1/05/10

Ecos da Imprensa: ÁFRICA 21 - Corrupção, clientelismo e irresponsabilidade

O calote, outrora visto como um crime e motivo de desonra, é hoje praticado por muitos empresários e políticos, ou ambas as coisas, com o à-vontade de quem muda de camisa.

O desenvolvimento dos países emergentes e também daqueles que enfrentam a classificação de pertencerem ao “terceiro mundo”, pelos fracos índices de desenvolvimento económico e social, passa mais pelo empenhamento nacional em políticas públicas de crescimento que pela generosidade das nações ricas, ainda que esta seja importante, necessária e, em muitos casos, quase vital para a subsistência de muitas comunidades.

Nos últimos anos, os líderes de diversos países africanos têm manifestado o propósito de criarem as condições para políticas sustentáveis que possibilitem uma real melhoria das condições de vida dos seus povos. Mas é também público que muitos desses discursos não vão além de exercícios de retórica de ocasião. Muitos desses líderes estão amarrados pelas próprias teias que criaram para se manter no poder.

O clientelismo político, a corrupção e a irresponsabilidade constituem ainda alguns dos maiores males com que se confrontam os países do “terceiro mundo”. E estas são doenças sociais que não são exclusivas deste ou daquele país, deste ou daquele continente.

Muitos personagens das elites políticas e económicas não abdicam da prática de confundir a gestão do interesse público com negócios privados; outros, ou os mesmos, ignoram compromissos, acordos ou parcerias. A ética não existe. A vampiragem tornou-se prática comum. O calote, outrora visto como um crime e motivo de desonra, é hoje praticado por muitos empresários e políticos, ou ambas as coisas, com o à-vontade de quem muda de camisa.

Clientelismo, corrupção e irresponsabilidade andam de mãos dadas na África, na América Latina, na Ásia. E também, ainda que sob formas aparentemente mais sofisticadas, mas não menos perniciosas, nos países ricos do Hemisfério Norte.

Nas últimas semanas, assistimos a compromissos públicos de combate à corrupção, e à falta de transparência das máquinas do poder, por parte de vários dirigentes e líderes de países lusófonos.

Cabo Verde, Angola e Moçambique fazem parte dos países africanos cujos dirigentes se comprometeram em levar por diante programas que visam a moralização da actividade pública e a gestão criteriosa e transparente dos dinheiros públicos.

Cabo Verde, conhecido como um dos países africanos com menor índice de corrupção - o que lhe tem valido, aliás, a captação de importantes recursos financeiros da cooperação internacional – vai lançar um programa destinado a esclarecer a população sobre corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes de colarinho branco.

Em Moçambique, altos funcionários do governo, incluindo um ex-ministro, sentam-se no banco dos réus, acusados de usarem e abusarem do erário público em benefício próprio.

Em Angola, foi o próprio Presidente da República quem veio a público afirmar a necessidade de dar combate à corrupção. Esta conjugação de vontades reflete não apenas um ciclo de aparentes virtudes que se descobrem mas, sobretudo, a convicção de que o desenvolvimento dos respectivos países, a criação de riqueza e a inserção na comunidade internacional obrigam à adopção de medidas urgentes que possibilitem iniciar a árdua tarefa de combater a corrupção, em todos os níveis, começando, obviamente, pelos grupos acastelados no poder.
- Alfredo Prado, África 21 Digital, Brasil OnLine, 04/01/2010.

Obs. - Pena que o articulista não se debruce também sobre os escândalosos casos de corrupção no Brasil, que envolvem mensaleiros do PT, ligados ao governo, em passado relativamente recente e de outros partidos no governo do distrito Federal mais atualmente. Assim como não se refere a Portugal onde se denunciam e estão no limiar da lenta justiça casos que repugnam pela afrontosa tentativa de os "abafar" e legitimar pela impunidade com total apoio de quem deveria dar o exemplo de integridade. Isto em ambos os países Portugal e Brasil.

12/29/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulos XV, XVI e XVII


Não Matem A Esperança - Capítulo XV
Dezoito horas.
Os soldados rodeiam a fogueira onde coze o arroz que, com sardinhas de conserva, será o jantar. As armas quedam-se silenciosas, mas bélicas, junto deles e de mim. Os rostos dos soldados brilham distintamente à luz viva das linguetas de fogo, desenhando-lhes os contornos. Há os que riem com as anedotas contadas para passar o tempo; há os que fitam, sem pestanejar e de lábios colados, a panela que se vai sujando de fumo.

A lua, medrosa, começa a sair do ovo imenso que é o céu com a cor da noite. No poente longínquo, os restos de sol, como nos últimos focos dum incêndio gigantesco, tocam a selva. Vai escurecendo dum modo saudoso que nos dá uma sensação de frustração. Relampejando de x em x instantes, umas faíscas nervosas mostram-nos formas mal definidas de nuvens escondidas, esbranquiçadas e gorduchas de água, antecedendo os trovões que, na solidão do mato, são como urros de monstro revoltado.

Na base do planalto em que estacionámos, desenha-se uma circunferência escura e compacta de mata. As copas e os ramos juntam-se, desprendem-se, abraçam-se, agridem-se, formando um todo que, visto de longe, se julga impossível penetrar. No seu seio, contudo, há uma vida animal e febril mais respeitadora que as dos homens. No lado norte, erguem-se as labaredas de uma queimada que conseguiram furar a cúpula selvática e expandirem-se livres e triunfantes.

Os homens encarregados da segurança vigiam o sector de observação que lhes foi confiado.

O cozinheiro de ocasião avisa que o «jantar» está pronto. Come-se para sossegar a barriga. Uns, engolem lentamente e em silêncio, deixando ver perfeitamente a saliência que, na garganta, o arroz forma rumo ao estômago; outros, aqueles a quem a vida ensinou a serem optimistas (questão de hábito?), separam cada colherada com comentários que têm qualquer coisa de forçado.

Depois, a maioria, conversa. Alguns, mais sensíveis a estas coisas, retiram-se assobiando, baixinho, modas das suas terras; outros, ainda, como pasmados perante coisa nunca vista, fixam a lua com lábios em movimento, num monólogo interior.

A noite está adiantada para aqueles que vivem na selva. A lua é rainha. A orquestra do mato toca a sinfonia da vigília nocturna.

Acomodo o meu saco de dormir na cabine da viatura e deito-me, encolhido, no assento. Na caixa, os mais atrasados em procurar posição, impacientam-se até que ficam. Encosto melhor a cabeça à camisola que faz de travesseiro e adormeço com a lua a trazer-me saudades de alguém. De ti Rosita.

No lusco-fusco, os derradeiros fios solares entranham-se no matagal como serpentinas prateadas em confuso folgar. O capim alto ou rasteiro, as mangueiras, cajueiros, maúmas, lusares, tudo isto e muito mais se espaceja ou complica, agarra aqui, solta acolá, e de súbito, se, se contar, aparece uma clareira para uma machamba, para uma palhota e, às vezes, até para uma «temba», onde em noites de luar sedoso se dança o batuque para espantar espíritos maus que trazem a doença irremediável. E, acordando, repentinamente, o silêncio sepultado no inexplicável da noite, o piar taciturno do milhafre anuncia a chegada da toutinegra, murrambé, marrié, namurire e de mais passarada nocturna que toma conta das horas mortas.

Enquanto os homens dormem no seu descanso merecido, eu sonho, velando, com uma terra onde o amor seja sincero. Onde o homem seja respeitado no corpo e na alma. Onde os ruídos de guerra sejam o esvoaçar de aves por entre palmeiras; sejam risos de crianças sem fome; sejam os toques dos sinos, entoando as avé-marias, ao entardecer, na minha aldeia. Uma terra onde os homens caminhem de mãos dadas; se sentem a uma mesa e falem e raciocinem e resolvam na paz, no amor, na justiça feita verdade, não percam tempo nem dinheiro nem brinquem com os povos; se lembrem que a RAZÃO é a única força da vida, que nela assenta a formação do mundo e do homem; que negá-la é negar a existência daquilo que somos e em que vivemos, é aprovar o sofisma. Podem-se fazer milhares de acordos selados pelo dobro das assinaturas, mas se não forem acordados e selados pela RAZÃO, todos eles serão negativos e ofensivos, apenas farão procriar ódios e vinganças, revoltas e perseguições, guerras e mortes, apressando o mundo para o seu fim mais injusto e cruel: a sua destruição.

- Então, pá, alguma novidade?
- Nada.

Porque será que os homens precisam de olhar pela sua segurança? No mundo que sonho não seria necessário: os homens dormiriam de portas abertas, falariam com os corações abertos, competiriam para a vitória de todos, trariam sempre nos olhos a imagem dum Cristo Histórico extenuado na cruz.

E no meu adormecer lento e tardio, o feixe prateado dum luar poético traz-me a esperança desse mundo, no seu manto límpido, optativo duma realização futura.

Não Matem A Esperança - Capítulo XVI
A noite estava a nascer da barriga do dia. Eram cinco horas de Land-Rover. O calor apertava ainda, criando riachos de suor no corpo. Dois furos, quase seguidos, arreliaram a nossa paciência e a do «monhé» que atrasou a sua viagem para nos ajudar. Os solavancos, provocados por buracos-surpresa na picada, faziam-nos dar saltos de marsupial. Devíamos chegar ao acampamento antes da lua. Lá, arranjaríamos um «pisteiro». Um javali, perdido, obrigou-nos a outra paragem. Saltei. Levei a arma à cara. Apontei. Olhou para mim. Emocionei-me... Deu meia volta e partiu à desfilada...

- Então não atiraste?!
- O tipo não estava quieto...

Partimos de novo aos saltos. Pus-me de pé. Ofereci-me à brisa do entardecer, deixando que ela me chicoteasse a face, revolvesse os cabelos, refrescasse o corpo. Acalmei. («Bolas, falhar um javali!...»). De quando em vez, um negro desmontava da sua «ginga» e cumprimentava cheio de salamaleques, uma saudação demasiado espectacular, não sincera, consequência duma tradição imposta, nem sempre pelos métodos mais próprios.

- Cautela! Agarrem-se!

Finquei-me bem de pés e mãos e o pontão foi passado não sem novidade: uma garrafa-termos, que levava cerveja, partiu-se.

- E agora?...
- Não se bebe...

Um bando de macacos atravessou a estrada, lançando à nossa passagem guinchos estridentes. Olhei para trás e vi alguns empoleirarem-se nos braços duma mangueira.

Chegámos ao acampamento.

Falámos e bebemos cerveja gelada com um caçador profissional: atarracado, mas entroncado de rijos músculos, tez morena, abundante calvície, falares e modos desembaraçados. Ama o mato. Enfiou-se nele novo. Construiu casa de alvenaria, casou com uma mulata, aprendeu a matar caça e a vendê-la, ninguém o chateia, vive para os filhos, os negros respeitam-no, nuca teve «milandos». Detesta as cidades. Adora a simplicidade do viver na selva. Emprestou-nos um pneu sobresselente, agradecemos o acolhimento e partimos. Sem «pisteiro» porém. Não apareceu nenhum.

A noite germinava. Como uma flor se abrindo. Como um ser humano sem maldade e sem estupidez. Com ela todo o seu fantástico festival de sinfonias dos bichos-habitantes dum mundo misterioso, dos uivos distantes da quizumba, de estrelas avulsas crivadas num céu de imensidão que impressionava e subjugava. Como era bela aquela noite no mato! Quem me dera ser poeta autêntico para transmitir a beleza, a ânsia, a alegria, a tristeza por mim sentidas nessa noite tão metafísica da minha recordação! Apetecia me ter asas e voar por aquela escuridão imensa. Rebolar-me no capim já cacimbado, reunir os bichos todos daquela noite e, juntos, entoarmos uma poesia-mensagem feita de paz e amor que ecoasse por todos os cantos da terra! («Lírico» - dirá o leitor. «Não!» - brado.).

O condutor bateu com a mão na porta.

- Que é?
- Leopardo!
- Onde?!
- Ali!

Dois olhos amarelos e brilhantes estavam hipnotizados pelos faróis. Tiraram-me a arma das mãos. Não me mexi. Um chorar cortante. De esfrangalhar os nervos. Um calafrio terrível, gelado, a, percorrer-me a espinha. Os pêlos, como agulhas, em pé. Senti-me mal disposto, sem forças. O tiro falhara e fiquei satisfeito que assim tivesse sucedido.

Virámos à esquerda, deixando a picada principal. A princípio, o capim era escravo de grossas mangueiras e cajueiros. O trilho largo, aberto pelo primeiro carro que lá entrara e consolidado pelos seguintes, seguia por entre mato denso que roçava o Land-Rover; alguns ramos, mais inclinados, obrigavam-nos a baixar a cabeça; os solavancos eram maiores. Algumas queimadas dispersas ardiam sonolentas, empestando o ar dum cheiro acre e abafado. A lua, com o seu D mentiroso, chamava as estrelas.

- E se parássemos para comer qualquer coisa?...
- Mais logo...

Ligou-se o farolim à bateria e os faróis apagaram-se.

- Agora nada de atirar ao calha!...

Procurei, assim como os outros, posição certa e começámos a seguir o jacto do holofote. O mato espesso, entrecortado por algumas clareiras queimadas, não dava grandes esperanças. Ansiávamos a planície. («Lá a caça é maningue!»). O bater cavo duma mão no tecto do tejadilho. A viatura parou. Cegos pela luz dois olhos reluzentes.

- Atira tu...

O tiro partiu, seco como uma chicotada e a lonjura trouxe-nos o eco. Grunhidos diferentes, aqueles grunhidos duma fera ferida, disseram que a bala acertara. Saltei e embrenhei-me na vegetação, guiado pelo foco. Perdi-me em procuras, seguindo os movimentos daquele. Regressei desolado...

- O «tipo» rastejou. Não pode ir longe.

Alguns milhanos apareceram e, como um comboio saindo de um túnel, entrámos na planície. Esmagadora! O céu formava um arco de horizonte a horizonte, ligando-os. A lua e as estrelas pareciam maiores. O capim rasteiro dava-nos liberdade de visão. Senti-me pequenino. Olhava para o alto, girava os olhos à volta, e tinha a sensação de ser submetido por algo que não via.

- Pára!

Mais uns olhos obliterados. («Não posso falhar!»). E não falhei. O chango dava às patas em aflitos estremeções. Os seus olhos tristes e nevoentos traziam-me um sinal de morte. Tentou erguer-se, numa manifestação última de vida, e tombou. O seu ventre, ainda a latejar, só deixou de parar quando o seu corpo retezou finalmente. Içaram-no para a caixa de carga. Acendemos uma fogueira que nos daria a direcção conveniente se nos perdêssemos naquela vastidão. Puxei dum cigarro. Uma travagem brusca e aí vou eu, de cabeça, direito às pernas do homem que ia a farolar. Quando me levantei já o tiro fora. Outro chango. Mais dois olhos de morte a acompanharem-me. O cacimbo gelava-me o corpo, penetrando-me os ossos. Vesti uma camisola grossa, mas, mesmo assim, não aqueci. Voltei a sentar-me e a contemplar aqueles olhos muito abertos, como se quisessem perguntar qualquer coisa, olhos que nenhum mau feitiço lançaram a quem os matou. Comecei a chatear-me daquilo. Pensei que fora um homem que matara sem razão, sem verdade, nem sequer com honra, nem igualdade de situações: farol para ali, olhos fixos e mata! Há alguma ombridade?! Entreguei a arma e preparei-me para adormecer, encostado aos corpos mortos de dois seres roubados à selva.

Não Matem A Esperança - Capítulo XVII
O avião chegara ao fim da tarde e trouxera o correio. Teve uma carta da mãe. Falava-lhe da sua casa, da sua terra, de saudade e tinha palavras de incitamento suave e maternal à paciência e esperança humanas. Uma frase, porém, lhe ficara e se agitava dentro de si: «Meu filho tenho esperanças em ti. Ainda és novo e hás-de ser alguém.». Aí estava. Sim, ele queria ser ALGUÉM válido que as gentes vissem que merecia a pena ser meditado. Desejava-o muito. Queimava-o um fogo quente e acariciador, provocando-lhe o nervosismo dos insatisfeitos. Um fogo que o enlouquecia de ânsia de concretização. Não era vaidade nem ambição exageradas. Era um desejo humano de se realizar, consciencializar, e mostrar aos cretinos algo que os tornasse mais imbecis e aos racionais oferecer uma ajuda para a sua luta contra os portadores de fantasmas.

Lá fora, o sossego era violentado pelo coaxar dos batráquios no atoleiro, pelo pipio das aves vadias da noite, pelos «uis» agoirentos, soando ao longe, das hienas manhosas, e que tinham qualquer coisa de sicário. As estrelas, na altura, estavam privadas de lua. De quando em vez, uma mudava de sítio numa correria maluca até se perder sem que mais a nossa vista a alcançasse. O gravador falava baixinho (o botão de som estava no 2) as músicas da sua preferência. A bobina rolava lenta. «Abriu» José Gomes Ferreira:

Há anos de raiva
Que te busco em vão
Melodia!

A sua melodia era a esperança. Esperança de encontrar nas horas do amanhã a efectivação de todos os seus ideais, repletos de mensagens gritantes de revolta e nojo pelos homens que se assassinam mútuamente; de mensagens triunfantes de amor e alegria para com os povos que vivendo na liberdade, lutando com as armas da inteligência, da razão, do suor e da vontade indómita de vencer pelo trabalho honrado, esgadanhando a terra desértica e escaldante com as suas próprias mãos, plantaram as árvores que deram os frutos das belas realidades sociais.

Mas quem te ouve, Melodia,
Para além do contorno do silêncio?

Não seria apenas no limite do silêncio que a sua voz se escutaria. Havia de gritar, mais alto que o trovão, a sua raiva contra os homens estultos, dominados pelas algemas da estupidez.

Pobre voz que trago em mim
E há-de morrer ignorada
Nas trevas dum sol profundo
Sem luas de superfície

A sua voz seria para os que a quisessem ouvir. Havia de nascer no fulgor duma aurora de liberdade, misturar-se com o chilrear das aves bem dispostas da manhã, penetrar nos corações das gentes, prolongando-se pelas noites de lua cheia ou lua nova ou quarto crescente ou quarto minguante (todas as noites de todas as luas). A sua voz não morreria ignorada pelas pessoas honestas.

O vento divulgava-se pela rede antimosquiteira da janela, como se viesse fazer coro com a música, com a poesia, com os seus pensamentos. O relógio duma Igreja tropical repetiu doze vezes o mesmo som. O seu colega de quarto entrou.

- Então pá?
- Então o quê?
- Nada de novo?
- Novo? Mas isto é sempre a mesma porcaria?

Ele sorriu significativamente. Puxou dum cigarro e leu mais uma vez: «(...) Ainda és muito novo e hás-de ser alguém.».

Fechou-se a luz e. olhando a ponta do cigarro, repetia só para si: «ALGUÉM... ALGUém... Alguém... Alguém... alguém...».
- Manuel Coutinho Nogueira Borges

12/26/09

Parque Nacional da Gorongoza - A chacina dos animais !

A situação alcançou níveis descritos pelas autoridades administrativas do parque como sendo bastante alarmantes, informa neste sábado (26) o jornal Notícias.

Maputo - A explosão da população animal no Parque Nacional da Gorongosa (PNG), na província de Sofala, em Moçambique, está a ser manchada pela caça furtiva praticada em grande escala pela comunidade que vive dentro e fora desta reserva do Estado, com recurso a laços, armas de fogo de fabrico caseiro e armadilhas à venda nos estabelecimentos comerciais.

A situação alcançou níveis descritos pelas autoridades administrativas do parque como sendo bastante alarmantes, informa neste sábado (26) o jornal Notícias.

O Parque ocupa uma área de aproximadamente 3770 quilómetros quadrados, com um universo de cinco mil pessoas vivendo no interior do parque e outras 120 mil na zona-tampão, exactamente nos distritos de Cheringoma, Muanza, Nhamatanda e Gorongosa, cuja principal fonte de rendimento está directamente ligada à prática da actividade clandestina.

Segundo Mateus Muthemba, Director de Relações Comunitárias daquela área de conservação, trata-se de um problema complexo e antigo, que se relaciona com factores sócio-culturais e históricos de difícil solução considerando que o mesmo remonta dos primórdios da criação do parque, na década de 60.

As estatísticas indicam que pelo menos 3 500 animais são abatidos todos os anos, como porcos selvagens, vulgo fucoceros, changos e pivas, cuja carne é transportada à cabeça e em bicicletas para consumo e venda.

A caça furtiva é praticada em grande escala entre Setembro e Dezembro nas regiões de Gorongosa, Pedreira e Massapassua, no distrito de Muanza, Dingue-Dingue, em Nhamatanda.
- África 21 Digital, 26/12/2009.

12/24/09

Feliz NATAL !


Cada um de nós faz parte desse Milagre, dessa Maravilha que é o nosso Planeta.
Cada um de nós tem um compromisso muito importante e significativo com a VIDA.
 FELIZ NATAL e UM ANO NOVO ABENÇOADO!

12/23/09

O DESAFIO - Allman Ndyoko

Tinham caminhado toda manhã no meio da mata fechada e debaixo do céu sinistro coberto de nuvens enormes, pesadas e escuras sem que trocassem palavra alguma. Levando as costas o filho mórbido, a casa toda mudada a cabeça num volumoso atado de pano, Achepe marchava em frente do Nkule, seu marido, num passo nervoso e sem ocultar a sombra de aflição e tristeza que lhes perspassavam pela fisionomia. O filho menor estava doente há dias. Não comia e nem falava e o infurtúnio sucedera subitamente quando brincava na companhia de amigos no terreiro da casa do tio materno. Várias tentativas haviam sido accionadas para devolver a saúde ao menor, mas todas mostraram-se infrutíferas restando agora, como último recurso, a consulta do wihiyango mais afamado da região para desvendar o mistério ocultado por detrás da doença.

Caminhando em silêncio e com a mente mergulhada em profundas meditações, Nkule ia tentando advinhar o mistério que rodeava a doença do filho e o provável autor. De quando em vez, maldizia a tradição que lhe obrigara a viver na aldeia dos pais da esposa até nascer o primeiro filho, pois, na sua óptica o infurtúnio que se alojara no filho sobrevinha indubitavelmente da acção de um feiticeiro da família da mulher. Enquanto ordenava o juizo deste modo, Nkule aguardava com ansiedade a chegada à aldeia Mwanga, que ficava a norte de Miteda, onde esperava confirmar às suas deduções.

Entretanto, o casal prosseguiu a caminhada tortuosa no caminho apertado e ladeado de arbustos e capim alto. O silêncio entre eles era tumular e a aflição pelo filho era-lhes maior. Porém, à medida que avançava a passos largos em direcção ao destino ia se ouvindo, em forma de eco, nas proximidades do caminho, o sistemático e repetido «coc, coc, coc, coc,...» do batimento dos pés descalços no chão castanho e rico de humo, que era característica principal do planalto makonde em todas suas extensões. Já a meio caminho do destino, dois perdizes passaram próximo deles voando de forma razante e fazendo-lhes sentir no rosto o ar deslocado pelas asas. Nkule assustou-se, tossiu uma vez e riu exibindo a sua dentadura branca, cor de marfim, afiada com mestria conforme as velhas tradições. O sucedido lhe causara uma impressão dramática a ponto de fazê-lo esquecer temporariamente o drama que vivia. Olhou atrás sorrindo, meneou a cabeça e quando volveu o olhar, passou a costa da mão no rosto e sentiu os sulcos das tatuagens marcadas indelevelmente na pele. Roçou-as levemente, sem dar em conta, e no fim, comentou:

- Aquelas aves são demasiadamente atrevidas. Contudo, espero que não estejam a anunciar um mau augúrio.

Achepe não pronunciou palavra alguma e limitou-se a marchar serpenteando o corpo e fazendo tocar ao de leve no capim seco os vestes que trazia.

De repente, um vento forte agitou o capim e torceu as árvores, fustigando-as furiosamente e ameaçando derrubar a trouxa que Achepe carregava no alto da cabeça. A mulher fez um movimento brusco para atrás e afrente e, tentando equilibrar a trouxa, prosseguiu a marcha sob o olhar atento e vigilante de Nkule que lhe seguia acompanhando-a os passos.

- Pelo visto, vai chover. – Afirmou Achepe, finalmente, passados escassos momentos após a acção fustigante do vento.
- Certamente. Por isso, temos que apressar para que achuva não molhe-nos demasiadamente.

Manteram-se calados novamente e continuaram a andar cada vez mais rápido. Passado algum momento, uma claridade ofuscante e violenta brilhou instensamente, o céu bramiu e dentro das nuvens estrondeou brutalmente. Num instante, o casal viu-se alucinado visualmente pelo relâmpago e ensurdecido pelos ribombares dos trovões. De súbito, a chuva despenhou em catadupa encharcando o casal dos pés à cabeça e obrigando-o a refugiar-se debaixo de uma frondosa mangueira que se achava ao lado do caminho que seguia em direcção a aldeia.

Quando a chuva abrandou, o jovem casal retomou a marcha já sentido nas entranhas da medula o ar frígido do planalto. Volvido alguns instantes, a chuva parou e começou a ouvir-se de longe vozes de gente trazidas pelo vento. Nisto, acelerou o passo procurando alcançar as vozes o mais breve possível. Cruzaram-se com alguns aldeões vindos das machambas e poucos metros depois alcançaram o limiar da aldeia. A aldeia era excepcionalmente grande e bela, conhecida e admirada pelo esplendor invulgar que revestiam as festas tradicionais e sobretudo pelo excepcional prestígio de que gozava o chefe da aldeia e o wihyango Nkapalule. Curiosamente, o chefe da aldeia chamava-se Mwanga e era demasiadamente idoso; Tinha uma estatura baixa e era considerado uma personalidade invulgar, pensador original e filosófico. O seu prestígio e seus feitos heróicos haviam se espalhado por todo o planalto e não havia linhagem makonde alguma que não conhecesse alguma das suas proezas.

No entanto, o casal aproximou-se a uma palhota, onde uma mulher grávida peneirava o milho sentada debaixo do beiral. Nkule pediu licença e depois de autorizado cumprimentou a mulher grávida e no fim, quis saber onde vivia o wihyango Nkapalule. A mulher indicou com o dedo uma palhota que se achava em frente da chitala. Nkule agradeceu cordialmente e retomou a marcha, juntamente com a sua esposa, dirigindo-se às palhotas próximas a chitala sob olhar devorador dos aldeões que lhes apreciava como se estivessem em exposição. Enquanto caminhavam, Achepe ia apreciando as belas palhotas da aldeia e sua gente mansa e alegre.

À semelhança da disposição das palhotas da maioria das aldeias makondes, a estrutura arquitetónica da aldeia Mwanga não fugia a regra. A aldeia era de forma circular e as palhotas que se encontram na primeira fila à volta do terreiro central eram habitadas por um homem ou uma mulher da mesma likola a que pertencia o chefe da aldeia. No terreiro central emergiam árvores de fruto e no centro se encontrava a chitala, casa de reunião dos homens. Na chitala os homens passavam o seu tempo livre esculpindo, conversando e tomando a mesma refeição, enquanto as mulheres passavam parte do seu tempo trabalhando no terreiro junto das suas habitações e comendo juntamente com as vizinhas à sombra da árvore ou do beiral da palhota ou dentro dela no tempo de chuva.

Nisto, ao chegarem na casa do wihyango Nkapalule foram recebidos por duas mulheres idosas que trataram de receber a trouxa que Achepe trazia à cabeça e lhes servir igoli no beiral da palhota para se acomodar. Nkule pediu água para beber e quando uma das mulheres que lhes recebera afastou-se em busca da água, Achepe despredeu nas costas o filho mórbido e deitou-o no leito do igoli cobrindo-lhe uma capulana com delicadeza. Quando a mulher trouxe água fresca numa cabaça e entregou ao Nkule, a outra entrou na segunda palhota que assomava no quintal para lhes anunciar.

Gerou-se, no entanto, um momento de extrema espectativa durante o qual o casal esteve atento à movimentação das mulheres que por coincidência eram esposas do famoso Nkapalule. Pouco tempo depois, saiu da palhota principal e maior uma figura humana cheia de rugas, esquelética, velha, de boca sem dentes e chupada. O homem era magro, por natureza, a ponto de parecer não ter carne sobre os ossos. Atravessou o terreiro da casa andando lentamente e curvado, e, dirigiu-se ao encontro dos visitantes.

- É ele? – Inquiriu Achepe, com os olhos esbugalhados de pasmo e pavor.
- É... Mas não te incomodes ele é apenas velho. – Respondeu Nkule com toda serenidade que lhe foi possivel. Contudo, ele também estava embaraçado, mas fez um esforço para não o demostrar.

De costas curvadas o ancião passou lentamente em frente deles e entrou na terceira palhota. A esposa mais velha do ancião convidou os visitantes a entrar na palhota, onde se encontrava o marido. Quando os visitantes se acomodaram numa esteira de palha do lado oposto do wihyango, Nkapalule, disse:

- Sei tudo o que levou-vos a me procurar e tudo o que se passou convosco pelo caminho. Não me perguntem porquê, pois, essa é a minha virtude.

Nkule espantou-se pelas declarações e, por fim, fixou o olhar no rosto do velho. Apesar da pequena escuridão que se desenhava no interior da palhota, naquele momento descobriu que nas órbitas profundas do Nkapalule os olhos eram extraordinariamente vivos e atentos e a sua face estava profundamente tatuada de dinembo que lhe emprestavam a elegáncia e perpetuavam a sedução e o orgulho de ser makonde. Porém, manteve-se atento às palavras do ancião.

- Vocês querem saber o que se passa com o vosso filho. – Prosseguiu Nkapalule. – E querem saber quem provocou esta desgraça.
- Sim. – Apressou-se Nkule a responder com convicção.
- Muito bem! – O velho arregalou os olhos e com ar misterioso, continuou: - Vamos rogar que os espiritos dos antepassados conceda-nos permissão para que o vosso desejo seja realizado.
- Assim seja. – Anuiu Nkule visivelmente curioso.

Nkapalule despejou na esteira ossadas de diferentes animais bravios, pegou numa faca e começou a cantar a pleno pulmões olhando para os ossos. Enquanto cantava, as suas esposas entraram na palhota respondendo em coro com uma aperfeiçoada concordância e comoção, e, por fim, sentaram-se ao seu lado prosseguindo com o coro. De repente, os olhos do wihyango mudaram de expressão, os lábios tremeram e a voz mudou de tom. Agitou a faca freneticamente durante alguns instantes e, a dado momento, manteve-se sereno a escutar a voz do coração. Nesse instante o cântico parou e fez-se um silêncio quase absoluto. Depois, suspirou profundamente, inalou um punhado de rapé meneando a cabeça, aspirou três vezes consecutivas e apontando a figura da Achepe, disse:

- O seu tio materno é o causador desta moléstia. Ele pretende matar o seu filho para lhe servir na machamba em forma de lindandocha. Voltem a casa o mais breve possível e digam a ele que eu lhe apontei como o causador do mal que se manisfesta nesta criança. Se ele sentir-se afrontado, lesado e difamado, sem justa causa, poderá queixar-me em qualquer aldeia e se provar que eu sou culpado, digo-vos do alto da minha dignidade que, deixarei de ser wihyango. Porém, se as minhas palavras forem verdadeiras verão que ele não se insurgirá e limitar-se-á a fazer uma coisa, que agora não vos digo, que restituirá a saúde ao vosso filho.

- Mas tem a certeza mesmo que o autor desta moléstia é o meu tio? – Inquiriu Achepe incrédula.
- Tenho, pois, o que digo não vem de mim... tudo é divino.
– É que não pode ser!
- Mas é... – Respondeu Nkule visivelmente revoltado.

Achepe baixou a cabeça, esfregou as vistas com a ponta da campulana que trazia enrolada ao corpo e, logo, as lágrimas não tardaram a salatarem-lhe dos olhos. Indignada pela revelação estrondosa e inesperada, Achepe, começou a chorar profundamente deixando escorrer, pelas faces negras e tatuadas, lágrimas copiosas.

No fim de algum momento, Achepe acalmou-se; Limpou-se as lágriamas com as palmas da mão e soluçando pós o filho nas costas. Nkule pagou a consulta com um um balde menor de amendoim que tirou da trouxa que a mulher carregava e abandonaram a palhota de regresso a casa. Quando atravessaram o limiar da aldeia e se embrenharam pela floresta adentro através de um carreiro que lhes foi indicado por uma das esposas do Nkapalule, as sombras da noite invadiam a floresta e as aldeias makondes, e, de longe ouvia-se o rufar dos batuques que vinha de algures distante trazido pelo vento. No alto do céu, os morcegos e outras aves de rapina iniciavam o seu voo habitual saindo de maneira espectacular das cavernas e dos troncos seco de árvores frondosas e seculares.

Ao chegarem a aldeia, dirigiram-se a casa do tio da Achepe, onde curiosamente esperava-lhes sentado à porta da sua palhota.

- Não digam nada! – Apressou-se o tio a dizer, assim que Nkule pediu licença. Depois, prosseguiu. – A ganância e o egoismo levaram-me a molestar o vosso filho de forma abominável. Sei que não mereço perdão, mas ao menos permitam-me restituir a saúde ao vosso filho.

Parado diante a entrada da palhota, Nkule, ouvia o discurso fervendo de ódio. Naquele momento o homem quis desferir um golpe, mas a sua consciência falou mais alto e, nisto, limitou-se a olhar a figura do tio abanando a cabeça desaprovadamente.

No entanto, reinou entre eles um silêncio de magoar os ouvidos, durante o qual Achepe aproveitou tirar da cabeça a trouxa que trazia e entregar o filho mórbido ao tio. Ao recebê-lo encaminhou para o interior da palhota, onde deitou na esteira e saiu para a outra palhota que se encontrava no mesmo terreno. Nkule e Achepe assistiam com interesse a movimentação do molestante vigiando-lhe todos seus movimentos. Pouco depois, o molestante voltou com uma cabaça cheia de água, parou no limiar da porta da palhota, onde se encontrava o doente e começou a confessar o crime proclamando, de seguida, que a doença não prossiga. Ao terminar a proclamação, que foi feita em voz baixa para que os vizinhos não ouvissem, cuspiu dentro da cabaça mormurando numa linguagem imperceptivel e lançou a água sobre os pés do doente. Feito isto, Nkule e Achepe levaram o filho a casa e no dia seguinte, incrível que pareça, o menino acordou sarado...
- Por Allman Ndyoko - 01/03/2007.

Glossário
Wihyango advinho.
Lindandocha Fantasma ou escravo mágico, isto é, entre os makondes antigos existia a prática de matar magicamente alguém e posteriormente servi-lo de escravo para trabalhar na machamba e outros locais. Para gente comum a pessoa morria de verdade, mas para o lado mágico a pessoa passava a viver, mas sem o contacto nem o conhecimento dos progenitores se o autor da morte não forem eles.
Igoli Cama de base feita de estacas de árvores e o leito tecido de uma corda de palha trançada.
Chitala Alpendre erguido no terreiro da aldeia e funciona como local de convivio dos homens.
LikolaLinhagem.

12/22/09

Deputados da RENAMO não vão tomar posse, afirma Afonso Dhlakama


Os deputados da RENAMO, maior partido da oposição, não vão tomar posse no novo Parlamento, garante o presidente do partido, Afonso Dhlakama.

Numa longa entrevista ao canal televisivo moçambicano STV, Afonso Dhlakama disse que os 51 deputados da RENAMO não tomarão posse, porque os resultados das eleições foram, nas suas palavras, uma fraude generalizada.

Nas eleições gerais de 28 de Outubro, a FRELIMO, partido no poder, ganhou com 75 por cento dos votos, elegendo 191 dos 250 deputados da Assembleia da República.

Armando Guebuza, presidente da FRELIMO, também ganhou as eleições presidenciais com 75 por cento dos votos.

Os resultados foram contestados pela oposição, que alegou a existência de fraudes.

Na entrevista à STV, Afonso Dhlakama foi mais longe e disse que os membros da FRELIMO meteram votos nas urnas e que houve inclusivamente fabrico de material à margem da legalidade: “A CNE (Comissão Nacional de Eleições) mandou fazer os boletins de voto na África do Sul mas a FRELIMO tinha uma gráfica à parte.”

“Fale com o Guebuza, para ele explicar como é que o partido dele conseguiu boletins de voto 10 dias antes das eleições”, disse Afonso Dhlakama, acrescentando que houve mesas com 60 eleitores de onde saíram mil votos em Armando Guebuza.

O que a FRELIMO fez, frisou, “é crime”, protegido pela polícia, sendo que o partido quer “acabar com a democracia” em Moçambique.

Dhlakama considerou normal a saída de destacados dirigentes do partido para o MDM, de Daviz Simango, porque na RENAMO pode entrar-se e sair. “Saíram porque quiseram, foram traidores. Na FRELIMO entra-se e só se sai morto”, disse.

Afonso Dhlakama garantiu também que irá organizar manifestações pacíficas em todo o país, embora diga que “a FRELIMO está preparada para matar”.

“Mas a RENAMO vai responder com muita força, somos mais fortes do que meia dúzia de comunistas da FRELIMO”, afirmou, acrescentando: “O país não é Guebuza, ou a mulher dele, ou os primos dele. O país são as 11 províncias.”

O que Afonso Dhlakama propõe é um Governo de transição, para “reorganizar Moçambique para todos e não para meia dúzia de guerrilheiros da FRELIMO”, separando as instituições do Estado do partido, e pedir à ONU que supervisione “as primeiras eleições democráticas” do país.

“Não perdi quatro vezes, fui roubado quatro vezes”, disse a propósito de anteriores derrotas eleitorais, acusando de seguida a FRELIMO de ter também beneficiado o novo partido de Daviz Simango, o autarca da Beira, antigo dirigente da RENAMO.

“Daviz Simango é um miúdo, um pára-quedista”, que “fez falcatruas” na câmara da Beira no primeiro mandato. “Daviz apanhou oito deputados porque a FRELIMO queria que Daviz fosse o líder da oposição. Os oito deputados foram fabricados pela FRELIMO”, afirmou.

Afonso Dhlakama explicou ainda que vive em Nampula para estar mais perto “da maioria que vota RENAMO”.
- 22/12/2009-11.57H-Destak/Lusa destak@destak.pt

12/18/09

Corrupção em Moçambique: Amar uma pátria de ladrões é difícil

Maputo (Canalmoz) - Rouba-se nos comboios, rouba-se nas estradas, rouba-se nas casas, rouba-se nos escritórios, rouba-se no Aparelho de Estado, nas empresas públicas e privadas, os policias roubam, os enfermeiros roubam, os professores roubam, os trabalhadores domésticos roubam, os funcionários aeronáuticos roubam, os alfandegários roubam, roubam-se as mulheres dos outros, roubam-se os homens das outras, rouba-se nas ONG’s nacionais e internacionais, rouba-se nas organizações da sociedade civil, rouba-se nos preços dos produtos, rouba-se em todo o lado. Uma pouca vergonha! Mas será que somos um país de ladrões? Será que todos nós somos ladrões? Será que ser moçambicano agora é sinónimo de ladrão? São tantos, tantos, tantos mesmos os casos de roubos que já começamos a pensar que esta nossa chamada “Pátria Amada” está a ficar rapidamente uma “Pátria Tramada”.

Será que ainda se pode amar uma pátria de ladrões?

Esta gente toda que hoje vive da rapina, com quem aprendeu, esta pouca vergonha?

Alguém pode ter orgulho de chamar “Pátria Amada” a uma “Pátria de Ladrões”?

Será que com este vírus as nossas crianças alguma vez irão sentir orgulho desta sua Pátria.

Seguramente não somos o único País do Mundo onde se rouba, mas nós aqui nunca vimos roubar-se assim. É sempre demais, mas agora está mais do que demais.

Quem começou com a impunidade? Quem destruiu e politizou as instituições que deviam combater o roubo?

Quem criou a cultura do enriquecimento rápido?

Quem fechou os olhos ao enriquecimento ilícito? Até agora alguém se lembrou de fazer uma Lei contra o Enriquecimento Ilícito? Não é preciso? Porquê? Quem beneficia com isto tudo, será o pobre camponês de Inharrime, o pobre camponês de Nicoadala, ou será aquele que diz: a”A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz”?

Quem fechou os olhos aos roubos ao Banco Comercial de Moçambique, ao Banco Popular de Desenvolvimento, ao Banco Austral? Quem beneficiou do dinheiro desviado?

Quem trouxe os maus exemplos?

Foi Samora? – “Nãããooooo”…

Foi Chissano? (silêncio)

O que é que Guebuza está a fazer?

E Dhlakama, já terá pensado em fazer uma grande manifestação contra isto tudo? Será que o chamado líder da “oposição” só vê roubos de votos? Não vê toda a roubalheira que vai por aí entre duas eleições? Não vê que roubar votos é um mal menor quando por todos os lados reina a impunidade contra os ladrões?

E o MDM, está calado? Não tem nada a dizer sobre esta roubalheira toda? Ainda não tomaram posse os senhores deputados? Será por isso que estão calados? Ou será que estão já a preparar-se para seguirem na pegada de Dhlakama e o seu jeito nato para ser opositor silencioso que só aparece durante as campanhas eleitorais? Ou será que o MDM vai apostar antes na estratégia da dita “oposição construtiva” do senhor Yacub Sibinde para que os ladrões continuem bem acomodados e impunes?

O MDM está ainda calado para dar a última “chance” de “festas felizes” aos ladrões?

Em fora privados temos ouvido, de futuros deputados do movimento surpreendente e saudavelmente crescente, liderado por Daviz Simango, algumas ideias geniais para que os “figurões” dos roubos de “colarinho branco” sejam devidamente desmascarados, por forma a que o que se tornou quase cultura, desapareça dos nossos hábitos e Moçambique volte a ser um País tido como terra de gente séria e capaz, e de novo aglutine o nosso orgulho de termos uma pátria que realmente se possa amar. Veremos se o silêncio continua.

Os “Samorianos”, de que lado estão neste combate? Estão calados? Agora estão ricos? Ainda bem que estão ricos, mas não terá chegado a hora de começarem agora, pelo menos agora, a lutarem de novo pela moralização de costumes? O que querem deixar como legado às futuras gerações: os melhores métodos de roubar, ou valores morais de integridade, honestidade e trabalho árduo?

Onde anda Jorge Rebelo, o tal “poeta” que um dia escreveu que “não basta que seja pura e justa a nossa causa, é preciso que a pureza e a justeza existam dentro de nós”? A altura do prédio da Domus, o famoso “33 andares”, não é suficiente para ver a roubalheira à nossa volta? Era este o Homem Novo com que sonhou? É este Homem Novo que nos deixa como legado?

Aih!..Aih!... se nós soubéssemos que vocês eram assim!?... Teríamos tido, na mesma, Pátria, mas não uma Pátria de gatunos como esta por quem “os sinos dobram”.

E a “Mamã Graça”? Que Educação criou para hoje estarmos nesta desgraça? Onde foram os ensinamentos de Samora? Será que não tem gravado os seus discursos contra o roubo e acumulação rápida? E estes discursos já não servem para os “camaradas”? De que lado a Mamã quer estar?

O País está mesmo mal! Com esta gente, seguramente, não vamos longe! Só estatisticamente nos vamos salvando!...É pena! Tristeza!

Amar uma pátria de ladrões é muito difícil. Impossível.

Não se pode amar um País em que a miséria é agravada, por tantos gatunos.

Neste mar de gatunagem não há luta, contra a pobreza absoluta, que resista. “Pela boca morre o peixe!”.
- In "Canal de Moçambique" de 2009-12-17 06:33:00.

12/15/09

O MAPIKO

O mapiko foi desde sempre a figura mais importante da cultura makonde, simbolo vivo de um espirito humano usado pelos homens para dominar pelo medo, mediante bailarinos mascarados, as mulheres e os jovens ainda não iniciados nos ritos de iniciação, contribuindo não só para integrar as crianças no grupo dos adultos, como ajudando a estabelecer o equilíbrio entre o grupo dos homens e o das mulheres. O mapiko foi e continua a ser uma actividade lúdica que tem conquistado muitos adeptos e serve de pretexto ao longo dos tempos para servir de uma actividade competitiva, onde determina-se os melhores grupos cujo mérito advém no facto dos grupos pautarem pela linha da originalidade na dança e máscara. Contudo, em tempos muito recuados as actividades competitivas do mapiko originaram conflitos sangrentos entre grupos rivais desta dança que simboliza o povo makonde. As vitimas destes conflitos, na sua maioria jovens, acabavam morrendo muitas das vezes devido a gravidade dos ferimentos que eram feitos pelos batuques conhecidos por vinganga e outros viam-se salvos graças aos préstimos dos vakulaula que magicamente e usando o método de takatuka transferiam as feridas de um ponto do corpo para o outro que não representasse perigo de morte para a vítima. Este comportamento de jovens daquela época deixou marcas profundas na história do percurso do povo makonde, onde algumas linhagens, como por exemplo, vanachuluma e vamboei chegaram a cortar as suas relações sociais durante muito tempo devido a um triste e trágico episódio sucedido em tempos muito passados, conforme passo a narrar:

Era uma atarde de domingo. O dia ia ao fim e a luz do sol desaparecia pouco-a-pouco anunciando a chegada da noite. O terreiro da aldeia dos vanachuluma achava-se cheio de gente que desde ao princípio da tarde assistia a competição de mapiko. O som dos tambores, de quando em vez intercalado pelo som do lipalapanda, avivava a povoação provocando um barulho ensurdecedor, próprio de ambiente festivo.

Tinha vindo na aldeia o grupo de mapiko de jovens vamboei que depois da actuação dos anfitriões foi convidado a mostrar o que mais sabia na arte de dançar o mapiko. Rapidamente, vinganga e ntodje soaram impetuosamente irrompendo o terreiro da aldeia de forma rude e um lipiko mboei saltou para o meio da roda humana dançando com estilo e conhecimento e acompanhando com perfeição o tam-tam dos tambores. Uma salva de palma encheu o terreiro e o intusiasmo apossou-se aos espectadores criando rastos de inveja no grupo de mapiko local. Decorridos alguns minutos, os tambores calaram-se e o grupo de percussionistas começou a cantar com ímpeto cânticos antigos enquanto o lipiko se dirigia às crianças e mulheres procurando domina-las pelo medo. Pouco depois, o som dos tambores voltou a fazer-se presente pondo em delírio os espectadores que acompanhando os cânticos dos percussionistas, batiam as palmas e ululavam de contentamento pela exibição espectacular do jovem lipiko mboei.

Passado algum momento, os tambores cessaram e o lipiko recolheu-se numa palhota que se encontrava nas imediações para descansar. Os percussionistas levaram os batuques ao lume para aquecer a pele que já se achava abrandada e, nesse instante, Apediupinde, um jovem da linhagem vanachuluma e percussionista do grupo juvenil local de mapiko, atravessou o centro da roda humana e bem perto do rosto de um dos jovens mboei, que na altura aquecia chinganga ao lume, disse com desdém:

- Nós somos o melhor grupo de mapiko do planalto. – Passou a mão à cabeça e acrescentou. – Vocês não passam de um bando de mulheres que finge ser homem com todas suas propriedades somáticas e psíquicas.

O jovem de chinganga ergueu-se, olhou para o interlocutor com ar de desconsideração e continuou a aquecer o batuque sem dizer uma palavra se quer. Apediupinde girou os calcanhares e voltou a atravessar o meio da multidão dizendo maldições inúteis com a testa vincada de profundas rugas devido ao facto do público nachuluma aplaudir e simpatizar-se pelo grupo juvenil mboei.

O som dos tambores voltou a irromper novamente o terreiro acompanhado do som lipalapanda que cortou o ar, vezes sem conta, chegando a ouvir-se nas povoações vizinhas do interior da floresta. O lipiko atirou-se ao meio da roda humana e recomeçou a dançar fazendo gestos para os espectadores. Dançou durante muito tempo afastado dos espectadores e depois, aproximou-se a um pequeno aglomerado de crianças. Os petizes fastaram-se desesperadamente assustados pela máscara envergada pelo lipiko. Apediupinde aproximou-se sorrateiramente o lipiko e empurrou-o energicamente caindo de seguida nos braços do público que imediatamente repudiou a atitude. Ngole, um jovem mboei, tomou o chinganga que tocava, correu rapidamente ao encontro de Apediupinde com o olhar rude e lábio inferior apertado entre os dentes. Assim que se encontrou perto, arremessou o chinganga cantra Apediupinde atingindo-o a testa. O público correu em debandada e num abrir e fechar de olho desenrolou-se uma luta feia entre jovens dos dois grupos de mapiko.

Nisto, Apediupinde levou a mão à testa e de súbito, um jato de sangue regou a mão ensanguentando-a total e imediatamente. A cabeça andou-lhe a roda, deu três passos incertos e no fim, tombou no chão beijando violentamente a terra castanha do terreiro. Entretanto, Ngole foi agarrado pelos jovens nachuluma e acidentalmente uma catana atravessou-lhe a nuca. O jovem caiu por terra estrebuchando e regando-a de sangue quente. Vendo o sucedido os outros vamboei fugiram a sete pés.

Durante um instante breve como relâmpago, Apediupinde foi levado a casa de nkulaula, onde foi tratado com ervas e feito atravessar o meio da rachadura da nala para fazer takatuka. Quando passou para o outro lado da árvore, a ferida desapareceu misteriosamente da testa e veio alojar-se no braço. Depois, foi conduzido a casa, onde ficou a convalescer.

No entanto, ao anoitecer aquele dia, os parentes do Ngole removeram o corpo e dias depois o nkulungwa dos vanachuluma reuniu os jovens da sua povoação no terreiro, onde repudiou a atitude vergonhosa protagonizada contra os vamboei e proibiu o uso da violência e a realização de competições juvenis de mapiko na sua povoação.
Dali em diante, jamais ocorreu um incidente similar no planalto makonde, contudo, o sucedido originou uma grande rivalidade disfarsada entre os jovens das duas linhagens que só veio a conhecer o seu término com a chegada dos portugueses.
- Allman Ndyoko, 10/03/2008.


GLOSSÁRIO
Vakulaula –
O plural de nkulaula que significa curandeiro;
Vinganga – O plural de chinganga que quer dizer batuques pequenos, achatados e meio delgados;
Nkulaula – Curandeiro;
Takatuka – Método tradicional que consiste na remoção mágica de uma ferida de um ponto do corpo para o outro que coloca em perigo a vida do paciente;
Ntodje – Batuque delgado;
Nkulungwa – Chefe da povoação;
Vamboei – Plural de mboei que significa pessoas da linhagem mboei;
Mboei – Alguém da linhagem mboei;
Vanachuluma – O plural de nachuluma que quer dizer pessoas da linhagem nachuluma;
Nachuluma – Alguém pertencente a linhagem nachuluma;
Lipiko – Dançarino de mapiko geralmente mascarado;
Mapikos – O plural de lipiko e também assim se chama a dança de máscara feita pelos makondes de Moçambique;
Ñala – Árvore através da qual o curandeiro usa para fazer curativos ao doente através do uso do método de takatuka.