11/16/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulo III


Não Matem A Esperança - Cápítulo III

Quando estava chatiado (o que, parecia-lhe, só não sucedia a quem não pensava), vinha até ao outro extremo da cidade em que fingia viver e sentava-se numa pedra gasta pelas águas e olhava o mar.

Na praia, sem barracas, havia os que puxavam a cana de pesca para matar a fome lá em casa ou faziam desporto para dar pontapés no tempo; os que amavam e faziam promessas sob o rugido manso do oceano que abafava o som das palavras; crianças pobres, criadas no abstinente do fácil, brincando o jogo do esquecimento, rebolando-se na areia, engalfinhando-se mútuamente; senhoras sérias – daquelas obcecadas com o bronzeado – tapavam os olhos com os braços e ofereciam o corpo às últimas forças do sol de Verão-quase-no-fim; um cão preto e ruço e bem tratado (um cão burguês) brincava com uma criança de tranças loiras (mesmo loiras) e bem vestida e bem tratada (uma criança de burgueses) que lhe fazia lembrar Lelouch e o seu HOMEM E UMA MULHER.

Um avião roncou lá em cima. E as pessoas levantaram os olhos.

(Eram tardes dolorosas, de tropicalismo exacerbado, homens de troncos nus que escorriam suor; eram tardes longas, com saudades à mistura, com crises de nervos em que apetecia partir tudo e não se podia, em que as ganas para se berrar a plenos pulmões o que se sentia, tinham de ser dominadas pela amargura de renúncia à verdade. Eram tardes longas, longas e tristes, aquelas em que o helicóptero cirindava sobre as nossas cabeças, qual mosquito gigante, ou passava ao largo com uma rapidez aflita, levando dentro alguém que espiava vida, uma vida jovem, uma daquelas vidas que morrem na guerra.

África! Em algumas das suas picadas ficaram para sempre as vidas de amigos que chorava, que choraria sempre, amigos que recordava com mágoa, impotente, e as lágrimas que lhe saíam sem pedirem licença eram a sua angústia, presa por um fio na dobra da garganta. Ele queria gritar um poema a esses amigos que morreram na guerra, atingidos pelos estilhaços da metralha, mas, na realidade, não podia. Ele não podia dizer coisas proibidas. (A não ser, à noite, na cama, com a mulher.).

O par que se amava levantou-se e, sacudindo a areia, dei-los abraçados pela praia fora, rumo ao futuro.

(Não os entendiam. Os seres que os rodeavam não faziam parte do elo profundo que os unia. Já tinham o seu passado. As suas vidas transplantaram-se para uma báscula materialista, deportando-se, logo, as suas acções, os seus julgamentos dos outros. Apreciavam-nos como se fossem iguais a eles. Os seus olhos não eram sinceros: fingiam e mentiam interiormente. Detestava-os. Não os odiava. Que lhe importava que eles pensassem aquilo que pensavam? Queria lá saber dos seus interesses mesquinhos e das suas ganâncias? Estava farto deles, Farto de ver sorrisos amarelos, forçados, ditados pelas conveniências. Farto de malandros norteados pelo aburguesamento do não pensar e do deixa correr. E não lhe viessem com pancadinhas nas costas e risos de ocasião dizer que não valia a pena pensar. Ele queria pensar, queria preocupar-se com eles, com aquelas crianças pobres que brincavam na areia para esquecer a fome; com aquela mulher nova na idade e velha no corpo que, do filho ao colo, cheio de feridas, ia de carro em carro pedir uma esmola aos senhores que tinham vindo até à marginal refazer as pazes do amor ou pensar a melhor maneira de levar um semelhante num negócio ou descansar cabeça do barulho da cidade).

Um ronco de barco partia. Proa apontada ao sul, casco rasgando as águas em busca do mundo para além do infinito do seu olhar.

(Também já partira. Num barco assim. Um barco que levou gente, muita gente, para além. Gente que chorava e, também, sorria sem consciência. Gente que levava a esperança de voltar. Mas alguns não voltaram (e como é triste voltar sem eles). Verteram o seu sangue quente que ensopou as escaldantes e poeirentas estradas da selva. Em terra, havia lenços brancos que acenavam, acenavam sem parar. E havia lágrimas de mães e de pais que criaram os seus filhos e os viam partir, sabiam lá até quando; e havia raparigas que viviam a ansiedade dum amor de juventude perante o abismo da incerteza; e havia carpideiras que fingiam chorar não sabiam por quem e para quê e desmaiavam nos braços de estranhos; e havia homens que trabalhavam no cais, indiferentes, minados pela rotina dos gestos e das acções, fartos de verem já tantas partidas iguais. O barco navegava sempre até que não viu mais lenços brancos e só viu a esperança estampada nos olhos dos que o rodeavam, aquela-arma-dos-homens-que-vão-para-a-guerra. E ele, então, apesar de odiar a guerra, sentiu-se superior àqueles que falam, falam, e não dizem nada.).

O relógio, ditador da vida, marcava o ritmo. Tinha de voltar. Ao movimento das pessoas e dos carros. Com encontrões, com guinadas para a direita e para a esquerda, guinchar de travões, arranques estrepitantes de carros sport dos meninos e das meninas ricas; com polícias passando multas aos carros mal estacionados, em transgressões de trânsito; com homens perseguindo outros homens iguais no corpo mas diferentes nas filosofias; mãos no ar oferecendo, num papel com um número, a ilusão da fortuna àqueles que pouco ou nada têm ou àqueles que tendo muito ainda querem mais; sinaleiros apitando furiosa e teatralmente aos volantes que vieram da província e não sabem que na cidade é proibido pisar o risco; condutores maltratando-se pelas palavras mais genuínas do dicionário da má educação. Tinha que voltar. Voltar a cruzar-se com aqueles que se postavam às esquinas das ruas, às portas dos cafés ou das casas de discos ou dos supermercados comendo a estupidez da vida, feita da fatuidade que só os imbecis sabem usar. Mas desculpava-os. É que eles ainda não tinham partido num barco, com muita gente vestida toda da mesma maneira, para longe, para além.
- Continua.

A policia moçambicana mata civis inocentes, não é punida nem presta contas dos crimes

ABSURDO MAS REAL: 16.11.2009 - 11:00 Por PÚBLICO - A Amnistia Internacional sublinhou hoje que a polícia de Moçambique raramente tem de prestar contas quando assassina civis e que 46 pessoas já foram mortas pelos guardas desde 2006. "As famílias dos mortos não conseguem que seja feita justiça”, declarou à BBC Ann-Mit Muluka , daquela organização.
A polícia comentou que estas interpretações dos factos são tendenciosas e que na verdade os responsáveis pelas mortes sem qualquer justificação têm sido punidos e recebido penas superiores a 20 anos.

No programa "Network Africa", da BBC, Muluka citou o caso do bailarino e coreógrafo Augusto Cuivias, que em Dezembro de 2007 ouviu um barulho quando estava em casa com a família e acabou morto. Se bem que dois dos agentes tenham sido detidos, não houve qualquer acção disciplinar contra os responsáveis por uma atitude tão despropositada.

Nesse episódio, foi dito que não haveria necessidade de se proceder a qualquer investigação, uma vez que os assassínios teriam sido legítimos. Fora dado o alarme para uma situação, os guardas apareceram e dispararam, tendo-se dado o simples pormenor de que as vítimas não eram quaisquer assaltantes mas os habitantes da residência.

As famílias muitas vezes não chegam a saber por que é que os parentes são mortos e, sem dinheiro, não conseguem recorrer para os tribunais, a fim de que se faça justiça, considerando a Amnistia Internacional que o que se verificou em casa de Cuivias foi um caso típico.

=-=-=-=

16/11/2009, Maputo, Jornal Digital - A Amnistia Internacional (AI) denunciou que as autoridades policiais moçambicanas mataram 46 pessoas desde 2006 sem que tivesse havido qualquer investigação ou punição aos agentes.

A organização de defesa dos direitos do Homem divulgou um relatório intitulado «Já não acredito na Justiça - Obstáculos à justiça em casos de homicídios praticados pela polícia de Moçambique» para denunciar casos de mortes de pessoas pela polícia que não são investigadas.

A AI apela ao Executivo moçambicano para um inquérito imparcial assim como autópsias às 46 pessoas foram mortas nestas circunstâncias, uma vez que as famílias não conseguem levar os casos à Justiça. A Amnistia pede os responsáveis sejam acusados e as famílias das vítimas indemnizadas.

«As famílias dos mortos não conseguem que seja feita justiça», declarou à BBC Ann-Mit Muluka , membro da Amnistia Internacional. Em reacção às acusações da organização de defesa dos direitos do Homem, um porta-voz da polícia do país, em declarações à BBC, classificou o documento de tendencioso e salientou que todos os agentes que cometeram homicídios de forma ilegal foram condenados a penas de prisão de mais de 20 anos.

A Amnistia internacional já tinha publicado em 2008, um relatório acusando a polícia nacional de «matar e torturar com toda impunidade».