1/31/09

Sempre imaginando o mar azul... de Pemba!

(Clique na imagem para ampliar - Imagens originais daqui e daqui)

Mentalizando o belo mar azul de Pemba e só para desejar um bom final de semana:
(Evite sobreposição de sons "desligando" o player em funcionamento que se localiza no menu deste blogue, lado direito)

Vídeoclipe da canção "O Mare e Tu", nas vozes do tenor italiano Andrea Bocelli e da cantora portuguesa Dulce Pontes. Autor - gilibrasil.

1/30/09

A Ilha de Moçambique, a História que se perde e a inutilidade da UNESCO!

(Clique na imagem para ampliar)

Num já distante dia de 1957, depois de quase trinta dias de viagem pelo oceano que me separava de Lisboa e do Portugal de minhas raízes, desembarcamos do navio "Pátria" (Companhia Colonial de Navegação[1]) tomando uma lancha que nos deixou na sempre inesquecível e bela Ilha de Moçambique, ponto de abrigo e descanso até à próxima etapa da viagem rumo à então Porto Amélia colonial, hoje Pemba.

Inesquecíveis o calor africano que não conheciamos, o sorriso do povo ilhéu, as "capulanas", os "cófiós"[2], os "requichós"[3] e tudo quanto era "novidade" para quem vinha de pequeno burgo provinciano do Douro lusitano. Tudo isso está gravado em minha memória e foi recebido por mim, criança à época, como abraço paternal, hospitaleiro, também como lição única de cultura, de história representada no valioso tesouro arquitétónico que a colonização deixou nesse magnífico "cofre" da História Luso-Moçambicana que é a Ilha de Moçambique.

Hoje constato, ao ler o que me chega pela internet, que a Ilha de Moçambique corre mais uma vez perigo de submergir e desaparecer nas brumas da irresponsabilidade de quem gere Moçambique e do alheamento de orgãos como a UNESCO, que se afirmam preocupados com a cultura no Mundo mas ... "paga 3000 ou 4000 contos (15.000 ou 20.000 euros) por mês aos funcionários de topo" e não disponibiliza, por exemplo, "200 ou 300 contos (1000 ou 1500 euros) para restaurar um edifício na Ilha de Moçambique"....

Lamentável... E o texto do Jornal de Notícias de hoje:

""
Património Mundial: UNESCO como está "não serve para nada".
Historiador Pedro Dias. - Coimbra, 30 Jan (Lusa) - O catedrático Pedro Dias, conselheiro científico para as "Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo", disse hoje que a UNESCO "é um sorvedouro de dinheiro" e deverá ser extinta se não adoptar outro modo de funcionamento.

"A UNESCO, como está, não serve para nada. Devemos fazer um esforço para que haja uma inversão do seu funcionamento", declarou Pedro Dias à agência Lusa.

Ao admitir que Portugal deveria "repensar a sua presença" na organização, recordou que, devido ao peso alegadamente excessivo das "despesas de funcionamento", em prejuízo dos resultados, países como os Estados Unidos e o Reino Unido estiveram afastados "um longo período".

Na sua opinião, "no limite, a manter-se como está, não se perderia nada com a própria extinção" da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), com sede em Paris, França.

Na última década, Pedro Dias trabalhou durante cinco anos como investigador do projecto ACALAPI, com que a UNESCO pretende estudar e aprofundar as relações do Mundo Árabe com a América.

Confirmou na altura uma ideia que já tinha de anteriores contactos com aquela estrutura das Nações Unidas: "é uma organização autofágica e gastadora de dinheiro, cujos funcionários fazem muitas viagens pelo mundo sem quaisquer resultados".

"O dinheiro que é investido em obras é apenas uma percentagem ínfima das despesas administrativas e de funcionamento, com muitas estadias e viagens de avião em primeira classe", acusou.

Pedro Dias disse que a UNESCO "paga 3000 ou 4000 contos (15.000 ou 20.000 euros) por mês aos funcionários de topo" e não disponibiliza, por exemplo, "200 ou 300 contos (1000 ou 1500 euros) para restaurar um edifício na Ilha de Moçambique".

Situada na província de Nampula, norte de Moçambique, a Ilha de Moçambique dispõe de um importante património arquitectónico, tendo sido classificada pela UNESCO, em 1991, como Património Mundial da Humanidade.

"Há projectos há muitos anos e não se faz lá nada. Não se prega um prego numa parede, nem se caia uma casa", denunciou o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Entre outros cargos, Pedro Dias ocupou o de director-geral do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, de 2004 a 2005, ano em que foi condecorado pelo Presidente da República com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Na quinta-feira, a New 7 Wonders Portugal (N7WP) anunciou ter escolhido Pedro Dias, especialista na área do Património, História de Arte e Cultura Lusófona, para conselheiro científico do concurso "Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo".
- In Jornal de Notícias, 30/01/2009, CSS. Lusa.

1 - A Companhia Colonial de Navegação -- CCN -- foi criada em 1922 pela Sociedade Agrícola de Ganda, Companhia do Amboim de Angola e Ed. Guedes Lda. para explorar o serviço de ligações marítimas entre a Metrópole e as suas colónias, principalmente as africanas.
Em Fevereiro de 1974, a CCN juntou-se à Empresa Insulana de Navegação para formar a Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos (CPTM).

2 - Cofió: um adorno pitoresco, caído em desuso na década de sessenta - era o cofió, um barrete vermelho em forma de tronco de cone [vê-se muito em filmes com cenas passados no Cairo] que a tropa indígena usava quando fazia serviço de sentinela. Os brancos nascidos ou não nas colónias não o usavam - aqui.

3 - "Requichós": pequenos veículos de duas rodas com origem na India, puxados por nativos da Ilha de Moçambique.

Asilo político de Cesare Battisti - Parcialidade ou imparcialidade política?...

O caso do italiano Cesare Battisti, preso no Brasil, considerado por uns "perseguido político", por outros um mero e frio assassino condenado na Itália à prisão perpétua, que se acoberta no status de refugiado político para escapar de suas responsabilidades de criminoso comum e usufruir de "benesses" diferenciadas(?) para "criminosos políticos" (até parece que a política justifica o crime?), e que obteve abrigo político e permissão para fica no Brasil por parte do Ministro da Justiça local, está a gerar a "maior confusão" nas relações diplomáticas entre os dois países.

Embora não pareça, o caso continua complicado e "notícia", entre "pressões", "críticas", "justificativas" de um lado e do outro. Tanto que até uma visita que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, faria ao Brasil, prevista para o fim de fevereiro, está cancelada segundo leio na BandNews.

Entretanto e porque existem dúvidas quanto à imparcialidade/isenção política do sr. ministro e do governo brasileiro neste caso do italiano Cesare Battisti, relembra o Estadão (São Paulo) de hoje, através de uma entrevista, acontecimento ainda recente envolvendo atleta cubano, "cansado" do regime comunista vigente na ilha do sr. Fidel Castro, que tentou ficar e viver no Brasil, o que lhe foi recusado.

Nessa época comentou-se e criticou-se até a rapidez com que o poder político brasileiro, atento às boas relações que mantém com o sr. Fidel Castro, resolveu a questão e remeteu o atleta cubano de volta à sua ilha de origem. O que não está sendo levado em atenção no caso do país Itália.

Transcrevo a entrevista publicada hoje:

""Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009 - Pugilista cubano diz que queria refúgio no Brasil - O pugilista cubano Erislandy Lara afirma que gostaria de ter recebido o status de refugiado no Brasil. Hoje, vive como exilado em Miami, onde é boxeador profissional.

"Pedi asilo à polícia no Brasil e não me foi dada a oportunidade", afirmou Lara, em entrevista ao Estado.

Em 2007, o pugilista cubano tentou escapar da delegação de seu país nos Jogos Pan-americanos do Rio. Mas foi detido alguns dias depois e devolvido ao governo de Cuba, após ser encontrado pela Polícia Federal.

Na época, o governo garantiu que Lara não tinha pedido para ficar.

O então presidente Fidel Castro prometeu que o perdoaria. Mas Lara nunca mais voltou a lutar em seu país e sequer foi selecionado para os Jogos Olímpicos de Pequim.

Insatisfeito, ele voltou a tentar escapar de Cuba.

No ano passado, saiu de lancha no meio da noite de Cuba e chegou até o México. De lá, foi para a Alemanha.

Agentes de boxe conseguiram documentos necessários para que ele pedisse residência permanente na Alemanha. No fim do ano passado, seus agentes optaram por levá-lo aos Estados Unidos, onde obteve status de refugiado.

Lara admite que nunca ouviu falar do caso do italiano Cesare Battisti. Mas diz que achou "estranho" não ter recebido o mesmo tratamento.

"Não conheço esse caso, mas eu não estava fazendo nada de errado. Mesmo assim, não me aceitaram no Brasil", afirmou.

Sem esconder a contrariedade com comentários de que age com dois pesos e duas medidas, o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse ontem que, em 2007, recebeu "fortes protestos" da embaixada de Cuba no Brasil, por ter concedido refúgio político a outros dois outros atletas cubanos - um jogador de handebol e outro ciclista. Além deles, Tarso citou três músicos do conjunto Los Galanes.

"Quem pediu para ficar no Brasil ficou", afirmou, repetindo que Lara e o também pugilista Guillermo Rigondeaux não solicitaram refúgio. "Obviamente que eles não pediram refúgio e isso está mais do que provado, pois tudo foi acompanhado pelo Ministério Público e pela OAB", insistiu Tarso.

"Ocorre que se martelou tanto uma inverdade que, aparentemente, ela se transformou em verdade."
- In "Estadão.com.br", 30/01/09 - Jamil Chade, Genebra, colaborou Vera Rosa.

1/28/09

Ronda pela net ... Cultura é tudo: Livrarias de Paris e o território brasileiro!

Li e transcrevo o que diz a Santa em seu blog de "Arte, cultura, verdades, mentiras e políticas públicas":

""27/01/2009 - Você sabia que, segundo o IBGE*, só a cidade de Paris tem mais livrarias do que todo o território brasileiro?

Esta é a "Shakespeare and Company", livraria que era bastante frequentada por escritores como Henry Miller e o beatnik Allen Ginsberg.

A livraria começou quando um americano chamado George Whitman chegou a Paris após a II Guerra.

George se inscreveu em um curso de francês na Sorbonne [=)] e começou a montar uma mini-biblioteca particular no quarto de hotel em que morava.

A coleção foi se expandindo e incentivado por um amigo, George abriu a "Shakespeare e Company". O nome da livraria é em homenagem à antiga loja aberta em 1919 pela, também americana, Sylvia Beach.

* IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.""

Sem mais de minha parte, aqui fica a "curiosidade"!

1/27/09

HIV-SIDA - Moçambique: Triste história de Natal...

É uma triste mas real história de Natal:
Sem identificação, mas com HIV - Moçambique, Beira, 27 Janeiro 2009 - Andar sem bilhete de identidade (BI) se tornou factor de risco para o HIV entre as raparigas da cidade da Beira, na província de Sofala-Moçambique. Agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) têm abusado de sua autoridade para extorquir dinheiro e exigir sexo em troca de liberdade de moças que não apresentem os seus bilhetes de identidade ou passaportes. Segundo as vítimas, moçambicanas e estrangeiras, principalmente zimbabueanas, o acto sexual é desprotegido, aumentando as chances de infecção pelo HIV.

Foi o que aconteceu com Carolina Johane*, 26 anos, que diz ter contraído o vírus numa relação desprotegida com um agente da polícia em troca de liberdade, na noite de Natal de 2006.

No trajecto da igreja até a sua casa, no bairro de Chipangara, Johane e outras pessoas foram paradas por dois polícias, que exigiram os bilhetes de identidade. Os que não tinham identificação, inclusive Johane, foram levados até a 5ª Esquadra. “Mas antes disso, um dos polícias me disse em voz baixa: uma mão lava a outra”, conta.

Por medo de dormir na esquadra e depois ser expulsa de casa, porque não havia avisado a seus pais que iria à igreja, Johane ofereceu aos polícias 50 meticais (US$ 2). “Eles recusaram, alegando que não eram corruptos. Ameaçaram processar judicialmente por tentar corrompê-los, o que deixou-me com medo”, diz.

Depois de algumas horas, as outras pessoas foram soltas, menos Johane. “Comecei a chorar, implorando fazer tudo que desejassem para soltarem-me. Eis que um dos agentes perguntou-me se tencionava manter relação sexual com ele em troca da liberdade”, revela.

“Não tive escolha.”

Depois de cinco meses, o seu namorado, na altura na província de Inhambane, pediu que ela preparasse alguns documentos e fizesse o teste de HIV para uma candidatura a um emprego numa organização não-governamental. “Aí descobri que era seropositiva. Concluí logo que fui infectada pelo polícia, visto que sete meses atrás eu e o meu namorado tínhamos feito o teste de HIV antes de ele viajar e o resultado havia sido negativo”, diz.

Interessante e sem BI.
Essa rotina era familiar para Alfredo Chimaze*, polícia há 15 anos e afecto na 4ª Esquadra, na Munhava, o bairro periférico mais populoso na cidade da Beira.

Chimaze, 39 anos, é seropositivo e faz tratamento antiretroviral. Ele acredita ter contraído o HIV numa relação sexual com uma rapariga que deteve por falta de bilhete de identidade, no bairro da Muchatazina, nos arredores da Beira.

“Quando interceptava-se uma mulher sem BI que achássemos interessante nos patrulhamentos nocturnos, nós a persuadíamos a transar com um de nós em troca de liberdade”, conta.

“Elas, por temer dormir na cela, aceitavam o nosso pedido.”

Segundo Chimaze, eles enganavam as mulheres dizendo que elas seriam indiciadas por trabalharem como “isca de larápios” e responderiam em tribunal, onde seriam condenadas entre seis a oito meses de prisão. Porém, depois que um de seus colegas contraiu sífilis e chitaio (perda, no dialecto Sena) [doença tradicional transmitida sexualmente, ligada a um rito de purificação, e que causa dor nos pulmões, cansaço e dores de cabeça], Chimaze resolveu mudar.

Três meses depois da sua decisão, a notícia: a sua mulher havia sido diagnosticada com o HIV numa consulta pré-natal. Foi aí que ele soube que era seropositivo.

“Quando a minha esposa disse-me não duvidei, porque comecei a recordar aquilo que eu fazia”, diz.

O seu filho também nasceu com o vírus. “Eu ignorava os perigos que corria ao praticar esse acto, tendo em conta que uma equipa da saúde vem ao meu posto de trabalho mensalmente fazer palestras sobre ITS e HIV”, lamenta.

Moçambique tem uma seroprevalência de 16,2 por cento numa população de pouco mais de 20 milhões de habitantes. Beira, segunda maior cidade depois de Maputo, é a capital de Sofala, província com 1,6 milhões de habitantes e 26 por cento de seroprevalência.

Medo da discriminação e do desemprego.
Representantes do comando provincial da PRM na província de Sofala dizem não ter conhecimento da prática. Segundo Mateus Mazive, chefe da secção de imprensa da instituição, não há registo de denúncias populares acusando agentes da polícia de exigirem relações sexuais de mulheres sem BI em troca de liberdade.

“Andar sem BI não é crime, mas é um dever da cidadania. Se está a acontecer isto, pedimos que a população denuncie este mau hábito para que os infractores sejam penalizados pelo crime que estão a cometer”, afirma.

Dados oficiais mostram que há 93 policiais seropositivos na província de Sofala, todos em terapia antiretroviral e recipientes de um bónus de 30 por cento do salário para a aquisição de cesta alimentar, que ajuda com o tratamento.

Porém, Massada Elias João, coordenador do núcleo de prevenção de HIV/SIDA no comando provincial da PRM em Sofala, acredita que os números sejam mais altos, se for levado em conta o efectivo da polícia na região, que ele não tem autorização para divulgar.

“Acredito que haja mais polícias seropositivos na corporação que tencionam anunciar o seu estado de saúde, mas acham que fazendo isso poderão ser discriminados ou perder o emprego”, diz.

O núcleo de prevenção de HIV/SIDA no comando provincial da PRM em Sofala foi criado em 2000 pelo Ministério do Interior para sensibilizar funcionários da polícia. Segundo João, o núcleo conta com pouco mais de 100 educadores de pares, que semanalmente realizam palestras e sessões de vídeo para a prevenção do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. “Temos vindo a sensibilizar os nossos colegas para usarem correctamente o preservativo e levar as suas famílias para fazer o teste”, destaca.
- *Nome fictício jc/am/ll - PlusNews África Portuguese Service, 27/01/09.

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1/26/09

Ecos da imprensa lusa - SAÚDE: A Grande Mentira de Sócrates!

Enquanto em Portugal o sr. primeiro ministro faz propaganda televisiva e não só, repetitiva, chata, quase diária, pouco convincente e pacientes/beneficiários do sistema de saúde português lutam contra o desmantelamento do aparelho de saúde pública enfrentando com sofrimento a "ferrugem" burocratica de um sistema ineficiente, mau e atrasado pagador em comparticipações devidas, ativistas, reunidos em Belém-Brasil no Fórum Social Mundial da Saúde (FSMS), valorizam, acarinham e defendem que o SUS (Sistema Ùnico de Saúde) esteja mais próximo da população e seja considerado patrimônio da humanidade.

Segundo o ministro da saúde brasileiro "essa é a primeira vez que uma política pública será patrimônio da humanidade. É uma iniciativa dos movimentos populares e acho importante pela abrangência do SUS e pelo fato de que ele atende indistintamente todas as etinas, todas as nacionalidades que vivem no Brasil”, afirmou Temporão."

Entretanto, a mídia/imprensa lusa, com raras exceções que se contam pelos dedos, quase sempre discreta, gentil, pouco contestadora ou exigente a respeito, descreve hoje via "Distrito On Line - Informação Regional de Setúbal", em opinião do médico Pedro Correia Azevedo, o que realmente acontece no país governado pelo sr. Socrates quanto a Saúde que deveria ser pública, mas cada vez mais se transforma em "privada", para quem pode sim senhor!:

""A Grande Mentira de Sócrates - Vivemos um período de recessão, atraso de crescimento, dificuldades económicas… o que seja… ao povo português interessa o simples conceito de dificuldade em subsistir!

Para falar verdade, vivemos há tempo demais neste quadro negativo de relação social e estamos cansados de um discurso optimista de espera constante em que o pote de ouro no fim do arco-íris nunca mais é alcançado! Este tema domina as conversas de café, as tertúlias familiares à hora de jantar, as trocas de impressões entre colegas de trabalho… e toca todos os sectores da sociedade – dos mais abastados àqueles com maiores dificuldades. Urge a necessidade de resolução como se de uma inspiração profunda necessitássemos para nos sentirmos confortados depois do esforço realizado.

Na Saúde o panorama não é distinto. A falta de meios, que é tradução da falta de dinheiro e de vontade política, levou a um estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que já não consegue responder de forma satisfatória às necessidades da população.

Caso paradigmático de discussão acesa e opiniões fervorosas é a suposta falta de médicos em Portugal! Convictamente vos digo que Portugal tem 3,4 médicos por mil habitantes, enquanto a média da União Europeia é 3,2 médicos por mil habitantes – o nosso problema não está na falta de profissionais médicos no sector, mas na sua distribuição por especialidade e por área geográfica. Isto para não falar na redução dos incentivos para a realização da actividade e de algumas medidas castradoras dessa actividade enquanto Ciência que motivam muitos médicos a abandonar o SNS e a dedicarem-se à actividade privada.

Neste contexto volto a tocar naquilo que realmente interessa à população: os Cuidados Primários (vulgo, centros de saúde) – sendo a primeira face de abordagem da pessoa doente e da pessoa que busca aconselhamento médico!

Nesta área de acção, o nosso Primeiro-Ministro anunciou no último debate quinzenal, na Assembleia da República, a contratação de mais 250 novos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF, vulgo médicos de família), para colmatar algumas falhas nos Cuidados Primários!

Mentira!

Interessa perceber como funciona a formação pós-graduada de um médico que siga a carreira de MGF para entender a falta de verdade: findo o curso de Medicina, um médico passa por um ano de formação generalistas (Internato do Ano Comum, semelhante ao antigo Internato Geral) e depois por 5 anos de formação específica (Internato da Especialidade, semelhante ao antigo Internato Complementar), integrando à posterior o SNS já como especialista. Quer isto dizer que os 250 novos médicos de MGF, que José Sócrates diz ter contratado, são 250 médicos licenciados em Medicina em 2002, tendo realizado a formação generalista em 2003 e a formação específica entre 2004 e 2008 – no fim deste processo não lhes restava grande opção a não ser serem contratados para trabalharem numa unidade de Cuidados Primários.

Em todo o caso, o anúncio foi feto como se de uma grande medida se tratasse – se em teoria estes 250 profissionais fossem todos colocados na área da Administração Regional de Saúde de Lisboa de Vale do Tejo (ARS-LVT), não resolveriam nem metade dos problemas aí existentes.

A juntar a isto, o actual método de reestruturação dos Cuidados Primários começa a levar à ruptura de muitas unidades. Em traços gerais, apesar de em teoria a criação das Unidades de Saúde Familiares (USF’s) parecer em tudo positiva, acontece que os utentes não abrangidos pelas USF’s continuam a acumular-se nas antigas e tradicionais extensões dos Centros de Saúde que ainda não aderiram a essa reforma – o que assusta, é que mesmo que aderissem, muitos seriam os utentes que ficariam sem médico de família e sem apoio por parte das unidades, agravando a situação em que vivemos. No mesmo agrupamento de Centro de Saúde assistimos a realidades tão distintas como a Lapa e o Biafra! Urgem novas medidas mais coerentes com a realidade! Estas reformas não se coadunam com longos tempos de espera!

Para vos deixar um exemplo prático: no Agrupamento de Centros de Saúde de Almada/Costa de Caparica/Cova da Piedade existem 17 unidades, das quais 5 são USF’s e 12 funcionam ainda à moda antiga, algumas num molde antigo muito mau!

Lanço com isto a verdade para a discussão! É preciso mobilizar a Sociedade Civil para esta problemática.

Assim tenhamos todos opinião!""
- Pedro Correia Azevedo - 2009-01-26.

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1/23/09

O INCÊNDIO - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão).

(Clique na imagem para ampliar - Imagem original do ForEver PEMBA)

Passavam poucos dias que as aulas na escola haviam terminado e o espirito de férias já manifestava-se em nós através de inumeras brincadeiras: caça aos passarinhos, às escondidas nocturnas, o passeio desautorizado ao quartel da “Meia-Via”, o banho na praia do INOS, a visita ao navio abandonado nas imediações da base naval da marinha, a perseguição nos galhos das amendoeiras do jardim infantil, roubo de amoras e jambalão no quintal da SOGERE, entradas “roubadas” nos jogos de futebol do Estádio Municipal, entre outras.

Uma certa manhã de céu azul e de sol dourado, eu, Quino, Amur, Bacar – o filho do árbitro – e Kaidar, o filho primogénito do ché Omar, jogavamos o “bate-sai” com a bola de trapo junto à valeta que delimita os bairros de Ingonane e Natite, precisamente, atrás do belo monumento de emulação socialista, quando de súbito alguém entre nós gritou em macua apontando à zona cimento:

- Olhem pra aquilo!

Paramos o jogo; Kaidar pegou a bola, pôs debaixo do braço e pregou o olhar na direcção da zona cimento. Imitamos o gesto rapidamente e os nossos olhos viram uma nuvem enorme de fumaça preta que teimava subir ao céu acompanhada de grandes labaredas que ameaçavam engolir a zona intermédia entre o fundo do Hotel Cabo Delgado e o prédio Cunha Alegre.

- É o hotel a arder! – Disse Kaidar em voz alta.
- Não. – Atalhou Bacar e acrescentou meio excitado. - Parece o prédio Cunha Alegre...
- É inacreditável! – Gritei pasmado pelo acontecimento.
- Vamos ver de perto. – Sugeriu Quino fazendo movimento para caminhar.
- Não. Não dá, é perigoso. – Advertiu Amur visivelmente dominado pelo medo.
- Vamos, malta! – Insistiu Quino movido pela curiosidade.

Kaidar fitou a malta de esguelha por algum momento. Com uma espressão corporal que denunciava-lhe uma apetencia voraz de matar a curiosidade, cedeu a insistência do Quino iniciando a marcha decididamente com o destino ao coração da pacata e modesta cidade de Pemba, vulgarmente conhecido por “wa Texeira”, entre os nativos.

Timidamente o gesto foi imitado por todos nós e juntos precipitamo-nos a seguir um pequeno percurso da estrada, muito arenoso, que levava a zona urbana. Trajando camisas e camisetes cansados de uso, calças e calções desbotados, empoeirados, rotos nos tornozelos e nas nádegas e denunciando orgulhosa e humildemente a nossa origem, iniciamos, pouco tempo depois, a andar na estrada de terra batida, cor vermelha e poeirenta todos ofegantes e banhados de suor.

Enquanto caminhavamos curiosos, dos dois bairros vizinhos vinham gente despertada pela fumaça e pelas linguas de fogo assustadores que bailavam ao sabor do vento ameaçando à qualquer instante causar tragédia. Mais adiante, juntamo-nos a um grupo de homens, mulheres e adolescentes que também dirigia-se ao nosso destino.

- Dizem que um bandido armado ateou fogo os últimos quartos do hotel e fugiu à sete pés, sem deixar rastos. – Explicou alguém no meio da multidão.
- Ouviram?! – Questionou Amur sussurando e tomado pelo medo.
- Não é nada isso. – Tranquilizou Quino muito confiante. – Deve ser um boato.
- E se fôr verdade? – Interroguei-o contaminado pelo temor do Amur.
Quino não respondeu e limitou-se a marchar. Naquele momento ideias medrosas fizeram a minha mente sua oficina e diversas imaginações macábras passaram insistentemente na minha consciência, um tanto quanto, repletas de razão. Pois, a guerra de desistabilização estava nos seus momentos iniciais em Cabo Delgado, pese embora Pemba não se ressentisse tanto como em algumas províncias do centro e sul do país, donde vinham relatos de cenas aterrorizantes protagonizadas por bandos armados; Daí que, todo cuidado era pouco, e razão pela qual todos viviamos em constante vigilância, que na altura apelidou-se de vigilância popular. Porém, deixemos de lado esta página triste da história de Moçambique independente e voltemos ao mais primordial.

Volvido algum momento alcançamos a zona urbana. Atravessamos uma ponteca de ferros de linha férrea atravessados horizontalmente de uma extremidade da valeta principal à outra secundária muito pequena, que delimita a zona urbana e a peri-urbana e começamos a percorrer a avenida Eduardo Mondlane no seu lado asfaltado, que ficava à escassos metros do local do incêndio.

A cidade estava agitada, barulhenta e abarrotada de gente apavorada que aproximava e saia do local do incêndio provocando um murmúrio ensurdecedor. Tanto no hotel, assim como, nos estabelecimentos comerciais e nas residências das redondezas eram visíveis rostos espantados pelo acontecimento e indignados pela ausência de corpo de bombeiros na cidade. Já próximo do sinistro, homens e mulheres civis e alguns militares corajosos tentavam em vão extinguir as chamas com areia e água trazidas da vizinhança em pequenos baldes. Enquanto isso sucedia, na carroçaria do camião ressaltavam faúlhas muito reluzentes acompanhadas de um estalar constante de madeira e as chamas, por sua vez, elevavam-se cada vez mais ao céu ameaçando queimar os fios de transporte de energia eléctrica da rua 12.

No entanto, houve uma explosão repentina acompanhada de uma bola enorme de chamas vermelhas. Abrigamo-nos todos medrosos debaixo de uma das palmeiras que erguia no centro das duas faixas de rodagem da avenida Eduardo Mondlane.

- O que vem a ser isso? – Questionou Amur.
- Deve ser o tanque do camião. – Disse uma idosa que também abrigara-se numa das palmeiras próxima.
- Camião? – Inquiriram todos em coro e incrédulos.
- Sim. – Gritou a idosa arranjando-se uma das capulanas que lhe desprendera do corpo no momento da explosão. – É um camião militar que, sem mais, nem menos, entendeu pegar fogo no meio da estrada quando vinha roncando no sentido descendente da rua 12.

Quando a velha acabou de proferir estas palavras, deflagraram tiros de armas ligeiras no meio do incêndio, fazendo os curiosos correrem em debandada em todas as direcções. Nesse instante, um bando de corvos que grasnava nas palmeiras douradas do centro da cidade bateram as asas em vôo espectacular e desapareceram nas frondosas amendoeiras e incontáveis amoreiras do parque infantil do ring desportivo.

- Vamos pra casa, malta. – Anuiu Amur tremendo de medo.
- Nem pensar! – Contrariou Kaidar. – Agora que estamos aqui vamos procurar saber o que realmente está a passar-se.
- Concordo contigo! – Observou Bacar olhando para a fumaça cinzenta e escura que já abrandava de intensidade deixando mais nítido o camião militar em chama.
- Let´s go, malta. – Decidiu Quino iniciando a caminhada.

Retomamos a marcha já rapidamente por entre as palmeiras douradas da faixa central da grande avenida e pouco depois, alcançamos a rotunda das avenidas 25 de Setembro e Eduardo Mondlane que fica em frente do Hotel Cabo Delgado. Embrenhamo-nos corajosamente no meio da multidão e com muita agilidade como formigas encontramo-nos, finalmente, a escassos metros do camião em chama. Era um Ziro Russo, cor verde e de caroçaria de madeira. Tinha o vidro frontal caido e estilhaçado no capón, seis rodas grandes vazadas e em chama.

- Deus do céu! – Exclamei visivelmente excitado e continuei inquirindo. – Como foi possível isto?!
- Houve um curto circuito... – Respondeu-me alguém dentre os espectadores vizinhos.
- Ninguém morreu? – Quís saber Quino.
- Felizmente, não! – Disse uma senhora que se achava à nossa frente vestida ao rigor a moda macua: lenço na cabeça, blusa de manga comprida, brincos nas orelhas e no nariz, capulanas multicolores, pulseiras nos braços e chinelos nos pés.
- Mas porquê não criam um comando de bombeiros nesta cidade? – Questionou em voz alta um velhote visivelmente irritado com o que sucedia.
- Estão a espera que aconteça o pior! – Alguém respondeu no meio da multidão em tom de voz cómica.

Porém, as chamas consumiram o camião, por completo, no meio de olhares impotentes dos mirones e no fim, o fogo abrandou deixando o local poluido de fumaça esbranquiçada e espessa, acompanhada de um forte cheiro de borracha queimada.

Passado algum momento, a multidão foi esvairando-se até que não tendo mais graça a permanência no local, saimos dalí correndo e brincando animadamente o pega-pega com destino ao jardim infantil, próximo ao campo municiapal.
- Allman Ndyoko, 20/01/2009, para o ForEver PEMBA.
- Extrato do livro: Contos de Infância Distante.

O Autor:
-Francisco Absalão;-Nome artístico -Allman Ndyoko;
-Nasceu em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
-Residência actual - Maputo;
-e.mail's:

Leia:

  • "O Suicídio" - Um conto de de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) publicado no ForEver PEMBA em 02 de Junho de 2008 - Aqui!
  • "A Origem - Ou como surgiu o povo Makonde", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 29 de Março de 2008 - Aqui !
  • "O Turbilhão Lendário", texto de Francisco Absalão publicado no ForEver PEMBA em 24 de Outubro de 2007 - Aqui !
  • "O Nó Sagrado", um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão) - publicado no ForEver PEMBA em 19 de Março de 2008 - Aqui !

1/22/09

Cólera & cólera em Pemba... Desta vez em Mecúfi!

O que o "Notícias-Maputo" nos conta hoje sobre a "cólera" em Cabo Delgado/Pemba:

""Cabo Delgado: Brigada anti-cólera espancada no distrito costeiro de Mecúfi: Mais uma acção popular contra medidas anti-cólera teve lugar em Cabo Delgado, com o espancamento, há quatro dias, de um enfermeiro do Programa Alargado de Vacinação, um motorista e seis activistas, na região de Ngoma, distrito costeiro de Mecúfi, acusados de estarem a dissiminar a doença, numa altura em que, na capital provincial, Pemba, o número de doentes existentes no Centro de Tratamento da Cólera se elevou para 41, muito embora o de óbitos continue o mesmo (três) desde a eclosão da epidemia a 5 de Janeiro corrente.

O facto foi denunciado na segunda reunião que o Governo provincial convocou na quarta-feira para a avaliação do actual ponto de situação da doença, que neste momento, e segundo as estatísticas actualizadas, teve 177 entradas, sete das quais voltaram ao CTC, 141 altas, para uma taxa de letalidade avaliada em 1,7, havendo até às 7.00 horas daquele dia 41 internados por causa da cólera.

A pedido do médico-chefe provincial, Cesário Augusto, o secretário permanente, que dirigiu a reunião do Governo com todos os intervenientes no combate à colera, entre agentes da Saúde, líderes comunitários e presidentes dos bairros residenciais, para além de confissões religiosas e ONG’s, orientou a Polícia, em Mecúfi, para que esclareça o caso o mais rapidamente possível.

Enquanto isso, de acordo com o médico-chefe provincial, a enfermaria de cólera, constituída por três tendas, queimada por populares no bairro Eduardo Mondlane, na cidade de Pemba, está a ser reconstruída para voltar a funcionar, numa altura em que se suspeita que a qualquer momento o CTC que funciona no Hospital Provincial pode revelar-se exíguo caso a velocidade das entradas não venha a abrandar. Já foram montadas as três tendas e decorre a vedação do local por meio de capim, mas ainda se pensa na sua electrificação.

CRITICADA A APATIA DO CONSELHO MUNCIPAL.
No encontro, os participantes criticaram as reiteradas ausências de representantes do Conselho Municipal nas reuniões que visam debater a cólera, nas quais se avançam medidas de luta contra a doença, mesmo tendo em conta que ela não dá sinais de estar a diminuir.

De acordo com o médico-chefe provincial, apesar de o número de óbitos manter-se, o de entradas deve continuar a preocupar, se bem que há situações em que famiíias inteiras encontram-se hospitalizadas, sendo de concluir que as causas da doença estão longe de ser debeladas.

Intervenientes na ocasião estranharam que tanto na primeira como nesta reunião o Conselho Municipal pautasse pela ausência, estando em causa, por sinal, problemas de saneamento do meio, e pediram que quem de direito obrigasse os titulares do município a nelas participarem.

“Este Conselho Municipal parece que não sabe que estamos a tratar da vida dos municípes que controla. Isso, para além da incompetência que já nos habituou, está outra vez a nos mandar passear numa situação de tamanha aflição”, disse um interveniente.

O secretário-permanente, João Ribáuè, em resposta disse que o Governo provincial também se encontrava agastado com o funcionamento e neste caso com a não colaboração do executivo municipal chefiado por Agostinho Ntauale.

“Se o Conselho Municipal fosse um órgão que se demitisse há muito que teríamos feito isso em relação a este da cidade de Pemba”, disse aquele governante, antes de prometer que em dois dias far-se-á uma reunião em que obrigatoriamente o Conselho Municipal deve estar presente, ao lado da Saúde e o Governo provincial para explicar o que tem vindo a fazer nestes dias.

Da última vez, Agostinho Ntauale foi largamente criticado por ter pautado pela auseência, embora tivesse sido pedida a sua presença. Por extensão, boa parte dos seus presidentes dos bairros igualmente gazetou a reunião, o que intrigou os presentes. Na semana passada o nosso Jornal quis saber do edil o que se passava, ao que nos respondeu que a sua direcção estava representada pelos responsáveis dos bairros presentes.

Na oportunidade, Agostinho Ntauale dissera que a edilidade inclusive havia adoptado um novo horário de recolha de lixo, que terminava às 18.00 horas, justamente por causa da cólera.

Na reunião de quarta-feira, para além da ausência do seu presidente, o número de chefes dos bairros diminuiu ainda mais, mas a cólera continua a actuar, principalmente, nos bairros de Cariacó, Natite e Paquitequete.
- PEDRO NACUO, Maputo, Quinta-Feira, 22 de Janeiro de 2009:: Notícias.

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1/21/09

No "paraíso" comunista da China até discurso de Obama é falsificado...

(Imagem original daqui)

Na China, da "liberdade", dos "Jogos Olímpicos do século" dos "direitos desumanos", dos fuzilamentos e das perseguições ignóbeis ao cidadão, enaltecida e louvada por tanto "progressista" vaidoso em voga, nem o discurso de Obama escapa à censura. Afinal a quem querem enganar esses déspotas que humilham e calam seu próprio povo pela força da violenta ditadura comunista...?
Vem assim escrito no portal Terra de hà momentos:

""China censura trechos do discurso de Barack Obama.
Marina Wentzel - 21 de janeiro de 2009 • 07h50 • atualizado às 10h51 - Partes do discurso inaugural do presidente americano, Barack Obama, que falavam sobre "comunismo" e "dissidentes", foram censurados na China.

O principal canal de TV estatal, CCTV, e populares portais de internet tiveram que suprimir as referências feitas pelo presidente americano a temas considerados sensíveis na China.

No discurso de posse, Obama disse: "Lembrem-se que gerações anteriores encararam o comunismo e o fascismo não apenas com mísseis e tanques, mas com vigorosas alianças e convicções duradouras".

Na transmissão da CCTV, o áudio da tradução simultânea foi interrompido a partir do momento em que a palavra "comunismo" apareceu na tela e a imagem do discurso em Washington foi cortada abruptamente para o estúdio em Pequim.

O apresentador da CCTV pareceu ter sido pego de surpresa, mas deu continuidade ao programa perguntando para um convidado sobre os desafios econômicos que Obama enfrentará.

Os portais Sina.com e Sohu.com, muito populares no país, também tiveram que omitir a palavra "comunista" do discurso de Obama.

Dissidentes.
Outro trecho do discurso que foi suprimido dos principais portais chineses falava da "opressão de dissidentes".

"Àqueles que se agarram ao poder através de corrupção e enganação e silenciando dissidentes, saibam que vocês estão do lado errado da história, mas nós vamos estender a mão a vocês se estiverem dispostos a abrir seus punhos", exclamou Obama.

Sites em chinês, como o da agência de notícias estatal Xinhua, omitiram a palavra "comunista", embora a tenham mantido na versão integral em inglês.

Outro site popular, o Netease.cn cortou completamente o parágrafo que mencionava "comunismo e fascismo", porém deixou o trecho sobre "dissidentes", o que motivou internautas a comentar a passagem.

Nas versões online do discurso em inglês o conteúdo original foi preservado na maioria dos casos.

Já nas traduções para chinês, somente sites de Hong Kong puderam publicar a versão integral.

Leitores dentro da China continental, entretanto, não têm acesso a sites de Hong Kong, como os dos jornais Apple Daily e o Mingpao, pois estes portais são constantemente bloqueados pela censura.""
- BBC Brasil - BBC BRASIL.com/Terra.

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Rumo ao paraíso chamado PEMBA...

A paixão, a afinidade com Pemba pode parecer parcial, favorecimento, vício ou maluquice de velho... Pode ser e até será em parte, quem sabe? Afinal a distância, a imaginação, o tempo, a saudade tão ao jeito lusitano de ser relevam defeitos e enaltecem virtudes, belezas, exacerbam amores perenes, loucos, de idolatria, ardor, entusiamo... afinal de "paixão apaixonada" mesmo, como acontece com adolescentes, jovens, eternos jovens que desejamos ser pelo menos em espírito e sentir ao entardecer da vida e de todos os dias.

Mas, para que esse "complexo" de "parcialidade apaixonada" não se acentue e possa tranquilizar a consciência em busca do equilíbrio sempre necessário, transcrevo a "voz especializada" do portal "travel - iafrica.com", mesmo em inglês tal e qual é publicado, como prova de que minha "paixão" não é louca e tem razão de ser:
- Nota - Poderá traduzir "aqui"!

""
- Pemba Beach paradise, Article By: Richard Holmes, Tue, 20 Jan 2009 10:28.
As our Airlink flight from Johannesburg soars gently down into Pemba, the capital of Cabo Delgado province in far northern Mozambique, I'm keeping a beady eye out for all the trappings of tropical paradise. Palm trees, turquoise water, coral reefs, traditional dhows plying the water, crayfish big enough to be seen from the air... you know the deal. But baobabs on the beach? I realised then that a flying visit to Pemba was going to be more than your average tropical escape.

Situated on what is said to be the third largest natural harbour in the world, the town of Pemba — thanks to increased air access via direct flights on Airlink — is fast becoming the gateway to the fantastic beaches this coast has to offer and the islands of the Quirimbas Archipelago further north.

There's a range of accommodation on offer in the area — from guesthouses to backpackers — but undoubtedly the most luxurious place to stay is the impressive Pemba Beach Hotel. Arabian wind towers, terracotta walls and Moorish arches are a gentle reminder of the days when the calm waters of East Africa were a popular stomping ground for Arabian slave traders to load up their deadly cargo.

Thankfully nowadays the dhows you'll see offshore will be full of tourists and fishermen catching your dinner rather than slaves off to servitude in a distant land. Dhow cruises in the bay are just one of the many options popular with the tourists who come here to enjoy the balmy waters of the Indian Ocean... whether you're in the mood for adrenalin action or something a little more sedate there'll be something to drag you away from that sun lounger.

- Under da sea.
With warm waters, fantastic visibility and incredible array of marine life, diving is a popular option and the Pemba Beach Hotel offers a fully-kitted dive centre where you can do anything from a fun recreational dive right through to advanced certifications. Boat dives (with no launch through the surf!) can take you to a choice of sites within minutes, so you can easily spend a few days blowing bubbles.

One of the most popular sites is 'The Gap', where the reef drops off the edge of the continental shelf all the way to 120m below the surface. If that's a bit extreme for you, there are snorkelling spots just off the beach in front of the resort (equipment provided at the Club Navale) or you can hop on one of the regular snorkelling trips ($25) by boat to coral reefs further afield.

More of a hunter than a watcher? Andre Bloemhof runs regular fishing safaris (either full or half-day) where you can troll for Marlin, Kingfish, Wahoo, Dorado and Tuna on deep-sea reefs and in and around the stunning Quirimbas Archipelago. Starting at $300 per person it's an expensive day out, but is sure to get your heart rate going. For cheaper thrills you can also throw a line off the end of the resort’s jetty, where you might bag yourself a small Kingfish or Snapper.

- Drop the locals a line.
If you want to get a feel for how the local fishermen do it though, hop onto one of the dhow trips run by Kaskazini tours (at Pemba Beach hotel). Run by the ever helpful Genevieve, you can book yourself on well-priced dhow trips ranging from a sunset cruise with their local skipper to a five-day safari exploring the southern islands of the pristine Quirimbas Archipelago.

Sound like far too much exertion? The Sanctuary Spa is the latest addition to Pemba Beach, offering a range of treatments from this well-known South African spa group. Book yourself in for a bit of pampering with a front-row seat to the Indian Ocean.

When evening rolls around, the Quirimbas Restaurantr is the place you want to end up, tucking into the buffet that stretches on into the distance. Fragrant curries, fresh marlin and tuna on the skillet, crayfish tails to your heart’s content and a pile of prawns that does Mozambique’s reputation justice. White tablecloths, excellent service and the musical accompaniment of the Indian Ocean complete the picture of a perfect dinner in the tropics. The beachfront restaurant at the Club Navale is also an option for something more casual, but it’s a place best enjoyed at lunchtimes, eating barefoot with your toes wiggling in the sand.

- Hit the town.
Of course you don’t have to — and shouldn’t — spend all your time in the resort. The town of Pemba doesn’t have the impressive Portuguese architecture or attractions of some of Mozambique's larger towns, but a stroll through the market and Old Town are well worth a few hours, if nothing else to see a little of daily life in Cabo Delgado. The dusty streets occasionally reveal a quaint craft stall or carpenter at work, but the beach is really the place to catch a glimpse of day to day life in Pemba.

Start at the reed village of Paquitequete — a mostly Muslim community of fishermen where a 'Salaam' will elicit a warm smile and perhaps an offer to take their photograph. Children lay in the dust, women sell their catch on the beaches and talented carpenters fix their traditional dhows using the most rudimentary tools; while almost everybody pitches in to haul the fishing nets laden with sardines up the beach.

There are a few roadside markets in town where you can pick up colourful local cloth to take home, but if you’re souvenir hunting your best bet is the Makonde Co-op on the road from town to Wimbe beach, where men and children use rudimentary lathes and chisels to skillfully carve out statues, bowls and masks from enormous logs of indigenous hardwoods. It’s also just a few hundred metres from the airport, so a good place to stock up on souvenir for friends and family back home just before you leave.

And you’ll want to take home a souvenir or three. With a wonderful lack of the ‘bakkie brigade’ who descend on the resort towns further south, Pemba is the kind of place you’ll want to remember. The buildings may be crumbling, but the town still holds an air of Mozambique in days gone. The people are as friendly as ever, and as long as you don’t stray too far from Hylton’s hotel buffet you’ll never go hungry.

For more info:

  • Visit the "Pemba Beach Hotel & Spa" website for more information and to book
  • Airlink flies direct from Johannesburg to Pemba twice weekly, on Tuesdays and Saturdays. For more information on Pemba and the airline's 25 other destinations, visit http://www.flyairlink.com/ or call 011 961 1700.
  • "Kaskazini Tours" are as close as you’ll get to an information bureau in Pemba, and can assist with booking anything from accommodation and tours to flight. Their website should be your first stop when planning a trip.
  • Wimbe Beach is the most popular strip in town, and offers a range of guesthouses and restaurants to suit all budgets. If you’re staying at Pemba Beach Hotel it’s still worth a visit for an evening drink with the sand between your toes.

1/19/09

Lamentável... Em Moçambique ainda se abatem rinocerontes!


Caça furtiva de rinocerontes.
Autoridades moçambicanas acusadas de complacência e corrupção.
* Implicado veterano da luta armada.
“A forma como a lei é aplicada em Moçambique contribui para o problema” (…)
“Nem um único caçador furtivo preso em Moçambique pelo abate de rinocerontes esteve sujeito aos temos da lei da conservação” (…)
“A legislação moçambicana não consegue lidar com os métodos modernos de caça furtiva, e os senhores da caça furtiva tiram partido disso” – fiscal de caça sul-africano.

Pretoria (Canal de Moçambique) - As autoridades moçambicanas foram acusadas de não tomarem medidas eficazes para pôr cobro ao abate ilegal de rinocerontes, uma espécie animal em perigo de extinção.

A acusação é de um fiscal de caça da província sul-africana de Mpumalanga, citado num artigo da autoria da jornalista Yolandi Groenewald do semanário «Mail & Guardian».

A fonte refere que “o abate ilegal de pelo menos 12 rinocerontes durante a quadra festiva eleva para quase 100 o número de animais caçados furtivamente na África do Sul no último ano”.

O número crescente de rinocerontes abatidos tem como pano de fundo alegações de que “as autoridades moçambicanas não estão a fazer o suficiente para combater conhecidos suspeitos de caça furtiva e em alguns casos poderão estar a apoiar essa actividade”.

O referido fiscal de caça sul-africano seguiu as pegadas de caçadores a actuar na província de Mpumalanga, as quais foram dar ao território moçambicano. Segundo ele, “a forma como a lei é aplicada em Moçambique contribui para o problema”, acrescentando que “nem um único caçador furtivo preso em Moçambique pelo abate de rinocerontes esteve sujeito aos temos da lei da conservação”. Infelizmente, adiantou, “a legislação moçambicana não consegue lidar com os métodos modernos de caça furtiva, e os senhores da caça furtiva tiram partido disso”.

O fiscal de caça salientou que “nenhum dos caçadores furtivos detidos em Moçambique por actividades ilegais no Parque Nacional de Kruger e no Parque Nacional do Sabié na província moçambicana de Gaza, permaneceu na cadeia por mais de duas semanas”. Ele disse que as pessoas nestas condições “incluem transgressores que foram apanhados por duas vezes por práticas idênticas.”

A jornalista Yolandi Groenewald afirma que “os principais suspeitos do abate de rinocerontes são cidadãos moçambicanos ao serviço de sindicatos vietnamitas que operam a partir da África do Sul. Esses sindicatos fornecem armas de grande calibre aos caçadores furtivos, incluindo arcos e flechas por serem armas silenciosas.”

Ainda segundo o mesmo fiscal de caça sul-africano, “um líder comunitário moçambicano, residente no Parque Nacional do Limpopo, havia abatido rinocerontes no Parque Nacional de Kruger em três ocasiões diferentes. As autoridades perseguiram o líder comunitário, tendo penetrado em território moçambicano onde veio a ser preso em cada uma das vezes. Todavia, nunca foi condenado em tribunal, tendo regressado uma quarta vez ao Parque Nacional de Kruger para caçar rinocerontes, encontrando-se agora sob custódia das autoridades sul-africanas”.

Em 2007, foram abatidos cinco rinocerontes na fronteira do Parque Nacional de Kruger com Moçambique. Uma equipa formada por elementos da polícia de guarda fronteira de Moçambique e pessoal dos parques de Kruger e Sabié prendeu dois suspeitos que tinham em sua posse armas de grande calibre, equipamento de rasteio e binóculos. Os suspeitos e as provas foram entregues ao comandante da polícia da Moamba.

O fiscal de caça sul-africano atrás citado informou ainda as autoridades policiais na cidade de Maputo da ocorrência. Não obstante estas diligências, os dois suspeitos foram condenados ao pagamento de uma multa de 1.250 randes e postos em liberdade. Na opinião do fiscal de caça citado no artigo do «Mail & Guardian», “a multa deveria ter sido de pelo menos 1,5 milhões de randes” pois esse é o valor das pontas de rinoceronte encontradas na posse dos malfeitores.

A fonte citada pelo semanário sul-africano disse suspeitar que “a polícia da Moamba é corrupta e presta ajuda a caçadores furtivos”, acrescentando que “num dos casos, obteve-se o nome da pessoa que estava por detrás dos caçadores furtivos, a qual foi detida. Porém, essa pessoa era um veterano da luta armada e com estreitas ligações a políticos e à própria polícia. Num espaço de uma semana, essa pessoa foi posta em liberdade, acreditando-se que não tenha sequer pago nenhuma multa.”

O «Mail & Guardian» tentou obter um comentário das autoridades policiais moçambicanas, mas tudo em vão. Ao contactar Carlos Comé, um alto quadro da polícia moçambicana, este disse apenas que “haviam sido criadas comissões mistas entre a África do Sul e Moçambique com o objectivo de ajudar Moçambique e lidar com os desafios que enfrenta.”

Entretanto, num despacho de Joanesburgo, a Agência de Notícias Francesa, AFP, refere que “11 caçadores furtivos, incluindo três cidadãos chineses, para além de sul-africanos e moçambicanos, que fazem parte de um sindicato, haviam sido detidos sob a acusação de abate de rinocerontes em parques na África do Sul”.

A AFP cita uma fonte da polícia sul-africana como tendo referido que as pontas de rinocerontes são vendidas em mercados asiáticos por um valor que oscila entre os 1.820 e os 2.530 dólares por quilograma. Cada ponta pesa entre 8 e 11 quilos.
- Canal de Moçambique, Redacção / Mail & Guardian / AFP), 2009-01-19, 06:27:00.

Ecos da imprensa lusa - Quando as Verdades de D. Policarpo incomodam...

Recentemente Dom Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, comentou e alertou em entrevista, para as diferenças profundas existentes entre as sociedades católica e muçulmana e os cuidados a ter quando acontecem casamentos de jovens com essas crenças religiosas.

Não hostilizou, simplesmente alertou com franqueza direta e simples para os problemas inevitáveis consequentes nessas uniões matrimoniais quase sempre "contratadas" pelos pais ou familiares onde, inúmeras vezes a submissão, escravidão, humilhação da mulher e até maus-tratos e o poder de vida ou morte são normais e permitidos. Os exemplos de insucesso, funestos, tristes, de quem se aventura nesse tipo de relacionamento mais íntimo, são sobejamente conhecidos, divulgados e até relatados em filmes e literatura especializada. E as raras excepções de algum sucesso acontecem quando os "protagonistas" abandonam a duras penas e contrariando as famílias, em sua vida conjugal, as diferenças culturais, o radicalismo islâmico ou o fervor religioso católico.

Pois, de imediato, se levantaram as habituais "vozes" convenientes dos arautos cínicos e inconformados da demagogia que gosta de "aparecer" e parecer verdade, "malhando" com espalhafato burlesco o lúcido D. Policarpo, como "escudeiros" defensores de um mundo irreal, fictício perante a realidadade e a intolerância violenta, radical a que diariamente assistimos por esse mundo afora, desde a Sérvia, Kosovo até ao Médio-Oriente, Israel, Palestina, etç., sempre com justificativas religiosas de intolerância inaceitáveis e atos que beiram a selvajaria, sempre legitimados, incentivados por lideres fanáticos, desumanos.

Mas, felizmente, nem todas as "vozes" rezam pela mesma cartilha do "politicamente correto" ou dos defensores dos direitos do absurdo que só aparecem quando "a barriga que dói" é a "dos outros"... Li no Expresso de hoje e transcrevo o seguinte texto de autoria de Henrique Monteiro, onde se fala também de Cabo Delgado em Moçambique e do relacionamento tantas vezes amigável entre pessoas de crenças e raças diferentes, com quem tive a felicidade de conviver pacificamente em minha infância/adolescência africanas, amizades essas que conservo até hoje apesar de nossas "diferenças" religiosas:

""Três histórias simples para enquadrar uma mais complicada: Um dia, num país islâmico, há mais de 20 anos, o guia, motorista e tradutor que me acompanhava convidou-me para ir a sua casa. Disse-me mal daquele regime teocrático e - como grande prova de confiança em mim - pediu à mulher que me mostrasse o cabelo, o que ela, timidamente fez, como se na nossa cultura não fosse a coisa mais trivial do mundo ver o cabelo de uma mulher. É que as mulheres daquele país, por lei - lei do Estado, não só lei religiosa -, só podem mostrar o cabelo aos pais, filhos e maridos.

Um dia, em Maputo, um muçulmano meu amigo, oriundo de Cabo Delgado, no Norte do país, insistiu para que jantasse com ele. O meu amigo bebeu álcool (embora muito pouco e mesmo assim sob o olhar reprovador da mulher, que não usava véu).

A conversa foi sobre temas diversos e poderia ter sido a mesma com um casal católico ou judeu.

Há cerca de 20 anos, o Expresso no âmbito de um inquérito que fez a Jorge Sampaio (e no qual colaborei) perguntou-lhe o que faria ele se um dos seus filhos se casasse com um negro. Ele respondeu que jamais se oporia, mas que aproveitaria a oportunidade para chamar a atenção desse filho para as prováveis diferenças culturais que iria encontrar.

Estas três histórias vêm a propósito da quantidade de palavras, a meu ver erradas, que se disseram acerca de uma intervenção do cardeal-patriarca de Lisboa. D. José Policarpo referia-se ao cuidado - "cautela", disse ele - que as jovens portuguesas devem ter ao casar com um muçulmano.

Reparem que ele não disse que elas não se deviam casar, ou que qualquer casamento seria infeliz. Disse apenas que deviam ter cautela. Ou, de outro modo, disse o mesmo que Jorge Sampaio, ou o que diria qualquer pessoa sensata - chamou a atenção para o provável choque cultural.

Encheram-se páginas de mulheres casadas com muçulmanos e que são felizes. Bebo à sua saúde.

Se são felizes, fizeram bem em casar-se com os homens que desejaram. Mas há milhões de páginas negras de vil submissão, humilhação e maus-tratos físicos - que são legais (sublinhe-se esta palavra 300 vezes) - em certos países islâmicos, como a Arábia Saudita, para dar um exemplo.

Cautela, pois, como diz o cardeal-patriarca.

A chicotada, a chapada, a impossibilidade de sair de casa, o repúdio puro e simples pode esperar a mulher incauta.

Isto é desconhecido? Não!

É mentira? Não!

É racista? Não!

É uma afirmação verdadeira, mas daquelas verdades que ninguém quer que se digam.

Estas verdades estragam as construções e engenharias sociais em que se baseia a nossa cultura.

Por isso preferimos raciocinar sobre construções a fazê-lo sobre a realidade para assim construirmos um mundo de fantasia. Na presente edição em banca, pode ler-se uma reportagem sobre alguns casamentos entre muçulmanos e portuguesas.

Como se fica a perceber, a realidade é, por vezes, perversa.
- Henrique Monteiro - Expresso, Lisboa - 19/01/2009.

1/18/09

Caminhos da India... Para os noveleiros(as) desse lado do mar!

Do grupo de relacionamentos "Bar da Tininha - Multiply":

Estreia na Globo-Brasil a nova novela "Caminhos da Índia", escrita por Glória Perez e dirigida por Marcos Schechtman. Muito embora não seja "chegado" em novelas, trago aqui o tema levando em conta tudo que muitos de nós, participantes do bar da Tininha, vivenciamos e absorvemos desta cultura antiga e repleta de personalidade tradicional das Indias na então Porto Amélia hoje Pemba, convivendo com bons amigos e famílias de origem indiana, inclusivé nos bancos escolares, amigos esses que o são até aos dias de hoje, embora espalhados pelo mundo uns, outros ainda por Moçambique, África do Sul e na própria índia. Para eles também este texto. E para que possamos relembrar por comparação, os inúmeros filmes a que assistiamos no cinema da nossa cidade nos idos anos 60/70.

O player do ForEver PEMBA disponibiliza desde já para audição o tema musical principal da novela (novela que acreditamos também será lançada em breve no recanto luso) "Kajra Re" (Alisha Chinai-Bunty Aur Babli)... E que será um sucesso nas rádios certamente e muito em breve. Para o escutar, embora o player funcione automático, é só clicar no titulo colocado com a posição "1" entre outras "novidades"ali incluidas da cada dia mais internacional e de qualidade música indiana.

E segundo dizem, "já corre por cá o boato que Glória Perez, além de irritar diversos outros escritores por estar convocando todos os grandes atores da emissora, inclusive os que ainda estão no elencos de outras novelas, fez uma cópia da novela O Clone escrita por ela em 2001.

Segundo o "Estadão"(Brasil) deste domingo, um amor impossível e um casamento prometido realizado, a princípio, sem amor compõem o enredo inicial da trama de Glória Perez. A mocinha é Maya (Juliana Paes) e seu par é Bahuan (Márcio Garcia). O marido prometido é Raj (Rodrigo Lombardi) que, por fim, se apaixonará por Maya. Faz-se aí o triângulo amoroso da vez.

Qualquer semelhança com O Clone (2001) não é coincidência. Caminho das Índias traz de volta elementos clássicos do universo novelesco de Glória Perez e explora personagens e situações que o público adora por serem bem executados. Com a nova novela, pode-se dizer que a autora realiza uma trilogia que começou em 1995, com Explode Coração. As três novelas apresentam, como trama central, um triângulo amoroso e a impossibilidade de um amor por causa de diferenças culturais.

Isso não significa que Caminho das Índias não seja original. Ela simplesmente carrega a marca registrada da autora - assim como Manoel Carlos sempre leva o Leblon e suas Helenas à casa dos espectadores e Walcyr Carrasco usa, em suas melhores tramas, a comédia pastelão e o núcleo rural marcante."

Sinopse de Caminhos da Índia:

A trama gira em torno de um amor proibido entre os indianos Maya e Bahuan, entre encontros e desencontros aparece Raj e assim se formará um triângulo amoroso.

Personagens:

-> Maya (Juliana Paes) é uma moça alegre que pertence à uma família de comerciantes. Apaixona-se por Bahuan e terá um filho.

-> Bahuan (Márcio Garcia) estudou nos EUA mas pertence a classe baixa da Índia, sendo muito humilhado quando criança. Torna-se sócio da empresa Cadore.

-> Raj (Rodrigo Lombardi) é o sonho dos pais para casar-se com Maya e obter a empresa Cadore.

-> Opash (Tony Ramos) é um indiano orgulhoso, defensor do sistema de castas utilizado na Índia.

-> Komal (Ricardo Tozzi) é irmão de Maya, rapaz muito sério, que ao longo da novela terá que se casar e mudará seu comportamento.

-> Sura (Cléo Pires) será casada com Amitab (Danton Mello) e mãe de Anusha. Ela será a grande rival de Maya.

->Tarso (Bruno Gagliasso) sofre de esquizofrenia.

-> Zeca (Duda Nagle) um garoto rico que arruma briga com todo mundo, mas é sempre defendido por seu pai, o personagem de Antônio Calloni.

-> As personagens de Marjorie Estiano, Letícia Sabatella e Malu Mader serão vilãs.

Elenco:
Lima Duarte, Laura Cardoso, Christiane Torloni, Alexandre Borges, Mara Manzan, Humberto Martins, Ísis Valverde, Caio Blat, Glória Pires, Osmar Prado, Stênio Garcia, José de Abreu, Vera Fischer e Cláudia Jimenez.

A Trilha Sonora e o Resumo dos Capítulos de Caminhos da Índia serão divulgados durante o decorrer da novela.

  • Página Oficial da novela - aqui!

O video do tema musical

(Evite sobreposição de sons "desligando" o player em funcionamento que se localiza no menu deste blogue, lado direito)

Aqui fica portanto a "novidade"... Esperamos a "ficção" contribua mais uma vez para "resguardar" e "amparar" o "povo" perante a "realidade" tantas vezes árdua e injusta do quotidiano.

1/17/09

Ronda pela net - terraÁfrica lança catálogo turístico para Moçambique e Pemba...

:: Brochura: Moçambique ::

A terraÁfrica, marca do operador Sonhando, lançou o catálogo para Moçambique, com propostas para Maputo, Gaza, Inhambame, Sofala, Nampula, Nassa, Cabo Delgado, África do Sul, Swazilândia e de circuitos, válido até 9 de Dezembro.

A brochura inclui excursões opcionais à partida de Maputo para um mínimo de duas pessoas, como Inhaca, Kruger Park, visita à cidade de Maputo, com safari nocturno.

As propostas de estada em Maputo, incluem sugestões “a não perder” na cidade, como visitas a Pionta de Ouro, Praia da Malongane, ou da Macaneta, e alojamento em hotéis 5, 4 e 3-estrelas.

A brochura tem ainda propostas para a Ponta Mamoli, na Província de Maputo, para Inhaca, “um local seguro e tranquilo de vastas áreas de vegetação intocada e águas aveludadas, Inhaca é ponto de paragem para iates, barcos à vela e cruzeiros à procura de uma alternativa tropical nas águas turquesa e cristalinas do Oceano Índico”, e para Xai-Xai, na Província de Gaza, “uma província verdejante, repleta de praias paradisíacas de um vasto areal branco e uma água inesquecível”.

Inhambane, famosa pelo arquipélago de Bazaruto, ou a Beira, “construída em terreno plano abaixo do nível do mar”, onde se aconselham visitas à Casa Portugal, ou a conhecer a Serra Gorongosa, ou o Parque Nacional da Gorongosa, são outros pontos referidos na brochura.

Nampula, com a Ilha de Moçambique, o Lago Niassa, Pemba, Arquipélago das Quirimbas, são outras das sugestões da terraÁfrica.

A África do Sul e propostas para o Kruger Park, Joanesburgo ou Cidade do Cabo é outro dos destinos presente no catálogo, bem como a Swazilândia, com a sua “beleza natural e modernidade”.

A brochura do operador inclui ainda uma proposta de 11 circuitos, de sete e nove noites, com propostas à partida de Maputo, para Kruger Park, Bazaruto, Pemba, Quirimbas, Beira, Gorongosa, Nampula, Inhaca, Vilanculos e Inhambane.
- Presstur, 16-01-2009 (18h29).

1/16/09

CÓLERA & CÓLERA EM PEMBA...

Pemba: Populares do bairro Eduardo Mondlane, onde se localiza a praia do Wimbe, na cidade de Pemba, destruíram sábado passado três tendas que haviam sido montadas para o tratamento de cólera, cuja eclosão foi confirmada a partir de 6 de Janeiro corrente, sob a acusação de que por via aquele centro que a doença é pretensamente distribuída pelas autoridades da Saúde. Pelo menos quatro mulheres estão a ser investigadas pela Procuradoria da República, naquele ponto do país, segundo revelou ao “Notícias” Ahamada Momade, adjunto do responsável daquela zona residencial.

Com efeito, segundo a fonte, uma multidão enfurecida destruiu e deitou fogo às tendas, ao mesmo tempo que eram procurados os responsáveis do bairro e da unidade residencial para ajuste de contas, por terem permitido a instalação do centro de tratamento de cólera na zona.

Amisse Bakili e Ahamada Momade tiveram que se refugiar na terceira esquadra da Polícia, que funciona na praia do Wimbe, para evitar que os manifestantes irados lhes molestassem.

“Era muita gente. Primeiro foi à casa do secretário da unidade aos insultos e depois acabou por queimar o centro. O problema está com as autoridades da justiça. Trata-se de má compreensão das pessoas que acham que a cólera é trazida pela Saúde, infelizmente”, disse Ahamada Momade.

O bairro Eduardo Mondlane, segundo dados a que o “Notícias” teve acesso, é o segundo mais afectado pela doença que se arrasta desde Dezembro passado, mas que foi clínica e laboratorialmente confirmada a partir de 6 de Janeiro em curso, tendo causado três óbitos, com 77 doentes cumulativos e 21 internados até às 7 horas de quarta-feira passada.
O director provincial da Saúde, em Cabo Delgado, Mussa Ibraimo Agy, disse que a tendência de alastramento da doença é crescente, pelo que o Governo provincial reuniu-se na quarta-feira com diferentes sensibilidades político-sociais, religiosas e associativas da cidade de Pemba, sob direcção do secretário permanente, João Ribàué.

No encontro foi constatado que a cólera encontrou condições propícias para a sua propagação, designadamente más condições de saneamento da cidade, bairros, nas famílias, sobretudo naquelas que não possuem latrinas, bem como a continuação do fecalismo a céu aberto, prática quase generalizada nas populações junto à costa marítima.

Os bairros de Cariacó, Eduardo Mondlane, Ingonane, Paquitequete, Muxara e Chibuabuari que até ontem tinham casos de cólera. Entretanto, um responsável do bairro de Chiwiba disse terem recebido cloro para o tratamento dos poços e outras fontes de água, mas que não estão a distribuir com medo de represálias dos populares, à semelhança do que aconteceu no bairro vizinho Eduardo Mondlane.

A Saúde, de acordo com Mussa Ibraimo Agy, está a fazer a parte que lhe compete, controlando a epidemia e evitando ao máximo óbitos de quem entra no centro de tratamento da doença, mas está consciente que sem a colaboração de todos nada pode debelá-la.
Soubemos que já foram montados três pontos de controlo de passageiros na cidade de Pemba, no rio Megaruma, limite entre os distritos de Ancuabe e Chiúre, bem como junto a Lúrio, que divide as províncias de Nampula e Cabo Delgado.

As autoridades municipais, por seu turno, segundo o seu Presidente, Agostinho Ntauale, não têm mãos a medir, tendo já instituído um novo horário de recolha de lixo e destruição dos montes acumulados pelos bairros residenciais.
- Pedro Nacuo, Maputo, Sexta-Feira, 16 de Janeiro de 2009, Notícias.

1/15/09

HÁ 150 ANOS, EM CABO DELGADO, PREVENIA-SE EPIDEMIA DE COLÉRA ASSIM:

Manchete de hoje: Cólera mata em Cabo Delgado - A província de Cabo Delgado registou até ontem três óbitos vítimas da cólera, confirmada semana passada, depois de terem sido notificadas diarreias agudas desde meados de Dezembro passado. Enquanto isso, em Machaze, Manica, foram confirmados como sendo cólera, os casos de diarreias acompanhadas de vómitos, que provocaram nas últimas 24 horas um óbito... ...(leia a matéria na íntegra aqui - "Notícias-Maputo").

E, enquanto a epidemia de cólera tenta avançar por todo o Moçambique, diz-nos o historiador e colaborador deste blogue, Dr. Carlos Lopes Bento(1):

PROBLEMAS DE ONTEM E DE HOJE: - MEIOS DE PREVENÇÃO CONTRA A EPIDEMIA DE CÓLERA VERIFICADA, HÁ 150 ANOS, EM MOÇAMBIQUE.

No momento em que cólera está, novamente, a ameaçar Moçambique, é pertinente recordar o que passou, no longínquo ano de 1859, e algumas das medidas preventivas tomadas pela Junta de Saúde para combater a epidemia que, então, atingiu não só o distrito da Capital de Moçambique, sedeada na Ilha do mesmo nome, e terras firmes fronteiriças, como também o distrito de Cabo Delgado.

Para prevenir a epidemia e atenuar os seus maléficos efeitos, as Autoridades Coloniais de então, através da Junta de Saúde de Moçambique, tornaram públicas, em 5 de Fevereiro de 1859, importantes medidas:

“INSTRUÇÕES POPULARES ACERCA DOS MEIOS DE PREVENIR A COLERA-MORBUS DE O COMEÇAR A TRATAR ANTES DA CHEGADA DO FACULTATIVO.

A Junta de Saúde da Província de Moçambique faz público o seguinte:

Tendo aparecido na Cidade, desde o dia 3 do corrente, alguns casos do Cólera-Morbus epidémico, e precisando esta doença ser tratada, logo no período da invasão, pela sua tendência a uma marcha rapidamente fatal, a todos interessa tomar conhecimento das seguintes instruções.
1.°- O cólera não é doença contagiosa, não se comunica pelo contacto; pode-se, portanto, sem receio dar às pessoas afectadas todos os cuidados, que o seu estado reclama.

2.°- O cólera propaga-se por infecção, e está provado que a acumulação de indivíduos doentes, ou mesmo sãos, em lugares húmidos, estreitos, mal arejados, faltos de asseio, pode favorecer consideravelmente a intensidade da doença, e a sua propagação pela vizinhança.

3.°- As Autoridades competentes têm providenciado e continuam a trabalhar para tornar efectivos o asseio e limpeza das casas, das ruas, e dos quintais, mas os particulares por interesse próprio da sua família e escravos, devem espontaneamente empregar todos os meios para que a limpeza, principalmente, em seus domicílios seja sempre perfeita.

4.°- Os resfriamentos rápidos, as indigestões, o uso de maus alimentos, são causas determinantes do cólera. Às pessoas abastadas é suficiente lembrar-lhes isto, mas, acerca dos escravos, convém que os senhores velem para que eles fiquem de noite agasalhados e cobertos, e não ao ar livre; que se não deixem esfriar descansando de repente ao ar livre quando acabam de trabalhar ou carregar, e estão cobertos de suor; que não comam logo depois de um trabalho fatigante; e finalmente fazer algum sacrifício para que os alimentos sejam de boa qualidade.

5.°- Durante as epidemias do cólera é preciso dar toda a atenção a qualquer pequeno desarranjo das funções do estômago, e dos intestinos.

Qualquer pessoa afectada de dores do estômago, de cólicas, de diarreias, deverá primeiro que tudo, e posto que os sintomas sejam ligeiros, dar muita atenção à natureza dos seus alimentos, diminuir-lhes a quantidade, ou mesmo pôr-se em dieta, conforme a urgência; devera evitar a fadiga, o frio, a humidade, agasalhar-se, cingir o ventre de flanela, e tomar infusões ligeiras de chá da índia, chá de marcela ou de erva cidreira.

Havendo diarreia é de decidida vantagem o uso( para pessoas adultas) de doze a dezasseis gotas de laudano liquido de Sydenham, para dividir em quatro doses ; e tomar durante o dia em agua açucarada. Para crianças o laudano só deve ser aconselhado por Facultativos.

Estes incómodos das vias digestivas são muitas vezes os sintomas precursores do cólera por isso nunca devem ser desprezados, e da prontidão com que a eles se aplicam os meios fáceis e simples de que falámos, resulta o evitar-se com muita probabilidade um ataque formal da doença.

6.°- Se os conselhos, mais higiénicos do que médios, acima indicados não bastam para fazer parar os desarranjos observados; se a diarreia persiste, se a dor aumenta, e principalmente se sobrevêm vómitos, calafrios, resfriamento dos pés, das mãos, e do corpo em geral, ou se os mesmos sintomas se declaram, repentinamente, sem algum sinal precursor, como aqui na Cidade se tem observado em algumas pessoas, então deve fazer-se o seguinte — deitar imediatamente o doente em uma cama quente entre cobertores de lã; colocar tijolos quentes, sacos de areia quente ou botijas de água quente aos seus pés, pôr-lhe panos quentes sobre o estômago e sobre o ventre; fazer fricções nos membros e à espinha dorsal com sacos de areia quente ou com flanela embebida em licores espirituosos, como álcool, aguardente, álcool-canforado, ou aguardente com pimenta; fazer tomar, de meia em meia hora, ele intervalo ou ainda mais vezes, bebidas quentes tónicas e aromáticas, como chá, marcela, calumba; na epidemia actual, em que o resfriamento caminha rapidamente, tem-se tirado proveito do uso de alguns copos de genebra ou aguardente boa, dados em pequenos intervalos, e acompanhados cada um duma pitada de pimenta redonda; outras pessoas têm dado a pimenta em cozimento quente e bem açucarado, alternado com a genebra ou com o chá de calumba. Ao mesmo tempo põem-se sinapismos nas pernas, nos pés e nos braços para reaver o calor, e evitarem-se todas as causas de resfriamento. Havendo diarreia dão-se pequenos clisteres de agua de arroz, de alteia, ou linhaça, aos quais convirá algumas vezes juntar oito ou dez gotas de laudano (nas pessoas adultas); podem repetir-se os clisteres persistindo a diarreia.

Quando aos sintomas precedentes se juntar dores de cabeça, cãibras nos membros, a persistência ou invasão do frio em uma grande extensão do corpo, se a língua se torna fria, os olhos encovados, a pele azulada na face e nas mãos das pessoas brancas, estes indícios de maior gravidade da doença não devem fazer desprezar o emprego dos meios acima indicados, mas pelo contrario devem obrigar a aplicá-los com mais energia e perseverança até à chegada do Facultativo ou à remessa rápida do doente bem agasalhado para o hospital.

As pessoas que derem os primeiros cuidados não devem desanimar mesmo quando eles pareçam não produzir grande. melhora no estado do doente.

O fim que se tem em vista obter é fazer voltar o calor ao doente, restabelecer a circulação e os movimentos do coração; e algumas vezes só no fim de muito tempo se obtém este resultado. É pois indispensável continuar sem interrupção o emprego dos meios indicados, até que se tenha chegado a reproduzir o calor natural, que é o indício de uma reacção em geral favorável.

Estabelecida a reacção, convém animá-la com bebidas aromáticas ligeiras, se ela se conserva em grau moderado, e combater a diarreia por meio dos emolientes e do laudano, e os vómitos, por meio dos aromáticos e dos ácidos. Se a reacção é exagerada, se se desenvolve grande estado febril, são indicados os emolientes, as bichas e alguma sangria. Mas neste caso convém que o doente ou em casa, ou no hospital seja tratado por Facultativo.

Finalmente, a Junta julga do seu dever declarar que, por enquanto, quase todos os casos se tem dado em pessoas mal alimentadas e mal vestidas; mais uma razão para dar atenção aos preceitos higiénicos; e que desde o dia 4 do corrente se preparou no Hospital Militar uma enfermaria isolada, onde têm sido e continuarão a ser recebidos os indigentes e escravos.

Está-se também providenciando para a abertura de um Hospital provisório, que será aberto ao público se o número de doentes aumentar.
Moçambique, 5 de Fevereiro de 1859.
= António Justino de Faria Leal, Presidente interino.
= Joaquim Franscisco Colaço, Vogal.”

Meses mais tarde, o Governador-Geral João Tavares de Almeida, no discurso que fez, em 3 de Outubro de 1859, por ocasião da abertura da Sessão da Junta Geral da Província de Moçambique, ao abordar o problema da Saúde Pública, prestou sobre o assunto, a seguinte informação:

“No mês de Fevereiro deste ano, manifestou-se nesta Cidade o terrível flagelo do Cólera-morbus. Em poucos dias passou ele ao continente; e tanto em uma, como noutra parte, produziu assoladores estragos, atacando e fazendo numerosas vítimas, sem distinção de idade, nem de sexo, principalmente na classe dos escravos.

Houve sérios receios de que a epidemia se propagasse aos outros Distritos, mas felizmente não sucedeu assim. Somente o distrito de Cabo Delgado, sofreu os terríveis efeitos desta moléstia, desde 16 de Fevereiro até 10 de Abril do corrente ano.

Para maior, desgraça o Distrito não tinha facultativo algum, nem desta Cidade se lhe puderam mandar, porque só se soube a notícia da invasão da epidemia quando já tinha acabado.

Segundo as estatísticas já publicadas, o número de falecimentos durante o período da epidemia foi, nesta Cidade e parte do seu Distrito, de 749 pessoas. Consta porém que a mortalidade foi considerável em Sancul, e na Quintangonha, de cujos lugares não foi possível colher suficientes dados, e esclarecimentos. No lbo a mortalidade não foi menor e consta dos mapas remetidos terem falecido 967 pessoas.

Durante estas criticas circunstâncias que, neste Distrito, duraram até meados de Abril, adoptaram-se todas aquelas medidas que estavam ao alcance da administração, não só para debelar a epidemia, como para evitar que ela se propagasse aos outros Distritos, que a Providencia, felizmente, preservou de tão terrível e destruidor flagelo.

Com esta epidemia alguns proprietários sofreram graves perdas, e é de justiça dizer que todos fizeram em favor dos seus escravos aqueles sacrifícios, que as circunstâncias exigiam, e que a caridade ordenava.

Ao cólera sucederam algumas outras moléstias, que costumam ser o cortejo forçado de quase todas as epidemias de qualquer natureza que sejam e o estado da saúde pública ressentiu-se, por algum tempo, deste grande transtorno das condições higiénicas do país. Finalmente, as moléstias ordinárias do clima continuaram a predominar, com um carácter menos grave, mas com certa intensidade mesmo nesta época do ano, em que quase sempre o número dos atacados das febres diminui sensivelmente.”

Segundo dados publicados no Boletim Oficial, morreram, na Cidade de Moçambique, devido à terrível doença, mais de 700 pessoas, assim distribuídas, por etnias: 47 europeus, 11 asiáticos, 12 naturais, 1 chinês, 35 mujojos, 52 pretos livres, 8 pretos libertos e 541 pretos escravos.

Quanto à Vila do Ibo, faleceram, entre 16 de Março e 26 de Abril de 1859, 962 pessoas, assim distribuídas: 126 livres, 21 libertos e 815 escravos. O dia de maior mortalidade foi o dia 20 de Março, com 60 perdas.(2).

Não se apresenta números relativamente a Fevereiro e parte de Março.

Monte de Caparica-Portugal, 15.1.2009,
Carlos Lopes Bento(1).

(1) - Antropólogo e Professor Universitário.
(2) - Todo o conteúdo do presente texto faz parte de um contexto próprio, que deverá não ser esquecido na sua leitura e interpretação. Toda a informação aqui apresentada foi extraída das minhas fichas de leitura e fará parte de um novo trabalho, em vias de conclusão, sobre as Ilhas e demais terras Cabo Delgado.

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