3/16/11

AS BOLINHAS

A praia está, ainda, praticamente deserta. É uma manhã limpa com um sol já acariciante e uma saborosa envolvência de maresia. Aqui também há classes: de um lado, a área concessionada; do outro, a zona dos chapéus de sol. Na primeira, estão montadas as sombrinhas com as cadeiras reclináveis alugadas por bom dinheiro; na segunda, o preço é o carrego que cada um está disposto a transportar. Escolho, nesta, um espaço que não tenha de alterar pela preia-mar, espeto o guarda-sol, espalho as toalhas a delimitar território, liberto-me dos chinelos e da camisa. Vou até à orla, viro-lhe as costas, de frente para os prédios gigantes que se erguem como insultos de ganância, e comprazo-me com a babugem da ligeira ondulação a lamber-me os pés. As construções tipo legos, de traça usurária e sem decoro, são depósitos de corpos que aqui fazem a vingança quinzenal dos nevoeiros e das nortadas; alguém lhe chamaria arquitectura dos trezentos para dar lucros de boutique de shopping.

Lentamente, o areal vai-se enchendo. Uns, arrastando sobejos de sono, estendem-se, imediatamente, como sardões mal despertados; outros, esbaforidos pelo peso das tralhas, limpam o suor e, antes de se acomodarem, distribuem tabefes pela rezinguice infantil. Há de tudo: burlescos com óculos de esquiador, tias das revistas com panons transparentes e cosméticas burundangas, maternidades deliciosas que a tudo acodem sem um azedume, cabelos brancos que ainda não desistiram de usufruir a vida e transmiti-la à descendência, leitores de escrita light e de jornais desportivos, utilizadores de telemóveis com ares de executivos imprescindíveis ou de empresários sempre a facturar, gordas sem vergonha de libertarem as coxas e opostas de linhas geométricas limpando as areias como se fossem formigas.

Num súbito, a vizinhança da minha toalha inquieta-se: soerguem, uns, os cachaços do areal, despertam, outros, para uma montra apelativa, sorriem, elas, num jeito de brejeirice a dissolver o desdém, lançam, os mais entradotes, olhares nostálgicos. A aparição justificava o sobressalto. Há mulheres tão espectaculares que chegam a ser uma ofensa à inteligência: alta, sem exageros basquetebolísticos, cabelos longos, cor de libra Vitória, espalhados e deslizantes pelos ombros como sedalina, óculos de voleibol de praia numas faces trigueiras decoradas por duas argolas ciganas, busto voluntarioso de mamilos agulheados e defendidos por uma t-shirt justa que descia até a meio das coxas torneadas a fazer de mini-saia generosa, fita vermelha no tornozelo esquerdo que lhe dava uma ar jamaicano de prospecto turístico. O seu acompanhante, de paciência na cara e peso nas mãos, arvorava uma docilidade canina, ornamentado com um bordão no peito e um relógio todo o terreno. Enquanto ela ajeitava, a tiracolo, uma carteira tipo saco de flores tropicais, ele transportava um guarda-sol, duas cadeiras e uma bolsa de lona que lhe deve ter restado da guerra colonial. A beldade esticou uma enorme toalha rosa estampada com palmeiras, sentou-se, atirou, num desafio, a cabeça para trás, retirou os óculos (os olhos cintilaram esverdeados), passou os indicadores metódicos pelas sobrancelhas, tirou a t-shirt, e os seios, como molas, estremeceram de liberdade, numa provocação ao redondel, até se deterem firmes como dois ponteagudos marmelos. «Quem me dera ser bebé!», disse uma voz, «Cala-te, palhaço!», respondeu outra. O homem, depois de arranjado o poiso, pegou no tubo do creme e, num silêncio ruminante, começou a untá-la. Ela não falava, só lhe indicava com as mãos os locais onde queria o creme: mais nos ombros e nas costas. A cara, os mamilos, os braços e as pernas foi trabalho dela, em pormenor demorado. Terminado este, ergueu-se e foi até junto da ondulação lavar as mãos na areia. O seu andar era sensual como o corpo, com tudo no sítio, sem um acrescento ou uma diminuição, um fio dental a relevar umas nádegas afoitas e seguras, a respirar sexo por todos os poros. Tinha, todavia, um aspecto de súcuba, olhar esguelhado, que acompanhava sempre com um maneio da cabeça e das mãos a fingir que tirava as madeixas dos olhos. Fumava desalmadamente, soprando, pelo canto da boca, o fumo para cima, num trejeito de rufia de esquina, retirando as areias das pernas como se catasse piolhos. Estendida, de cigarro entre os dedos, puxou o guarda-sol para lhe aumentar a sombra e retirá-la ao acompanhante que continuou impávido diante das notícias da Bola.

Ao longe, por entre o amontoado humano, nascem os pregões dos vendedores ambulantes. Trazem, em cada braço, caixas de pasteis que propalam consoante a força das suas gargantas e o seu engenho publicitário. Uns, são incisivos: «Bolinhas!»; outros, mais enfeitados: «Boliiiiiinhaaaas!»; ainda outros, mais secos: «Boli!»; e os que soletram: «Há bolinhas com creme e sem creme! Há pasteis de amêndoa!» Os rapazes, ao chamamento, pousam os caixotes e distribuem bolinhas a torto e a direito a cem escudos cada uma. O calor vai apertando. As pessoas renovam unturas, passam os jornais a pente fino, também há quem leia Cem Anos de Solidão, estudantes preparam a segunda chamada, senhoras relaxam a fazer renda, discutem-se os milhões das transferências futebolísticas, arrematam-se as últimas amêijoas junto dos barcos dos pescadores.

Um Cabo de Mar e um Polícia, num roldão de apitos e vozes alteradas, investem pela praia num despropósito que confunde toda a habitualidade. Os banhistas espantam-se, pegam nas toalhas e interrogam-se, olham para o mar a ver se alguém está em dificuldade, o que será e não será, até se perceber, depois, que perseguem um vendedor em qualquer ilegalidade. Um dos cívicos, passo ligeiro, lança: «Àquele já lhe vou tirar as bolinhas!» Uma senhora, que fazia malha há uma eternidade e queria os netos sempre à sua volta, levantou-se da sua cadeirinha picada por um alfinete, deixou cair os óculos, e exclamou anelante: «Ó Senhor Guarda! O Senhor tem coragem de tirar as bolinhas ao rapazinho?!» O Senhor Guarda olhou-a, riu-se bondoso e prosseguiu o seu caminho, deixando um magote de risos encolhidos. A Avozinha fulminou-os, atrapalhou um sorriso atenuante, sentou-se, retomou a malha e afivelou a cara da boa fé injustiçada, enquanto a aparição, de mamas ao léu, levantava a juba e desenhava um trejeito malhadiço a lembrar uma preguiça sardónica.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória". O livro "O Lagar da Memória" foi apresentado  dia 12 de Março último na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia . Informações para compra aqui.
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustratrativa acima, recolhida da internet livre é composta/editada em Adobe Photoshop e PhotoScape e poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

3/14/11

Moçambique - HISTÓRIA - Criação da Comissão de Turismo no Ibo

Criação da Comissão de Turismo no Ibo

Por Carlos Lopes Bento
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)

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Outros trabalhos do Dr. Carlos Lopes Bento neste blogue !

3/13/11

Glória de Sant'Anna será lida no Brasil.


""Gloria de Sant'Anna é, segundo Ana Mafalda Leite, a voz feminina da literatura moçambicana. Ela começou a escrever nos anos 60 e morreu recentemente. “Ela tem uma obra diversificada, sofreu influência de autores brasileiros como Cecília Meireles, e transita entre o bucolismo e a poesia local”. Já Luís Carlos Patraquim é uma voz representativa e é o único vivo entre os quatro. Querem trazê-lo ao Brasil em abril de 2011.""

 

Transcrição:

Poesia moçambicana começa a chegar ao Brasil:

UFMG lança coleção com poemas e poetas inéditos.
Levou tempo, mas a prosa moçambicana conseguiu sair dos círculos acadêmicos e já conquistou alguns fãs no Brasil. Mia Couto é o melhor exemplo disso. Ele tem 9 livros publicados pela Companhia das Letras e outro infantil pela Língua Geral, e é presença constante nos eventos literários realizados país afora. Agora, a Editora UFMG quer fazer o mesmo com a poesia, esta sim inédita para a maior parte dos brasileiros. Pensando nisso, acaba de lançar, com organização da portuguesa Ana Mafalda Leite e do brasileiro Wander Melo Miranda, a Coleção Poetas de Moçambique. Os dois primeiros títulos trazem poemas de Rui Knopfli (1932-1997) e de José Craveirinha (1922-2004), e outros dois, com textos de Glória de Sant’anna e Luís Carlos Patraquim, chegam ao mercado no ano que vem. A coleção foi apresentada no Fórum das Letras de Ouro Preto por Roberto Said, vice-diretor da Editora UFMG.
 
O caminho vai ser árduo, mas isso não desanima a editora. “O leitor de poesia é sempre um clã clandestino e essa coleção é dedicada aos bons leitores de poesia. É uma tentativa de trazer ao país um pouco da poesia feita na terra de romancistas já consagrados, mas de poetas inéditos”, disse Roberto Said, que pretende, com o tempo, ampliar a coleção. “Nossa ideia é trabalhar com a literatura africana em língua portuguesa e há potencial aberto para fazer o mesmo com os poetas de Angola”.
 
Para Ana Mafalda Leite, professora e pesquisadora de literatura africana de língua portuguesa, a literatura é feita de romance e de poesia e a poesia moçambicana é de uma enorme qualidade. “É um pouco dramático ver que só o romance moçambicano tem um leitor, e o que essa editora está fazendo é um enorme trabalho em prol da literatura africana”, disse.
 
A ideia dessa coleção nasceu de um encontro com o também professor Wander Melo Miranda, da UFMG, em 2006, e porque era escassa a bibliografia para adoção em sala de aula. “O estudo da literatura africana está crescendo nas universidades brasileiras e ter matéria-prima é primordial”, comentou Ana.
 
Roberto Said disse que pretende promover lançamentos em Portugal e em Moçambique, que provavelmente serão realizados durante algum seminário preparado especialmente para apresentar as novas obras.
 
 
Autores
Rui Knopfli e José Craveirinha (1922-2004) são os fundadores da poesia moderna africana e nada mais justo que a escolha dos dois nomes para o lançamento da coleção. “Craveirinha é mais nativista e Knopfli, mais universal. Eles são os dois maiores marcos da poesia moçambicana”, comentou a Ana Mafalfa Leite.
 
Gloria de Sant'Anna é, segundo Ana Mafalda Leite, a voz feminina da literatura moçambicana. Ela começou a escrever nos anos 60 e morreu recentemente. “Ela tem uma obra diversificada, sofreu influência de autores brasileiros como Cecília Meireles, e transita entre o bucolismo e a poesia local”. Já Luís Carlos Patraquim é uma voz representativa e é o único vivo entre os quatro. Querem trazê-lo ao Brasil em abril de 2011.""
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Glória de Sant'Anna - a poetisa do mar azul de PEMBA no Forever PEMBA

3/11/11

LAGAR DA MEMÓRIA de M. Nogueira Borges - CONVITE para 12 de Março

As páginas que se seguem são recolhas de alguns anos de vida guardadas no Lagar da (minha) Memória. Nasceram, como as uvas da PÁTRIA DURIENSE, de cepas de várias castas, idades e lugares. Umas têm o benefício da Região Demarcada, outras, os transcursos citadinos e africanos. Nenhuma delas rejeito: nem a doçura amadurecida, nem o amargo fora de época. (in “Apresentação”).

É a vida do Douro, as vidas à volta das vinhas e dos campos, dos fraguedos e dos socalcos, um cheiro a lagar ubérrimo e escravizante que salpicam o leitor ainda fiel às águas de uma pátria sempre rude para aqueles que não a foram abandonando. Tal como o autor.

 LAGAR DA MEMÓRIA de M. Nogueira Borges
CONVITE

A Mosaico de Palavras Editora tem a honra de convidar V. Exª e Família a assistir à apresentação da obra LAGAR DA MEMÓRIA, de M. NOGUEIRA BORGES, que irá decorrer no próximo dia 12 de Março (Sábado), pelas 15 h, na Casa-Museu Teixeira Lopes, 32, Vila Nova de Gaia (perto da Câmara Municipal de Gaia). Apresenta a obra o Dr. Armando Figueiredo.
(Clique nas imagens para ampliar)
Alguns trechos do "Lagar da Memória" transcritos no Escritos do Douro.


Pedidos/compra poderão ser feitos desde já diretamente à editora MOSAICO DE PALAVRAS, via net (http://mosaico-de-palavras.pt/product.php?id_product=101) ou através de Elvira Santos - geral@mosaicodepalavras.com com pagamento por transferência bancaria, ou ainda por meio de envio à cobrança.
Preço - 15,00€.
MOSAICO DE PALAVRAS EDITORA, LDA
RUA COMENDADOR ANTÓNIO AUGUSTO SILVA, 127 - R/C, 4435-191 RIO TINTO -PORTUGAL.
Telefone fixo - 224801761; Telefone móvel – 963678534

2/26/11

CONTRA A CORRENTE

Pega de caras o teu desencanto,
Toureia-o no redondel da multidão,
Numa qualquer praça, num qualquer canto,
E não autorizes que te ponham a mão.
Não vendas a tua palavra
Nem a tua verdade
Nem o teu amor.
Vale mais, quando morreres,
Teres o aceno de uma flor
Do que um coro de fingidores.
Podes contar os tostões,
Uma vida inteira que seja,
Podes contar as traições,
Venham de onde menos se deseja,
Podem-te vencer,
Naturalmente,
Podem-te roubar,
Cobardemente,
Mas não te podem prender
Nem convencer
A ficares calado,
Humilhado.

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória". O livro "O Lagar da Memória" será apresentado  no próximo dia 12 de Março (Sábado), pelas 15 h, na Casa-Museu Teixeira Lopes, 32, Vila Nova de Gaia (perto da Câmara Municipal de Gaia). Convite e informações aqui.
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustratrativa acima, recolhida da internet livre é composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

2/20/11

LAGAR DA MEMÓRIA de M. Nogueira Borges

Apresentação do livro LAGAR DA MEMÓRIA de M. Nogueira Borges
CONVITE
A Mosaico de Palavras Editora tem a honra de convidar V. Exª e Família a assistir à apresentação da obra LAGAR DA MEMÓRIA, de M. NOGUEIRA BORGES, que irá decorrer no próximo dia 12 de Março (Sábado), pelas 15 h, na Casa-Museu Teixeira Lopes, 32, Vila Nova de Gaia (perto da Câmara Municipal de Gaia). Apresenta a obra o Dr. Armando Figueiredo.
(Clique nas imagens para ampliar)
Alguns trechos do "Lagar da Memória" transcritos no ForEver PEMBA.
MOSAICO DE PALAVRAS EDITORA, LDA
RUA COMENDADOR ANTÓNIO AUGUSTO SILVA, 127 - R/C, 4435-191 RIO TINTO -PORTUGAL. Telefone fixo - 224801761; Telefone móvel – 963678534
QUALQUER FORMA DE CONTACTO A RESPEITO DO “LAGAR DA MEMÓRIA” E SEU AUTOR  PODERÁ SER FEITO ATRAVÉS DE D. ELVIRA SANTOS.

2/13/11

Tambo Tambulani Tambo 2011 - Educating through Art

Tambo Tambulani Tambo
Educating through Art
Acontecerá de 11 de Julho a 18 de Julho 2011
em PEMBA - Cabo Delgado - Moçambique.
(Will be held from July 11 to July 18, 2011,
Pemba - Cabo Delgado - Mozambique)
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7 dias de possibilidades únicas onde sentirá a multicultura moçambicana através da arte e tradições dos povos de Pemba, em Cabo Delgado/Moçambique.
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Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler:
Convite - versão em português:
Tambo Campo Internacional de Arte Pemba - Moçambique
Convite - versão em inglês:
Tambo Campo Internacional de Arte Pemba - Moçambique
Tambo Tambulani Tambo - Educating through Art
Tambo International Art Camp and Festival Tambo “Celebrando a Diversidade Cultural”- Nanhimbe-Pemba, Mozambique (versão 2010):
Tambo Tambulani Tambo - Educating through Art
Tambo Tambulani Tambo foi fundado em 1995 em Pemba.
Contatos e informações:
Telefones - 258 82 66 13 400 / 82 46 80 289 - cel. 82 66 13 400
Portal - www.tambo.nl
E. mail - tambotambulanitambo@yahoo.com
E. mail - tambulanimoz@gmail.com
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Post's deste blogue referindo edições anteriores:
Video do evento em 2009:
(Para escutar sem interferência os sons locais do evento, desligue, no final desta página do blogue, o player da "LM Rádio")

    2/12/11

    OS FRONTEIRÓMETROS - 3


    OS FRONTEIRÓMETROS - 1
    OS FRONTEIRÓMETROS - 2
    Continuação:

    Os risos encolhidos explodiram como champanhe, mas logo o Boaventura cortou:

    - Ó pá vocês não se riam nem saiam da sala, porra! Se os tipos vêem a malta a rir-se fode-se tudo!

    Pouco depois, tal uma carga de cavalaria, ouviu-se um tropel de botas a descer.

    - Lá vêm as cavalgaduras! – disse o Bandeira.
    - Formem em fila! - mandou o Boaventura. – Para começo – olhando o relógio – não está mal! Atendendo a isso, não há flexões para ninguém. Vamos, então, dar início à vossa prova de aptidão. O nosso Aspirante Ornelas é o encarregado de orientar o primeiro teste.

    Este, armado da cara mais séria que pôde arranjar, plantou-se diante deles:

    - Atenção! Firme! Sé...ópe! Dá licença, meu Tenente? – fazendo tremer o braço numa continência espectacular.
    - Pode mandar! No fim da aula apresentem-se neste mesmo local – ordenou o Boaventura.
    - Esquerda... vooolver! Passo de corrida, em frente... marche!

    Passados uns minutos, o grupo abandonou a sala, atravessou a Parada e foi assistir à sessão, disfarçado no morro sobranceiro ao campo de obstáculos, atrás de um renque arbustivo, num esforço incrível para recolher os risos com os lábios e as mãos. O Ornelas parecia que estava a dar instrução ao seu pelotão: mandou-os correr em círculo, intervalando com flexões em frente, abdominais e saltos de canguru, rastejar sob o arame farpado, saltar a vala, a paliçada e o galho, subir às cordas, ficando de fora o pórtico. Tudo num silêncio só entrecortado pelo farfalhar dos corpos e a voz autoritária daquele. Uns soldados que passavam, estranhos pelo que ouviam àquela hora, aproximavam-se curiosos, mas, sobressaltados, viram o Bandeira a afastá-los. Suados, cheios de terra e a bufar, troaram no átrio. Alguns tinham o ar de quem não cria no que lhes estava a acontecer.

    - Então, nossos fronteiros, gostaram da instrução que o nosso Aspirante vos deu? Sim ou não?
    - Sim, meu Tenente...
    - Mais alto! Sim ou não?
    - Siiim, meu Tenente!
    - Porra!, parece que estão a morrer... Um caçador especial grita sempre alto, com genica e alegria! GOSTARAM OU NÃO?!
    - SIIIIMMM, MEU TENENTE!!!
    - Óptimo! Muito bem! Gosto de vos ver felizes... Nosso Aspirante Alves dê um passo em frente. Vou-lhe dar – entregando-a - uma ordem de patrulha que todos devem cumprir sem uma falha. Tem anexado um croqui para não haver dúvidas acerca do vosso objectivo. Nem precisam de bússola... Quero avisá-los de que até à Casa Amarela, onde se acoita o inimigo, temos informações de que há bandos terroristas dispersos que vos podem surpreender. Agora vão à Companhia da Formação, onde, na Caserna 8, o Cabo quarteleiro já está avisado para vos fornecer uma FBP a cada um. Bem vão precisar delas... Podem ir e, nunca antes nem nunca depois da meia noite, devem-se apresentar com a missão cumprida. Na Porta de Armas já estão avisados da vossa missão, o nosso Aspirante Alves só tem que comunicar ao nosso Sargento da Guarda. Sigam...

    Depois daqueles transporem os portões, uns deixaram-se ficar, entretidos com a televisão, a leitura, o bilhar ou a sueca, alguns foram ao Cinema e o João, o Altino e o Ãngelo, passada uma boa hora, meteram-se no carro para irem ver o movimento dos praxados, passando-os quando eles se encontravam a conversar, sentados nuns pinocos longe, ainda, da Casa Amarela...

    Quando a patrulha regressou, à hora indicada, mais minuto menos minuto, já todos estavam a postos, ansiosos pelo bródio que se seguiria.

    - Então nosso Aspirante, como decorreu a operação? – interrogou o Boaventura.
    - Meu Tenente, mal saímos do Quartel, logo a seguir à curva do muro, como ouvimos uns ruídos esquisitos, resolvemos, para nos precavermos, montar a segurança - explicou o Alves, todo gestos.
    - E depois? O que viram?
    - Verificámos, afinal, que eram pessoas pacíficas, moradores na zona...
    - E como é que souberam? Não me diga que são bruxos?!...
    - Falavam de futebol e...
    - Mas que perigo, nosso Aspirante! Mas que perigo! Falar de futebol e logo à noite! Não pensou que isso podia ser uma armadilha? Então não sabe que o futebol é o ópio do povo? Vocês podiam ter sido anestesiados como criancinhas! Mas diga, diga...
    - Depois continuamos a marcha - o Alves molhava os lábios para contrariar a secura da boca -, sempre guiados pelo croqui, até que, num morro, voltamos a montar a segurança para observação do terreno que ficava em baixo. Estava tudo calmo, era já numa zona desabitada...
    - E bateram esse terreno, claro...
    - Não vimos ninguém...
    - Ai queriam que o inimigo estivesse à vossa vista, a dizer estamos aqui, fodam-nos! Mas que merda de caçadores são vocês?! Tinham que ir lá, procurá-los como furões à caça de coelhos! Mas para isso é preciso ter os colhões no sítio!...
    - Mas ó meu Tenente...
    - Mas ó meu Tenente o caralho!... Continue, continue...
    - Deixámos - nos estar ainda um bocado a ver se havia algum movimento suspeito...
    - As folhas a mexer...
    - Algum vulto, algum...
    - Que viesse ao vosso encontro?!... Meu Deus... Avance, nosso Aspirante, avance...
    - Não vimos nada e ...
    - Tiveram sorte não levarem umas fogachadas no cu...
    - Tinha sempre três homens a caminhar de costas, de frente para o caminho...
    - Esses, então, levavam-nas nos tomates...
    - Meu Tenente, olhe que a gente...
    - Olhe uma merda!... - Continue lá com a descrição...
    - Quando chegámos ao cruzamento...
    - Montaram a segurança...

    Começava a ser difícil conter os risos. Eles ameaçavam estralejar como trovoada em noite abafada de Verão.

    - O sítio era perigoso e, antes de o atravessarmos – prosseguiu o Alves, mais confiante e a entrar bem no papel -, tínhamos que ver bem como o fazer. Como mandam as regras, montámos, de facto, a segurança. Dividi a patrulha em dois grupos, um para a esquerda, outro para o direita, e atravessámos, depois, em pontos mais afastados do cruzamento. Prosseguimos a marcha e, como o pessoal estava já um pouco cansado, resolvemos descansar um pouco e montámos a segurança...
    - Parou nosso Aspirante! Chega! Porra!, ainda não chegaram a meio do objectivo e quantas vezes já montaram a segurança? Andam cem metros e montam a segurança, andam mais duzentos e montam a segurança.... Foda-se! Tem que me apresentar essa PUTA da SEGURANÇA que eu, também, a quero montar!... Acabaram de chegar e já se fartaram de montar!... Vocês devem ter um tesão do caralho!...Se as catraias sabem disso não vos largam a Porta de Armas!... O que vocês precisavam era – virando-se para o aparelho de televisão – fazer a patrulha no lugar onde aqueles galgos estão a correr atrás da lebre... Sabe como se chama aquilo?...
    - É uma corrida de galgos...
    - Que novidade! Queria que fosse de coelhos?!... Como se chama o recinto onde eles estão a correr?... - Meu Tenente, aquilo – olhando fixamente para o televisor – é um pavilhão...
    - E como se chama?...
    - ...
    - Diga-me uma coisa, se fossem cavalos a correr como é que lhe chamava?...
    - Hipódromo...
    - Então, e galgos?!...
    - Não sei meu Tenente...
    - Galgómetro, nosso Aspirante!... Galgómetro!...

    As gargalhadas, já impossíveis de reprimir, soltaram-se como uma prateleira de cristal estilhaçada, alguns agarrando-se às barrigas, as lágrimas deslizando nas faces por um sufoco há muito controlado. Trocaram-se abraços, esvaziou-se uma garrafa de Logan, discutiram-se as peripécias da brincadeira e conheceram-se origens por entre risos intermináveis.

    Ia adiantada a hora quando o João, erguendo um copo, gritou: «Malta! A partir de agora somos os fronteirómetros de Chaves!»
    Final.

    - De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
    • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustratrativa acima, recolhida da internet livre é composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.