11/16/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulo III


Não Matem A Esperança - Cápítulo III

Quando estava chatiado (o que, parecia-lhe, só não sucedia a quem não pensava), vinha até ao outro extremo da cidade em que fingia viver e sentava-se numa pedra gasta pelas águas e olhava o mar.

Na praia, sem barracas, havia os que puxavam a cana de pesca para matar a fome lá em casa ou faziam desporto para dar pontapés no tempo; os que amavam e faziam promessas sob o rugido manso do oceano que abafava o som das palavras; crianças pobres, criadas no abstinente do fácil, brincando o jogo do esquecimento, rebolando-se na areia, engalfinhando-se mútuamente; senhoras sérias – daquelas obcecadas com o bronzeado – tapavam os olhos com os braços e ofereciam o corpo às últimas forças do sol de Verão-quase-no-fim; um cão preto e ruço e bem tratado (um cão burguês) brincava com uma criança de tranças loiras (mesmo loiras) e bem vestida e bem tratada (uma criança de burgueses) que lhe fazia lembrar Lelouch e o seu HOMEM E UMA MULHER.

Um avião roncou lá em cima. E as pessoas levantaram os olhos.

(Eram tardes dolorosas, de tropicalismo exacerbado, homens de troncos nus que escorriam suor; eram tardes longas, com saudades à mistura, com crises de nervos em que apetecia partir tudo e não se podia, em que as ganas para se berrar a plenos pulmões o que se sentia, tinham de ser dominadas pela amargura de renúncia à verdade. Eram tardes longas, longas e tristes, aquelas em que o helicóptero cirindava sobre as nossas cabeças, qual mosquito gigante, ou passava ao largo com uma rapidez aflita, levando dentro alguém que espiava vida, uma vida jovem, uma daquelas vidas que morrem na guerra.

África! Em algumas das suas picadas ficaram para sempre as vidas de amigos que chorava, que choraria sempre, amigos que recordava com mágoa, impotente, e as lágrimas que lhe saíam sem pedirem licença eram a sua angústia, presa por um fio na dobra da garganta. Ele queria gritar um poema a esses amigos que morreram na guerra, atingidos pelos estilhaços da metralha, mas, na realidade, não podia. Ele não podia dizer coisas proibidas. (A não ser, à noite, na cama, com a mulher.).

O par que se amava levantou-se e, sacudindo a areia, dei-los abraçados pela praia fora, rumo ao futuro.

(Não os entendiam. Os seres que os rodeavam não faziam parte do elo profundo que os unia. Já tinham o seu passado. As suas vidas transplantaram-se para uma báscula materialista, deportando-se, logo, as suas acções, os seus julgamentos dos outros. Apreciavam-nos como se fossem iguais a eles. Os seus olhos não eram sinceros: fingiam e mentiam interiormente. Detestava-os. Não os odiava. Que lhe importava que eles pensassem aquilo que pensavam? Queria lá saber dos seus interesses mesquinhos e das suas ganâncias? Estava farto deles, Farto de ver sorrisos amarelos, forçados, ditados pelas conveniências. Farto de malandros norteados pelo aburguesamento do não pensar e do deixa correr. E não lhe viessem com pancadinhas nas costas e risos de ocasião dizer que não valia a pena pensar. Ele queria pensar, queria preocupar-se com eles, com aquelas crianças pobres que brincavam na areia para esquecer a fome; com aquela mulher nova na idade e velha no corpo que, do filho ao colo, cheio de feridas, ia de carro em carro pedir uma esmola aos senhores que tinham vindo até à marginal refazer as pazes do amor ou pensar a melhor maneira de levar um semelhante num negócio ou descansar cabeça do barulho da cidade).

Um ronco de barco partia. Proa apontada ao sul, casco rasgando as águas em busca do mundo para além do infinito do seu olhar.

(Também já partira. Num barco assim. Um barco que levou gente, muita gente, para além. Gente que chorava e, também, sorria sem consciência. Gente que levava a esperança de voltar. Mas alguns não voltaram (e como é triste voltar sem eles). Verteram o seu sangue quente que ensopou as escaldantes e poeirentas estradas da selva. Em terra, havia lenços brancos que acenavam, acenavam sem parar. E havia lágrimas de mães e de pais que criaram os seus filhos e os viam partir, sabiam lá até quando; e havia raparigas que viviam a ansiedade dum amor de juventude perante o abismo da incerteza; e havia carpideiras que fingiam chorar não sabiam por quem e para quê e desmaiavam nos braços de estranhos; e havia homens que trabalhavam no cais, indiferentes, minados pela rotina dos gestos e das acções, fartos de verem já tantas partidas iguais. O barco navegava sempre até que não viu mais lenços brancos e só viu a esperança estampada nos olhos dos que o rodeavam, aquela-arma-dos-homens-que-vão-para-a-guerra. E ele, então, apesar de odiar a guerra, sentiu-se superior àqueles que falam, falam, e não dizem nada.).

O relógio, ditador da vida, marcava o ritmo. Tinha de voltar. Ao movimento das pessoas e dos carros. Com encontrões, com guinadas para a direita e para a esquerda, guinchar de travões, arranques estrepitantes de carros sport dos meninos e das meninas ricas; com polícias passando multas aos carros mal estacionados, em transgressões de trânsito; com homens perseguindo outros homens iguais no corpo mas diferentes nas filosofias; mãos no ar oferecendo, num papel com um número, a ilusão da fortuna àqueles que pouco ou nada têm ou àqueles que tendo muito ainda querem mais; sinaleiros apitando furiosa e teatralmente aos volantes que vieram da província e não sabem que na cidade é proibido pisar o risco; condutores maltratando-se pelas palavras mais genuínas do dicionário da má educação. Tinha que voltar. Voltar a cruzar-se com aqueles que se postavam às esquinas das ruas, às portas dos cafés ou das casas de discos ou dos supermercados comendo a estupidez da vida, feita da fatuidade que só os imbecis sabem usar. Mas desculpava-os. É que eles ainda não tinham partido num barco, com muita gente vestida toda da mesma maneira, para longe, para além.
- Continua.

A policia moçambicana mata civis inocentes, não é punida nem presta contas dos crimes

ABSURDO MAS REAL: 16.11.2009 - 11:00 Por PÚBLICO - A Amnistia Internacional sublinhou hoje que a polícia de Moçambique raramente tem de prestar contas quando assassina civis e que 46 pessoas já foram mortas pelos guardas desde 2006. "As famílias dos mortos não conseguem que seja feita justiça”, declarou à BBC Ann-Mit Muluka , daquela organização.
A polícia comentou que estas interpretações dos factos são tendenciosas e que na verdade os responsáveis pelas mortes sem qualquer justificação têm sido punidos e recebido penas superiores a 20 anos.

No programa "Network Africa", da BBC, Muluka citou o caso do bailarino e coreógrafo Augusto Cuivias, que em Dezembro de 2007 ouviu um barulho quando estava em casa com a família e acabou morto. Se bem que dois dos agentes tenham sido detidos, não houve qualquer acção disciplinar contra os responsáveis por uma atitude tão despropositada.

Nesse episódio, foi dito que não haveria necessidade de se proceder a qualquer investigação, uma vez que os assassínios teriam sido legítimos. Fora dado o alarme para uma situação, os guardas apareceram e dispararam, tendo-se dado o simples pormenor de que as vítimas não eram quaisquer assaltantes mas os habitantes da residência.

As famílias muitas vezes não chegam a saber por que é que os parentes são mortos e, sem dinheiro, não conseguem recorrer para os tribunais, a fim de que se faça justiça, considerando a Amnistia Internacional que o que se verificou em casa de Cuivias foi um caso típico.

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16/11/2009, Maputo, Jornal Digital - A Amnistia Internacional (AI) denunciou que as autoridades policiais moçambicanas mataram 46 pessoas desde 2006 sem que tivesse havido qualquer investigação ou punição aos agentes.

A organização de defesa dos direitos do Homem divulgou um relatório intitulado «Já não acredito na Justiça - Obstáculos à justiça em casos de homicídios praticados pela polícia de Moçambique» para denunciar casos de mortes de pessoas pela polícia que não são investigadas.

A AI apela ao Executivo moçambicano para um inquérito imparcial assim como autópsias às 46 pessoas foram mortas nestas circunstâncias, uma vez que as famílias não conseguem levar os casos à Justiça. A Amnistia pede os responsáveis sejam acusados e as famílias das vítimas indemnizadas.

«As famílias dos mortos não conseguem que seja feita justiça», declarou à BBC Ann-Mit Muluka , membro da Amnistia Internacional. Em reacção às acusações da organização de defesa dos direitos do Homem, um porta-voz da polícia do país, em declarações à BBC, classificou o documento de tendencioso e salientou que todos os agentes que cometeram homicídios de forma ilegal foram condenados a penas de prisão de mais de 20 anos.

A Amnistia internacional já tinha publicado em 2008, um relatório acusando a polícia nacional de «matar e torturar com toda impunidade».

11/14/09

A bandeira Lusitana



O sol caia lentamente no poente colorindo o ambiente de tom alaranjado, quando inesperadamente um emissário branco e um homem makonde desembocaram na povoação de Mbavala portando uma mensagem do major Neutel de Abreu, acampado à escassos metros da entrada do planalto makonde com um efectivo militar de mais de duas centenas de homens brancos. Os dois estranhos atravessaram a aldeia em diagonal em direcção ao terreiro onde ficava a casa do nkulungwa Mbavala e outros parentes seus com laços consanguíneo. Enquanto caminhavam entre as casas da povoação o homem branco ia virando atracção, sendo, de quando em vez, apreciado com excessiva curiosidade como se estivesse em exposição. Quando chegaram a casa do Mbavala foram recebidos pelos súbditos do ancião sem emoção, pois meses anteriores haviam corrido em todo planalto notícias de aproximação de um contigente militar de homens brancos armados até aos dentes e que haviam subjugado os makondes da zona leste dos contrafortes do planalto. Segundo as mesmas notícias, grupos de infantaria e artilharia haviam respondido barbaramente alguns ataques perpetrado por nativos inconformados com a presença dos brancos que até já impunham novos valores que contrariavam, de certa medida, as expectativas dos diversos chefes das linhagens que tinham em seu poder o controlo das rotas do comércio clandestino praticado por swahilis, árabes do Zanzibar, povos do Madagáscar e alguns nativos.

Entretanto, os visitantes foram servidos uma cama de lutandove para se acomodarem e um jovem de estatura baixa, postura forte, dentes afiados e rosto tatuado afastou-se dali e entrou numa das casas que se encontrava no enorme quintal do nkulungwa Mbavala. Pouco tempo depois, o jovem voltou a juntar-se a outros três súbditos que encontravam-se sentados no beiral de uma das casas que aparentava ser a principal. Volvido algum momento, o nkulungwa atravessou a porta e marchou lentamente ao encontro dos visitantes.

- karibo, karibo. - Sejam bem-vindos. – Disse Mbavala acomodando-se numa das camas postas ali para si. De de seguida, quis saber. – O que vos traz nestas bandas?

- O major Neutel de Abreu manda informar que dentro de dias chegará um contingente militar que virá instaurar uma nova vida no planalto e pede a lealdade de todos chefes, em especial do senhor. – Disse o emissário de viva voz e acrescentou. – Qualquer tentativa de sublevação será esmagada impiedosamente pelas nossas forças e os chefes de tais sublevação serão presos e deportados para longe dos seus súbditos.

Mbavala manteve-se calado durante todo tempo em que o homem branco esteve a discursar e depois manteve-se atento ao interprete que era o homem negro que vinha na companhia do emissário. Entretanto, após a interpretação do discurso que foi feita de forma quase incoerente pelo homem makonde, que a avaliar o seu conhecimento rudimentar da lingua portuguesa não havia dúvidas que o sujeito aprendera a lingua do Camões com os padres católicos em Porto Amélia, terra até então desconhecida pela maioria dos makondes, nkulungwa Mbavala ergueu-se apoiando-se com uma bengala de pau-preto esculpido com esmero. Cruzou um braço nas costas e passeou lentamente pelo quintal enquanto o branco e o interprete permaneciam sentados aguardando o seu pronunciamento. O Mbavala estava perturbado, mas fez um esforço para não demonstrar aos visitantes. No entanto, enquanto passeava pelo quintal com a mente a fervilhar de tanto procurar um coerente pronunciamento face à afronta do major Neutel de Abreu, baixou os olhos e volvido algum momento, dirigiu-se ao emissário erguendo os ombros orgulhosamente e levantando o queixo com altivez e ar de desafio.

- Diga ao seu chefe que recebi a mensagem. – Olhou muito atentamente nos olhos do branco e prosseguiu. – Amanhã farei deligências para informar aos outros vakulungwa e dentro de sete dias receberá a nossa resposta.

- De que forma o major terá a tal resposta? – Quis saber o emissário com uma ponta de incredulidade.

Mbavala sentou-se entregando a bengala um dos súbditos. Humedeceu os lábios com a lingua e pensativamente, respondeu:

- Será muito simples. O nosso silêncio no sétimo dia significará o nosso consentimento à nova autoridade e a nossa presença no vosso acampamento será o sinónimo de recusa à tal dita autoridade branca.

- Muito bem. – Disse o branco torcendo o nariz. – As tuas palavras serão transmitidas ao major.

Mbavala não pronunciou uma palavra se quer e nisto, o emissário e seu acompanhante despediram-se do velho e sairam da aldeia admirando a grandeza e beleza da povoação e o prestígio que gozava o nkulungwa que há pouco tempo haviam tido a oportunidade de o conhecerem. Ao atravessarem o cerco da aldeia feita de troncos enormes de árvores seculares para impedir a entrada de animais ferozes e gente intrusa, os dois homens embrenharam-se pela floresta adentro deixando-se de avistar-se, devido as trevas que já começavam a cobrir o ambiente.

Já na povoação, Mbavala reuniu imediatamente os anciãos que compunham o conselho da aldeia, deu a conhecer a mensagem do major Neutel e rapidamente foram tomadas as posições cuja a realização dependia muito do pronunciamento dos demais vakulungwa das povoações de todo planalto makonde, incluindo os chefes do longinquo kundonde. Assim, uma vez que o nkulungwa Mbavala gozava de uma boa reputação entre os makondes do planalto e era o mais velho de todos vakulungwa e sua povoação era a mais expressiva do ponto de vista de grandeza e do número de aldeões, três dias depois houve na sua aldeia o grande encontro dos régulos makondes. Estavam no encontro os régulos Mbavala e seu súbdito Chilavi, Mbomela, Mbalale, Likama, Negomano, Machangano, Lidimo, Chipungo, Neengo, Nkapoca, Ntchingama, Kavanga, Nkwemba e Nachomwe.

O encontro começou, no terreiro da aldeia, no meio da manhã de um dia calmo e de céu coberto de nuvens brancas e cinzentas. Após um longo discurso do Mbavala explicando a razões que haviam norteado a convocação daquela historica reunião, os convidados foram chamados a tomar da palavra. Nisto, o nkulungwa Mbomela ergueu-se e com a voz fremente de emoção, disse:

- Caros irmãos! Nos tempos passados os nossos ancestrais resistiram a qualquer tipo de subjugação de outros povos. Hoje somos afrontados nas bárbas das nossas terras e da nossa gente por um povo branco e desconhecido. Face a esta infame provocação proponho ao povo makonde à resistência às intenções destes forasteiros que pretendem tomar de nós, de forma astuta, as nossas terras, o nosso povo obediente e respeitoso, o nosso prestígio secular, as nossas relações comerciais estabelecidas há séculos com povos de terras distantes e tudo o que é nosso e belo.

Mbomela sentou-se. O ancião havia se emocionado demasiadamente e a pressão arterial subira vertiginosamente. No entanto, Mbalale levantou-se e dirigiu-se aos presente de forma vigorosa:

- Estas terras e esta gente que nelas vive é nossa por herança. – Fez uma pausa para ordenar o seu raciocínio e logo voltou ao ponto onde havia interrompido. – Os nossos ancestrais deram-nos de presente pelo amor que tinham por nós, pela confiança e certeza de que eramos capazes de conduzir os destinos da nossa gente num clima de paz e harmonia social. Por todas estas e outras razões eu, Mbalale, nkulungwa de kunambalale, discordo categoricamente qualquer presença nas nossas terras de qualquer povo com intenções de subjugar-nos.

Nkapoca ergueu-se assim que Mbalale acomodou-se tremendo de extrema velhice. Muito calmamente o ancião disse:

- Estou sem palavras! As palavras que havia reservado foram-me tiradas pelos ilustres que por aqui falaram de forma sábia. Assim, sem mais demora digo: como os brancos querem guerra, então guerra deverão ter. Eu estou disposto a sacrificar gente da minha povoação em número que se julgar conveniente... Esta terra é nossa e não concordo que sejamos arrancados sem mais e nem menos!

No entanto, muitos vakulungwa discursaram naquela manhã histórica e todos eram favoráveis à afronta ao inimigo. Nisto, Mbavala pediu a palavra e ergueu-se vagarosamente. De seguida, olhou aos seus compatriotas e de forma calma confessou:

- Estou extremamente admirado pela bravura de todos vós. – Baixou os olhos, levou uma mãos nas costas e continuou erguendo os olhos. – Contudo, confesso-vos que estou com medo. Esses homens brancos fizeram chacina na zona leste do nosso planalto tudo porque, os nossos irmãos se rebelaram. Se tais irmãos tivessem ponderado a sua capacidade, de ponto de vista de meios de combate, se calhar teriam agido de maneira diferente ao invés de se entregarem ao fogo como se tratasse de carne de canhão.

Houve um murmúrio ensurdecedor, mas logo o velho Mbavala soube refrea-lo usando a sua carismática diplomacia.

- Esses homens brancos trazem armas enormes que cospem fogo mortífero e uma infinidade de armas ligeiras extremamente potentes mais que as nossas de fabrico caseiro ou adquiridas junto dos comerciantes estrangeiros. Por isso, eu não gostaria de ver os nossos jovens a morrer por uma guerra possível de evitar.

Houve um grande protesto contra o discurso do ancião, chegando alguns a chama-lo abertamente de cobarde. Contudo, Mbavala, continuou:

- Pelo que ouvi do emissário, os brancos pretendem trazer outro dinamismo na nossa sociedade preservando as estruturas tradicionais, promovendo o convívio pluri-étnico, respeitando a natureza da nossa organização social e os diferentes valores humanos da nossa sociedade. O que não acho ser má ideia!

Mbavala calou-se. O gesto foi imitado pelos demais participantes do encontro. Depois, o velho prosseguiu o discurso procurando mostrar aos demais vakulungwa a sua visão pacifista.

- Por todas estas razões, eu Mbavala, sou de opinião que não afrontemos o inimigo através de uma guerra, mas sim deixemos que venha conviver connosco através de um processo contínuo de aprendizagem mútua e assim evitaremos o derramamento de sangue.

O velho sentou-se e o terreiro foi invadido por uma onda pacífica de protestos. Entretanto, Ntchingama pediu aos demais para que se mantessem calado e depois, em voz baixa e tom solene, como de costume, disse:

- O nosso irmão Mbavala pede-nos que aceitemos os brancos que veem, tudo para que a nossa zona mantenha a paz e harmonia social que sempre se caracterizou. Cá por mim, concordo plenamente com a visão e expectativa do nosso irmão. Pode ser que a maioria de nós esteja errado da forma como encaramos esta situação e também é normal que os nossos espiritos exaltem-se demasiadamente. Contudo, devemos reconhecer que o inimigo tem um poder bélico e militar mais do que nós. Assim sendo e, na minha opinião, qualquer tentativa de resposta por meio de guerra o nosso povo sairá em desvantagem, pois trata-se de uma situação que nenhum de nós preveu. – Fez uma pausa para ordenar o seu raciocínio e continuou. – Se formos a ver a nossa capacidade de resposta veremos que é extremamente insuficiente porque as nossas previsões não iam mais do que uma possível guerra com uma tribo distante e gente com recursos similares aos nossos. Analisando desta forma a situação, sou obrigado pela circunstância a concordar com o ponto de vista do nosso irmão Mbavala. Não à guerra! Vamos evitar o derramamento de sangue no seio do nosso povo. Vamos aceitar conviver com o estranho e no fim de tudo, independentemente das suas atitudes futuras, verão que sairemos a ganhar e as gerações futuras saberão compreender a nossa posição e valorizarão o nosso sacrifício.

Dito isto sentou-se. O terreiro ficou silencioso durante alguns segundos e as intervenções que seguiram subscreveram taxativamente à intervenção do Ntchingama. Assim, passado algum momento, a reunião chegou ao fim e os régulos voltaram às suas povoações.

Ao entardecer aquele dia, o céu ficou sinistro e rugiu, vezes sem conta, como se lá lançassem dezenas de tambores vazios. Trovoadas ensurdecedoras e relâmpagos aparentemente mortíferos coriscaram os céus emitindo faíscas assustadoras que formando alternadamente ângulos salientes e reentrantes acabavam se lançando rapidamente no coração da floresta. Este espectáculo natural cheio de luz e cores durou muito tempo até que ao principiar a noite uma chuva assustadora despenhou do céu ruidoso e luminoso. Choveu torrencialmente toda noite criando cursos de água que ameaçavam derrubar palhotas erguidas nos caminhos da água e as que tinham capim de cobertura reduzido. Ao alvorecer, a chuva parou e um belo dia nasceu com o céu azul e claro.

Uma semana depois, demanhã, o contingente militar português entrou no planalto makonde sem resistência e sob o olhar indiferente do Mbavala e apreciação curiosa dos aldeões. Naquela manhã calma e clara, o contingente militar marchou orgulhoso no meio da povoação exibindo, sobretudo, a sua superioridade militar e bélica e no coração da actual vila de Mueda, próximo da fonte Mweda, acampou içando de seguida a bandeira lusitana, numa acção clara de demonstração da mudança do curso da história do povo nativo.
- Allman Ndyoko, Moçambique, 04/03/2008

GLOSSÁRIO:
Lutandove – cama composta de base de estacas e atravessada com cordas tecidas com palha;
Karibo – Bem-vindo; Servido;
Kunambalale – Povoação de Mbalale;
Vakulungwa – O plural de nkulungwa.


Apontamentos do Tito Xavier: Ilha do Ibo - Igreja sem telhado



Clique na imagem para ampliar. Fotografia propriedade de Tito Lívio Esteves Xavier, oficial da P. S. P. reformado, piloto de aviões e helicópteros em Cabo Delgado e antigo presidente da Câmara Municipal de Porto Amélia, que faleceu recentemente em Lisboa, dia 27 de Outubro de 2009.

11/13/09

Ronda pela blogosfera: FLÁVIA VIVENDO EM COMA - Sem energia elétrica e a vida dependendo dela...

SEM ENERGIA ELÉTRICA. E A VIDA DEPENDENDO DELA - Dois dias após o Brasil ter ficado literalmente no escuro com o apagão de grandes proporções que, afetou, pelo menos, 18 de nossos estados, - 1.800 cidades - o noticiário ainda da ênfase ao gigantesco blecaute e provavelmente, neste fim de semana, este assunto será a capa das principais revistas semanais do país.


Quando morávamos em Moema e faltava energia elétrica, para ligar o aspirador absolutamente indispensável para aspirar as secreções que, devido a imobilidade, a toda hora se formam nos pulmões de Flavia, eu usava um aparelho No Break com capacidade para operar por 8 horas. Era um aparelho imenso e muito pesado aquele, mas do qual me utilizei até que nos mudamos para este apartamento onde passei a morar com meus filhos, e onde tem gerador, que diminui a dificuldade de cuidar de Flavia sem energia elétrica.

No prédio onde hoje moramos, no hall de serviço de cada andar existe uma tomada que fornece energia elétrica vinda do gerador. Quando a luz acaba como neste imenso blecaute da noite de terça para quarta-feira, eu me utilizo de uma longa extensão que vai do quarto de Flavia até o hall de serviço. Além de poder usar o aspirador de secreções, dá para ligar também uma ou outra luminária para evitar ter que cuidar de Flavia à luz de velas, como acontecia em Moema. Mas não posso deixar de pensar na aflição de pessoas que não contam com um gerador de energia elétrica para os cuidados essenciais de pessoas doentes. Em São Paulo, por exemplo, em um Hospital sem gerador de energia elétrica, um bebê teve que ser retirado da UTI às escuras.

Vi e ouvi ontem na TV o ministro Tarso Genro dizer que o apagão que deixou o país por horas nas trevas, teria sido um “microincidente dentro de conquistas extraordinárias durante sete anos na produção de energia”. Microincidente?! Não pensará assim quem depende de energia elétrica para cuidados essenciais, sem os quais , a vida fica por um fio.

Até o próximo post.

Ronda pela Imprensa do Douro: António Lobo Antunes e a escrita mentirosa



Custa-me encontrar um título apropriado à escrita de António Lobo Antunes que, podendo ganhar dinheiro com a profissão de médico, prefere a escrita para envergonhar os portugueses.


Talvez este início de crónica escandalize quem costume venerá-lo. Eu, por maior benevolência que para com ele queira usar não posso, nem devo. Por várias razões, algumas das quais vou enunciar. Porque não gosto de atirar a pedra e esconder a mão.


Este senhor foi mobilizado como médico, para a guerra do Ultramar. Nunca terá sabido manobrar uma G-3 ou mesmo uma Mauser. Certamente nem sequer chegou a conhecer a estrutura de um pelotão, de uma companhia, de um batalhão. Não era operacional mas bota-se a falar como quem pragueja. Refiro-me ao seu mais recente livro: Uma longa viagem com António Lobo Antunes. João Céu e Silva pode reclamar alguns méritos deste tipo de escrita. Foi o entrevistador e a forma como transpõe as conversas confere-lhe alguma energia e vontade de saber até onde o entrevistado é capaz de levar o leitor. Mas as ideias, as frases, os palavrões, os impropérios, as aldrabices - sim as aldrabices - são de Lobo Antunes.


Vejamos o que ele se lembrou de vomitar na página 391:
«Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois ou vinte e três anos que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».


Penso que isto que deixo transcrito da página 391 do seu referido livro, se vivêssemos num país civilizado e culto, com valores básicos a uma sociedade de mente sã e de justiça firme, bastaria para internar este «escriba», porque todo o livro é uma humilhação sistemática e nauseabunda, aos Combatentes Portugueses que prestaram serviço em qualquer palco de operações, além fronteiras. É um severo ataque à Instituição militar e uma infâmia aos comandantes de qualquer ramo das Forças Armadas, de qualquer estrutura hierárquica e de qualquer frente de combate. Isto que Lobo Antunes escreve e lhe permite arrecadar «350 contos por mês da editora» (p. 330), deveria ser motivo de uma averiguação pelo Ministério Público. Porque em democracia, não deve poder dizer-se tudo, só porque há liberdade para isso. Essa liberdade que Lobo Antunes usou para enriquecer à custa o marketing que os mass media repercutem, sem remoques, porque se trata de um médico com irmãos influentes na política, ofendeu um milhão de Combatentes, o Ministério da Defesa, uma juventude desprevenida, porque vai ler estes arrotos literários, na convicção de que foi assim que fez a Guerra, entre 1961 e 1974. E ofende, sobretudo, a alma da Portugalidade porque a «aldeia global» a que pertencemos vai pensar que isto se passou na vida real nos finais do século XX.


Fui combatente, em Angola, uns anos antes de Lobo Antunes. Também, como ele fui alferes miliciano (ranger). Estive numa zona muito mais perigosa do que ele: nos Dembos, com operações no Zemba, na Maria Fernanda, em Nuambuangongo, na Mata Sanga, na Pedra Verde, enfim, no coração da guerra. Nunca um militar, qualquer que fosse a sua graduação ou especialidade, atirou a matar. Essa linguagem dos pontos é pura ficção. E essa de fazer cordões com orelhas de preto, nem ao diabo lembraria. E pior do que tudo é a maldade com que escarrou no seu próprio batalhão que tinha seiscentos militares e registou centena e meia de baixas... Como se isto fosse crível!


Se o seu comandante que na altura deveria ser tenente-coronel, mais o segundo comandante, os capitães, os alferes, os sargentos e os soldados em geral, lerem estas aldrabices e não exigirem uma explicação pública, ficarão na história da guerra do Ultramar como protagonistas de um filme que de realidade não teve ponta por onde se lhe pegue.


Em primeiro lugar esta mentira pública atinge esses heróicos combatentes, tão sérios como todos os outros. Porque não há memória de um único Batalhão ter um décimo das baixas que Lobo Antunes atribui àquele de que ele próprio fez parte. É preciso ter lata para fazer afirmações tão graves sobre profissionais que para serem diferentes deste relatório patológico, basta terem a seu lado a Bandeira Portuguesa e terem jurado servi-la e servir a Pátria com honra, dignidade e humanismo. Não conheço nenhum desses seiscentos militares que acolheram António Lobo Antunes no seu seio e até trataram bem a sua mulher que lhes fez companhia, em pleno mato, segundo escreve nas páginas 249 e 250. Mereciam eles outro respeito e outros elogios. Porque insultos destes ouvimos e lemos muitos, no tempo do PREC. Mas falsidades tão obscenas, nem sequer foram ditas por Otelo Saraiva de Carvalho, quando mandou prender inocentes, com mandados de captura, em branco e até quando ameaçou meter-me e a tantos, no Campo Pequeno para a matança da Páscoa. Estas enormidades não matam o corpo, mas ferem de morte a alma da nossa Epopeia Nacional.
- Dr. Barroso da Fonte, Notícias do Douro, Peso da Régua, 13  de Novembro de 2009.


MWEDA


(Gravura fictícia formada por imagens livres recolhidas na net)

O dia estava de inverno, claro, frio e com um grande céu azul e luminoso. Mweda e Dimike, duas belas raparigas vamwanga, desciam alegres as encostas do lado sul do planalto dos makondes, falando do triste fim do Nangonga, um jovem caçador da linhagem milandje, que morrera há dias atrás na floresta de kundonde vitima de ataque de abelhas quando tentava retirar mel de uma colmeia. As raparigas caminhavam cuidadosamente, uma atrás da outra, seguindo um caminho íngreme e serpenteante que descia a encosta abaixo até a um conjunto de arbustos rodeados de um imenso tapete de verdura fresca, onde desde os tempos imemoráveis as mulheres vamwanga colhiam os saborosos ingumbuli e muaka para o consumo.

Ingumbuli e muaka eram verduras apreciadas pelos makondes antigos e eram muito abundantes na zona baixa do lado sul do planalto makonde, mercê às condições climáticas associadas à humidade oferecida pela natureza naquele recanto do planalto. Estas verduras eram cozidas, temperadas com o pó de amêndoa de frutos silvestre e salgadas com maka e, normalmente, eram acompanhadas com ugwali de farinha de mapira ou mexoeira produzida no planalto pelos aldeões.

Entretanto, as raparigas chegaram junto aos arbustos, embrenharam-se pela pequena mata à dentro e onde se achava muito ingumbuli e muaka pousaram no chão vitumba que cada uma trazia nas costas amarrada com capulana, como se de bebé se tratasse, e que pretendiam enche-las de água do rio Chudi ao regresso. Dimike afastou-se para um lado e Mweda para o outro, não muito distante uma da outra.

A mata estava silenciosa. Aqui e acolá à uma distância razoavelmente distante, ouvia-se aves a piarem nos ramos e no céu azulado andorinhas e outras aves batiam as asas livres e desinteressadas.

As raparigas começaram a colher as verduras em silêncio guardando, punhado por punhado, nas capulanas que haviam servido para amarrar vitumba nas costas. Passado algum momento, Mweda aproximou-se a uma pequena porção de terra, curiosamente, muito húmida. Afastou cuidadosamente a vegetação que crescia em volta e de súbito, uma pequena porção de água borbulhou rapidamente. Mweda assustou-se. Olhou desconfiada a água que brotava da terra e de seguida, gritou:

- Dimike, Dimike... venha ver este incrível milagre!

Dimike assustou-se. Deixou no chão a verdura que colhera e rapidamente precipitou-se para junto da Mweda que não parava de admirar o fenómeno que se manifestava.

- O que foi? – Quis saber Dimike assim que se encontrou junto da amiga.
- Olha para esta nascente! – Mweda sorriu olhando a interlocutora com orgulho próprio. – Não é incrível avistar esta maravilha nestas bandas desprovidas de água?
É... – Concordou Dimike ajoelhando-se maravilhada junto da nascente que ainda borbulhava sem parar.
- Vamos cavar. – Sugeriu Mweda colocando-se de côcora.
- Vamos, vamos.

As raparigas limparam em volta da nascente, cavaram um pequeno buraco que rapidamente foi coberto de água e no fim, encheram vitumba de água limpa e cristalina e de seguida, sairam dali para casa felizes e anciosas de dar a conhecer a toda gente da povoação a boa nova.

Quando chegaram a povoação, o sol estava ao meio do céu. A aldeia estava quase deserta e muitos dos seus aldeões haviam ido às machambas deixando no terreiro da povoação apenas uma dezena de escultores, ferreiros e outros artesãos atarefados nos seus afazeres e embalados numa boa e animadora conversa. Pelas ruelas da povoação pequenos grupos de crianças nuas, na sua maioria, e razoavelmente nutridas brincavam alegres dando vida a pacata povoação dos vamwanga de Kaudje. Pouco tempo depois, Dimike e Mweda chegaram a casa da vovó Nkanama, onde a última vivia, e sem perder o tempo as raparigas contaram tudo o que haviam presenciado na baixa sul do planalto.

No entanto, a noticia não tardou a espalhar-se pela povoação inteira de tal modo que, até ao entardecer daquele magnífico dia a notícia chegou a outras povoações vizinhas. Nisto, na manhã do dia seguinte, muito cedo, o nkulungwa Kaudje mandou homens da povoação para junto com as raparigas irem certificar-se da veracidade dos factos que no dia anterior haviam alimentado, de certa forma, as conversas dos aldeões. Ao chegarem no local indicado, os homens constataram o que as raparigas haviam narrado e maravilhados cavaram em volta da nascente por forma que a água formasse uma lagoa considerável, onde permitisse os aldeões desfrutarem da água sem complicações. Quando terminaram, alguns homens tomaram banho, encheram as cabaças de água e regressaram a povoação, onde perante o conselho dos anciãos confirmaram o que as raparigas haviam narrado. Por unanimidade, o conselho decidiu baptizar a fonte pelo nome de Mweda e os aldeões passaram a desfrutar da sua água limpa, pura e cristalina.

Contudo, como antigamente, entre os makondes, quem descobrisse algo extraordinário morria por forças estranhas, Mweda, como não podia deixar de ser, morreu dias depois! Todavia, o seu nome ficou marcado na memória do seu povo, quem em 1913, aquando do conhecimento e aproximação dos portugueses com os makondes, soube influenciar o colonizador de forma astuta a chamar o planalto dos makondes de Mueda, em memória à Mweda que em tempos muito distantes descobrira a nascente de água limpa, pura e cristalina nas encostas do lado sul do planalto.
- Allman Ndyoko, Moçambique, 13/02/2008

Glossário
VamwangaLinhagem de Mwanga que também era conhecido por régulo de todos makondes da sua linhagem.
Milandje – Alguém da linhagem milandje.
Kundonde Nas baixas do planalto.
Ingumbuli Verdura comestível, espécie espinafre.
Muaka Verdura também comestível quase com características de cacana muito abundante na região sul de Moçambique.
Vitumba Plural de cabaça em makonde, recipientes usados pelos makondes antigos e contem porâneos para conservar e transportas água.
Nkulungwa Ancião que automaticamente era régulo na denominação portuguesa.
MakaCinzas de espiga de milho antigamente usado pelos makondes para salgar os alimentos.
Ugwali Xima ou massa de farinha.


11/11/09

A SITUAÇÃO COLONIAL NAS ILHAS DE QUERIMBA OU DE CABO DELGADO - Senhorios, Mercadores e Escravos 2

(1742-1822)
Por Carlos Lopes Bento
(Continuação)

Os senhorios dispunham de um número variável de escravos, que podiam atingir as três centenas, de ambos os sexos, que se repartiam por escravos de cultura ou de subsistência, e escravos domésticos: os escravos de porta ou de quintal. Todos eles, normalmente, tinham um tratamento familiar. Excepcionalmente, por necessidades económicas do senhorio ou por mau comportamento, podiam tornar-se escravos de tráfico. Face às funções que desempenhavam, a renovação daqueles escravos fazia-se, preferencialmente, pelo processo de reprodução demográfica.

Entre os escravos domésticos, as escravas de quintal desempenhavam papel relevante não só como aias, mas também como preciosas auxiliares das donas, sinharas ou sás7, ilustres senhoras pertencentes à aristocracia local, a quem prestavam uma valiosa ajuda, tanto na satisfação dos seus caprichos e vaidades pessoais, como nos banquetes e convívios familiares. Nestas ocasiões, a ama vestia e enjoiava, ricamente, as suas dedicadas escravas que deste modo procuravam mostrar, publicamente, aos convivas, o status e a riqueza dos seus senhores.

Em 1820, após os saques dos sakalava8, terminados em 1817, as terras dos prazos estavam baldias e despovoadas e os senhorios sem possibilidades de as recuperar face ao crescente aumento do tráfico esclavagista e da sua internacionalização.

Os Portugueses encontraram nas Ilhas uma economia que tinha como base a policultura associada à criação de animais, a pesca e o comércio, acrescentando-se a estas actividades, entre outras artes, a tecelagem, a ourivesaria e a construção naval. Até ao século XVII as terras emprazadas produziam, abundantemente, milho, mapira, arroz, feijão, gergelim e cocos, cujos excedentes, embora escassos, serviam para abastecer a sempre carente Ilha de Moçambique. Para além deste produtos exportavam, para aquela Praça, cauri, âmbar, tartaruga, mauna, madeiras, marfim e escravos.

Com as invasões omanistas, no último quartel do séc. XVII, o desenvolvimento da colonização europeia no continente americano, a queda de Mombaça, em 1729, e a consequente perda do domínio português em territórios litorálicos situados a norte de Cabo Delgado, a presença francesa nas costas de Moçambique e os ataques desferidos contra o território, entre 1796 e 1817, por corsários franceses, por alguns chefados makhwa vizinhos e por invasores sakalava, vindos de Madagáscar, o sector primário entrava em crescente decadência e o modo de vida dos habitantes das Ilhas iria ser profundamente alterado, cada vez mais motivados para a actividade mercantil.

O aparecimento de frequentes crises alimentares no território, como resultado da interacção dos vários factores referenciados, seriam resolvidas pela agricultura suaíli praticada a norte de Cabo Delgado, com a ajuda dos denominados Mouros da Costa, que trocavam marfim e escravos por produtos alimentares, especialmente, gado bovino e arroz.

Para a abordagem aprofundada e sistemática das trocas comerciais foi necessário conhecer o quadro de trocas comerciais internacionais onde tal comércio estava inserido e os princípios económicos vigentes impostos pelas várias potências europeias aos territórios que dominavam. Para a sua concretização, começou-se, primeiro, por examinar como se processava a articulação dos estabelecimentos comerciais costeiros da África Oriental no complexo comercial do Oceano Indico, para depois se encontrar respostas, concretas e objectivas, para um significativo número de interrogações relacionadas com:

- as estratégias, políticas e meios de acção delineadas pelas autoridades portuguesas para se introduzirem no milenário sistema comercial índico e para enfrentarem a concorrência de Árabes, Suaílis e Indianos, nem sempre cooperante e pacífica;
- a funcionalidade das estruturas impostas para alcançar tais propósitos e das suas implicações sobre as realidades sócio-culturais inseridas no dito sistema comercial, particularmente, a das Ilhas e as das terras continentais que lhes ficam geograficamente mais próximas, então, sob o domínio de autoridades políticas independentes;
- os vários tipos de comércio em que as Ilhas estavam envolvidas - marítimo costeiro e com o interior -, e relativamente, a cada um deles, o enquadramento normativo, os circuitos, os comerciantes e outros agentes intervenientes comerciais, os produtos transaccionados, os processos de troca e os meios de pagamento utilizados.

À chegada das suas primeiras armadas à Índia, os Portugueses constataram, por um lado, estar a África e a Ásia, há muito, interligadas por um imbricada rede de relações comerciais servida por um conjunto de circuitos, principais e secundários, destinados a escoar, entre si, produtos de importação e de exportação. Por outro, verificaram a existência de um mercado costeiro pautado por um grande volume de trocas, servido por uma típica e multivariada navegação à vela, ritmada pelas monções, estações do ano e correntes marítimas, que assegurava os fluxos de mercadorias entre os dois continentes. Entre as principais rotas encontrava-se uma que ligava Cambaia e outros portos da Índia aos portos africanos de Mogadíshio, Mombaça, Melinde e Quiloa e uma outra que destes portos se dirigia para os portos de Aden, Zanzibar, Ilha de Moçambique, Angoxe e Sofala. Para além destas rotas existia uma rede de vias ou circuitos comerciais, de natureza secundária, onde se integravam os portos de escala do território, que serviam de base à navegação de cabotagem, essencial, à sobrevivência de centenas de povoações da costa leste de África.


Para defender os interesses da coroa portuguesa, ameaçados por outras potências coloniais europeias, em 1761, para além de reforçar a proibição do comércio a estrangeiros e se conceder a liberdade de comércio a todos os portugueses, Lisboa dá à Praça de Moçambique o estatuto de centro ou empório de todo o comércio, tanto o vindo da Ásia, como o proveniente da Europa e da América. Mas tais medidas não tiveram sucesso e levaram ao desenvolvimento de um sempre crescente comércio clandestino ou de contrabando.


As insistentes ordens para o Capitão das Ilhas, para que não se permitisse a entrada a navios estrangeiros na área da sua jurisdição, demonstram bem o significativo incremento do comércio clandestino e quanto era frágil a acção das autoridades portuguesas face às condições ecológicas existentes e aos importantes interesses dos vários intervenientes (moradores, árabes, mouros da costa e franceses e por vezes as próprias autoridades) envolvidos no complexo processo comercial, que teve como palco a parte norte do território moçambicano.


As fracas condições demográficas e a pouca eficácia das estruturas político-militares, administrativas e económico-financeiras, com que se defrontavam aquelas autoridades, conduziriam a um permanente confronto e conflito entre os agentes de duas estruturas comerciais distintas: uma, multi-secular, instalada e consolidada com as suas regras próprias, adequadas às diferentes condições ambientais e sócio-culturais e anterior ao século XVI; a outra, aquela que os responsáveis pela colonização portuguesa implantaram, com base nos circuitos existentes, impondo-lhe, contudo, algumas alterações que se relacionavam com a navegação, o pagamento de direitos aduaneiros, a restrição do número de intervenientes no processo comercial e a introdução de novos produtos.


As duas estruturas funcionariam em paralelo, cabendo à primeira o predomínio quase absoluto, sempre dominada pelos comerciantes árabes e suaílis/mouros da costa, a que se juntariam, no primeiro quartel do século XVIII, comerciantes franceses e ingleses. Os mercadores das Ilhas, onde se incluíam, por vezes, as principais autoridades civis e militares e alguns frades dominicanos, embora participassem, algumas vezes, na segunda, integravam a maioria do seu negócio no seio da primeira estrutura.


Entre todos agentes, caberia papel de relevo aos mercadores da Costa de Zanzibar e dos demais portos do norte, os denominados Mouros da Costa, que, apesar dos entraves colocados pela autoridades portuguesas, nunca deixariam de extrair das Ilhas e terras firmes, próximas do litoral e do interior, marfim, ouro e escravos, que, depois, através das principais cidades suaílis da costa leste de África, se integravam no comércio a longa distância.


Com a intensificação do tráfico esclavagista, verificada a partir da terceira década do século XVIII, no qual estavam envolvidos Árabes, Mouros da Costa, Franceses, Portugueses e Chefes africanos, acentuou-se a importância dos diversos portos, particularmente, os litorálicos desta parte norte do território de Moçambique, que continuaram a servir de entrepostos comerciais e de locais de descanso das tripulações, de elos de ligação entre o comércio marítimo - local, regional e de longo curso - e o comércio com o interior - local e a longa distância.


Através dessa rede de pequenos portos, aliás, seguros pela protecção que recebiam das ilhas adjacentes, passava toda a importação-exportação dos variados bens, de múltiplas proveniências e destinos. Além dos portos insulares da Querimba, Ibo e Matemo, merecem especial atenção os ancoradouros ou portos de Funzi, Mossimboa, Messano, Samouco, Quissanga, Arimba, Sito e Tari, situados nas terras firmes. De todos eles, as autoridades portuguesas, por falta de estruturas de apoio e de uma fiscalização efectiva e eficiente, apenas controlavam e com dificuldades, o porto do Ibo.

Do conjunto de homens de negócio que integrava esta vasta teia de relações comerciais, faziam parte os mercadores das Ilhas, cuja actividade se estendia à Macuana. As longas distâncias, as condições ecológicas adversas e as restrições na circulação de pessoas e bens impostas pelas autoridades políticas africanas de cada região, eram obstáculos a vencer por todos os que pretendiam mercadejar nas terras do sertão africano.

Estes mercadores, com a ajuda do seu prestígio social, proveniente da ascendência familiar e dos cargos que desempenhavam, sempre propiciadores de grandes benefícios materiais e sociais e aproveitando, ainda, a dupla herança cultural que eram portadores (afro-suaíli e europeia), conseguiam, através de alianças de parentesco e de clientela, introduzir-se, com alguma facilidade, no seio dos diferentes sistemas sócio-políticos e económicos, onde tinham necessidade de exercer a sua actividade, que, deste modo, se estendia até às terras do interior, servindo de elemento de ligação entre as sociedades costeiras e as sociedades africanas do interior. Este seu comportamento levou a permanentes situações de conflito com as autoridades portuguesas que não aceitavam de bom grado situações de ambiguidade: ser autoridade, civil ou militar e ao mesmo tempo prestar ajuda e negociar com mercadores estrangeiros que praticavam o contrabando (Árabes, Mouros da Costa e Franceses).


No comércio Ilhas/interior/Ilhas, que ganhou relevância com o crescente aumento da economia esclavagista, participavam os mouros da costa, os moradores do território, ajudados pelos adimos e escravos e os régulos independentes da Macuana, directamente ou através dos seus enviados.


Dado o significado das mercadorias - fazendas, armas, escravos, ouro e marfim -, que circulavam em tão vasto e diversificado espaço - na investigação levada a cabo procurou-se dar respostas a múltiplas e pertinentes interrogações: Quem eram os responsáveis pela circulação das mercadorias entre o litoral e o interior? Qual o papel de cada um dos agentes intervenientes no processo? Onde, com quem, o quê e como se trocava? Com que estruturas e meios e em que épocas do ano se realizavam as trocas? Por que processos se obtinham os produtos vindos do interior? Como procediam os comerciantes que do interior vinham comerciar no litoral? Pacificamente ou pela violência? Que problemas se colocavam, no processo, aos comerciantes que do litoral se dirigiam para o interior e tinham de atravessar territórios de formações políticas independentes do domínio português? Que soluções encontravam para os resolver? Qual a intervenção das autoridades portuguesas nas trocas comerciais com o interior? Que impacto tiveram estas trocas sobre as diferentes realidades sócio-culturais intervenientes no processo?


Era com a ajuda dos moradores negociantes e dos comerciantes mouros da costa e árabes que as mercadorias desembarcadas nos portos do território passavam às terras continentais adjacentes. Os Franceses estavam menos envolvidos nessa tarefa, limitando-se o seu comércio, quase exclusivamente, às povoações da costa, especialmente, às insulares.


Ao invés do que acontecia com os dois mais importantes e próximos - Moçambique e Quiloa -, os diferentes portos das Ilhas não eram servidos, directamente, por qualquer rota de comércio internacional a longa distância. A falta de uma estrutura de tal envergadura, comprovada pelos estudos realizados, até ao presente, sobre o comércio do interior da África Central e Oriental e o seu litoral, iria influenciar o modo de comerciar e o fluxo de mercadorias circulantes entre o litoral e o interior desta parte do território africano, balizados pelos rios Lúrio e o Rovuma.


Os vários agentes envolvidos no tráfico de homens procuravam, em primeiro lugar, obter o máximo de proveitos nos seus negócios, expectativas, que nem sempre eram concretizadas. Múltiplos factores, em interacção, pesavam sobre os resultados finais da actividade de cada mercador, destacando-se entre outros:

- o preço de compra dos escravos, que dependia das leis da oferta e da procura, do sexo, da idade, da sua etnia e do seu estado físico;
- as distâncias a percorrer entre os locais de compra e os locais de destino;
- as múltiplas dificuldades que se colocavam durante e ao longo desse percurso, nomeadamente, autorizações para se abrirem caminhos, fugas, roubos e outras violências;
- o tempo de demora nos portos a aguardar compradores; e
- a alimentação, vestuário e outros bens destinados a manter a vida, a saúde e o estado físico dos escravos, indispensáveis para valorizar a oferta na altura da sua venda nos portos de destino.


Chegado ao local do interior mais vantajoso, escolhido com todo o cuidado, o mercador contactava com o chefe da povoação e, em breve, começavam a chegar os vendedores com os seus escravos. Iniciava-se, então, um processo moroso com um exame minucioso da mercadoria relacionado com o sexo, a idade, cor da pele, defeitos e estado de saúde.


Salvo raras excepções, a escolha dos escravos ficava limitada a faixas etárias muito específicas, que deviam englobar, tão somente, indivíduos sadios, capazes de fornecer uma força de trabalho vigorosa e lucrativa.


Depois de observados, com todo o rigor, os escravos expostos no mercado, seguia-se o demorado negócio, muito fraseado, tipificado por padrões muito próprios, em que o tempo-horário tinha pouco ou nenhum significado económico. Concluída a transacção e depois de colocadas gargaleiras a quase todos os escravos, para evitar fugas, iniciava-se, por etapas diárias, a viagem de regresso a casa. Após aqui chegarem, recebiam cuidados especiais para melhorar os seu estado físico e serem vendidos por preços mais elevados. Os principais compradores destes escravos eram os comerciantes franceses que, quase sempre, clandestinamente, e em aberta colaboração com as autoridades locais, terão, entre 1742 e 1822, adquirido nos portos das Ilhas, em troca de arroz, patacas, armas e pólvora, para cima de 70 000 escravos, que terão transportado para as ilhas Maurícias, em cerca de 300 embarcações e pelos quais terão pago mais de um milhão de patacas. Estima-se, por outro lado, que os mercadores árabes e mouros da costa terão carregado, no mesmo período, nas 5 dezenas de pangaios ou dalos cerca de 500 escravos/ano, com destino à Ilha de Moçambique e aos portos índicos situados a norte e a leste de Cabo Delgado.


Os preços de cada escravo foram variáveis ao longo do tempo, dependendo não só das leis da oferta e da procura, mas também das categorias e das características dos escravos relacionadas com o sexo, a idade, a compleição física, a etnia, a religião e a ocupação. Até 1780, o custo de cada escravo adquirido para embarque oscilava entre os 24 e 100 cruzados, subindo depois para preços compreendidos entre os 100 e 300 cruzados. Um mercador podia comprar, no interior, um escravo "cafre" por 40 cruzados e depois vendê-lo, nas Ilhas, aos comerciantes franceses por 80 ou 90.


As patacas provenientes, sobretudo, das Maurícias dadas em troca de escravos não permaneciam, durante muito tempo, nas mãos dos mercadores do território, pois, com elas, compravam panos/fazendas e velório que vinham da Índia e produtos alimentares em Moçambique e aos Árabes e Mouros da Costa. Esta moeda metálica espanhola, que valia 6 cruzados, fazia parte de um sistema triangular que englobava as Maurícias( Maurícia e Reunião), os portos de escala Ilhas que exportavam escravos, cauri e marfim e a Índia( Bengala, Surrate, Goa Damão e Diu) donde provinham as fazendas sortidas, o velório sorteado de várias cores e outras bugigangas, com as quais se trocavam escravos, ouro e marfim, nas terras do interior.


O crescente aumento do tráfico esclavagista, em que os chefes africanos tiveram papel preponderante, esteve na génese de algumas pequenas chefados ou chefaturas, sediadas nas terras firmes próximas dos prazos do coroa estabelecidos entre o rio Rovuma e a grandiosa baía de Pemba, como os de Maroro, Mutuga, Malela e Marihé. E mais para o interior o de Mugabo. Os seus chefes controlavam comerciantes e fazendas, marfim e armas, além de outros bens de prestígio, que circulavam pelas terras da sua jurisdição.


Para apoiar os seus desígnios coloniais e a defender os seus interesses económicos ameaçados por mercadores estranhos às Ilhas, as autoridades portuguesas criaram várias estruturas político-administrativas:

- uma capitania-mor e a nomeação regular dos seus titulares;
- o reforço da guarnição militar;
- um corpo auxiliar de milícias;
- três fortificações militares: S José, S.João Baptista e Santo António;
- um corpo de autoridades administrativas auxiliares; e
- uma vila com câmara e tribunal.


As novas estruturas contribuiriam, especialmente, para fortalecer o prestígio e o poder da elite local, cujos membros, a partir do último quartel do séc. XVIII, passariam a intervir, mais activamente, nos diversos domínios da administração colonial, ocupando os seus mais elevados cargos.


Estas novas formas organizativas vieram acentuar a clivagem social existente na situação colonial entre as diversas categorias de indivíduos. Neste processo de diferenciação social, um pequeno grupo de habitantes, que podemos denominar de elite - a maior parte deles filhos da terra -, cada vez com mais poder social e político, passou a monopolizar as recompensas ou vantagens que a situação colonial oferecia, ficando a restante população maioritária delas carente.


Na parte inferior da pirâmide social encontravam-se os escravos, seguindo-se-lhes, em plano superior, os colonos, designadamente, os adimos que estavam ligados à exploração da terra, mas dependentes dos foreiros. Vinham depois os artesãos, os pequenos mercadores, os empregados civis e militares das categorias mais baixas da cadeia hierárquica e as autoridades mouriscas e os dignatários islâmicos. A um nível mais alto estavam situados os médios e grandes comerciantes, os oficiais inferiores da Guarnição Militar, oficiais do Regimento de Milícias menos graduados, sargentos-mores e escrivães da Feitoria e da Câmara. De imediato os oficiais superiores com menos graduação e oficiais do Regimento de Milícias mais graduados e foreiros sem outros desempenhos, e oficiais da Câmara. Nas posições seguintes estavam situados os capitães-mores das terras firmes, os foreiros que simultaneamente desempenhavam funções de oficiais superiores do referido Regimento, os oficiais mais graduados da Guarnição, o feitor, o juiz e presidente da Câmara e o mestre de campo. E, finalmente, no topo da pirâmide social encontrava-se o Governador, símbolo da soberania real e do domínio português nas Ilhas.


A implantação de novas estruturas político-administrativas destinada a consolidar o domínio colonial português geraria, aqui e ali, situações conflituosas de alguma gravidade e agravaria as relações entre os detentores do poder político e as autoridades religiosas- os frades Dominicanos -, encarregadas da missionação do território. Os conflitos de jurisdição eram frequentes e alguns frades, pelas suas práticas desviantes, tornaram-se indesejáveis no território.


As autoridades coloniais portuguesas também tiveram que se confrontar com as rebeldias, desobediências e "alevantamentos" dos filhos da terra, designadamente foreiros e mercadores, que reconheciam a autoridade dos governadores e dos seus auxiliares, apenas nos casos em que as suas ordens não contrariassem os seus negócios e interesses.


Mas situação colonial, não só teve de enfrentar os vários problemas de natureza interna, como também outros de natureza externa consubstanciados nos ataques desferidos contra o território e sua população pelos corsários franceses, pelos vizinhos Makhwa e pelos invasores Sakalava de Madagáscar.


Pelo seu impacto interno e externo, são de salientar os prejuízos humanos, morais e materiais causados pelos Sakalava que atingiram uma dimensão muito difícil de calcular. Segundo dados das fontes documentais portuguesas admite-se que entre 1500 e 2000 pessoas (livres e escravas), terão sido feitas prisioneiras e embarcadas para Madagáscar. Os animais domésticos - gado bovino e caprino - roubado terá atingido os dois milhares e os mantimentos centenas de toneladas.


A presença intercalada dos Sakalava, durante cerca de 17 anos, teve fortes implicações na demografia, cultura, organização social e economia do território, especialmente, no sector primário e no relacionamento, quer entre os seus diferentes grupos étnicos , quer com as várias autoridades suaílis das Ilhas índicas suas vizinhas e as autoridades Makhwa das terras firmes, que, algumas vezes, puseram de lado, as suas rebeldias e desobediências e, momentaneamente, cooperaram com as autoridades portuguesas.

As incursões malgaxes vieram realçar as contradições existentes no seio da situação colonial, destacar as forças antagónicas que se agitavam no seu interior e as dificuldades sentidas pelas autoridades portuguesas para imporem o seu poder político-administrativo e económico e para fazerem cumprir, por parte da sociedade civil, as suas normas.

Terminados os ditos conflitos armados, que causaram profundas alterações na estrutura e no funcionamento das instituições coloniais, a situação no território caracterizava-se, em 1822, por:

- uma fraca densidade populacional;
- uma distribuição espacial irregular da população, concentrada especialmente na ilha do Ibo;
- uma economia que assentava basicamente no comércio clandestino de escravos e de produtos alimentares dominado pelos Mouros da Costa, que a partir da saída dos Franceses de cena e da paralisação parcial da rede administrativa colonial do território, passariam a controlar toda a actividade comercial e a difundir os seus valores religiosos com grande à vontade entre as populações das terras contactadas, tanto do litoral como do interior.

A natureza insular do território, factor mais de repulsão do que de atracção e de desenvolvimento, as fracas possibilidades de sobrevivência - assentes basicamente no comércio - e a falta de horizontes e perspectivas futuras, levariam ao êxodo dos filhos da terra menos aventureiros e com mais posses económicas. Ao longo do tempo foram, com as famílias, abandonando as suas terras, fixando-se em locais mais seguros e promissores, como a ilha de Moçambique, outras vilas da Capitania-Geral, a Índia e o Reino. Os mais ousados e menos afortunados ficaram e continuaram a ajudar os Portugueses a permanecer e a perpetuar o seu domínio colonial, graças a uma política concreta, espontânea, de miscigenação, adaptação, integração e convívio pluri-étnico, respeitadora dos diferentes valores humanos das sociedades afectadas pelo fenómeno da colonização.

O estudo realizado vem confirmar que as políticas de contemporização, acomodação, coabitação e miscigenação, postas em prática, mais do que o resultado de acções planeadas pelo poder político colonial, constituíram uma superior adaptação ao meio, uma criação original de solidariedade comunitária, um produto da necessidade de sobrevivência e resolução, em comum, dos problemas que enfrentavam colonizadores e colonizados, embora os antagonismos e os conflitos dos respectivos interesses. Concretamente, a prática conjugada de tais políticas teve como resultado a manutenção da situação colonial, mesmo nos períodos mais críticos, designadamente durante os golpes desferidos do exterior, a qual, a partir do 2º quartel do século XVIII, iria servir de suporte ao intenso tráfico esclavagista que se desenvolveu em Moçambique e em toda a costa índica de África, no qual as Ilhas e terras firmas e os seus moradores tiveram uma participação muito activa.

Durante os cerca de 80 anos, tal o tempo que abarca a tese apresentada, continuou, embora mais atenuadamente, relativamente a períodos anteriores, o processo de interpenetração e de síntese das culturas em presença (suaíli, mwani, makhwa, makonde, yao, portuguesa e francesa), com trocas recíprocas entre elas, embora menos profundas em relação à cultura europeia/portuguesa.

A concretização do projecto de investigação levado a cabo vem confirmar, por um lado, as potencialidades e a fecundidade da informação oferecida pela documentação escrita, quando articulada com os dados recolhidos directamente no terreno sempre que se pretende compreender e interpretar, em termos de processos ecológicos e sócio-antropológicos, o sentido dos factos sociais de um determinado período histórico e a riqueza, diversidade e o significado da vida humana em diferentes contextos e as suas vicissitudes temporais e espaciais. Por outro lado, realça, apesar das diferenças sócio-culturais, económicas e religiosas existentes, e das situações de conflito e de violência, por vezes geradas em tais situações, o convívio, a solidariedade e a coabitação, no mesmo espaço, entre os membros dos diversos grupos étnicos, com modos de vida e credos religiosos diferenciados e até antagónicos, que integravam a realidade humana, constituída pelas Ilhas e terras adjacentes.

Finalmente, o estudo concretizado, para além do contributo que possa representar para o aprofundamento do conhecimento sobre estas formas específicas de vida em comum e as inter-relações que se estabeleceram entre a África e a Europa e o papel que neles teve o Oceano Indico, constitui uma preciosa achega não só para desmistificar as ideias-fantasma relacionadas com os processos de colonização e descolonização, como também para ultrapassar o sentimento de culpa ainda persistente entre os europeus relativamente aos seus antigos domínios coloniais, ideias que em nada ajudam o novo relacionamento entre as antigas metrópoles e os novos países independentes libertados da situação colonial.

7 -Mulheres mestiças da elite local, de rara beleza, ficando conhecidas por brancas do Ibo. Para mais pormenores vidé BENTO, op, cit. p. 77.

8 - Povos de Madagascar que, entre 1800 e 1817, saquearam, por várias vezes o território.Ver BENTO, op. cit. II Vol. pp 592 e seguintes que faz uma análise profunda sobre as várias invasões e sobre as suas implicações na situação colonial.

9 -BENTO, op.cit. p.575 e segts, Vol II.