12/11/09

MANGONDÈ


Um bando de aves em vôo apressado cortaram a aldeia em diagonal enquanto andorinhas em seu estilo característico batiam as asas em franca liberdade no céu claro, fresco e azulado de Mahunda.

Kabwela, um homem afável da linhagem vamatambwe, alto, forte, de rosto tatuado e dentes afiados conforme mandava a tradição, atravessou o limiar da povoação empunhando uma catana na mão e levando nas costas um arco e flechas e seguiu um carreiro serpenteante que conduzia à floresta adentro. Andou no meio da floresta cerrada e tenebrosa ouvindo os pássaros que lhe cantavam serviçalmente naquela manhã bela e boa para um passeio no bosque. Com a barba desleixada, descalço, palmas ásperas e um andar na floresta experiente, Kabwela marchava firme com a fisionomia denunciando um homem maduro, vivido e que deleitara e usara abusivamente os prazeres da vida.

Entretanto, aproximou-se a uma moita bem tenebrosa e logo deteve-se com pasmo. Recuou dois passos e voltou a deter-se fazendo bater as pálpebras vezes sem conta. Passou a mão aos olhos, esfregou-os rapidamente e continuou olhando fixamente na moita. Em frente dos seus olhos uma figura humana envolta em pano branco, semelhante ao que se envolve aos cadáveres, lhe aguardava cabisbaixa e em silêncio tumular. O sujeito tinha a face pálida, olhos esbugalhados e um olhar apavorado que denunciava uma excessiva insatisfação. Kabwela olhou-o fixamente e no fim, pareceu-lhe familiar. Matutou insistentemente procurando se lembrar do homem. Rapidamente veio-lhe a cabeça. Deitou no chão a catana, o arco e as flechas que trazia e tremendo de medo no meio da floresta fugiu a sete pés com as mãos sobre a cabeça e gritando aos berros:

- Acudam-me, acudam-me, acudam-me...

De repente, a figura em volta em pano branco seguiu o gesto correndo atrás de Kabwela de forma incrível e sobre-humana. Pouco depois, Kabwela tropeçou um tronco escondido e enterrado no capim alto que predominava a floresta e logo o sujeito alcançou-o. Apeado em sua frente, o sujeito olhou-o assustadoramente com olhos ofuscantes e lhe rodeou com ar ameçador. Parou levando a mão às costas e, com uma rapidez indiscriptível, começou a bater Kabwela com uma haste delgada e flexível que parecia de uma árvore. Kabwela gritou forte e profundamente provocando um eco na imensidão da floresta, que se propagou imediatamente chegando a ouvir-se nas palhotas iniciais da povoação. No entanto, o sujeito bateu-lhe forte e feio e logo as lágrimas não tardaram a saltarem-lhe dos olhos. Desesperadamente tentou erguer-se para se escapulir, mas o homem de pano branco impediu-o deixando-lhe cair no tapete verdejante da floresta. Passado um momento, o agressor parou. Uma tempestade forte fustigou, repentinamente, a floresta e, precisamente, no ponto onde Kabwela lutava em vão para se pôr em fuga. Nesse instante, o agressor desapareceu misteriosamente entre nuvens densas e negras que, inexplicavelmente, formaram-se naquele ponto do bosque. Nisto, Kabwela ergueu-se com a cabeça mergulhada entre os braços. Soluçando fez uma ronda com os olhos em volta da floresta e temeroso fugiu, novamente, a sete pés fazendo caretas de dor.

Sem olhar para atrás, Kabwela, correu incansavelmente como um antílope e depois de muito tempo e de uma fuga desorientada desembocou na aldeia reiniciando os berros como uma criança.

A povoação parou e os aldeões curiosos seguiram o infeliz cerimoniosamente até a sua palhota, onde no meio do quintal deixou-se cair chorando fortemente esgravatando a terra e, de vez enquando, cerrando os punhos cheios de areia. Kabwela chorou durante muito tempo lacrimejando copiosamente e depois calou-se. Dois anciãos sairam no meio dos curiosos que o assistiam e ajudaram-o a erguer-se do chão. Depois, banhado de areia, encaminharam-o à palhota, onde após uns breves instantes de silêncio, os anciãos quiseram saber:

- O que sucedeu?

Kabwela calou-se. Passado algum momento suspirou profundamente, mergulhou a cabeça nas mãos e mentalmente começou a reviver o que lhe sucedera na floresta. No fim, soluçou uma vez e tremendo, respondeu:

- Ia andando a caminho da floresta, onde tencionava visitar as minhas armadilhas e arranjar algumas estacas para concertar o celeiro, quando, de súbito, numa moita tenebrosa vi um vulto envolto em pano branco. Parei, olhei fixamente e vi que era alguém que conhecia e que já não está no mundo dos vivos. Fiquei assustado e fugi. – Kabwela voltou a chorar fortemente limpando depois com a costa da mão um fio de ranho que lhe escorria pela narina abaixo. De seguida, calou-se e voltou ao ponto onde havia interrompido. – A pessoa perseguiu-me e junto de um tronco cai...

- É um mangonde. – Concluiu um dos anciãos. – É preciso sadaca para que não volte a reaparecer-lhe.

- Ele está aborrecido com alguma coisa. – Disse o outro ancião. – E para saber o que é será preciso consultar um wihyango.

- Não é preciso consultar a ninguém. – Disse Kabwela triste. – Ele é meu avô que não cheguei de conhecer e segundo os relatos da minha mãe, ele faleceu na floresta de kundonde, presumivelmente, devorado por leões quando voltava a povoação. Uma vez que não se teve certeza desse acontecimento, ninguém fez matanga. Quando hoje me batia, o avô fez referência a este assunto e advertiu-me que caso não fizesse nada algo fatal me sucederá.

- Então, faça a cerimónia o mais breve possível. – Disse um dos anciãos. – Os mangondes não mentem e podem matar.

- Farei o mais breve possível para que o avô descanse em paz. – Disse Kabwela aterrorizado.

- Estas situações são frequentes e as pessoas que normalmente fazem isto são as que lhe negamos a cerimónia relativa à sua morte. Quando isto acontece eles vagueiam aqui na terra e não são recebido no mundo dos ancestrais. – Disse alguém entre os dois anciãos.

- Então, quer dizer que matanga constitui para os mortos um cartão de entrada no mundo dos antepassados. – Concluiu Kabwela juntando os braços no peito.

- É sim um cartão muito importante para os mortos entrarem no mundo dos antepassados.– Respondeu uns dos anciãos sentado à beira da cama dentro da palhota iluminada por uma lareira que ardia lentamente no centro exalando uma densa fumaça branca. – E para provar isso, a agressão feita hoje basta para ilustrar a importância que a cerimónia tem para as pessoas que passam para o outro lado do mundo.

Entretanto, os anciãos deixaram a palhota e foram às suas vidas, um gesto também imitado pelos curiosos que cercava o quintal do Kabwela.

Dias depois, Kabwela fez matanga tendo , em memória ao seu avô, dado, no seu quintal, uma festa de invejar, onde os aldeões de Mahunda evocaram os espiritos dos antepassados de Kabwela, comeram, beberam e dançaram ao som secular dos tambores. Assim, após aquela festa pomposa à meneira makonde, Kabwela jamais voltou a avistar algo semelhante com o que havia visto na floresta naquela manhã clara, fresca e fatídica, confirmando-se assim o pensamento popular sobre a questão...
- Allman Ndyoko, 19/03/2008.

GLOSSÁRIO
Vamatambwe – Pessoas da linhagem matambwe;
Mangonde – Espirito ou fantasma;
Wihyango – Advinho que também pode ser curandeiro;
Kundonde – Zona baixa do planalto dos makondes;
Matanga – Cerimónia ou festa alusiva a morte de alguém familiar;
Sadaca – Festa que se oferece as pessoas após ter prometido ao antepassados fazer em sua memória.

MULHER !


12/10/09

Corrupção em Moçambique - "Vimos muitos arvorarem-se em libertadores da Pátria... em nome da construção de uma burguesia nacional... projecto que redundou neste regabofe todo!"

EDITORIAL - Oh rama, oh que linda rama!...

Estão a chegar-nos informações interessantes, sobre os “roubos” nas instituições do Estado ou por ele participadas, e já começam a abundar nomes de supostos trafulhas, que andaram anos a passear a sua “classe” e arrogância, ofendendo, simultaneamente, a miséria que abunda neste país, mas, sobretudo, a humilhar os que trabalham e pagam impostos. São nomes e mais nomes que, por aí, começam a soar. Nomes e mais nomes, de pessoas e instituições. E, curiosa e sintomaticamente, os sinais exteriores de riqueza estão a desaparecer de certos sítios onde, habitualmente, se exercitavam as ofensas ao mais tolerante dos cidadãos e se despertavam da inconsciência os mais distraídos.

Em breve, não nos admiraremos que os mesmos que há tempos diziam “vamos discutir ideias, deixemo-nos de ofender pessoas” vão começar a defender que é legítimo que se comece a “denunciar”, com todas as letras, os seus próprios amigos. As “vitórias estrondosas”, as “vitórias esmagadoras” da Frelimo trouxeram-lhe sempre um custo difícil de gerir. Não será agora que as coisas se irão passar de maneira diferente. Desta vez, vai voltar a ser assim. Com uma economia de escassos recursos, para tantos na mesma casa, vai ser difícil encontrar recursos que saciem todos os que estão, agora, de boca aberta, à espera do que entendem por “merecido” lugar à sombra.

E é nesta luta que vai, com certeza, haver quem se exceda para oferecer um lugar, ao “sol”, de preferência aos “quadradinhos”, a quem for necessário abater, para deixar de lhe estorvar o caminho.

Por isso, não nos admiramos que estarão de regresso, muito em breve, os tempos da “bufaria”, em que os verdadeiros trafulhas e candongueiros, com as suas habilidades politiqueiras e de grupo habituais, vão ser os sobreviventes. Os eternos sobreviventes, não fosse a sua idade avançada e a impiedade divina…

Quando ainda era possível repreenderem-se os prevaricadores, seguir-se uma política de apelo à decência, vimos muitos arvorarem-se em libertadores da Pátria, para defenderem o seu direito às “batidas”, em nome da construção de uma burguesia nacional que, em abono da verdade, foi um projecto que redundou neste regabofe todo, de que Diodino Cambaza, o ex-PCA da empresa Aeroportos de Moçambique, é, apenas, um menino de coro.

Agora, quando a “Era da Bufaria” regressar ao melhor palco de espectáculos que ainda aí vem, que dirão os que enriqueceram a reboque de favores ao “partidão”, quando o feitiço se virar contra o feiticeiro?

O caso “Aeroportos de Moçambique”, já aqui dissemos, é apenas a ponta do iceberg. Agora fala-se de muitas outras instituições e de nomes de indivíduos que até já ocuparam cargos ministeriais, mas não só.

E a procissão ainda vai no adro…

Apesar do que se pode, desde já, tomar por esforços sensíveis e “positivos” (este para usarmos um termo de recorrência, sempre na ponta da língua dos yes men) no sentido das boas práticas e de moralização de costumes no Aparelho de Estado e instituições públicas ou participadas pelo Estado, temos, ainda, muitas dúvidas se este espectáculo vai passar da “rama”.

O “Caso Carlos Cardoso” ficou-se pela “rama”. Quando se estava a ir ao cerne da questão, não foi Vasconcelos Porto a ir a Marracuene, mas foi alguém silenciar Cândida Cossa…

O “Caso Siba-Siba” nem à rama chegou. Viu-se que até se tentou encontrar bodes expiatórios…

O “Caso Manhenje” se passar da “rama” vai, com certeza, dar “ramada”que nunca mais acaba…

Já dissemos quanto basta: “Oh rama, que linda rama”…
- Canal Mozambique, Ano 1 * N.º 96 * Maputo, Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009.

Biocombustiveis: Brasil exporta modelo de produção e riscos também para África e Caribe

"A campanha brasileira para difundir o modelo de produção do etanol de cana-de-açúcar em larga escala não significa apenas a oportunidade de geração de renda em países em desenvolvimento, como propagandeia o governo. Ou apenas a tentativa comercial de consolidar o "combustível verde" como commodity. Ela carrega em si, antes de tudo, o risco da exploração degradante dos recursos naturais e dos trabalhadores do Caribe e da África."

Objetivo do governo é consolidar produto como commodity. Transferência de conhecimento e investimentos são acompanhados de potenciais impactos sobre a vida de trabalhadores, comunidades tradicionais e meio ambiente.

Para que o etanol de cana-de-açúcar se torne uma commodity, é preciso ampliar o número de países produtores. Os empresários brasileiros e o governo federal sabem disso e, como estratégia para viabilizar as exportações do produto à Europa e aos Estados Unidos, incentivam a expansão da atividade sucroalcooleira na África e América Latina.

"Para formar um mercado internacional, é preciso ter mais países ofertantes. Só assim vamos desenvolver um mercado futuro, com negociações em bolsa", afirmou Alexandre Strapasson, coordenador do Departamento de Cana-de-Açúcar e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O alvo da política brasileira de expansão do monocultivo de cana são os países pobres. Em geral, eles têm maior disponibilidade de terra e de mão-de-obra barata e condições agroclimáticas mais favoráveis aos canaviais. Além disso, no caso dos países do Caribe e da África, possuem facilidade logística para vender aos Estados Unidos e Europa, respectivamente.
 
Os países caribenhos acumulam ainda uma vantagem fiscal: seu álcool não paga imposto na terra nos Estados Unidos, graças a um acordo preferencial de comércio com os norte-americanos, assinado em 1983 e renovado em 2000, conhecido como Iniciativa Caribenha (ou Caribbean Basin Initiative - CBI).
 
No Brasil, a Divisão de Energias Novas e Renováveis do Ministério das Relações Exteriores (MRE) coordena o programa Pró-Renova. Como parte desse esforço, já foram assinados 60 memorandos de entendimento para cooperação técnica bilateral na área de produção de cana-de-açúcar.
 
"Esses memorandos dividem-se em dois grupos: de um lado, o dos países desenvolvidos que demandam biocombustíveis e procuram o Brasil para saber mais sobre nossa experiência do etanol; do outro, o dos países em desenvolvimento, com vocação agrícola, nos quais a cana pode atuar como vetor de desenvolvimento", declarou o coordenador do Mapa.
 
Segundo ele, o memorando de maior sucesso foi assinado com os Estados Unidos, em 2007, para pesquisas conjuntas sobre a sustentabilidade do etanol de cana. Um dos focos do trabalho é a tentativa de criação de uma metodologia comum de quantificação das emissões de gases de efeito estufa.
 
A coordenadora da Divisão de Energias Novas e Renováveis do MRE, conselheira Cláudia Vieira Santos, detalhou o escopo da iniciativa: pesquisadores brasileiros e norte-americanos já realizaram estudos sobre a viabilidade da produção de etanol de cana em El Salvador, Haiti, República Dominicana, São Cristóvão e Névis e agora atuam em conjunto na Guatemala, Jamaica, Guiné Bissau e Senegal.
 
Longe de apenas responder a demandas pré-existentes, o Brasil tem adotado uma postura pró-ativa na política externa relativa ao etanol. Em outubro e novembro deste ano, por exemplo, uma equipe técnica composta por representantes do MAPA, do MRE e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) esteve em Botsuana, África do Sul, Angola, Zâmbia, Tanzânia, Zimbábue e Moçambique para ministrar um curso sobre o Zoneamento Agroecológico (ZAE) da cana-de-açúcar.
 
De acordo com Cláudia, o objetivo da ação foi o de "apoiar a capacitação de países africanos interessados em implementar ou já implementando programas nacionais na área de bioenergia".
 
Os esforços do governo brasileiro para aumentar o número de países produtores de etanol de cana não param por aí. Como visto no parágrafo acima, Maomé foi à montanha. Mas, neste caso, a montanha também veio a Maomé: o Mapa, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), realizou em Ribeirão Preto (SP), de 16 a 20 de novembro deste ano, a "I Semana do Etanol: compartilhando a experiência brasileira".
 
O público foram gestores e empresários de cerca de 20 países de língua inglesa da África (como Botsuana, África do Sul, Nigéria e Quênia), da América Latina (como Jamaica e Guiana), da Ásia (como Vietnã e Tailândia) e da Oceania (Ilhas Fiji). Em 2008, a chamada "Ethanol Week" aconteceu em setembro, em Araras (SP), e se voltou aos representantes de 31 países de língua espanhola e portuguesa: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, El Salvador, Haiti, República Dominicana, Cuba, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal e Togo.
 
Iniciativa privada
De acordo com Alexandre Strapasson, os investimentos diretos de usineiros brasileiros em outros países são tímidos. "É um desafio convencer empresários do Brasil a investir na África e América Latina. Ainda mais porque eles enfrentam a concorrência de países europeus, que também estão interessados em produzir nesses territórios", justificou o gestor.
 
Entre os grupos nacionais que já apostam na expansão da cana em território estrangeiro estão o Guarani e o Odebrecht. O primeiro, que possui seis usinas em São Paulo, passou a investir em Moçambique em 2007, comprando uma usina de açúcar construída em 1998. Por meio de um contrato renovável de concessão de terras públicas válido por 50 anos, os canaviais africanos do Grupo Guarani ocupam hoje 91 mil hectares, com plantio e colheita totalmente manuais. Na safra passada, a produção nessa unidade foi de 66 mil toneladas de açúcar. De acordo com a assessoria de comunicação da empresa, até o momento não há produção de etanol, mas "o governo de Moçambique, que possui participação acionária na Guarani, demonstrou grande interesse no setor de combustíveis renováveis por meio de projetos apresentados ao FMI [Fundo Monetário Internacional] e ao Banco Mundial".
 
Já o Grupo Odebrecht deve iniciar até o final de 2010 a produção de açúcar e etanol em Angola. A construtora brasileira tem participação de 40% na Companhia de Bioenergia de Angola, cujos demais sócios são a estatal petroleira Sonangol e o conglomerado angolano Damer.
 
Do ponto de vista da segurança energética, é importante ter outros países produzindo, a fim de mostrar aos consumidores que a oferta é estável", afirmou o diretor-executivo da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Sousa, concordou com a avaliação. "Caso contrário, cria-se a situação do ovo e da galinha que vivemos atualmente: não existe um mercado consumidor consolidado, então muitos países hesitam em começar a produzir. Por outro lado, existem poucos países produtores, então o mercado consumidor não se consolida", explicou o representante da Unica.
 
Por enquanto, a indústria brasileira que mais tem faturado com a política externa de incentivo à expansão da atividade sucroalcooleira é a Dedini, líder mundial na fabricação de equipamentos para o setor. "Nossas exportações cresceram 660% nos últimos 5 anos", comemorou o diretor de exportações da empresa, Antônio Pereira. Segundo ele, cerca de 10% do faturamento da Dedini vem do mercado externo, com clientes espalhados por 26 países, com destaque os localizados no Caribe e na África, além da Venezuela, Estados Unidos, Uruguai, Colômbia, Argentina, Bolívia e México.
 
Sinais de alerta
A campanha brasileira para difundir o modelo de produção do etanol de cana-de-açúcar em larga escala não significa apenas a oportunidade de geração de renda em países em desenvolvimento, como propagandeia o governo. Ou apenas a tentativa comercial de consolidar o "combustível verde" como commodity. Ela carrega em si, antes de tudo, o risco da exploração degradante dos recursos naturais e dos trabalhadores do Caribe e da África.
 
Na Guatemala, país exportador de açúcar, o Instituto de Estudos Agrários e Rurais - Idear, pesquisa há quase três anos as investidas do Brasil em território guatemalteco. O pesquisador Alberto Alonso Fradejas contou que a usina de açúcar Guadalupe Chawil Utz já invadiu zonas tradicionais de cultivo de alimentos.
 
Um dos acionistas dela é o grupo sucroalcooleiro Pantaleón, que integra uma joint-venture formada também pelo colombiano Engenho Manuelita e pela brasileira Unialco. Juntos, os três construíram uma usina de açúcar e álcool no Brasil (a Vale do Paraná, em Suzanópolis - SP) e estão investindo na construção de uma usina de desidratação de álcool na Guatemala, com vistas ao mercado norte-americano.
 
Em Moçambique, o ProCana promete gastar US$ 500 milhões e gerar 2 mil empregos diretos, usando tecnologia brasileira na produção de açúcar e etanol. Uma matéria do jornalista norte-americano Adam Welz, publicada em março deste ano no site "Mother Jones" (especializado em temas socioambientais), detalha os riscos do projeto. Cerca de 30 mil hectares de savana nativa deverão ser convertidos em canaviais em Massingir, a região mais seca do país, provocando perda de biodiversidade e consumo excessivo de água (aproximadamente 409 bilhões de litros por ano para irrigação). E 38 mil moradores do entorno do Parque Nacional do Limpopo serão obrigados a deixar suas terras.
 
A Constituição de Moçambique decreta que todas as terras do país são propriedade do Estado, que pode conceder autorização de uso a empresas por períodos de 50 anos. Essa concessão, no entanto, está condicionada à ausência de comunidades tradicionais no território. Pelo jeito lá, como no Brasil, boas leis não são garantia de boas práticas.
- Por Thaís Brianezi, do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis - In Repórter Brasil - Agª. de Notícias, 09/12/09.
  • Outros post's deste blogue sobre os polémicos "biocombustíveis" e os interesses comerciais ambiciosos, de expansão de mercado que os cercam, "ocultando-se" em simultâneo e em segundo plano prejuízos sociais, ecológicos, de desiquilibrio ambiental conseqüentes e provavelmente irreparáveis ! 

12/09/09

Praias de Pemba - Erosão e maus tratos... Que futuro ?

A questão ambiental debatida nos mais diversos fóruns internacionais e também, no momento, na conferência em Copenhague faz-nos refletir sobre atitudes e comportamentos quotidianos que não contribuem para um planeta sustentável e que implicam em mudanças de hábitos, em abdicarmos de interesses individuais para, com isso, contribuirmos para o bem e melhoria da sociedade que nos rodeia e para um futuro onde o assustador fantasma do aquecimento global possa ser amenizado e sobressaltar menos. Porto Amélia no passado colonial (hoje Pemba) era exemplo de cidade planejada, ecologicamente equilibrada dentro do que se conhecia a respeito naquele tempo até 1975, de ruas amplas, limpas, arborizadas, edifícios airosos, modernos, perspectivando um futuro prometedor voltado para o turismo. Para isso contribuíram diversas figuras que, direta ou indiretamente a foram desenhando e lapidando como jóia rara encravada nas areias do imenso mar azul que a cerca. Citarei, entre outros, somente os Dr. Cristina e Tito Livio Xavier, como presidentes do município e o saudoso arquiteto Andrade Paes, idealizador e responsável pela construção de inúmeras residências belas e edifícios que ainda hoje fazem e dão ar de graça à atual Pemba. Uma Pemba que em 2009, sentimos estar crescendo desorganizada, super povoada, com esgotos a céu aberto, lixo nas ruas, informalidade desregrada e crescente praticada por um povo que busca sobreviver mas em rumo direto, inevitavel á crescente insalubridade da urbe e à destruição de suas praias... hoje, muitas delas (como as praias do Wimbe, Maringanha ou até Mecufi) transformadas em latrinas públicas, vitimas da erosão, quase redutos murados, fechados por construções aleatórias ou não mas inconvenientes, redutos esses exclusivos e destinados a classes sociais mais “abonadas”.

Ainda bem que a próxima cúpula sobre mudança climática de 2011 será na África do Sul como hoje anunciou a presidente da conferência em Copenhague, a dinamarquesa Connie Hedegaard.

Quem sabe e por proximidade, cheguem mais fortes a Moçambique e a Pemba as necessárias demandas para mudanças radicais de conduta e usos que são imperativas quando se trata da questão ambiental.

E, para “desenhar” um pouco mais nitidamente minha apreensão, transcrevo, de autoria de Edmundo Galiza Matos – 2008, um texto encontrado na net, que faz parte de suas “Impressões após nove anos de ausência” da nossa querida Pemba e arredores:

""Mecufi: Impressões após nove anos de ausência - A erosão, é verdade, é um cancro maligno que dilacera impiedosamente o distrito costeiro de Mecufi. Há anos. Antes mesmo da independência nacional.

O fenómeno abate-se com maior inclemência sobre a praia e as várias tentativas para aplacá-lo de nada serviram. Os estudos científicos para a correcção da acção do oceano e do homem não passam disso mesmo. Muitos mas engavetados.

Desapareceram da praia a prancha para o mergulho. Os parrôs implantados nas frondosas causuarinas nem sequer deixaram marcas. Do balneário só restam o entulho em forma de pedra. As raízes desventradas dos coqueiros são como que a prova de que ali se bebericava whisky com agua de lanho.

O barquito “pilotado” pelo velho Jenguesse já lá não está... para meu desgosto, uma vez que, para além da travessia (paga) para Kambala, com ele “navegavamos” entre os inúmeros canais e mangais até “aportar” em Muária, aldeia construída já depois da independência nacional.

O bar do Herculano Faria está numa lástima à espera que um diferendo qualquer, inexplicável, seja sanado. Ali perto funciona uma cabana feita com macuti.

Reduzido devido à invasão das aguas do mar o terreno que utilizavamos para acampanar com tendas feitas de macuti e bambu, simplesmente já não existe.
- Em 31 de Outubro de 2008 - Edmundo Galiza Matos.

12/06/09

Contos E Poesias do Índico - HUVILO



(Clique na imagem para ampliar. Gravura fictícia formada por imagens livres recolhidas na net)

Corria o ano de 1840. Nas terras do velho Mbavala, o rei makonde, o sol caia vermelho colorindo o manto verde da floresta. Um grande grupo de guerreiros makondes de troncos nus e com as partes intimas cobertas de pedaços de pano encardido, adquirido nos comerciantes árabes e aventureiros swahil, acompanhavam atentamente, no terreiro da povoação, o discurso contagiante do rei Mbavala. Enquanto discursava, corria nas suas terras, de boca em boca, a surpreendente notícia de aproximação de um grupo Nguni que raptava homens e mulheres e cobrava coersivamente tributos às populações das povoações que ia atacando enquanto avançava em direcção ao extremo norte do actual território de Moçambique. O grupo pertencia a um outro grande grupo de guerreiros Nguni proveniente de Zwangendaba que, por volta de 1837, estivera no vale do Zambeze e em zonas limítrofes semeando terrores entre populações endefesas e mais tarde atravessou o Zambeze, perto de Cachomba, tendo uma boa parte se dirigido para Tambara e outra para o norte atraído pelas notícias de existência de um rendoso negócio de ouro, marfim e escravos.

- Meu povo! – Disse o ancião com uma voz trémula. – Tenham coragem para enfrentar o inimigo que vem. Ele vem de longe e carrega o ódio nos olhos, por isso, vai destruindo tudo que lhe aparece na sua frente. Os nossos mensageiros trauxeram notícias frescas dando conta da aproximação do inimigo. Os nossos irmãos que vivem nas imediações da nossa povoação começaram a chegar aterrorizados pelas notícias da chassina que inimigo vai cometendo enquanto caminha ao encontro das nossas terras...

Enquanto o velho falava para a multidão de guerreiros, pequenos grupos de velhos, mulheres e crianças aproximavam-se sorateiramente às varandas das cabanas que se achavam no limiar do terreiro ávidos de acompanhar as palavras do Mabavala.

- Protejam as crianças, os velhos e as mulheres. Defendam com bravura a nossa tribo e toda a riqueza que os nossos antepassados nos deixaram. Cantem as canções de bravura e coragem para que dignifiquemos o sangue derramado pelos guerreiros mais valentes da nossa tribo.

A multidão ululou, os guerreiros aceneram ao ar arcos e flechas e em conjunto deram o grito de coragem. Havia gente demais e o ar estava abafado. A noite entrava calma trazendo consigo estrelas e o nevoeiro. No alto, uma caravana de passáros cortou o céu num chilreio carregado de apavor. O velho calou-se. Acendeu um tabaco. Aspirou voluptosamente o fumo e, no fim, prosseguiu:

- Vigiem as fronteiras do nosso reino. Coloquem homens em todos os cantos para que o inimigo não nos surpreenda. Na hora da chegada, toquem o lipalapanda – o chifre de antílope – para que todos saibam que o inimigo está nas nossas terras.

Calou-se novamente. Levou o tabaco aos lábios. Puxou duas vezes. Tossiu vezes sem conta e voltou ao ponto onde havia interrompido.

- Meu povo! – Disse o ancião com uma voz entrecortada e trémula. – Preparem esconderijos para que as crianças, os velhos, os enfermos e as mulheres grávidas possam se proteger contra a chassina que vem. Preparem as armadilhas que os nossos antepassados nos ensinaram e ordeno para que esta noite todos guerreiros fiquem de vigia cantando e dançando para afugentar o espirito do medo. O curandeiro Namakhoi fará o trabalho que lhe compete distribuindo alguns punhados de ervas que vos protegerão de todo o mal durante a batalha. Coragem, guerreiros! Coragem...

O kôta virou-se para a corte, cruzou os braços nas costas e fez um sinal indiscrptivel para um dos anciãos mais antigo da tribo. De seguida, abandonou o terreiro dirigindo-se para a grande palhota andando com um cómico aprumo e movendo-se na noite tão cautelosamente como se estivesse a pensar em alguma coisa. Ao chegar a porta, mandou o mensageiro real reunir o chefe dos guerreiros, o curandeiro Namakhoi e outros ancião mais importantes da povoação e no fim, entrou na palhota fechando a porta nas suas costas. O kôta queria se inteirar de tudo, desde a estratégia da guerra até ao tipo da magia que o curandeiro Namakhoi pretendia usar para derrotar o inimigo. No entanto, o rufar dos tambores e o ecoar das vozes fizeram-se ouvir no terreiro. Vozes embaladas na brisa nocturna atravessavam a floresta densa do planalto dos makondes e homens fortes e valentes dançavam e cantavam canções de autores imemoráveis e perdidos na poeira do tempo cujas suas letras passavam de boca em boca e de geração em geração modificando-se constantemente de acordo com o momento. Os guerreiros dançavam em redor de uma grande fogueira contorcendo-se com abandono, simulando combates, zombando o inimigo e fumando bangui, a rainha da coragem. A medida que dançavam, as labaredas cresciam, a lenha ardia com intensidade e, de vez enquando, pequenas faúlhas saltavam no ar apagando-se rapidamente na noite fria.

O rei saiu da palhota, soltou um profundo suspiro e parado em frente da palhota pôs-se a contemplar no escuro a densa floesta, sentindo o ar frio da noite e aspirando o agradável aroma do planalto. Caminhou lentamente pelo quintal com os braços cruzados nas costas como era o hábito. Porém, deteve-se num tronco de Mula e sorriu consigo mesmo animando a sua face tatuada e dominada de profundos sulcos. O kôta recordava-se com saudade a sua juventude, principalmente, na época em que com bravura enfrentava gente de outras tribos que caçavam mulheres makondes nas machambas e riachos, afim de vende-las como escravas aos comerciantes árabes e aventureiros swahil. Fechou os olhos como se quisesse trazer de volta aqueles momentos e depois, deu meia volta e encaminhou-se novamente a palhota movendo-se com um aprumo forçado e cómico, típico da idade.

Já a madrugada, um jovem, que o chefe dos guerreiros escalara para guarnecer as imediações da povoação, irrompeu no terreiro correndo apavorado e vomitando sangue coagulado. Os guerreiros Nguni haviam lhe mutilado a lingua e obrigado a se dirigir a povoação afim de anunciar a sua chegada. O tam-tam dos tambores cessou imediatamente; Dois guerreiros dirigiram-se a palhota real, anunciaram ao rei o sucedido e voltaram novamente ao terreiro, onde os outros guerreiros haviam já abandonado e tomado a posição no limiar da floresta e nos ramos das árvores que se espalhavam nas redondezas da povoação. O rei e a corte fugiram para a floresta, onde foram escondido num abrigo preparado para tal. De súbito, a povoação ficou silenciosa e quando o sol ia se erguendo lentamente e a queimar, pouco a pouco, o orvalho no capim e nos arbustos ouviu-se um forte ulular e um grande grupo de guerreiros Nguni vestidos de peles e munidos de lanças e escudos de peles de animais bravios irrompeu o centro da povoação, pilhando mantimentos e animais domêsticos, quebrando potes e outros objectos de barro, e, quando ia incendiar as palhotas, os guerreiros makondes lançaram-se contra o inimigo dirigindo-lhe flechas envenenadas com ervas selvagens. A batalha levou muito tempo e, usando uma táctica de guerra desconhecida entre os makondes, os guerreiros Nguni infringiram pesadas derrotas aos guerreiros do rei Mbavala. Os prisioneiros de guerra foram severamente humilhados e quase metade da população foi escoraçada numa louca perseguição até às margens do rio Rovuma, onde atravessando a nado e numa visível situação de desespero refugiaram-se para as terras do Tanganhica, rei dos Massai, no actual território da República da Tanzania. Um outro grupo de Makondes liderado pelo o rei deposto exilou-se nas terras do Mataca, o rei ajaua, na actual província do Niassa.

Entretanto, meses depois guerreiros makondes apoiados por homens valentes e corajosos da tribo ajaua expulsaram os invasores tendo-lhes perseguido até às terras mais distantes, em direcção ao centro do actual território de Moçambique . Passados alguns dias, o rei Mbavala e a sua corte regressaram do exílio acompanhado do rei Mataca. Porém, os que haviam atravessado o Rovuma jamais voltaram e por lá criaram a comunidade dos makondes da Tanzania. Nisto, alguns dias depois, houve uma grande festa na povoação que durou uma semana comendo-se carne caçada no interior da floresta, bebendo-se diversas bebidas tradicionais, dançando-se ao som dos tambores e assistindo-se diversas sessões de mapico. Como gratidão dos feitos heróicos dos guerreiros ajaua demonstrados no momento da expulsão e perseguição dos invasores, o rei Mataca recebeu de presente, do seu homólogo Mbavala, uma bela donzela para casar, uma enorme estátua de pau-preto com a sua figura «estampada» no tronco e teve de volta meia centena de mulheres da sua tribo que serviam de escravas nas residências oficiais dos membros da corte dos Makondes. Para além deste acto, houve uma cerimónia tradicional de firmamente de amizade entre as duas tribos, onde os curandeiros de ambos os lados foram convidados a oferecerem os seus préstimos por forma a abençoar aquela amizade que nascia e a garantir por via mágica a sua renovação de geração em geração até ao mais infinito.

No último dia da estadia do rei Ajaua nas terra dos Makondes, o sol nasceu muito quente e os seus raios brilhavam intesamente resplandescendo manjestosamente sobre o tapete verde da floresta. Um grupo de flamingos sobrevoou silencioso a povoação e, no fim, aterrou numa pequena lagoa que se achava no extremo sul da palhota do rei Mbavala. Um grupo de crianças nuas e desnutridas brincava debaixo do sol em frente da palhota do chefe dos guerreiros Makondes e dois cães vadios atravessaram o terreiro perseguindo-se numa empolgante brincadeira. Dois guerreiros ajaua munidos de lanças afastaram-se repentinamente da porta da quarta palhota real. A porta abriu-se e o velho Mataca saiu seguido pela rapariga oferecida pelo seu homólogo Makonde. De olhos cerrados, o rei aspirou o ar frio do planalto, lançou um olhar apreciador ao seu presente e caminhou para o terreiro, onde a sua corte e os donos da terra o esperavam para a despedida. Ao chegar, foi servido um acento no alpêndre improvisado para a despedida. Pouco tempo depois, o kôta Mbavala ergueu-se e discursou para o seu povo agradecendo o apoio dos Ajaua e pedindo às duas tribos para que valorizassem a amizade conquistada contando a sua história às novas gerações. Já perto do fim do discurso, a sua voz ficou demasiadamente trémula e, nesse momento, foi interrompido por um seu funcionário que o encaminhou ao acento. Quando ia se sentar, o chefe dos guerreiros quis apoia-lo, mas o ancião apartou-o com os braços fazendo um gesto de protesto de quem diz não sou tão velho para precisar de apoio para se acomodar. De seguida, o som dos batuques irrompeu o espaço reservado para a despedida e um grupo de dançarinos começou a dançar no meio da roda humana que assistia ao espectâculo rindo e cantando. Ao cessar o tam-tam dos tambores, o kôta Mataca fez um breve discurso agradecendo a hospitalidade, os presentes oferecidos e a libertação das mulheres da sua tribo feitas escravas muito antes da invasão Nguni. No fim, prometeu aos Makondes retribuir o gesto da devolução das escravas, defendendo que já não havia mais razões para as duas tribos manterem a prática de captura de mulheres das duas tribos para fins de escravatura.

O rei foi interrompido por uns aplausos que soaram de forma entusiástica. Contudo, quando os aplausos desvaneceram, o kôta retomou o discurso agradecendo vezes sem conta tudo quanto o povo Makonde havia lhe proporcionado. Dali, as duas cortes abandonaram o terreiro enquanto o rufar dos tambores se faziam sentir novamente e encaminharam-se na saída da povoação. Ao aproximar as paliçadas que circundavam a povoação, protegendo os habitantes contra os animais bravios, os dois reis apertaram-se as mãos efusivamente em sinal de despedida final e o kôta Ajaua deu meia volta e começou a caminhar juntamente com a sua corte e os seus guerreiros escoltando-o em todos os lados. O velho Mbavala não tinha ainda voltado para a povoação e se encontrava petrificado no sitio onde havia se despedido do amigo Ajaua, olhando-o de longe enquanto desaparecia por entre árvores frondosas e arbustos de meia altura que emergiam quase por toda a floresta. Quando os visitantes desapareceram, por completo, deixando a sua atrás vozes entrecortadas e trazidas pelo o vento, o velho encaminhou-se ao terreiro, onde pôs-se a assistir mais uma sessão de mapico até ao entardecer.

Passados muitos anos, a amizade das duas tribos ainda continua manifestando-se sob forma de huvilo e a sua genese corre de boca em boca entre as novas gerações de Makondes e Ajauas.
- Allman Ndioko, Moçambique, 17/05/2005

VOCABULÁRIO:
Huvilo - Uma espécie de amizade carregado de aspectos cómicos e menos sérios;
Makondes Grupo étnico de Moçambique localizado no planalto de Mueda, província de Cabo Delgado. Note-se que existe na República da Tanzania outro grupo de Makondes conhecido por Makondes da Tanzania e que é originário do actual planalto de Mueda.
Ajauas - Grupo étnico de Moçambique localizado no planalto do Niassa, no norte do país.
MbavalaRei do povo Makonde.
Mataca Rei do povo Ajaua.
Kôta Pessoa mais velha que pode ser pai, mãe, avô, tio, etc.
Bangui Soruma ou melhor cannabis sativa;
Mula Árvore frondosa e muito alta frequente no planalto de Mueda. Entre os Makondes de Moçambique a Mula servia, desde os tempos remotos até altura da independência nacional, para sinalizar campas nas grandes florestas do planalto;
Lipalapanda – Chifre de antílope, normalmente, usado para anunciar uma festa ou animar uma sessão cultural;
N’tela Erva medicinal que serve para curar alguma infermidade ou proteger qualquer mal. Normalmente tem tido efeitos mágicos.


12/04/09

Apontamentos do Tito Xavier: Ilha do Ibo - Forte de S. José


Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu recentemente em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

12/03/09

Ecos da imprensa moçambicana: Apenas oito das 129 empresas controladas pelo estado têm lucros.

Apenas oito das 129 empresas controladas pelo Estado têm lucros - AS RESTANTES 121 REGISTAM PREJUÍZOS ENORMES SEGUNDO IGEPE. Somente oito das 129 empresas participadas pelo Estado geram lucros em Moçambique e as restantes 121 registam prejuízos enormes, segundo o Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), realçando que “algumas delas ignoram as boas práticas de gestão e nem sequer apresentam relatórios regulares das suas contas”.

Para inverter o cenário, o IGEPE está a apurar a viabilidade da sua comparticipação na gestão das empresas onde é accionista, segundo Daniel Tembe, presidente daquela instituição estatal que não deu pormenores sobre a matéria.

Nos últimos oito anos, o Estado abdicou das suas participações em 150 empresas, de um universo de 279 que controlava desde 2001, de acordo ainda com Tembe, falando esta quarta-feira, em Maputo, durante um encontro de apresentação do guião de boas práticas de governação corporativa nas empresas participadas pelo Estado moçambicano.

No encontro, o IGEPE analisou ainda o estabelecimento de sistemas de relatórios que facilitem a monitoria e avaliação do desempenho das empresas participadas pelo Estado.

Um documento apresentado na ocasião realça que o Estado como proprietário deve estabelecer políticas e legislação que assegurem a gestão criteriosa da coisa pública a nível das empresas e deve assegurar que as empresas do Estado se sujeitem às mesmas condições competitivas de mercado, para além de encorajar a adoptarem códigos de conduta e de ética e aplicar os instrumentos regulatórios já aprovados nesse sentido.

Já como Estado sócio, o documento refere que a intervenção do Estado deve ser exercida de forma equivalente à dos sócios de direito privado nessas sociedades e que os direitos especiais do Estado devem estar claramente regulados e divulgados, destacando em seguida o documento que o Estado deve articular com os administradores por si nomeados a respectiva linha de intervenção nas sociedades.
- (J. Ubisse) - Correio da Manh, Ano XIII, Nº 3207, Quinta-feira, 03/Dezembro/2009

Os comportamentos que mais minam o ambiente de negócios em Moçambique - Corrupção, burocracia e oportunismo continuam.
- taxas mais elevadas da região no desalfandegamento aduaneiro, 45 dias para licença de construção, constam igualmente na lista.
- governo nega comentar o relatório do Banco Mundial.

(Maputo) Moçambique encontrase no grupo dos 50 países do mundo, onde o ambiente de negócios é o mais caótico. Últimos dados indicam que o país está quase na cauda no Ranking do Doing Business, que reflecte a idoneidade e facilidade para fazer negócios em determinado país. Neste momento, Moçambique encontra-se na posição 135 de um conjunto global de 185 posições.

Dado este constrangimento ao desenvolvimento nacional, o governo através do Ministério da Industria e Comercio, decidiu contratar uma equipa de consultores do Doing Busines, (integrantes do Banco Mundial, BIRD) de modo a fazerem um pesquisa no c a m p o e c o n ó m i c o empresarial, com vista a se saber o que estará a atrasar o país em termos da criação de condições para o melhoramento do ambiente de negócios e a consequente atracção de investimentos para o país.

Resultados apresentados na manhã de ontem, na capital do país, pela equipa do Banco Mundial, apontam a corrupção, burocracia e oportunismo como, os comportamentos que mais dificultam o ambiente de negócios em Moçambique.

Estes são tidos como verdadeiros atentados ao ambiente de negócios, disseram os consultores. Constam ainda na lista dos constrangimentos detectados por aquela equipa, o facto de Moçambique continuar a cobrar as maiores taxas aduaneiras dos últimos tempos (cerca de 120 dólares por scaning de cada contentor, contra os 16 dólares cobrados em alguns países), o que na óptica dos investigadores afugenta os investidores e importadores.

Também apontam a existência desnecessária das inspecções pré-embarques e com elevado custo, deficiente rede de transportes e comunicações, maior tempo de espera de licenças de construção ( cerca de 45 dias contra os 6 dias em alguns países) bem como a demora de processos judiciários em vários níveis.

Estes comportamentos estão sempre associados a comportamentos corruptos a vários níveis.

Recomendações.
Assim, aquela equipa de consultores recomendou, ao país, para que acelere o processo de criação de infra-estruturas melhoradas, que inicie de imediato a formação contínua de pessoal destinado ao mundo empresarial. Há também a necessidade urgente de juízes especializados para lidarem com processos de natureza económica, bem como, uma monitorização contínua dos projectos em curso.

CTA reconhece esforços.
Embora reconhecendo o esforço que vem sendo desenvolvido pelo governo na procura e criação de um melhor do ambiente de negócios, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), considera que as acções ainda são poucas comparadas com os avanços que se registam noutros países. Exemplo, citado foi o Ruanda que na última análise do Doing Business, subiu 75 pontos contra 5 pontos conseguidos por Moçambique.

“O governo está a implementar reformas, mas as implementa muito pouco. Ter uma licença para a construção é uma dor de cabeça” disse Orlando da Conceição, Director Executivo da CTA, para quem o país deve em primeiro lugar, procurar reduzir actos de corrupção burocracia e oportunismo, bem como, procurar concretizar as recomendações deixadas pelos consultores.

Aliás, caso Moçambique adopte estas medidas poderá subir 10 a 15 lugares até finais de Abril próximo, de acordo com a equipa do Doing Business.

Governo não se pronuncia.
Facto estranho é que, no fim da sessão e como é habitual nestes encontros, tentamos abordar o governo para se pronunciar em relação ao relatório dos consultores, mas o seu representante simplesmente mostrou-se indisponível a abordar o assunto.

A preocupação colocada foi no sentido sabermos quais os esforços adicionais que seriam desenvolvidos pelo governo no sentido de concretizar as recomendações da equipa do Banco Mundial. Infelizmente, a responsável do Ministério da Indústria e Comércio escusou-se a responder, alegadamente porque a sua instituição (MIC) não tinha convidado a imprensa para o encontro.
- (Hélio Lucasse e Redacção), MediaFax, Maputo, Quinta-feira, 03.12.09 *Nº4427.

Por 4 milhões de USD transaccionados 11 mil hectares de terra para produção de Jatropha em Moçambique.

Maputo (Canalmoz) - A SAB Mozambique criada em Maputo em Outubro pelas firmas italianas Leonardo Business Consulting e pela SECI API BIOMASSA vai adquirir por 4 milhões de USD os haveres da ESV Group Plc em Moçambique.

A ESV é uma sociedade cotada na Bolsa de Londres e presidida pelo britânico de origem iraniana Massou Alikhani. Ao ceder os seus haveres à ESV cede as suas plantações de Jatropha e os seus onze mil hectares de terra em Moçambique.

A SAB Mozambique fez uma joint-venture com duas sociedades italianas especializadas em energias renováveis: A API NOVA ENERGIA e SECI Energia Spa, parceira do Gruppo Maccaferri, como também noticiou esta semana o ION, que se edita em França.
- (Redacção / ION), CanalMoz, Ano 1 * N.º 91* Maputo, Quinta-feira, 03 de Dezembro de 2009.