12/15/10

LEMBRANDO A CIDADE DE PORTO AMÉLIA/PEMBA E A POETISA GLÓRIA DE SANT’ANA

Por Carlos Lopes Bento
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12/12/10

Faleceu D. José dos Santos Garcia, Bispo emérito de Porto Amélia/Pemba

Que dizer...
Amadurecemos, ou "endurecemos" com as "bofetadas" da vida. Mas será que estamos preparados para estas "despedidas" inevitáveis?
Quanto pensamento incerto aparece nestes momentos...
Quanto desejamos dizer quase sem nexo e muita mágoa... Que um dia todos nós nos separaremos. E sentiremos saudades das conversas, de tudo o que permutamos em vivência, em descobertas, em sonhos... e que Amigos, como D. José acalentaram sonhassemos. Que já agora, hoje, sentiremos saudades dos ensinamentos, da bondade e generosidade sem ostentações nem luxos dessa figura simples que, em um tempo já distante, apareceu em nossas vidas, num recanto inesquecível de África.
Os dias, meses, anos vão passar. Nossos filhos ou nossos netos verão aquelas fotografias, aquelas palavras escritas, aqueles exemplos de vida que guardamos e mostramos orgulhosos como "jóias preciosas" e perguntarão: Quem são? Porquê?
Alguém dirá que eram nossos Amigos. Que foram e são nossos Amigos. Que, com eles vivemos os melhores anos de nossas vidas... e porque com eles também aprendemos a viver, a tentar calcorrear o caminho do bem na vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
O poeta Vinicius de Morais diria: "Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus Amigos!"""
Não vou/vamos enlouquecer... Temos o conformismo da vivência e a fortaleza da FÉ.
D. José estará abençoando-nos e protegendo lá no Alto. Descansando de seu árduo percurso terreno, grandioso e repleto de obras.
E só nos resta agradecer por o termos como Amigo e Mestre. E por ele orar!
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Faleceu D. José dos Santos Garcia!
Bispo emérito de Porto Amélia (Pemba) Moçambique, tinha 97 anos. Missa exequial na Segunda-feira, às 15 horas, em Cucujães, Oliveira de Azeméis.
Faleceu hoje (11DEZ2010), com 97 anos de idade, D. José dos Santos Garcia, bispo emérito de Porto Amélia (Pemba), em Moçambique.

D. José Garcia nasceu na Aldeia do Souto, Covilhã, a 16-04-1913. Foi ordenado presbítero a 25.07.1938. Tendo sido nomeado bispo de Porto Amélia (Pemba), em Moçambique, foi ordenado Bispo, em Nampula, a 16.06.1957.

A Missa exequial tem lugar na Segunda-feira, dia 13, às 15 horas, na Igreja Paroquial de Cucujães, Oliveira de Azeméis, que fica ao lado do Seminário das Missões.

No passado dia 12 de Maio, o falecido bispo participou nas Vésperas com Bento XVI tento oportunidade de o saudar pessoalmente e de receber a sua bênção no fim a celebração na Igreja da Santíssima Trindade, Fátima.

D. José Garcia esteve nestes últimos dias no Seminário da Imaculada Conceição da Guarda tendo sido levado para Cucujães nas últimas horas da sua vida.

Em 2007, por ocasião das suas bodas de ouro episcopais, o prelado foi entrevistado pela Agência ECCLESIA, tendo passado em revista uma vida ao serviço da Igreja.

D. José dos Santos Garcia trabalhou, enquanto jovem padre, nos seminários de Portugal. Foi enviado, em 1955, para Moçambique, onde cheguou a 31 de Dezembro.

Na antiga colónia portuguesa foi um grande obreiro da «Missão do Mutuáli», Diocese de Nampula, onde construiu a Igreja, internatos masculino e feminino e centro de saúde.

D. José recordava-se que foi professor dos "primeiros padres nativos daquele país". E acentuou: "a «Missão de Mutuáli» foi classificada, por dois inspectores, como a mais pobre de Moçambique".

Nomeado Bispo de Porto Amélia, hoje Pemba, em 1957, promoveu uma pastoral planeada em que eram prioridades a formação do clero, dos leigos e de religiosas moçambicanas. Para isso criou os Seminários, a Escola de Professores Catequistas e a primeira congregação religiosa de Moçambique, Filhas do Coração Imaculado de Maria. "Recordo com saudade aqueles tempos" - afirmou o prelado.

Promoveu a evangelização e dotou as missões de esmerada estrutura. Sofreu com a divisão da sua diocese nos tempos da luta pela independência quando não podia visitar todos os cristãos.

Voltando a Portugal em 1974, colaborou com a Diocese da Guarda naquilo que lhe foi pedido e ele faz questão de destacar as "aulas de missionologia aos seminaristas". Veio "muito doente de África" e "ajudava naquilo que podia".

Depois dos 85 anos dedicou-se a reformar a Igreja e as capelas da sua terra natal, Aldeia do Souto e a escrever livros: «Alicerce e Construção duma Igreja Africana»; «Diário do Mutuáli»; «Evangelização de Cabo Delgado» e «Notas para a História da Paróquia de Aldeia do Souto».

Estes dois últimos foram oferecidos aos amigos no dia da festa dos 90 anos. Além de reflexões pessoais, os três primeiros são documentos para história da Igreja em Moçambique.

Em Outubro de 2006, nas celebrações do dia da cidade da Covilhã, a edilidade local concedeu-lhe a medalha de ouro da cidade. Homenagens justas ao «homem das longas barbas brancas» que deixou saudades em terras africanas.
- Luís Filipe Santos, Diocese do Porto, Missionários da Boa Nova/Agência Eclesia.

Uma nota de J. E. Carrilho sobre D. José dos Santos Garcia, Bispo Emérito de Porto Amélia/Pemba: '"Não nos podemos esquecer que ele foi o "construtor" do Colégio (de São Paulo), Seminário e do prédio mais alto de Pemba e tudo com azulejos grená/verde. Paz à sua alma!"" - 14/12/2010.

12/08/10

Glória de Sant'Anna - POEMA DE NATAL

Menino da mangedoura
não vi a estrela dos magos
mas os pastores me contaram
o teu recado

Venho do tempo da angústia
por caminhos vigiados
olhar o puro contorno
da tua face

Passei o denso limite
dos campos razos
e colhi húmidas flores
escarlates

molhadas do sangue novo
dos mortos por desagravo
à beira dos horizontes
desencontrados

Trago vestígios da lama
e largas nódoas de sal
e o eco solto na treva
de cada frase

Menino, dá-me guarida
porque te quero louvar

- Poema de GLÓRIA DE SANT'ANNA extraído da publicação "AMARANTO - Poesia 1951-1983"

Ligação a Facebook - Glória de Sant'Anna
Glória de Sant'Anna no ForEver PEMBA

12/07/10

CRISTO E A MENINA

Era o tempo dos sonhos sem limites. Os risos das pessoas pareciam sinceros. Não havia ambição, nem inveja, nem ódio; a vida não se projectava no calculismo. O medo, esse, estampava-se nos dois retratos pendurados na parede da Escola, por cima do quadro preto; estavam em Lisboa e viam tudo, feitos mando e obediência, deuses e donos intocáveis da Pátria. No fim da tabuada e da redacção, estrada fora, de sacola às costas, a algazarra reconquistava a liberdade. Só as Avé-Marias, na torre da Igreja, pediam recato, olhando os adultos que se descobriam. Nas vinhas cavava-se a terra à procura de tesouros; no céu, com chuva ou com sol, Deus vigiava o Mundo. Havia quem arrastasse as grilhetas do destino de pés descalços e roupas esfiapadas, mas Ele assim o queria...

Com a chegada do Verão guardavam-se as samarras e brincava-se até à noite. Os montes pintavam-se de alegria e o Alto de São Pedro tinha silvas para desbravar, ninhos para descobrir, fisgas para apontar a ilusões e guardadores para vigiar.

O menino crescia para ser um grande homem. Todos os meninos crescem para serem grandes homens. Quando começava a vindima, o bulício das gentes, a música das concertinas e o fartum inebriavam-lhe os sentidos e permitiam-lhe os espaços pela atenção dispersada.

Um dia, ainda a corta não acabara, disseram-lhe que tinha de ir estudar para um Colégio. O menino parou de brincar e, sem entender bem o que lhe ordenavam, disse que sim, porque nada lhe adiantaria dizer que não. Dentro ou fora das famílias obedecia-se à imagem e semelhança do Chefe que, em Lisboa, de fato e botas pretas, mandava em tudo, até no que desconhecia.

Quando o deixaram à porta, num final de domingo de princípios de Outubro, não quis entrar, agarrou-se ao carro, do lado em que estava a Mãe, e gritou tanto que mais parecia um inocente a ser metido num cárcere. Nessa noite, os grandes – como se chamavam os alunos mais antigos -, arvorados em velhacos, abriram-lhe as pernas e, como uma forquilha, humilharam-no contra o tronco de uma árvore. Chorou, gritou e cuspiu-lhes, mas em vão que a risota deles encobriu tudo.

Era um casarão de três pisos por onde se espalhavam as salas de aula, os salões de estudo, o refeitório, a Capela e os dormitórios. À volta, as vinhas, já amarelecidas, davam alguma brandura àquela secura arquitectónica. O recreio, com duas balizas nas extremidades, enchia-se de vozes nos intervalos das aulas e desgastava-se o calçado a dar pontapés numa bola. Ele ia para a balaustrada contemplar os caminhos que levavam à sua terra e o casario da cidade, lá ao fundo, esmagado entre Igrejas antigas. Uma cidade medieval, tristonha, enregelada no Inverno, as pessoas embrulhadas em roupas como cobertores, sonolenta no Verão, o calor a flagelar os telhados em que dormiam os gatos como efebos quadrúpedes. Dir-se-ia um bispado recolhido em claustros secretos, memória hagiográfica perpetuada em gerações acomodadas por lendas de reconquistas visigóticas. As mulheres rezavam nas Igrejas e os homens falavam nos Cafés de vidas sem sentido, enquanto - sombrias visões - as sotainas passavam. Cidade fingidamente austera, espreitando, libidinosamente, os joelhos das raparigas que se sentavam, aos domingos, nos bancos de azulejos com cenas de santos, longe dos becos de casas com janelas de guilhotina sombreadas por uma torre de menagem que escutara, em tempos idos, os gemidos de fadas e mouras encantadas, perdidas de amor, nas noites de luar, por cavaleiros que as possuíam nas alcáçovas do desejo.

O tempo arrastava-se na rotina das almas domesticadas. Vivia num silêncio injusto e desnecessário. Um silêncio de vestes negras deslocando-se nas penumbras dos dias ou na escuridão das noites, por entre cicios, missangas contadas por lábios gélidos, olhos sempre despertos para as curvas da mínima infracção dos meninos que não baixavam os olhos. Cá dentro, onde nasce o desconforto, corriam as lágrimas que ninguém via, uma dor a entupir a garganta, a esmagar, absurdamente, a individualidade. Distantes, como choros de saudades, os sinos davam as horas e os clarins do Quartel tocavam a recolher.

As luzes, vaga-lumes fosforescentes, desenhavam as ruas de toponímia mediévica. Num recolhimento cavo, o vento, como sopro em gargalo vazio, assustava a noite; a folhagem dava muitas voltas até o sono tomar conta dos sonhos e da respiração que os alimentava com um intenso cheiro a barrela grudado nos lençóis.

Aos domingos, os meninos não acordavam às sete mas às oito. Alegravam-se por os vincos das calças ficarem nítidos depois de uma noite debaixo do travesseiro, lavavam a cara, untavam o cabelo com brylcreem, vestiam camisa, engravatavam-se, e iam para o refeitório. Após um intervalo curto, o salão durava até à hora da Missa, solenizada com o canto gregoriano, de estômagos ansiosos pelo bife com batatas fritas. Depois, em fila, como presidiários, desciam a rampa que levava à cidade. Distribuíam-se pela avenida das Tílias com o Salão de Chá a chamar os de hábitos citadinos ou pelos cafés-quasetascas onde os rurícolas mastigavam sandes de presunto acompanhadas por canadadrys e gasosas de pirolitos. Com o relato do futebol em fundo, os viciados do bilhar exibiam os seus dotes; alguns, nas mesas ao lado, desafiavam-se para as damas e, outros, de escondido do Padre-Prefeito, iam à entrada do Cinema ver as meninas do costume para à noite, pensando nelas, se masturbarem.

Mas o passeio de que mais gostava era o de subir a escadaria do Santuário e, mais ou menos a meio, já na protecção das torres do velho Templo, ficar por ali, num terreiro amplo, a beber uma larangina C no quiosque verde, dar umas remadas nos barcos do lago ou sentar-se num banco à espera da sua menina do Colégio Feminino.

Naquele domingo de Março, as férias da Páscoa à porta, viu-a no costumado vestido-farda-azul com uma gola branca e os cabelos compridos a sensualizarem a figura. Quando os olhares se cruzaram, o coração passou-lhe para a boca e, disfarçando o nervoso, esboçou um sorriso que ela retribuiu numa reciprocidade clandestina. Como era bom aquele diálogo sem palavras, as faces ruborizadas e o sangue incendiado! Não sabia o seu nome, chegava-lhe a imagem. Era isso que importava, o satisfazia e lhe espevitava a dimensão humana. Queria gritar-lhe que a amava, que sonhava passear com ela de mãos dadas pelas ruas da cidade como os namorados adultos, beijá-la sob uma varanda ou correr atrás dela até aos confins. Mas ficava preso, tolhido na sua timidez, apavorado pela opacidade do Prefeito. Era um inibido, um cobarde que não correspondia àquele sorriso, àquela dádiva sem nada em troca.

Ainda o dia seria dia, quando uma freira sorumbática, de olhos céreos, bateu as palmas para o reagrupar do rebanho. Foram bofetadas que o acordaram daquela ponderação, um chicote a vergastá-lo, um insulto à sua paixão. O sorriso da menina desapareceu, tal se o sol morresse diante de uma traição, e o seus olhos entristeceram por um brinquedo roubado. O último olhar deixou-o com um grito entalado num remorso sofrido. Perdera mais uma oportunidade de lhe falar, dizer qualquer coisa que lhe retribuísse aquele sorriso, um gesto heróico que o elevasse diante dela, que matasse o medo das figuras sinistras que os vigiavam, esmagasse de vez o acanhamento que o asfixiava numa luta suada entre o tiritar dos lábios e o cavalgar do coração. Não demorou que outras palmas, mais ásperas e rápidas, calassem a alegria dos meninos.

Estava tudo combinado, tudo igual, as horas marcadas, a vida também. Começaram a descer, em filas desconsoladas, com os vestidos das meninas a aparecerem e a desaparecerem por entre o arvoredo.

Naquela noite, no salão de estudo, tirou da carteira os Lusíadas e colocou-os em cima da tampa. Dissimulou, à frente deles, o caderno diário para rabiscar versos em que amor rimava com dor e paixão com coração. O esguio e escuro espectro em cima do alçado de madeira, no meio da vasta sala, espiava, para um lado e para o outro, como os gatos fazem quando vêem uma ave indefesa. Na parede, em frente, um enorme Cristo pendia mudo no seu suplício. O menino, pela janela aberta, olhava a noite a anunciar os cheiros da terra, das flores e do Verão que Junho daria; a ramagem a murmurar lembranças frescas. Ao longe, num declive montanhoso, ecoou o toque de clarim numa persecução aviltante a dilacerar a quietude. Mais abaixo, no meio de palacetes brasonados de fidalguias insolventes, o Colégio da menina tinha as luzes acesas e, nas vidraças, manchas difusas moviam-se como visões. Absorto, indefeso na sua inocência, saltou da carteira com o cachaço. Olhou o rosto congestionado da vertical negritude, enquanto umas mãos macilentas, numa fúria escusada, lhe rasgavam os versos. Depois, a boca estremecida, debaixo de uns olhos congestionados, vomitou-lhe: «O menino vai para o fundo do salão e fica lá, de joelhos, até acabar o estudo!» Não entremostrou um gesto de defesa, um esgar de revolta, uma palavra, uma simples interjeição. Lívido, percebendo, em seu redor, olhares amedrontados ou escarnecidos, absurdamente calmo, levantou-se, com o livro nas mãos, e foi, sob um silêncio de gruta, para a parede fundeira. Ajoelhou, sentiu umas alfinetadas de vidro esfarolado, fez que interpretava as estrofes, ergueu os olhos para a Cruz e viu que Cristo, de cabeça pendente e resignado, lhe sorria... Quando baixou os olhos, as letras embaciaram-se sob uma bátega de lágrimas grossas. Então, virando-se para trás, apanhou o tétrico semblante de costas, cabeça curvada para o breviário, e riu-se para os colegas que não fizeram caso, encolhidos de terror. Só Cristo lhe sorria... Mal soou a campainha, levantou-se sem pressas, limpou os joelhos das calças e as olheiras de sal, fitou aquele rosto coroado de espinhos, mas, quem lá estava, era já a menina com o seu sorriso imaculado... Reencontrou esse sorriso, alguns anos depois, numa cidade de colinas separadas por um rio alcunhado de bazófias; uma Coimbra trovadoresca, de cantigas de amigo e de alba, memórias de cancioneiros, ecos de segréis, amores para uma vida ou para um instante.

Já não eram meninos, mas continuavam naturais. Percorriam o dédalo das ruelas da Alta, feitos passarinhos esquivos em busca de poisos aconchegados, capas traçadas como se albergassem segredos. Das janelas da rua da Matemática, a voz de Adriano Correia de Oliveira cantava a Trova do Vento que Passa e do Palácio da Loucura ecoava a de José Afonso com as Cantigas de Maio; era a fraternidade dos sublevados contra os chacais e os pederastas das decadências ideológicas; as pedras das ruas libertavam saudades de Menano e de Bettencourt; na Porta Férrea formavam-se trupes. Eles ouviam e viam, ansiavam derrubar a intolerância e esmagar o arbítrio, para, no seu lugar, (re)construir o amor, um amor que não se misturava na aguadilha da languidez, antes no sangue perturbado que acalenta as ideias justas. Já se morria nas bolanhas da Guiné, nos mangais Angolanos ou no planalto dos Macondes Moçambicanos. Essa realidade os magoava e essa perspectiva os consumia.

Era uma cidade de mito e de romance, de orgulho e de raiva, de tristeza mesmo triste e alegria mesmo alegre, proibido fingir, expressamente proibido concordar com a ignomínia. Davam cigarros ao Teixeira, liam o Kalinas na Brasileira, iam às sessões do Avenida, passavam pela Torre D’Anto à procura do fantasma desesperado de António Nobre e beijavam-se nos bancos do Penedo da Saudade com os poemas escritos entre as heras. Nas manhãs de aulas, nos Gerais, depois da chamada do Bedel, trocavam de lugares para ficarem juntos e juntos anotavam as dicas dos Mestres que as sebentas eram caras. Nas tardes de sol, na praça da República, discutiam a Vértice, no Mandarim ou na Clepsidra trocavam esboços de comunicados, nas Escadarias cruzavam pressas ou códigos e, na Associação, comiam por cinco crôas.

Naquela noite cearam no Aeminium, beberam um café no Internacional, arrastaram os passos pelo Parque Manuel Braga, a automotora da Lousã a sugerir despedidas de cais e o Mondego a levar para a Figueira desejos de praia. Iniciaram, pelo Arco de Almedina, a subida para os seus refúgios. No Largo da Sé Velha, sentados nos degraus onde começam todas as Queimas, conversaram sobre o futuro. Ele guardava uma guia de marcha e ela a determinação antiga, mas, o menino, já feito carne para canhão, agora, recusava-a. Combinaram que ela acabaria o curso e ele retomá-lo-ia no regresso. Então, sem mácula, só por estímulo, ela chamou-lhe cobarde. Por que não fugiam para as terras do salto? Como fizeram alguns: o Jaime e a Joana, por exemplo. Seguira-lhe as ideias e juntos haviam percorrido o caminho do desafio, mesmo ignorando o que alcançariam.

Achava-o mudado, orgulhoso do que antes criticava raivosamente. Mandara-lhe, de Mafra, fotografias com cara de mau e a arma apontada a fingir-se de combatente; até a convidara para ir ao juramento de bandeira, sabendo que ela detestava braços e mãos estendidas. Tinham-lhe lavado o cérebro, aquele cérebro que ela conhecera rebelde na doçura de uma alma terna. Podia lá ser! « Eu vou contigo para o fim do mundo, mas não vás para a guerra! Fugimos os dois! », gritou-lhe lavada em lágrimas. Ele, calado, deu-lhe um beijo como quem se desculpa. «Promete que esperas por mim...», pediu-lhe, envolto em submissão. Acariciou-lhe o cabelo cortado, ele que o usara sempre comprido, e murmurou-lhe que sim.

Esperou.

Esperou-o numa tarde de Novembro, fria e enevoada, junto da capela da casa onde ele nascera. Acompanhou a aldeia no funeral do seu menino. Enquanto uma fila de militares disparava para o céu, a urna descia para a terra. Foi, então, que ela deitou a pasta negra, com fitas vermelhas como rasgos de sangue, para cima do caixão, deu um grito que gelou, ainda mais, o cemitério, e desapareceu. Dizem, os que a viram mais de perto, que os seus olhos faiscavam de loucura.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/30/10

A MÃE DE TODOS

Alice deixou um dia a aldeia entre as montanhas durienses para servir na casa de um Senhor Doutor do Porto, levando consigo a ilusão de um sonho. Ainda foi à terra, duas ou três vezes, mostrar a roupa da cidade e os brincos que a patroa lhe oferecera. Hoje, porém, talvez já nem saiba como se toma o comboio. Enterrada a Mãe, que o Pai nem conhecera, vendida a leirita de uns almudes, fez um risco no calendário da sua recordação. Gastava as tardes domingueiras no jardim diante da casa onde fazia a comida e as camas, aspirava a alcatifa e sacudia as carpetes, limpava as pratas e entretinha adolescentes rabugentos, até achar o companheiro da sua sina. Afeiçoou-se por um mecânico e foi viver para uma casita mal alevantada dos subúrbios.

Começou cedo a criação; enquanto as marés sobem e descem, viu-se com uma ranchada de filhos. Dava umas horas como mulher-a-dias com a sogra na guarda da canalha. Passava muito tempo no hospital, nas consultas de pediatria, e dava-se, por isso, com enfermeiras e médicos com o à vontade consentido de tantas idas e vindas numa preocupação aflitiva por quem levava ao colo e pelos que deixava sob o olhar da segunda Mãe. Já nem precisava de papel ou de espera, todos lhe toleravam a prioridade, que a uma Mãe procriadora não é só o respeito a mandar, mas, também, uma admiração condoída. Vinha do fim da cidade onde a auto-estrada se estende numa fita preta que se perde, ao longe, com os carros disparados a afundarem-se nas lombas.

O rosto de Alice mostrava canseira, envelhecido antes da razão; as pregas nos olhos e nos cantos da boca traduziam embaraços e noites mal dormidas. Quase que não tinha peitos, chupados pelas bocas da inocência sem culpa de terem nascido a eito. Contudo, por cima desse espelho de privações, um sorriso bonito, muito bonito, tornava-a simpática e afável; era um daqueles sorrisos de quem logo se gosta por não enfatizar as desgraças. Acarinhava os filhos sem pieguices ou obsessões. Sempre «lavadinhos e arranjadinhos», não se escusava de, em pleno átrio, desnudar um seio mirrado para o meter na boca de um mais apressado pela hora do sustento.

Joaquim sujava-se na oficina e em biscates de fim-de-semana para sustentar a prole. Não era gastador nem seroava nos Cafés. Viciado, só no tabaco e no futebol, mas, até nestes, se moderava: fumava Definitivos e o seu clube militava numa distrital sem nome nos jornais de segunda feira. Ia sempre como um fuso para casa, sem o fastio dos casamentos arrastados. Quando a mulher se demorava, esperava sempre que a porta se abrisse. Os vizinhos da ilha não lhe ouviam um ralho ou uma descompostura e, como «casal que não se insulta não se ama», julgavam que apenas se toleravam.

Um dia, porém, as horas passavam e a Alice não chegava. Sabia-a numa consulta com «o mais novinho, de seis mesinhos». Combinou com a Mãe a continuação da vigília e meteu-se a caminho. Encontrou a Mulher na paragem do autocarro, diante do hospital, com dois bebés, um em cada braço.

- Então o autocarro não vem, é?... Estás à espera do 99 como o Samora?!... – troçou.

- Quantos já passaram!... – retorquiu a Alice.

- Espera – espantou-se -, de quem é esse bebé?!

- Foi uma senhora que me encontrou à saída e pediu-me para lhe ficar com ele.

Disse que era só tempo de ir ali, não sei onde, fazer umas compras, já lá vão mais de duas horas e não aparece. Estou preocupada...

- Oh! Mulher... Ela não volta mais! Não vês que o abandonou?!... Deixa lá!... Quem cria nove também cria dez! Vamos embora!

E lá foram, cada um com o seu filho, no autocarro apinhado, a caminho da casita mal erguida nos confins da cidade para continuarem a servir o futuro do mundo.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/27/10

A Ilha do IBO e a História: Café do Ibo ganha medalha de ouro... em 1906


UMA PÉROLA DE MOÇAMBIQUE - O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA - Por Carlos Lopes Bento(1).

Considerando o contributo e a mais valia que o saboroso e aromático café do Ibo poderá dar à divulgação do norte de Moçambique, designadamente, de Cabo Delgado e das Ilhas de Querimba, achei oportuno divulgar alguns interessantes dados, extraídos das minhas fichas de leitura e bibliográficas, relativos à sua produção e consumo, nos séculos XIX e XX.

Durante a minha estadia, em Cabo Delgado, de 1967 a 1974, e, especialmente, na ilha do Ibo, onde residi de 1969 a 1972, tive o privilégio de saborear o delicioso café do Ibo, e de o oferecer a muitas centenas de visitantes, nacionais e estrangeiros, que, então, a visitaram, sendo por todos muito apreciado.

O cafezeiro continuava, ainda, na década de 70 do século passado, a crescer ao ritmo natural, - que até se desenvolvia nos solos pedregosos de coral, existentes na parte insular do território -, merecendo poucos ou nenhuns cuidados por parte das populações do distrito, embora algumas tentativas tivessem sido feitas para alterar a situação.
Foi nesse sentido que autoridades portuguesas do Reino procuraram, nos finais do século XVIII, passar da recolecta à cultura do cafezeiro, de modo a introduzir o café no comércio com Lisboa, facto que acarretaria grandes benefícios, tanto para o Reino, como para as Colónias.

De modo a promover e a animar a plantação do café nas Ilhas de Querimba, a Provisão real de 2/3/1800, determinava que, anualmente, delas fossem remetidas 10 arrobas do melhor café, obrigando-se, para tanto, "cada morador e agricultor a plantar tantas árvores, proporcionalmente ao terreno que possuir, persuadindo-os que isto poderá a vir a ser, em pouco tempo, um ramo de comércio, muito útil aos moradores”.

Em 1803 foram enviadas, para o Palácio Real de Queluz, 3 arrobas e 18 arráteis de café das Ilhas remessas que continuariam até 1808, data em que seriam suspensas, pelas dificuldades da sua aquisição nas terras firmes.

Embora se tenham plantado algumas machambas de cafezeiros tanto na parte insular, como continental do território, os resultados, em 1810, ainda não eram visíveis, por vários motivos: a pouca idade dos cafezeiros plantados, que ainda não produziam; as incursões dos Sakalava, que perturbaram essa campanha; e pouco interesse dos agricultores por essa cultura, cujos benefícios imediatos não eram comparáveis, por exemplo, à cultura do coqueiro.

No sentido de ultrapassar todas as dificuldades, uma nova Provisão real, de 1810 recomendava todo o interesse das autoridades para incrementar a cultura do cafezeiro e outros produtos agrícolas, que pudessem constituir-se objectos de exportação e compensar-se os de importação.

As tentativas para introduzir, nas Ilhas e terras firmes, uma agricultura orientada para uma economia de mercado, redundariam em completo fracasso.

Nos meados do século XIX, o governador das Ilhas, Jerónimo Romero, presta-nos as seguintes informações sobre a produção de café:- São escassas as colheitas de café na ilha do Ibo; no Lumbo, margens do rio Cariamacoma achava-se café silvestre; nas margens do rio Lúrio encontram-se espessas matas de cafezeiros silvestres; Em Tungué, as margens do rio Meninguene são ricas em café do mato.

- Era somente na ilha do Ibo e proximidades do rio Cariamacoma que se fazia a cultura de algum café por um ou outro morador curioso, pois, os demais, não davam importância nem se dedicavam a tão útil cultura. Deste modo o cafezeiro produzia, espontaneamente, como qualquer outra planta do mato, sendo a sua apanha dificultada por eles se acharem entre matos cercados de arvoredo e pelo risco dos animais ferozes existentes nestas paragens.

- Então as maiores colheitas de café faziam-se na Ilha do Ibo (12 arrobas), em Criamacoma ou Lumbo (14 ar.), em Fragane (14 ar.), próximo da Quissanga, e em Bringano (10 ar.), a sul da ilha de Querimba.

- Os preços praticados eram, no Ibo, de 5 a 6$000 réis a arroba e o que saía para a ilha de Moçambique poderia atingir os 7$000 réis.
Em 1902, o Governador dos Territórios da Companhia do Niassa Ernesto Jardim de Vilhena dava conta que, no Ibo, anexa à propriedade urbana, nomeadamente, nos quintais os moradores plantavam os seus cafezeiros.

Três anos depois, em 31 de Julho de 1905, Governador dos mesmos Territórios, João dos Santos Pires Viegas, escreveu algumas notas sobre o café, do seu distrito, enviado para a Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), realizada, na sua sala Algarve, pela Sociedade de Geografia de Lisboa:

“O café dos Territórios da Companhia do Nyassa, geralmente conhecido por “café do Ibo”, tem qualidades de preferência muito superiores a muitas variedades das nossa colónias, mas quase sempre passa despercebido, atendendo à sua quase nula exportação, e esta devido ao nulo desenvolvimento que os filhos do Ibo e de Querimba, senhores de enormíssimos tratos de terreno no litoral, dão ao cultivo do cafezeiro.

Hoje o cafezeiro nasce, cresce, produz e morre, sem que alguém pense no amanho da terra, sem que o limpem ou cuidem renová-lo na época própria.

Não só não o cultivam, como não procuram tirar daqueles que existem e cuja maior parte espontaneamente surgiu da terra, convenientemente o seu produto.

Inteiramente verde, a formar-se ainda, o proprietário colhe-o sacudindo as árvores ou batendo os ramos com varas, seca-o, ligando pouca atenção às propriedades que ele poderia ter se a maturação se deixasse fazer e fosse completa, e isto para que o preto não o roube.

Ainda assim o café da ilha do Ibo é mais saboroso e superior em qualidade a outro qualquer dos Territórios, porque sendo fácil vigiar a propriedade, só é colhido na época própria e algum é seco e arrecadado segundo os preceitos aconselhados.

Nestas condições, em terreno próprio, entre altos coqueiros, que pouca sombra lhe dão ou entre acácias e macieiras bravas, que lhes roubam o espaço, os cafezeiros encontram-se em quase todas as circunscrições dos Território aquém do rio Lugenda.

O seu preço varia segundo as necessidades que o indígena tem de dinheiro; e assim não é difícil encontrar pretos pelas ruas do Ibo, na Quissanga e no litoral, a oferecerem-no à venda a 150 e 200 réis. O seu preço ordinário, porém, é de 300 réis o quilo, quando bem seco e limpo. O café da “Vista Alegre”, Ibo, o melhor talvez dos Territórios, tem sido vendido a 500 réis, em anos de colheita fraca.

A produção, em relação ao tratamento que o cafezeiro recebe, é grande, mas a sua aparência desagrada, pela pequenez do seu grão, comparada a outras qualidades; contudo o café é apreciado e apetecido pelo seu aroma delicioso e pelo seu sabor.

É afamado o “café do Ibo”, porém poucas pessoas o conhecem, além daquelas que têm permanecido ou passado pelos Territórios e pelo distrito de Moçambique, e ainda aquelas que no Reino têm relações nesta parte desta nossa África.

Nos Territórios da Companhia do Nyassa não tem consumo outro café.

Encontra-se café, em quantidade, não só em todo o litoral como nas margens do M´Salo, Naquidunga e Pequeue, no concelho de Mocimboa, nas encostas das serras Muare e M´chibala, serras que formam um garganta onde se acha estabelecida a sede do concelho do Medo, no Mualia.

Os Territórios da Companhia do Nyassa concorrem à exposição da Sociedade de Geografia de Lisboa com nove amostras de café:

- Quririmisi, Quiriamacoma, Olumbua, Ibo, do concelho do Ibo.
- Tandanhangue, Memba, do concelho de Quissanga.
- Naquidunga, do concelho de Mocimboa.”

Salienta ainda o dito Catálogo uma nova espécie de Café, o Coffea Ibo, de Frohner, assim caracterizado:


“ Dos cafés, além dos tipos Coffea Liberica e Coffea Arábica, especializaremos um espécie nova, o Coffea Ibo, de Frohner, apresentado pela Companhia do Nyassa, e que, pela pequenez do seu grão alongado, semelhante mais ao bago do trigo do que o do café ordinário. Cultivado com esmero, deve por certo produzir um produto que alcançará boa cotação no mercado, pelas suas qualidades aromáticas.”

Relativamente ao CAFÉ, a Companhia do Niassa foi distinguida com o Diploma de medalha de ouro.

O cafezeiro florido, de extrema beleza, também poderá, futuramente, constituir mais um factor de atracção turística a ter em consideração no desenvolvimento sócio-cultural de Cabo Delgado e de Moçambique.

Bibilografia: VASCONCELOS, Ernesto de, Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), CATÁLOGO. Lisboa, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1906, p. 104.

(1) - (colaborador do ForEver PEMBA) - Doutor em Ciências Sociais pelo ISCSP, Univ. Técnica de Lisboa. Antigo administrador colonial. Foi presidente da C. Municipal do Ibo, entre 1969 e 1972. Antropólogo e prof universitário, continua a ser um dedicado amigo das históricas Ilhas de Querimba, que continua a investigar de maneira sistemática e a divulgar as suas inquestionáveis belezas. Neste trabalho, de modo a evitar o plágio, tão usual no nosso tempo, apenas se indica um autor. Para os interessados, desde que o solicitem, poderei fornecer outros elementos bibliogáficos que lhe serviram de base.

  • Demais posts deste blogue onde se encontram trabalhos do Dr. Carlos Lopes Bento - aqui !
O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA
Uma Pérola de Moçambique
O afamado Café da Ilha do Ibo ganha medalha de Ouro em Lisboa
Por Carlos Lopes Bento 
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" http://www.youblisher.com/files/publications/12/69933/pdf.pdf)

11/22/10

PRECE

Volta Jesus Cristo!

Volta a este mundo de sacripantas,
De escárnio e mal dizer.
Volta a esta terra de vaidade,
De desamor e egoísmo,
Fria e vazia como um poço abandonado,
Repleta de Sanhedrins da corrupção
E de Zerahs gananciosos.

Volta Jesus Cristo!

Volta à medula das nossas misérias
Para curares as chagas da inveja,
Perdoar com a serenidade de quem ama,
Limpar todas as Jerusaléns do nosso tempo.
Volta depressa às nossas consciências,
Aquecer a indiferença que nos rói,
Gritar uma esperança para amanhã
- Para sempre -
Não morrermos sozinhos e tristes.

Volta Jesus Cristo!

Vem dar força aos Nicodemus sinceros,
Encorajar os Josés de Arimateia verdadeiros,
Julgar todos os Tibérios modernos
Desprezar todos os Pilatos covardes,
Apontar os Barrabás perdidos.

Volta Meu Senhor e Meu Profeta!

Vamos falar aos que morrem de ambição,
Pregar a doutrina que nos salvará,
Escorraçar os que comem na opulência,
Agasalhar as crianças que tremem de frio,
Sem carinho, abandonadas como destroços.

Volta Jesus Cristo!

Para devolveres às pessoas o riso da vida,
Amar os que nada têm,
Ensinar de novo o que todos esqueceram.
Volta para me enxugares os rios da tristeza,
Nas angústias dos fins de tarde
E me abraçares nas horas de desassossego.

Volta Mestre!

Vamos berrar contra a alegria falsa,
Contra o sorriso falso,
Contra a amizade falsa,
Contra os irmãos falsos,
Contra os políticos falsos,
Contra toda a falsidade.
Quero ir contigo entoar a nossa Fé,
Derrubar os déspotas com a nossa Cruz,
Correr do Poder os que mandam sem saber.

Volta Jesus Cristo!

Eu quero abraçar-Te!

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/18/10

O QUARTO ALUGADO - IV

Enquanto a Mãe mudava a água da floreira para lhe colocar novos gladíolos e margaridas, encostou-se às grades que desenhavam o jazigo de granito velho por muitos anos à chuva, ao vento, ao sol, à lua e à morte. Era sempre assim: trazia à lembrança a fotografia do Pai, que tinha na mesinha de cabeceira, e imaginava-o deitado com as mãos cruzadas no peito, indefeso e injustiçado. Mas nunca chorava. Nem uma lágrima. Olhava à volta, e todo aquele silêncio de cruzes e lápides era uma fatalidade repartida. Não tinha referências do Pai, nem um minuto de vida lhe conhecera, era um filho póstumo. Benzeu-se, deixou a Mãe recolher-se, e divagou por entres as campas na procura de caras conhecidas. Estavam lá algumas que lhe despertavam a memória, gestos e frases que lhes ouvira nos seus tempos de menino acabado de nascer. Aquele lugar era o reverso (ou o anverso?) da alegria, um aviso de efemeridade, a segunda certeza de que se existiu, um silêncio-resposta do Além, de qualquer ponto longínquo.

- Vamos – pediu-lhe a Mãe numa voz sumida.

Regressaram a casa mudos, como se tivessem recebido o chamamento de uma Razão Implacável. Debaixo das janelas, o Álvaro, já meio entornado, apregoava um quilo de batatas no leilão de fundos para a festa da Senhora do Monte. O Artur, sem alegria na voz, telefonou a comunicar a chegada. A noite daquele domingo de Páscoa desceu como um lençol a amortalhar o mundo.

Dois ou três dias antes do fim das férias perdia o apetite, levantava-se tarde numa desforra antecipada dos dias em que teria de madrugar, vagueava pelos socalcos que cercavam a casa, não lhe apetecia falar e tornava-se nervoso. Até a Mãe, de rosto tenso, regressava a uma sisudez de viúva. Incomodava-o a solidão em que ela ficaria com a velha criada e as suas vestes negras a varrerem o sujo dos dias, as contas das folhas semanais dos trabalhadores, o peso duma herança e os sacrifícios para a manter, as idas à Capela e ao cemitério. A Aninhas - que já estava lá em casa quando ele nasceu, lhe limpara o rabo e lavara muitas fraldas –, acabada a limpeza da louça, tirava o lenço amarrotado do bolso do avental, assoava-se ou fungava, limpava os olhos, dava um «Ai...», e, antes de se ir deitar, dizia: «Menina, não vá esquecer o baú do Menino...» Eram os mantimentos para os primeiros dias em que a barriga lhe pedia um suplemento: bolinhos de bacalhau, presunto, salpicão, queijo, uma malga de marmelada, broa, chouriço, frango e carne assada embrulhados em papel prateado, um peso quase igual à mala da roupa, e que ele guardava como um Serra da Estrela, preocupado em não perder a chave do aloquete. Fazia a viagem no dia do início das aulas, que este era tempo perdido com apresentações, alguns professores, até, nem aparecendo. Nunca a Mãe se aborrecia com isso, porque, bem lá no fundo, tomara ela que ele ficasse.

Se o almoço daquele derradeiro domingo de férias teve a benção de um sol primaveril que agasalhava a sala com um conforto que mais lhe tolhia a vontade de partir, o jantar foi o velório de uma alegria morta. A Aninhas – sentava-se sempre à sua direita - acariciava-lhe a mão e perguntava-lhe se queria mais alguma coisa para levar. A Mãe não levantava os olhos do prato e comia como se engolisse um remédio. Era tal o entupimento que quase se arrependia de já não ir no comboio, mesmo de pé, espremido entre a intimidante algazarra da magalada e o cheiro a mijo da retrete que não tinha sossego com o corrupio das bexigas. Os toques dos talheres salientavam o silêncio; os cães ladravam aos passos trocados das bebedeiras, correndo ao fundo do quintal para os reencontrar; o tempo, cadenciado pelo tiquetaque do relógio da sala, parecia que passava mais depressa.

- Quando é que serão os teus exames? – perguntou a Mãe, desperta da letargia.

- Lá para meados de Junho – respondeu, aliviado por lhe quebrar os pensamentos.

- Vai correr tudo bem. Eu vou rezar a Nossa Senhora de Fátima – compôs a Aninhas com a sua velha doçura.

- Só tenho medo é do Alemão – aproveitou.

- Pensas fazer algumas orais? – fitando-o inquiridora.

- Tomara eu não precisar... – murmurou.

- Lá estarei, mas não vou ter coragem de assistir.

- Mas tenho eu... – atreveu-se Aninhas.

- Mulher... Tenha juízo... Quem ficava aqui? Fechava-se a casa, era? ... Cada uma...

- Aproveitava e ia ver a minha irmã que já não vejo há anos... - insistiu a velha criada.

- Nas férias grandes vamos lá os dois...- atenuou João, diante dos olhos aguados da Aninhas que lhe agarrou mais a mão.

- Levante a mesa! – ordenou, friamente, D. Carlota.

João conhecia aquele modo: quando dominada por uma preocupação falava com uma secura tal que até ofendia as pessoas. Era, afinal, o jeito de se defender da desconsolação que a ameaçava; o resultado de muitos anos a engolir emoções. Sentindo-se à beira de quebrar, ganhava uma dureza que nem se sabia se era uma genuinidade de carácter, um fingimento de auto-defesa ou o treino de muitas lutas interiores. A sua rispidez era uma confissão, não assumida, de fragilidade; só não sabia que a Mãe, à noite, na escuridão do quarto, depois de os olhos cansarem na leitura, chorava as lágrimas que escondia de dia. A sua mesinha de cabeceira estava repleta de livros – sobretudo biografias – e lia muitos ao mesmo tempo. «Se não lesse, já estava doida! Mas livros que não sejam tristes. Para tristeza já chega a vida!», dizia-lhe a cada passo.

Quando saíram da mesa, enquanto a Mãe lavava os dentes e a Aninhas a loiça, João veio ao terraço fumar um cigarro, sempre a olhar para não ser visto. Ainda não se atrevera a pedir-lhe autorização para fumar e desconfiava se algum dia o faria. Ela cheirava-lhe o fumo, mas fingia que não sabia; e nesse jogo de esconde se ficavam. Sentou-se na sala, em frente do televisor, nem se rindo com o Homem Invisível a dar murros a torto e a direito.

- Vê se estudas, meu filho, ouviste?

- Não se preocupe, minha Mãe.

Levantou-se, deu-lhe um beijo - sentiu-lhe os lábios trementes -, e subiu as escadas que davam para o seu quarto.

- Não te esqueças de fechar a televisão quanto te fores deitar - disse-lhe do cimo. – Dorme bem. João, pouco depois, desligou a televisão, foi à cozinha despedir-se da Aninhas, que já pendurava o avental, e meteu-se no quarto. Adormeceu com os cães a ladrar aos fantasmas da noite.

Mal transpôs os portões, perguntou pelo Artur. Também faltara no primeiro dia. Sentou-se na sua carteira e estranhou que a dele tivesse ficado vazia. Aguardou-o toda a manhã. Esteve quase, no intervalo do almoço, a meter-se a caminho da casa dele, mas, talvez, não lhe sobrasse tempo para a primeira aula da tarde. Não podia arriscar mais faltas, ainda por cima no terceiro período. Pensou em telefonar, mas enojava-o ter que pedir a chave do telefone ao Francisco, muito menos à Alzira. Era uma das coisas que o arreliava, uma desconfiança desprezível que suportava com pena deles. Quando a campainha do último tempo tocou, apressou-se no regresso ao quarto, acabou de arrumar umas roupas que deixara em cima da cama, fez que jantou, foi ao baú atirar-se à carne assada, antes que ficasse seca, e saiu. Subiu Santa Catarina e tomou um café aldrabado numa confeitaria de esquina. Chegado ao Marquês, virou para Latino Coelho com tempo de ouvir a algazarra das raparigas do Colégio da Paz. O andar do Artur ficava no fundo da rua, por cima de uma garagem. Admirou-se por ser a D. Dulce a abrir-lhe a porta.

- Entra, João! Entra! Sejas bem aparecido! – saudou-o, enquanto lhe dava um abraço que nunca mais acabava.

- O que se passa, D. Dulce? – perguntou, as pernas a tremelicar, quando lhe viu os olhos alagados. – É alguma coisa com o Artur?

- É - acenando, desalentadamente, que sim, limpando os óculos ao lenço. – Senta-te, senta-te.

- Mas, D. Dulce, por favor...

- Pronto, eu digo-te: o Artur foi para Paris! Já sabias?...

- EU?!

- Queres um café ou um chá? Eu vou beber um chá.

- Não quero nada. Está bem, um café, então, por favor.

Aturdido, João relembrou o fastio de Artur naqueles dias de férias, o seu desencanto aldeão, a despedida exagerada e triste, o seu telefonema de chegada em tom de adeus. Não despercebera esses pormenores, nunca, porém, os ligara a essa antiga fantasia.

- Queres com muito ou pouco açúcar? – perguntou-lhe, da cozinha, D. Dulce.

- Uma colher, por favor – respondeu. – Mas - prosseguiu João, enquanto ela punha o tabuleiro na mesinha de centro -, foi assim sem mais nem menos? Não deu razões nenhumas?

- Sabes que ele tinha, há muito tempo, aquela ideia encaixada. - Pousou a chávena na mesinha e, entrelaçando as mãos sobre o peito, recostou-se no sofá. – Que me dizes?...

- Nunca pensei que fosse a sério.

- Ele não te falava nos problemas cá de casa? Enfiou que eu o abandonara só porque conversava com aquele senhor que tu chegaste a ver...

- ...

- Julgava que eu ia casar ou tinha alguma coisa com ele. Quando ele veio de férias de tua casa, houve aqui uma discussão enorme. Ele trouxe-lhe uma lembrança de Cascais, um pisa papéis, mas, mal o recebeu, deitou-o ao chão e berrou que nunca quereria nada dele. Malcriado para aqui, malcriado para ali, olha, se não me meto no meio, batiam-se à minha frente. Quando eu estava no quarto de banho, ouço um restolho medonho e verifiquei que ele tinha batido no Artur. Não lhe perdoei, nem perdoo, abri-lhe a porta e, aqui, não entra mais.

- ...

- Ao outro dia, quando cheguei da mercearia, vejo que ele tinha uma mala à porta. - «Vou para França, não fico mais aqui!» - Assim, sem mais nem menos. Podes imaginar o que lhe pedi, o que me enervei, o que chorei. - «Já te disse, Mãe, podes ficar com ele, eu fico comigo!» - disse-me em lágrimas.

- Mas...

- Ele pensou que fosse tudo fingido. Convenceu-se que tinha feito aquilo só para lhe agradar, fazer de conta.

- Não lhe falou que, antes que o chamassem para a tropa, ele estaria longe?

- Mas eu cansei-me a repetir-lhe que, se fosse preciso, tenho conhecimentos que o livrariam de ir. Até falei em ti, que, também, te poderia dar uma ajuda.

- Obrigado D. Dulce, oxalá não precise.

- Conheço um General que não recusa um pedido meu. Não, João, ele já tinha aquela fisgada. Fez-se, durante alguns minutos, um silêncio embaraçoso. João olhava a televisão, sem som, transmitindo imagens de soldados na selva, um helicóptero a pousar, levantando poeira, e, depois, a erguer-se com uma maca colada à fuselagem.

- Posso ir ao quarto de banho? – pediu.

- Está à tua vontade – assentou D. Dulce, sem despegar os olhos do écran.

João parou, por instantes, diante do quarto de Artur. Tinha o arrumo das coisas não usadas: a colcha de flores vermelhas parecia a mortalha de um gavetão de cemitério e os livros, na estante, gritos encolhidos à espera de uma oportunidade para se soltarem. Veio-lhe, de repente, uma sensação de abandono, um sentimento de excluído, um frio (ou um calor?) de cobardia. Fechado na casa de banho, enquanto lavava as mãos, reparou que, na prateleira, por baixo do espelho, nada ficara dele, nem, sequer, a pedra pomos com que costumava cicatrizar o sangue das espinhas do pescoço, depois de fazer a barba. Ele fora-se sem lhe dizer nada, sem uma tentativa de incitamento para o seguir, uma partilha de segredo, “grande sacana, não confiou em mim!”.

- D. Dulce, não sabe se o Artur foi sozinho ou com alguém? Quando é que ele foi, afinal? – sentando-se, novamente, no sofá.

- Cheguei a ouvir um telefonema para um tipo qualquer. Acho que relacionado com essa coisa da Aliance Francaise. Disse que me escreveria mal chegasse. Sinceramente, não sei o que aquele rapaz vai fazer...

- E quando foi? – insistiu João.

- Na sexta-feira passada.

- A Senhora pode não acreditar, mas ele não me disse nada, nem uma palavra, acredite.

- Claro que acredito. Diz-me uma coisa – virando-se para ele e fitando-o seriamente -, tu concordas com o que ele fez? Mas sê-me franco!

Ficou sem saber o que responder, encolheu os ombros no estilo «que hei-de eu dizer?!...», recostou-se e olhou para o tecto. Era a única pergunta que não esperava.

- Deixa-me fumar um cigarro? – atreveu-se já a remexer no maço de Porto.

- Aquele meu filho...- chegando-lhe o cinzeiro amarelado de nicotina. - Não me respondeste...

- Não, D. Dulce, agora não ia.

- ...

- Primeiro acabava o Liceu. Como é que ele vai fazer o sétimo ano? Ainda há os adiamentos que se podem pedir na Faculdade, não é?

- Eu disse-lhe o mesmo: «Vais deixar o Liceu por três meses, nem chega! É uma estupidez!» Sabes o que me respondeu? «A libertação não tem horas!» Aquele meu filho... Quando souberem que ele foi lá para fora como vai ser? Até tenho vergonha de lhe ir anular a inscrição! Que me vão dizer eles?! E o que lhes digo eu?!

Mesmo com a janela meia aberta, estava abafado. Ou era ele que abafava. Teve vontade de se ir embora, confundir-se na neblina nocturna, misturar-se com as pessoas e o barulho dos carros, caminhar sem ter ninguém com quem falar ou, simplesmente, deitar-se.

- D. Dulce, quando o Artur lhe escrever, diga-me, se fizer o favor. Ele tinha aí o telefone da casa onde estou, de qualquer modo vou-lho deixar.

- Como me passou!... Quero o telefone da tua Mãe para lhe agradecer o ter aturado o Artur...

- Não faça isso, por amor de Deus... Até foi bom, não a aborreci tanto...

- Peço-te... Escuso de andar por aí atrás dos papeis dele ou telefonar para as Informações. Além do mais, quero convidá-la para, se alguma vez vier ao Porto, ficar aqui. É da maneira que falamos. Por favor, João...

Deu-lhe, também, o telefone da aldeia, levantou-se, vestiu o casaco, voltou a sentir a ausência do Amigo, beijou D. Dulce que o puxou para si num novo abraço de emoção, prometeu – carregando no botão do elevador - vir mais vezes visitá-la e desceu. Estava quase a chegar ao rés-do-chão, ouviu-a, no cimo, a gritar pelo seu nome. Deixou parar aquele e voltou a subir.

- Desculpa – estendendo-lhe um envelope -, o Artur deixou-me esta carta para ti. Com a conversa já me esquecia de ta dar. Dá cá mais um beijo e não me digas nada do que ele te diz aí, está bem?

- Sim D. Dulce – enfiando o envelope no bolso, com o peito a latejar. Afinal o grande sacana não se esquecera dele...

O choque com a humidade da noite arrepiou-o Estava cansado, parecia que levara um enxerto de porrada, tinha fome. Pensou ir pela Constituição, virar em S. Brás, voltar por João Pedro Ribeiro e descer Santa Catarina. Contudo, contornou a praça, passou pelo Asilo do Terço, sorriu aos chistes das prostitutas que, encostadas às portas das pensões ou sob a luz dos candeeiros, de saias apertadas e traseiros salientes, o convidavam para se estrearem, entrou no Coutinho e pediu meia torrada e meia de leite. Da mesa, encostada à montra, podia ver os carros a pararem, os condutores descerem os vidros, combinarem o preço, abrirem as portas e arrancarem. Outros, vinham, pé ante pé, chapéus sobre os olhos, em jeito de Edie Constantine, e entravam nas hospedarias de lâmpadas mortiças depois de lançarem um olhar esquivo às imediações. Enquanto mastigava a derradeira fatia – era sempre a do meio que melhor lhe sabia -, pensou se abriria já a carta ou a leria, calmamente, no quarto. Não tinha pressa, como se desejasse prolongar a expectativa, aquele prazer hesitante que se saboreia até ao limite da curiosidade. Optou pela segunda hipótese. Foi descendo, sem pressa. Deu-lhe para olhar o relógio. Já passava da meia noite. Devia ter estado, seguramente, mais de duas horas a falar com a Mãe do Artur. Condoera-se, mas pensou que, se fosse a sua, não o deixaria partir, nem que se estendesse no seu caminho. Ser-lhe-ia difícil uma atitude igual. Sonhava partir, um dia, isso sonhava, para onde se pudesse alargar, conhecer outros pensares, visitar os ícones da Literatura, aquelas referências históricas que a leitura lhe avivava. Mas fálo-ia sem ser espicaçado. Abandonar, assim, a Mãe, seria um remorso de que nunca se limparia. “Dá-me a impressão que até o Diabo me fazia uma espera... Que raio de ideia a deste gajo...E numa altura destas, com o Liceu na recta final... Teria sido aliciado?... Hum... Se fosse, mesmo que não pudesse, dizia-mo “, pensava João, Santa Catarina abaixo, colado aos prédios. Na esquina do Automóvel Clube de Portugal, cheia de carros de luxo, meia dúzia de caras ricas conversavam por entre gargalhadas que a madrugada estendia.

Quando abriu a porta da casa, ouviu a tosse do velho. Devia ser a dizer-lhe que, por causa dele, acordara. “Grande cabrão, se fosses mas é ver com quem é que a puta da tua mulher te anda a pôr os cornos!“, mastigou. Pôs a almofada atrás da cabeça e leu a carta.

""João, meu Amigo:

Tenho a certeza de que, quando deres pela minha falta às aulas, virás falar com a minha Mãe. Pedir-lhe-ei, antes de partir, para te entregar esta carta. Não me despeço pessoalmente porque sei que não concordas com a minha decisão. Poupamo-nos os dois: tu de falares, eu de te ouvir... Aconteça o que acontecer serás sempre o meu melhor Amigo. Escrever-te-ei todas as vezes que puder e vou ter muitas saudades tuas. Acredita.

Parto com o Monteiro, aquele tipo de que te falei, a quem a puta da Pide matou o Pai, naquela maldita casa da Rua do Heroísmo, sabes?, e mais um tipo que ele me apresentou. Em San Sebastian há quem nos oriente até Paris.

Não tenho culpa de ter nascido aqui, neste rectângulo dominado por um jardineiro odioso que corta os rebentos e só deixa medrar as ervas. Não foi (minha Mãe vai, naturalmente, falar-te disso) a zanga com o seu querido (apesar de o ter corrido, vai voltar a chamá-lo, vais ver) que me impeliu. A marca vai ficar com ele e não comigo. Decidi-me em tua casa, nos dias que lá passei. O fatalismo e a soturnidade daquelas pessoas é ultrajante e mortal. Antes de enterrados já estão mortos. Vivemos numa terra em que o sol nasce sem uma esperança – uma mínima esperança, João - de um dia sermos diferentes e diversos nas opiniões, nos risos e nas lágrimas; livres, sem bufos nem vigias, com a certeza de que é melhor perdermo-nos na liberdade do que enfileirarmos na escravatura. Disseste-me, um dia – se calhar já nem te lembras -, que o futuro pertence àqueles que içam as velas. Lá vou eu, então, manobrando-as ao sabor dos ventos e das marés. Não sei se me afogarei, só sei que o prefiro a continuar à tona deste lago de podridão. Pode-te parecer precipitado sair, assim, com os exames à porta, mas há momentos em que tem de se arriscar tudo, mesmo à proximidade de um fim, hipoteticamente feliz que seja. Chama-me doido varrido, o que quiseres... Apesar desta Pátria não ter uma centelha de sobressalto, ser uma permanente escuridão, os seus olhos lampadários fúnebres e as suas bocas acentos de amargura, não sei se vou ficar muito ou pouco tempo sem a lembrar. Pode ser que isto mude e já não valha a pena estar longe; pode ser que a guerra do Ultramar acabe e já não tenhamos os pescoços no cadafalso. Mas não é apenas a recusa da guerra, a dúvida de morrer imolado na teimosia de um ditador de falsete que me leva a partir. Mais do que isso: é uma desilusão de sociedade encarcerada e, por isso, desconfiada, servil e bronca, que aceita tudo como se a vida fosse uma desgraça fatal. Não quero ser como esta gente e, antes que se me apegue o mesmo mal, vou aprender a falar sem medo. Afinal não é o Mundo só um e as fronteiras a sua aberração?

Oxalá entres na Faculdade e a guerra acabe antes de te chamarem! Desejo-te todas as felicidades!

Dá cá um abraço! Faz força comigo!
Artur""

João, durante longos minutos, ficou de olhos especados na parede em frente da cama. Antes de se deitar achou o quarto mais inóspito, velho e gélido qual uma sala de Notário; os livros, em cima da pequena secretária, pareceram-lhe Códigos de leis injustas. Até o sono chegar, imaginou o Amigo aos saltos nos boulevards parisienses.
- Conto de M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.