço militar em Porto Amélia como diretor do Hospital Militar e publicado em 1991 em Portugal-Peso da Régua, no "livro de Andanças".

- Comentário de Carlos Lopes Bento no ForEver Pemba 3 em 14/09/2004:
Mais uma faceta das terras de Cabo Delgado, desta vez uma viagem por terra e mar. A narração está bastante próxima da realidade. O administrador "Madragoa" e "Malata" era em 1962 Mário Baptista de Oliveira. Escreveu, então, "Monografia Sobre a Ilha do Ibo", dactilograda, não publicada. Parabéns por mais um trabalho sobre as terras de Cabo Delgado, com a narração de uma viagem entre Porto Amélia e Ibo, por terra e mar. Mezungo m'barabara. Enviado por Carlos Bento em setembro 14, 2004 03:43 PM.

Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "ForEver PEMBA". Atualização em Fevereiro de 2013. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue só com a citação da origem/autores/créditos.